DE OUTROS CARNAVAIS

Todo Carnaval tem seu fim 
CECILIA GIANNETTI
COLUNISTA DA FOLHA

“Adivinha qual o meu estado civil?”. Estamos no fim do baile do Copa. São cinco horas da manhã e a senhora que não conseguia tirar fotos com sua câmera digital conseguiu me achar outra vez. Pelo tom meio trágico que ela usa na pergunta, chuto com segurança: Viúva. “Sim, há quatro anos. Eu e meu marido vínhamos juntos ao Carnaval do Copa. Debutei aqui neste hotel.” Ela é do tempo do verbo debutar, da época em que o baile de gala do Copacabana Palace, criado em 1924, reinava como destino obrigatório para ricas e famosas.

Foi lá que o bustiê de Jayne Mansfield caiu em 1959 e que Jorginho Guinle mostrou o que significava o título de playboy. Hoje, em tempos de silicone, quando qualquer adolescente de bermudão e chinelos pode ganhar a alcunha de playboy, a festa não pode parar.

Apesar das celebridades cada vez mais escassas e das maneiras pouco ortodoxas de alguns como Narcisa Tamborindeguy e Bruno Chateubriand (os atiradores de ovos). A plebe paga R$ 1.000 pelo ingresso; os ricos vão de camarote, a quase R$ 3.000 por cabeça.

O longo para as damas já não é tão obrigatório assim, há vários vestidinhos curtos circulando; os homens insistem nos smokings alugados. Alguns chiquérrimos insistem em comer seus camarões e lagostas sobre a tampa dos pianos do Copa.
Na noite de sábado, em outro hotel, o Glória, acontece o concurso de fantasias, criado por Arnaldo Montel, 78, que, em sua 34ª. edição e com cada vez menos verba, continua lotado.

No espaço que serve de camarim para os 60 concorrentes e seu ajudantes, assisto a complicadas operações de montagem de fantasias; noto agora que as duas moças que subiram comigo no elevador são rapazes.

Entre os desconhecidos mais conhecidos da cidade está Bolinha, um senhor que se veste como o Chacrinha. Era advogado até perceber que sua vocação era imitar o Velho Guerreiro. Veste-se como ele não só aqui: “Viajo muito para participar de bailes, mas gosto mesmo é do concurso do Glória,” diz. “Quando meu nome for chamado, você vai bater palma pra mim?”

Lembro dele quando, no Copa, a mulher com o rosto coberto de purpurina me pede que adivinhe seu estado civil. Os Carnavais mais luxuosos do Rio são também os mais solitários.

Vi o quebra-cabeças formar uma imagem – feia, torta, que de certa forma registra a jornada aos trancos e barrancos até o fim, até o fundo do Rio de Janeiro

Saiba como é andar de carro sem consentimento com um político corrupto e ser exorcizada pelos policiais homens-de-preto dentro de seu batalhão => AQUI, na VERTIGEM.

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“AQUELA POR QUEM A GENTE VIRA HOMEM”

Dizem que antes era cafetão, o sapateiro. Mas quem acredita nessas vozes do passado?

Meu reflexo no acúmulo d’água em um buraco no quintal da casa da infância dos meus avós, num mal-parado carioca. Lá, onde antigamente faltava luz sempre que chovia. Lá, onde também faltava água. Nos dois casos, sem explicações. A mesma coisa, ainda hoje.

O reflexo na água não sou eu, é o cinema na poça que a chuva da noite passada deixou. Lá (aqui), no quintal que exibe cenas passadas há tempos, contadas a mim em versões que diferem umas das outras, dependendo do parente que as relata.

Esta é a minha versão para uma das histórias, cenas passadas:

Lá, a minha avó, muito nova, vestida com o seu perigoso uniforme da Telephone Company of Brazil, nas primeiras décadas do século passado.

Lá, o meu avô, prestes a conhecê-la e ter a vida mudada como não esperava – nem sequer desejava.

Ela trabalha na Telefônica e é o tesouro da família, única filha a ter se interessado por estudar. Também costura direitinho.

Ele (“lendas, lendas… A única verdade é que o uniforme de trabalho de sua avó na Telefônica era, de fato, perigoso. Riso perigoso. O que é mulher perigosa? Toda aquela por quem a gente vira homem…”) trabalha com mulher na noite. Mulher, mulheres, que ganham a rua e trazem de volta para uma casa de paredes sujas a pequena parte delas que resta, a parte graúda que cabe a ele.

O irmão de minha avó, Alípio, é colega de futebol desse homem malvisto, que anda por aí de terno branco e chapéu (isto ele manteria).

Certa noite, enquanto todo o Centro comemorava a chegada da iluminação elétrica às ruas, Alípio encontra o meu avô sozinho e muito trôpego, próximo ao Mangue, o Mangue onde viviam as mulheres, da casa de paredes sujas, coincidentemente clientes do tanque de minha avó, com sua roupas sujas.

Alípio o toma pelo braço e levanta até apoiá-lo num ombro. Como o homem não consegue balbuciar onde mora (um ano antes, o lança-perfume estreara no carnaval do Rio, tendo causado tamanha boa impressão que alguns não viam problema em estender seu uso a outras celebrações, como a da chegada das luzes, confusas, perigosas, as luzes), Alípio o arrasta para a casa na Praça Onze, onde vive com as irmãs, a mãe e também com tias infladas, importadas, autênticas portuguesas.

Alípio desova o bêbado no sofá e toma um gole de cachaça, como forma de se preparar para fazer a defesa da presença do amigo contra eventuais protestos das tias.

Pela manhã, a moça que um dia será minha avó acorda e dá com o sujeito na sala. Corre para Alípio: – Que traste você me põe dentro da própria casa, quem?

A moça e as tias aceitam a explicação de bom samaritano de Alípio. Sempre ajudando, o Alípio.

O traste é convidado a se sentar para tomar café com os irmãos, minha avó, Alípio, minha bisavó Carola, lavadeira portuguesa, as tias contrariadas, os buços trêmulos. Ele come o pão, sorve o café-com-leite, como se sempre fizesse assim naquela casa pequena de família numerosa, como se a sua presença ali não fosse um espanto. Depois, enquanto ajuda a tirar a mesa, agradece pela guarida e pela refeição. Mas completa com o insulto: comenta timidamente com Alípio que gostou muito de minha futura avó.

Sua voz chega aos ouvidos de Carola.

Insulto, sim, não tem argumento, não tem cabimento, um homem desses. A portuguesa o coloca porta afora, sabe bem o que ele faz da vida, lava as roupas do Mangue que ele, por indireto, é quem manda sujar.

Desde então, apesar do desfecho abrupto da visita, ele volta ao portão, à espera, todos os dias, às 17h, quando Carola sai para entregar roupa lavada às casas perto dos trilhos do trem.

A costureira-telefonista simpatiza com essa insistência; o rosto do homem não lhe parece mais o de um traste. Ela não o deixa entrar na casa, conversam pela janela. Ele diz que sente nela o perigo sobre o qual leu em folhetim. Ela não saberia que coisa é essa, não teria lido o mesmo folhetim? Ou livro que repetisse o assunto?

Alípio faz jogo duro: só permite o casamento se o colega de futebol largar o serviço, aquele. Toma para o futuro o caminho da retidão, deixamos pra lá o seu passado. Não se fala mais nisso.

A esta altura a costureira-telefonista já sente o mesmo pelo sujeito, o perigo: nunca mais ser a mesma, exceto pelo riso de desviar desviado. Ele aceita um emprego de sapateiro: nunca mais torna a pegar dinheiro com aquelas do Mangue. Nem de outra praça. Tudo isso vejo numa poça d’água, protoplasmas antigos.

FEIO NA FOTO

POR CECILIA GIANNETTI

Temos dito, em companhia dos fatos, que não estamos ficando bem na foto. “Quem se importa?” Já passamos dessa fase: é preciso se importar. Rápida revisão: anteontem, o novo afrancesamento de um trecho de Copacabana, um retrocesso na democracia das praias cariocas; ontem, nosso racismo mal disfarçado deixando de ser segredo nacional na ‘Forbes’. “Grandes coisas”? Grandes coisas, sim. Pra ficar nesses últimos dias apenas, porque por aí vai e quem acompanha o andar da carruagem sabe que trotamos emburrados.

Uma das perguntas cutucadas aqui na quinta-feira foi justamente como reagiríamos se nossos costumes – e segredos – começassem a ser observados com lentes de aumento por repórteres enviados a cobrir os grandes eventos esportivos que receberemos nos próximos anos. Esses dois eventos, uma Copa do Mundo e uma Olimpíada, não são brincadeira; portanto, eles também não vão brincar na hora de bater o retrato. Vão bater com força. Não são crias do nosso quintal. Que espelho nos emprestarão as matérias de comportamento estrangeiras?, perguntamos ontem. E olha o que chegou de volada: o Reporters Without Borders (Repórteres sem Fronteiras) acaba de lançar um relatório intitulado “Brasil, o país de 30 Berlusconis“, no qual “examina as deficiências da paisagem midiática deste gigante da América do Sul”, com base em averiguações no Rio de Janeiro, São Paulo e Brasília, em novembro 2012.

“A independência editorial dos meios de comunicação, impressos e televisivos, está acima de tudo minada por sua forte dependência financeira da publicidade dos governos estaduais e agências. (…) Este relatório analisa também um outro obstáculo à liberdade de informação – o aumento dos processos judiciais acompanhados por ordens de censura dirigidas a veículos individuais. O caso mais conhecido é do ‘Estado de São Paulo’, alvo de uma ordem de censura por ameaçar os interesses da família do ex-presidente José Sarney.”

Já começou. E foram em cima do tipo de coisa que não dá pra jogar debaixo do tapete, como o governo faz noutras áreas.

“Crimes violentos, corrupção e desigualdade não ficaram no passado do país. A fragilidade da mídia estimula a violência. O recorde de 11 jornalistas assassinados em 2012, cinco deles mortos por efeito direto de seu trabalho, faz do Brasil o quinto país mais mortal do mundo para quem trabalha na mídia.”

O documento examina ainda:

– O “Jornalismo sob o jugo dos coronéis” brasileiros, apontando o monopólio de apenas dez grupos sobre toda a mídia nacional, que “afeta o livre fluxo de informação e notícias e impõe um obstáculo ao pluralismo”;

– A “censura na internet”, citando o caso do Blog do Pannunzio, de Fábio Pannunzio, fechado em setembro passado por conta de quatro processos contra o autor em São Paulo e no Paraná (o repórter cobriu os mesmos casos que mencionou na web na TV Bandeirantes, mas só foi processado como blogueiro, o que ele explica no estudo do Reporters Without Borders tratar-se da forma como atuam os censores, buscando flancos de vulnerabilidade – no caso, a internet; o que nos leva ao próximo ponto);

– O jogo de empurrar-com-a-barriga o projeto de lei do Marco Civil da Internet; segundo o documento, a lei incomoda “empresas e operadoras que têm boas conexões políticas”;

– “A lei de imprensa (de 1967) curiosamente sobreviveu ao retorno da democracia em 1985 e à aprovação, em 1988, da constituição democrática, que torna a maioria das suas disposições obsoletas. Essa ressaca da ditadura continuou a servir como um meio de achacar jornalistas, especialmente alguns “indisciplinados” locais, em nome de ‘proteger a privacidade, honra e imagem de pessoas,’ acima de todos e de políticos que desejavam manter sua influência sobre a mídia.”

– “Dois pesos, duas medidas” no noticiário sobre os processos de Pacificação: “‘Obrigado FIFA!’ É a mensagem irônica de um mural no metrô próximo a uma favela do Rio de Janeiro, a poucos quarteirões do lendário estádio do Maracanã. O mural mostra um jovem carioca (habitante do Rio) com a famosa camisa amarela vestida pela ‘Seleção’, a equipe nacional que conquistou a Copa do Mundo cinco vezes e os brasileiros esperam que vença novamente em casa, em menos de dois anos. As palavras ‘Obrigado FIFA!’ estão pintadas ao lado da imagem de lágrimas descendo dos olhos do menino, porque a favela perdeu quase metade de seus 600 habitantes como parte da ‘limpeza’ preparatória da cidade” para a Copa. “André Fernandes, co-diretor da Agência de Notícias das Favelas (ANF), diz que é mais uma ‘Ocupação’ do que uma ‘Pacificação’. ‘Pacificação pode significar o crime em retirada em certos lugares e favelas, finalmente acessíveis a uma população de fora que nunca tinha posto os pés nesses locais antes’, afirma Fernandes. ‘Mas, para os moradores das favelas, também significa medo de uma polícia cujos métodos mudaram muito pouco, pequenos comércios colocados abaixo às pressas, aluguéis que têm triplicado e, acima de tudo, a contínua falta de projetos de longo prazo na saúde pública e na educação. E o que vai acontecer depois de 2016?'”

– Rádios comunitárias ainda são perseguidas. E mais: “A TV Record, rede com o segundo índice de audiência mais alto do Brasil (depois da TV Globo), é de propriedade de Edir Macedo, bispo da poderosa Igreja Universal do Reino de Deus. ‘Isso viola o princípio de que nenhum serviço público ou fornecedor de uma rede de serviço público pode ser subserviente a um sistema de crenças, e viola a natureza secular do Estado’, afirma o especialista em mídia Eugênio Bucci.”

– O documento fecha com uma lista graúda de recomendações. Leia a íntegra aqui: http://en.rsf.org/IMG/pdf/brazil_report.pdf

Saiu o retrato. Não tem filtro de Instagram que resolva.

O COMEÇO DO FIM DE COPA

Retrocesso em praia privada de Copacabana: todo mundo vestido

POR CECILIA GIANNETTI

Quando Copacabana converteu-se, em apenas meio século, de areal em local de piqueniques à beira-mar, deixando de ser Sacopenapã (“caminho dos socós” em Tupi) – nome ligado ao contrabando de prata -, foi para se tornar legendária atração carioca. Tinha mais ou menos 600 edificações já em 1901. A inauguração do Copacabana Palace ocorreu em 1923 e logo teve até Sarah Bernhardt tomando banho de mar em frente ao hotel. E tudo era aberto.

Copacabana começou pra rico e evoluiu pra todos: em 1960 já contava com mais de 240 mil moradores. Como lembra Carlos Lessa em seu “O Rio de todos os Brasis [Uma reflexão em busca de auto-estima]”, “O glamour de Copacabana dá origem a uma lenda carioca e brasileira. É o lugar mágico que permite combinar o banho de mar desinibido, o estar ao sol ou praticar jogos na areia, com a sofisticação das roupas a rigor dos night-clubs ou com o jantar à luz de velas em restaurante – obviamente para quem tem altas rendas.”

“Para o homem comum significa praia aberta e sem discriminação social (…) A colônia de pesca convive com o Clube Marimbás.”

Segundo Lessa, tratava-se de um avanço e de uma vitória: a cidade deixara de ser “A cópia tropicalizada de Paris.”

Corta para 2013 – damos um passo pra trás e afrancesamos de novo o que era carioca e bom. E não adianta espernear. Até porque podem dizer que é inveja de pobre. Podem tudo. Podem até construir praia fechada com camarotes de luxo que chegam a custar até R$ 10 mil em Área de Proteção Ambiental.

E construíram mesmo. Ali na área do Forte de Copacabana.

Espumantes e… muita roupa

Agora, no fim da praia e do bairro de Copa, funciona neste verão um clube VIP, com DJs importados, brunch, sushibar, hidromassagem e outros luxos que as areias da praia comum não oferecem. Mas as areias da praia comum também não cobram os olhos da cara para se estar nelas, feito toda gente sempre fez, bebendo cerveja de latinha, caipirinha ou água de coco da barraca que também aluga a preço módico as cadeiras de praia e serve seus fregueses onde estiverem refestelados – sem qualquer custo adicional. Isto já é atendimento cinco estrelas.

Não é por dor-de-cotovelo que comentamos, não. Vejam: a própria Associação de Moradores de Copacabana (Amacopa) esperneou. Desde o anúncio da criação do beach club, em fins do ano passado, mostrou-se contra e correu atrás de uma audiência com o comando do Forte para apresentar as queixas dos moradores. A Amacopa quis saber: se os moradores, que já sacam do bolso todo aquele giga-IPTU pelo privilégio de viver no bairro, nunca puderam usufruir da Área, quem seria mais Very Important People do que eles a ponto de poder? Pois há quem possa, agora podem, os mais VIPs dos VIPs. De nada adiantou a Amacopa espernear.

Em novembro de 2012 a Secretaria Especial de Ordem Pública (Seop) ainda não havia concedido o alvará que autorizaria o clube. Mas, ao que parece, deu-se um jeitinho, porque lá está o Aqueloo (é o nome da praia privativa), anunciando-se Saint Tropez dos trópicos: o empresário Daniel Barcinski, um dos responsáveis pelo clube, deixará de presente algumas melhorias em obras no local, paga ao Exército uns R$ 300 mil pelo aluguel e ponto final.

Vocês estão ou não estão na praia? Tirem. A. Roupa.

Sempre houve diferença entre as contas bancárias de quem frequenta Copacabana, mas também sempre a praia foi aberta e livre. Claro que boa música, excelentes chefs de cozinha, massagistas sob tendas e espumante no gelo ao lado de uma espreguiçadeira são excelentes refinamentos que poucos recusariam, dada a oportunidade de aproveita-los sob o sol.

Mas aqueles que espernearam e esperneiam ainda contra a instalação de um beach club fechado em Copacabana não querem exatamente entrar no clube – demonstram a vontade mais forte de manter o caráter democrático fundamental do bairro e de sua orla. Veem no clube o começo do fim de Copa.

ILHADOS

Montagem que é sucesso no Facebook brinca com a realidade dos alagamentos no Rio de Janeiro

POR CECILIA GIANNETTI

Estou presa em casa. Tenho uma consulta médica às 17h no Leblon mas, ainda que até lá a chuva que cai intermitente há dias dê outra estiada e a água que alaga a minha rua e as de vários bairros pelo caminho milagrosamente escoe por bueiros entupidos, não há garantia de que eu possa retornar para o meu apartamento vindo da consulta se cair outro pé d’água.

As estiadas são traiçoeiras. Porque fazem com que a gente acredite que pode sair à rua. Os cidadãos não podem sair a rua, não com a certeza de que poderão voltar para casa sem um colete salva-vidas e risco de leptospirose.

Ricos fôssemos, recorreríamos aos abrigos emergenciais fáceis de montar criados pela Carter Williamson, olhem só que beleza:

Na quinta-feira, 17, quis muito ver um show da banda carioca Letuce na Lagoa à noite. E, ousada, fui. Mas meu destino depois do show teve de ser um quarto suspeito numa transversal do Flamengo, ruazinha onde a água suja batia apenas pouco acima dos tornozelos. Se eu tentasse avançar até a rua Silveira Martins para dormir na minha própria cama, a água passaria a bater nos quadris, com ondas elevando o nível toda vez que um caminhão – sem outra alternativa de trajeto àquela altura – tentasse passar pelo rio que se formava desde o Largo do Machado. Carros e ônibus não passavam mais. Houve outras barreiras a enfrentar até que eu pudesse encontrar onde dormir, ainda que fora de casa: os hotéis das ruas onde se podia patinhar, em vez de nadar, não tinham mais vagas. Cheios de turistas de fora e de turistas como eu, turistas do próprio bairro, obrigados a pagar pernoite tão perto de casa. Foi quando encontrei uma portinha estreita com lâmpadas (nem bem) natalinas vermelhas penduradas sobre o batente. Tinha vaga no motel com aromas indescritíveis entranhados nas paredes e móveis. Usei o plástico que envolvia as duas toalhas e uma colcha para forrar o trecho de cama onde gastei a insônia até a manhã seguinte, quando o caminho nas calçadas lá fora dava mais lama grossa do que riacho. Chegando em casa, sandálias arruinadas, o ritual: água, sabão e muito álcool gel.

Na capital fluminense basta meia hora, às vezes apenas vinte minutos de uma pancada de água para paralisar completamente diversos trechos importantes da Zona Sul, da Zona Norte e do Centro. Catete oferece bons picos de surfe bem em frente ao Museu da República; Glória também se torna impraticável para quem não tem prancha ou bote – este, bairro que depois do Centro do Rio possui o segundo maior acervo de monumentos tombados pelo Patrimônio Histórico (apesar de alguns deles terem sido de lá retirados ou misteriosamente desaparecido, como o busto do escritor João do Rio, de autoria de Modestino Kanto, de que não se sabe o paradeiro há anos).

Nesses dias em que moradores de diversas localidades do Rio pensam duas vezes antes de sair de casa, sem saber se vão poder voltar por conta de alagamentos, houve maremoto também em partes de Botafogo, Laranjeiras e Copacabana – neste bairro, na Bulhões de Carvalho a água encobriu os pneus dos carros e a Nossa Senhora de Copacabana ganhou bolsão de água próximo à Santa Clara. Na Lapa, a água chegou a um metro de altura e invadiu os bares para dar prejuízo. Nas comunidades do Vidigal e Chácara do Céu, no Leblon, as sirenes foram acionadas e os moradores, orientados pela Defesa Civil a se dirigirem aos pontos de apoio das duas comunidades.

Na manhã desta terça, 22, o Flamengo foi fortemente atingido com direito à bolsão d’água à altura da rua do Russel, interditando o Aterro. Longe dali, o alagamento da linha férrea entre Triagem e Manguinhos, na Zona Norte, interrompeu a circulação de trens no ramal Saracuruna, em Duque de Caxias, na Baixada Fluminense. Tijuca e Maracanã também foram afetados, e 13 rios da Baixada ficaram em estágio de atenção.

Será que a natureza e a geografia do Rio de Janeiro são mesmo as únicas causas de tantos alagamentos, constantes, que nos dizem inevitáveis? São mesmo inevitáveis?

Já cansei de citar o Lima Barreto em crônica de 1915 reclamando desses mesmos problemas. Como é que de lá pra cá não houve um sujeito eleito capaz de resolver uma coisinha ou outra relacionada a eles?

Não temos chegando por aí uma dupla de eventos esportivos importantes que certamente sofrerão com esse tipo de desleixo?

Vamos nos habituar a ficar presos em casa como se lá fora houvesse um Katrina? Será que não votamos nos últimos meses – em quem terá sido? – em alguém sobre quem alguma responsabilidade referente a esses alagamentos constantes possa recair?

Presa em casa por causa das chuvas, matuto essas perguntas. Não há quem as responda.

As não-notícias da hora


POR CECILIA GIANNETTI

Hoje trago algumas não-notícias aqui elencadas apenas para registrar o quanto são ordinárias e corriqueiras no nosso dia-a-dia. Uma não-notícia é o tipo de fato que, independentemente de ser destacado por jornais, revistas e portais da internet, não provoca mais reação nos leitores, por representar obviedades ululantes a respeito de nossas deficiências e maus costumes ou a mera repetição de desgraças.

Problemas, todo canto do mundo tem os seus. O que não é motivo nem argumento para que ignoremos os nossos. Oh, but indeed we do.

Não-notícia #1: Homem que se autodenomina humorista perde a linha em comentários estapafúrdios, confundindo-os com comédia. Olha, não sou pró-PC, nunca fui. Mas sei, por exemplo, que “Saturday Night Live” não é a versão norte-americana do “Zorra Total”. Dito isto, para demonstrar a reincidência do problema específico tratado neste parágrafo, não precisamos recorrer a mais do que esta frase, lembrando o caso em que a MTV foi condenada a pagar R$ 40 mil para pais ofendidos com a veiculação de um esquete chamado “Casa dos Autistas” em 2011. Bom, o humor deve ter limites? Há limites para o humor que se estabelecem por si próprios, não por terceiros, e é muito fácil verificar tais limites. “Não é humor quando simplesmente não é engraçado” poderia ser um bom termômetro, mas não abrange a agressividade de frases que absolutamente não fazem rir. A treta entre Danilo Gentili e o deputado Jean Wyllys ontem na web não foi a primeira nem a segunda em que um humorista deixou de parecer engraçado para imprimir apenas boçalidade. Desta vez, sem argumentos e esgotado de piadas, partiu para a agressão pessoal. O que também não é lá muito incomum na web em geral. Um amigo costuma dizer destas situações: “Internet”. Apenas isto, a palavra “Internet”. Talvez ele tenha razão.

Não-notícia #2: Homem é empurrado com truculência para dentro de composição do Metrô Rio por agentes do próprio metrô. Não há nada de inédito nisso. Se hoje eles empurram com violência para dentro do carro, um dia também já puxaram porta afora com a mesma atitude, conforme se comprovou em 2011, quando um idoso de 79 anos entrou por engano na composição do metrô destinada exclusivamente a mulheres. Por causa do seu engano, ele e seus 79 anos foram arrastados feito um boneco para fora do carro pelos agentes do Metrô Rio. Também em 2011 – que ano brilhante para a Agetransp – um agente da estação Botafogo agrediu fisicamente um passageiro porque o mesmo teria tentado pular a roleta. Errado pular a roleta, se é que foi mesmo o caso; mais errado descer o braço no usuário do metrô. Podemos lembrar ainda o caso ocorrido em 2009 com um repórter de jornal paulista: no último vagão do metrô da Glória em direção à estação Cantagalo (Copacabana, Zona Sul), seguranças à paisana isolaram a comitiva do Comitê Olímpico Internacional (COI) orientando – com a delicadeza que lhes é peculiar – os passageiros comuns a “dispersar”. Barrado como todo o povo, o repórter obedeceu e seguiu em outro vagão – porém, muito mal acompanhado por seguranças à paisana com cara e gestos de poucos amigos. Na hora de descer, os homens se identificaram como policiais mas não mostraram documentos. Mais: o empurraram até um banheiro da estação, onde lhe aplicaram golpes, torcendo seu braço e ameaçando fazer pior. “O procedimento é este”, um deles teria dito. Poderíamos continuar com mais anedotas de violência no metrô carioca, não faltam episódios similares, mas seria em vão: é característica da não-notícia não chocar. Na verdade, ela deixa de existir como fumaça no ar depois de se repetir tantas vezes.

Não-notícia #3: Madrugadas de mortes violentas em São Paulo. Há uma semana, houve a chacina com seis mortos em Campo Limpo, Zona Sul de São Paulo. Ontem, Na terceira noite consecutiva de assassinatos na Grande São Paulo, mais 11 foram mortos e seis baleados, somando-se a 18 homicídios ocorridos em apenas 24h na região. Cadê a novidade? Não há. Em novembro de 2012 31 pessoas foram mortas na região metropolitana de São Paulo durante apenas um fim de semana. A gravidade dos fatos não rompe mais a membrana da repetição.

Não-notícia #4: Esta foi manchete ontem: de acordo com cálculos do governo do estado, 20% das obras do Maracanã ainda precisam ser finalizadas – a cinco meses da Copa das Confederações. Mas eles garantem que dá pé: através de nota do Comitê Organizador da Copa do Mundo à imprensa, ficamos sabendo que a mudança da data para a conclusão das obras de dezembro para abril configura um prazo totalmente viável. A mudança não nos ajuda em nada a perder o estigma de “mambembes”. Há cerca de um ano e dois meses, a Fifa já reclamava do atraso nas obras das cidades sedes: naquele começo de 2012 o secretário geral da Fifa, Jérôme Valcke, já alfinetava, dizendo que “As coisas não estão funcionando no Brasil. Muitas coisas estão atrasadas. Acho que a prioridade do Brasil é ganhar o Mundial. Não creio que seja organizar o Mundial”. E, segundo noticiário de 2 de janeiro de 2013, várias obras de mobilidade urbana ficarão prontas em dezembro – seis meses após a Copa das Confederações, que ocorrerá de 15 a 30 de junho deste ano.

Não-notícia #5: Pregador da internação compulsória, o deputado federal Rodrigo Bethlem (PMDB) culpou abertamente o coletivo DAR – Desentorpecendo a Razão pela morte do menino de 10 anos atropelado ontem durante uma operação contra o crack na Avenida Brasil, Zona Norte do Rio. Ele tuitou: “lugar de criança não eh na rua, muito menos em cracolandia. Por isso defendo cada dia mais a internação compulsória”. Criticado em sua posição pelo DAR e outros, acusou: “Ponho a morte na conta do @coletivodar, que defende tratar pessoas que infelizmente viraram zumbis na rua”. Desta vez não olhamos para trás para buscar um padrão, mas para a frente, temendo que se abra um precedente cruel a partir da acusação de Bethlem, contrário ao tratamento: se não é para tratar o usuário, então é para matá-lo?

Lendo os fatos desta forma, não evito pensar em nós como os próprios loucos da famosa citação de Albert Einstein, a que diz que loucura é fazer repetidamente as mesmas coisas, esperando resultados diferentes a cada vez.

Vermelho na escadaria

POR CECILIA GIANNETTI

Hoje perdemos um bom carioca adotivo. Na manhã desta quinta-feira, 10, o Rio acordou sem Jorge Selarón, 65 anos, e com um mistério envolvendo sua morte. O corpo do artista plástico e pintor autodidata chileno, radicado no Brasil desde 1983, foi encontrado na escadaria da Lapa que, transformada em arte e ponto turístico por ele mesmo, era conhecida pelo seu nome. Popular e querido entre frequentadores e moradores da área, é trágico pensar no artista amanhecendo inanimado sobre a sua obra, na qual o vermelho – preferência que era marca registrada de Selarón – tem destaque maior do que as demais cores.

Não há policiamento em torno da escadaria, quem vive no Rio e já andou pela Lapa sabe disso. Mesmo nas noitadas com movimento de turistas, deixam-se se encostar por ali vários traficantes e filhotes da espécie, vapores. A badalada obra de arte recebe a visita de turistas todos os dias, mas é abandonada pela lei.

Não houve quem zelasse por Selarón. Mas não se pode contar apenas com a hipótese de homicídio: Selarón estava deprimido desde que começara a sofrer ameaças de um ex-colaborador, em novembro de 2012. O suspeito seria irmão de um detento, que cumpre pena por roubo e tráfico de drogas. Amigos pensam na possibilidade de ele ter tirado a própria vida.

Mas valem uns alertas aqui. Um jornal paulista publicou que “Nos últimos meses, o local também se tornou ponto de tráfico de drogas como maconha e cocaína (…)”. Errado. Não só nos últimos meses, e não acabou de se tornar ponto de venda de drogas: há anos é assim.

Selarón costumava contar que havia passado por mais de 50 países até se encantar pelo Rio e aqui se estabelecer. Em 1994, por ocasião da Copa do Mundo, começou a colorir a escadaria que liga a Lapa ao bairro de Santa Teresa, utilizando pedaços de mais de dois mil tipos de azulejos provenientes de várias partes do globo, que recebia como presente de turistas estrangeiros e brasileiros, além dos que buscava em demolições, por conta própria.

Não foi um trabalho fácil, tampouco barato: para transformar os 215 degraus e 125 metros da escada em obra de arte, precisou vender cerca de 25 mil telas.

Era uma obra em progresso, arte viva: Selarón estava sempre adicionando e trocando peças do conjunto, que se transformou em cenário para comerciais, videoclipes e programas de televisão, como um especial do canal National Geographic. Tudo movido à paixão de Selarón, sem quaisquer incentivo$ do governo.

Houve reconhecimento. A escadaria foi tombada em 2005 e Selarón recebeu o título de Cidadão Honorário do Rio de Janeiro.

Mas não. Não houve quem protegesse Selarón.

Fiquem à vontade, ex-párias rabiscados

POR CECILIA GIANNETTI

Eu me lembro bem que, ainda no início dos anos 2000, caminhar na rua com uma amiga minha que vinha de São Paulo visitar era  um suplício. Quando nos avistavam, era comum que passageiros de ônibus colocassem para fora a cabeça pelas janelas e gritassem insultos. Minha amiga, como eu, é escritora e, como eu, à época tinha uma banda (a dela, de rock e blues; a minha, de música brasileira). Ela tinha os dois braços cobertos de tatuagens, pretas e também coloridas, e também parte do peito. Eu tinha apenas três tatuagens, número a que me atenho até hoje. Era o suficiente para ser hostilizada também em restaurantes, onde costumavam me esconder na mesa mais próxima ao banheiro. Realmente adoraria que há 10 anos o meu celular tivesse uma câmera de filmar: eu poderia agora mostrar para vocês algumas sequências de situações ridículas pelas quais tive que passar somente por exibir tinta no corpo.

Naquela época nem eu nem a minha amiga podíamos imaginar que um dia o Rio de Janeiro se tornaria uma das cidades em que há mais mulheres tatuadas no país. O Rio, afinal, adora botar banca de moderninho. Mas, por algum motivo que meu time de cientistas ainda não conseguiu decifrar, é um belo celeiro de conservadores de toda espécie – atesto e confiem. É uma cidadezinha do interior, uma freirinha quando quer ser. E naqueles tempos, era mais ainda.

A prática da ornamentação da pele é um hábito tão antigo quanto a civilização, como podemos ler no trabalho bacana “Tatuagem: perfil e discurso de pessoas com inscrição de marcas no corpo”: até múmias do período entre 2000 e 4000 a.C. tinham lá suas tattoos.

Segundo o paper, “Não se sabe ao certo sua origem. Alguns autores acreditam que ela possa ter surgido em várias partes do globo, de forma independente; outros creem que ela tenha sido difundida pelo mundo com as grandes navegações dos países europeus.” Os autores do texto também afirmam que:

“Sua utilização por grupos específicos como prisioneiros e pacientes psiquiátricos sempre a manteve associada a um caráter de estigma”.

Você pode ler a pesquisa aqui.

Em relação à aceitação de corpos tatuados, especialmente os de mulheres, a atitude em minha cidade mudou notadamente. Talvez ainda permaneça – apenas calado, contido, reprimido – um certo nojinho preconceituoso e machista especialmente contra as moças que optam pela “pele decorada”. Mas agora é meio ponto pacífico que não tem volta, como aquilo que você deixa a agulha riscar no seu corpo (esqueça o laser: é caro e não funciona): é POPULAR. Po-pu-lar. Não é só uma pessoa considerada exótica (deixa eu contar pra vocês: escritores, com ou sem tatuagens, são considerados exóticos; vide Kafka e mais centenas de exemplos biográficos perfeitamente comprováveis, além dos filmes: “A Janela Secreta”, com Johnny Depp, e, principalmente, “Ruby Sparks – A namorada perfeita”) escritora/cantora de São Paulo em visita à cidade que vai exibi-las: da patricinha à gata da laje, você encontrará tattoos em todas as classes e em pessoas que exercem as mais diferentes atividades.

Não tenho dados de pesquisa em mãos sobre o número de cariocas, ou brasileiros, em mãos para “provar” isto, mas o convívio me mostra que finalmente ultrapassamos o número de pessoas que gritavam absurdos na rua para quem tinha um “visual diferente” (o termo é tão ridículo que me dá aquelas bolinhas de arrepio nos braços só de escreve-lo). E acredito que músicos e a internet tiveram muito a ver com essa mudança.

Pe Lanza, da “banda” Restart

(Uma curiosidade: nos Estados Unidos o número de mulheres tatuadas já é maior do que o de homens tatuados.)

É claro que aqui ainda é preciso esconde-las às vezes. Em geral, em situações relacionadas à trabalho, como entrevistas de emprego. Mas desde que não gritem mais impropérios pelas janelas dos ônibus…