resenhas

Lugares que não conheço, pessoas que nunca vi (Ediouro/Agir), finalista do Prêmio São Paulo de Literatura em 2008: “Primeiro romance da jornalista e escritora Cecilia Giannetti. De estilo incomum, ácido e entrecortado, este livro traz o amadurecimento da autora. Um exercício de vanguarda e inteligência.”

Por Beatriz Resende, Fórum virtual de Literatura e Teatro (FAPERJ) 

Uma nova escritora e as (im)possibilidades do romance.

Se há uma recorrência temática na literatura brasileira contemporânea (como no cinema e em certa parte da música popular) esta é a violência das grandes cidades. E não poderia ser diferente. Diria mais, na América Latina, o tema divide hoje espaço com a narrativa cinematográfica e literária da pós-ditadura. Na verdade, uma questão tem muito a ver com a outra se falamos de nossas sociedades. Se na arte que fala do luto que se seguiu ao arbítrio das ditaduras militares há, apesar de toda a dor, uma sensação de esperança, pois a democracia foi finalmente vencedora, nesta arte urbana contemporânea, entre nós, qualquer alento é afastado. Não há catarse, não há consolo, não há utopia.

Em ensaio especialmente agudo sobre a literatura da violência, “Medo e ódio na polis: o lado negro da globalização”, Jean Franco chama a estes textos contemporâneos de “pós-apocalíticos”, obras que, segundo a crítica, falam “de situações onde termos como cidadania, hegemonia e direitos humanos são esvaziados de sentido”. Tais narrativas da violência urbana, construídas pela própria voz das periferias – espaço marcado pela ausência do estado e vítimas maiores da vigência da lei do “olho por olho”- ou por intérpretes de uma classe média que vê a ordem, mesmo a precária, de seu mundo desaparecer, expressam-se, na maior parte dos casos, pela retomada de uma estética realista. A acusação de retrocesso no processo criador tem sido queixa freqüente de parte da crítica que rejeita a dominância do uso do realismo. Parece-me, porém, que o uso do realismo é quase inevitável, como foi também durante os anos 70/80 quando a literatura tomou lugar do jornalismo cerceado. De qualquer forma, o realismo, mesmo excessivo, quando mostra o que não se quer ver, toma formas de fantástico.

Inevitável ou não, é a constatação deste realismo dominante que aponta para algo de peculiar no primeiro romance de Cecilia Giannetti, Lugares que não conheço, pessoas que nunca vi. Ainda uma vez, o tema do livro é a violência que escapa ao controle; as mortes e ataques inesperados, gratuitos ou quase; a fragilidade da vida diante das balas nossas de cada dia. Tudo isso, porém, se faz diferente no livro diante da recusa do realismo, do denotativo, do documental. A violência que cerca os personagens da cidade de Cecilia Giannetti ataca usando um silenciador. É o universo da paranóia urbana, do temor que passa a não depender mais da situação real a que se é submetido, da ameaça que passa a ter vida própria, independente da arma que podem nos apontar ou não. O desconhecimento dos rostos, os desaparecimentos num mundo onde todos podem se perder, constroem uma narrativa da invisibilidade que, por paradoxal que possa parecer, tornam todas as ameaças mais visíveis, mais presentes. Não há fotos, não testemunhas. “No dia em que as coisas param de acontecer”, Cristina, apresentadora de TV, presencia mais uma cena de violência. Seu desaparecimento será uma conseqüência quase lógica, se houvesse alguma lógica em tudo isso. Na cidade onde, segundo a narradora, o asfalto escancara os dentes para o lixo dos sacos pretos, Doca, o garoto baleado, canta seu rapzinho com as mão furadas pelos tiros e quer virar Erê. O que está em questão já não é mais a banalidade da vida, facilmente perdida por qualquer razão. É da banalidade da morte que passa a se tratar na cidade onde a morte de hoje faz esquecer rapidamente a de ontem. Diante da impossibilidade da vida, é pela validade da morte que resta lutar. Cruzando estes espaços, Baiano,um dos “moleques de mais de 25 anos”, é a droga sem alternativa cuja abstinência enlouquece a mulher que desapareceu, a mulher de que falam na TV. Na relação que a narradora estabelece com o moleque que tem mãos de homem, a construção dos personagens dá um salto e supera as dificuldades freqüentes em texto dos romancistas iniciantes. A camisa, a temperatura de Baiano perturbam a mulher: “da primeira vez que toquei com as mão os ossos dos quadris dele, empurrava aberta uma janela e o sol me lambia por dentro”.

Não é apenas na ousadia em atravessar a realidade sem realismo que está originalidade da obra de Cecília Giannetti. Aqui, é a forma romance que é posta em debate pela forma mesma do livro. O texto é interrompido por imagens que dialogam ou agridem as palavras nas ilustrações geniais de Christiano Menezes. A novidade não está propriamente na fragmentação da narrativa, porque isto já não é novidade. Está antes numa espécie de autonomia de cada parte, num preenchimento de expectativa a cada episódio. Como na cidade deste nosso inadiável e terrível presente, cada momento, cada vida se passa lado a lado, numa concomitância de espaços e pessoas sem continuidade, sem contato, entremeados por vazios preenchidos pela paranóia e pelo medo. Vazios onde nos perdemos até mesmo de nós mesmos.

No ensaio citado, Jean Franco estuda outra obra a ser destacada, o romance do colombiano Fernando Vallejo La virgen de os sicários, e mostra que até a identidade do sicário (matador) desaparece. Cabe citar Vallejo: “Otra instituición pues nostra que se nos va. En el naufragio de Colombia, en esta pérdida de nuestra identidade ya no nos va quedando nada”. O “método de desaparecimento” de Lugares que não conheço, pessoas que nunca vi segue no mesmo caminho, atravessando a cidade do presente onde “A identidade que carrego na carteira e a que julgo ter construído numa trama de vícios, gostos mais ou menos, paixões, pessoas, lugares – seria uma identidade inteiramente falsa”. Não resta dúvida: estamos diante de uma narradora de nosso tempo, de nossa cidade, pronta para a guerra.

Lugares que não conheço, pessoas que nunca vi, de Cecilia Giannetti.

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ESFINGE VANGUARDISTA

Cecilia Giannetti está disposta a todas as batalhas, tanto no terreno formal quanto na crítica social

Lúcia Bettencourt • Rio de Janeiro – RJ

Lugares que não conheço, pessoas que nunca vi
Cecilia Giannetti
Agir
229 págs.

“Primeiro romance da jornalista e escritora Cecilia Giannetti. De estilo incomum, ácido e entrecortado, este livro traz o amadurecimento literário de uma autora considerada uma das mais originais e atuantes do cenário contemporâneo. Um prazeroso exercício de vanguarda e inteligência, de extremo bom gosto.” Assim começa a apreciação sobre Lugares que não conheço, pessoas que nunca vi assinada por Mariane Morisawa na revista IstoÉ. “Incomum”, “ácido”, “entrecortado”, “vanguarda”, “inteligência”, “extremo bom gosto” demonstram bem o entusiasmo da autora da crítica com relação à autora da ficção. Morisawa continua seus elogios: fala que Cecilia “escreve com urgência”; diz encontrar “imagens e frases poderosas” , o que seria “um alento em meio a tantos romances simplórios”. Termina afirmando que “Cecilia Giannetti é uma autora que merece atenção”.

Claro que, com um arauto desses, o leitor chega ao livro com uma atitude de certo respeito, esperando encontrar páginas, no mínimo, clássicas. No entanto, Lugares… recusa-se a capitular facilmente. O livro é duro, hermético, de leitura difícil. Exige perseverança e persistência. Voltamos, então, às qualificações de Morisawa: – “incomum” -, sim, certamente incomum, bem como “entrecortado”. A história de uma jornalista que presencia uma cena de violência e entra numa espécie de surto, vem aos jatos, desconexa como delírios. Lembramos, então, que a crítica havia falado em vanguarda, e, certamente, há muito de vanguardista neste livro – na acepção mais bélica, o texto vem disposto a todas as batalhas, tanto no terreno formal quanto na crítica social de uma “cidade partida”. E, já que se fala em cidade partida, seu único espelho possível é um que também esteja partido, e isso já se anuncia na capa do livro. O excelente projeto gráfico de Christiano Menezes traduz não apenas os pesadelos dos personagens, como oferece a imagem ideal para a obra em sua capa: o espelho de nossa era, a TV, expondo nossas vísceras enquanto nossa cegueira aparece na boneca descomposta e um resquício de fé espreita ao fundo, tudo isso num ambiente descuidado, de velhos ladrilhos evocadores de hospitais, banheiros, ou copas mal mantidas.

As fraturas do texto, suas desigualdades, os vaivéns entre histórias e delitos se repartem em trinta e um capítulos de tamanhos diferentes, podendo conter apenas uma frase, como Registro, que abre o livro com uma sentença enigmática: “Um dia as coisas pararam de acontecer”. Se pararam, o que vai ser narrado não está acontecendo, seriam lembranças ou alucinações. E é por esse caminho que precisamos enveredar, nos flashes de memória de festas chatíssimas, pedaços de telereportagens, imagens de pessoas sem cabeça, fantasmas insistentes, considerações sobre o desaparecimento de amigos, sobre a opressão da fé, imaginações disfarçadas, sobre o tédio e a insipidez da vida, ou uma poderosa declaração de amor se destacando quase intacta no meio de ruínas, até que a imagem se congela em Cristina. Os cinco capítulos finais chamam-se Cristina, e falam, talvez, da cura da jornalista, ou de seu repúdio total ao mundo como se passa na TV. Cristina se livrando dos fantasmas; Cristina indiferente ao que vê na TV, mesmo quando vê a si mesma na telinha mágica; Cristina juntando os pedaços de imagens para descrever depois; Cristina descobrindo o presente, o vazio, o fugaz: “A felicidade é assim: aconteceu”. Cristina desaparece, também. O último capítulo chama-se Sobem créditos e consiste numa única frase: “Boa noite”. – despede-se.

Neste romance, que Cecilia tão bem parece descrever dentro do próprio texto (”[…] peças que contam a história de uma civilização. […] meu museu. A construção, no entanto, resulta rapeada, sampleada, em cacos – sua confusão mesma, o começo de outra civilização.”), estão expressas as angústias de uma geração, numa tentativa de controlar o vazio e o caos percebido. Escrever sobre isso é uma forma de exorcismo, talvez tão eficaz quanto a receita, citada no livro, retirada de Ovídio, outro escritor, mas das eras romanas, que, apesar de distantes no tempo, parecem tão conturbadas quanto nossos dias cariocas. Assim, é Cecilia quem diz que: “se nomeamos o fenômeno, dominamos alguma porção da loucura”. Talvez se deva lembrar o comentário que diz que nunca se escreveu tanto como ultimamente, e que o problema da literatura atual é que não existem mais leitores, só escritores. Cecilia, talvez tenha nos dado a chave desta tendência. Estamos todos tentando domesticar nossos monstros e as coleiras que fabricamos são de palavras. Remendadas, sampleadas, rasuradas, tal como aparecem nas ilustrações do livro, escrevemos os horrores que nos assolam e, sem tempo, nem vontade de ordenar o caos, deixa-se a tarefa aos leitores e à crítica.

E o leitor?

Há que indagar, então, qual o papel do leitor nesta nova literatura? O quanto do livro depende da colaboração do leitor? Essa é uma questão válida para as obras literárias de qualquer tempo. Proust chama a atenção para o fato de que, ao lermos um livro, estamos lendo a nós mesmos. Os romances escritos em outros tempos ombreiam com as narrativas escritas hoje e os leitores se identificam com os textos ou os repudiam, por não se encontrarem naquelas porções dominadas de loucura. “Cheguei ao meio do livro com a sensação de que não estava entendendo mais nada”, depõe uma amiga e leitora de Giannetti, Helena Aragão. No entanto, amiga fiel, persevera e termina de ler o livro, e, então, “come[ça], sem querer, a traçar a narrativa que, sim, está presente, sutil e impiedosa…” Ela reflete sobre a co-dependência entre livro e leitor, mas conclui: “Independentemente disso, alheia a humores está a certeza de um livro milimetricamente pensado – mas longe de ser um engodo, ele conta com palavras assustadoramente no lugar para formar esse mosaico disforme que deixa o Rio incompreensível”.

Talvez Helena se engane, e o que deixe o Rio incompreensível não seja o mosaico, mas o que esse mosaico revela – a atitude de quem, passivamente sentado frente a um aparelho de TV, absorve imagens cortadas e montadas, interrompidas por solicitações de MSN, de toques de telefone, de chamadas Skype, acompanhado de muito tédio existencial e de uma proverbial e desalentadora incapacidade de se dedicar aos outros, que, para receberem atenção, precisam se comportar como insistentes fantasmas, assombrações. Mesmo assim, é de Helena a percepção de que o livro é o testemunho da construção de um novo Frankenstein. Esse organismo construído de cadáveres cujas partes são resgatadas e coladas, formando um texto que precisa ser decifrado para deixar de ser ameaçador. Enquanto formos incapazes de compreender nosso mundo, ele continuará nos ameaçando, e mesmo o alívio obtido por “baianos” ou por alegrias químicas, não serão suficientes para impedi-lo de nos destruir e fragmentar, até nos transformar em algo igual à sua deformação.

Antes de terminar, acho conveniente mencionar a tarefa em que Cecilia Giannetti se encontra empenhada, um romance de amor passado em Berlim, para desejar que ela escreva palavras de tanta sinceridade e entrega como as que usa ao descrever seu personagem Baiano. Alguns dos melhores trechos do livro estão nas páginas dedicadas ao amor entre Cristina e ele. Diz a narradora: “Da primeira vez que toquei com as mãos os ossos dos quadris dele, empurrava aberta uma janela e o sol me lambia por dentro”. A atração entre os personagens é tão grande que ela percebe que “um homem me abraça inteira num aperto de mão”, enquanto os outros amantes tiveram “mãos covardes”. Trata-se de sexo – “hormônios ou o quê” – ou de amor, envergonhado, escondido atrás desse quê. Seja lá o que for, é verdadeiro. Bem sentido e bem escrito.

A AUTORA

CECILIA GIANNETTI nasceu no Rio de Janeiro, em 1976. Formou-se em Jornalismo em 2003 pela UFRJ. Já trabalhou no Jornal do Brasil, na Tribuna da Imprensa, e atualmente contribui para a Folha de S. Paulo. Tem contos publicados em várias antologias como 30 mulheres que estão fazendo a nova literatura brasileira, organizada pelo Luiz Ruffato, e também em revistas e blogs. Recentemente, Cecilia foi mandada para Berlim, participando do projeto Amores Expressos. O romance em decorrência da viagem ainda está em gestação, mas o blog narrando suas experiências demonstra sua amarga sensibilidade (http://blogdaceciliagiannetti.blogspot.com/).

TRECHO • Lugares que não conheço, pessoas que nunca vi

Temos os fantasmas que merecemos. Eles são feitos de coisas que não cabem aqui. Vieram sem anúncio e somente quando decidiram ir embora é que percebi o quanto sempre estiveram presentes, pois, até então, nunca haviam desaparecido. Estavam aqui e agora, se há matéria, é só palavra, papel, tinta – um fantasma no envelope fechado; um fantasma dobrado na gaveta. Que meia dúzia de palavras corajosas poderiam lhes escapar lá de dentro?

Temos o diário que merecemos. Ele é doce e partido, a promessa, a emoção do começo rápido!, antes que desapareça, é meu cada ponto de tinta em suas páginas, em que me imagino reportando misérias alheias. Recuperando peças que contam a história de uma civilização. Eu deveria erguer meu museu. A construção, no entanto, resulta rapeada, sampleada, em cacos – sua confusão mesma, o começo de outra civilização. Único lugar em que me imagino existir.

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Lugares que não conheço, pessoas que nunca vi

por: vivianrangel – Jornal do Brasil

Cecilia Giannetti é uma das mais celebradas entre as jovens escritoras cariocas. Participou de coletâneas como Mulheres que estão fazendo a nova literatura brasileira, Dentro de um livro e Rio literário. Trabalhou no Jornal do Brasil como repórter do Caderno B e foi vocalista de banda de rock. Na estrada há alguns anos, faltava a Giannetti o romance.

Não falta mais. Lugares que não conheço, pessoas que nunca vi acaba de ser lançado pela Agir. Confesso que abri o livro com certo receio: anunciado há dois anos, o romance de Cecilia era quase uma figura mítica da literatura. Mas, finalmente, chega. E chega bem: maduro, intenso, fragmentado, narrado por várias vozes, tipos que parecem habitar há anos a cabeça de Cecilia.

A história é sobre uma repórter que mora com um poeta magro e um gato. Um gato muito amado, gordo, mimado, que ela usa como “mediador de afeto”: “O poeta beijava o gato entre as orelhas e trancava-se no escritório. Ela beijava o gato entre as orelhas ao deixar o duplex pela manhã e ao chegar, à noite”. Loira, magra e com sorriso confiante, a repórter de TV grava uma matéria sobre a invasão de traficantes no morro. No meio da entrevista, quando os moradores se queixam dos bandidos que invadem suas casas e comem os biscoitos das crianças, ela avista Doca. Menino minguado, de cabelo pixaim, ele entra no barraco atravessado por três tiros: dois buracos nas mãos e um na cabeça.

É a deixa para que a protagonista trafegue entre o delírio e a rotina, entre a TV que grita um corpo sendo arrastado pela calçada e uma cidade onde pessoas são engolidas pelas calçadas quando se esquecem do toque de recolher. Bêbados, turistas ou desavisados – como os russos que morrem congelados se não acertam a fechadura de casa. É nesse mundo – futuro ou pesadelo – que Doca persegue a repórter, cantando rapzinhos próprios ou pedindo que ela lhe ajude a encontrar um terreiro. Uma de suas “pequenas e firmes vontades de criança desencarnada” é virar Erê.

Alternando as vozes narrativas, misturando pensamentos melancólicos ao noticiário policial, texto a desenhos manuscritos e fotos, o livro angustia, sufoca, emociona e rende alguns sorrisos irônicos. Um soco no estômago em quem apostava que a conhecida blogueira fosse assinar uma narrativa umbiguista, memórias em forma de posts impressas depois de crtl C + ctrl V. Cecilia tem “gavetinhas na cabeça que esvazia quando não quer mais nada do que há dentro elas”. Sorte nossa.

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Lugares que Não Conheço, Pessoas que Nunca Vi
Primeiro livro de Cecilia Giannetti tem imagens poderosas
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Cecilia Giannetti: estréia promissora

ASSALTOS, prisões de menores (antigamente, eles eram chamados simplesmente de crianças), mortos em série, cabeças decepadas fazem parte do cotidiano de uma repórter de tevê em Lugares que Não Conheço, Pessoas que Nunca Vi (Agir, 229 págs., R$ 34,90), romance de estréia de Cecilia Giannetti. Eles fazem parte do dia-a-dia de qualquer brasileiro, mais ainda de qualquer carioca.

São aquelas coisas que procuramos esquecer participando de festas (des)animadas, cuidando da aparência ou talvez da cabeça, ou nos trancando em apartamentos confortáveis ou carros blindados. Que tentamos – e boa parte do tempo conseguimos – ver sem enxergar, escutar sem ouvir, e que, por isso, não sentimos, para tentar suportar. Até o dia em que não é mais possível ignorar. É isso o que acontece com a protagonista, que entra numa espiral de vertigem quando vê de muito perto algo para o qual pensava estar prevenida. Parece estar anestesiada, sem reconhecer rostos e lugares, mas talvez o certo seja dizer que antes é que estava.

 

A jovem autora escreve com urgência em capítulos que guardam semelhança com os contos. Sua prosa ambiciosa se rebusca, às vezes um tanto além da conta, mas oferece imagens e frases poderosas – um alento em meio a tantos romances simplórios, que podem até traçar um retrato de uma geração, mas mal servem como literatura. Cecilia Giannetti é uma escritora que merece atenção. Mariane Morisawa

Carlos Calenti Trindade 

Um Rio que você não conhece
Por 
Carlos Calenti Trindade

O livro Lugares que não conheço, Pessoas que nunca vi, da carioca Cecilia Gianneti? Com a Cecilia eu confesso que há expectativas envolvidas. Conheci a autora pela internet, há uns anos, primeiramente pelo site literário Paralelos, depois pelo próprio blogue dela (http://www.escrevescreve.wordpress.com), além de uns contos em livros e revistas. E sempre gostei bastante do que ela escrevia, principalmente de como ela escrevia, e já esperava o romance de estreia. E, olha, eu gostei! Primeiro eu me surpreendi – o que é sempre ótimo. Talvez porque das características longas sentenças da escritora, não sei bem, mas eu esperava um romance com uma narrativa mais longa. Menos fragmentada. É bom que se diga que as tais frases compridas estão aqui também, junto com outras características que eu já conhecia e gostava, como o seu humor corrosivo, a sua visão sempre mordaz e incisiva sobre a nossa realidade. E que, depois de mais acostumado, mais imerso naquele universo estranho, percebi que a fragmentação aqui serve completamente à história – por mais que ela possa parecer uma característica bastante contínua na literatura contemporânea, quase onipresente, aqui faz todo o sentido. O livro nos apresenta a uma jornalista carioca, completamente classe-média, num casamento insatisfatório, obcecada, do alto de um duplex na Lagoa, com a sua aparência e com a violência da cidade que tem que reportar. Numa dessas reportagens, ela presencia o inominável, o tipo de acontecimento que ela sempre tentou neutralizar através da leitura incessante das desgraças da violência carioca: ela enfrenta a morte acontecendo na sua frente, e então entra numa piração desestruturante. Amnésica, ela reconstrói o mundo a sua volta através de uma perspectiva, hmmm, no mínimo louca. Daí, a estrutura fragmentada da narrativa se adequar perfeitamente à história que se lê. De certa forma o livro nos deixa tão perdidos quanto a personagem está, sendo introduzidos sem apresentação a um Rio de Janeiro em que a prefeitura arranjou um novo jeito para tratar dos moradores de rua (sugando-os pelo esgoto), às reuniões da misteriosa Central do Tédio e à Doca, o menino cuja morte encadeou a trama e que mesmo assim persegue nossa repórter, num lance que me lembrou o Will Self e seu Como Vivem os Mortos. O clima não-realista desestruturado, a escrita impecável e irônica da Cecília, o seu olhar original sobre alguns temas caros aos brasileiros, como a violência e, pelo menos para a classe média, certo tédio generalizado, definitivamente estavam à altura das minhas expectativas, e, de uma forma que eu não esperava, até acima. Pra encerrar, um parágrafo do livro: Enche as folhas com a caligrafia grande e limpa, traços firmes inclinados riscando o papel com palavras inúteis, como uma boca que, colada ao seu ouvido, dita segredos numa voz grave que ela preferia não escutar. O que vivemos aqui é um tipo de morte, diz o obituário recitado pela voz, feita de palavras desconhecidas que sobem do chão, atravessam as paredes carregadas pela fumaça da paranóia enquanto ela rola o corpo entre infernos e alascas numa mesma estação dessa cidade sempre quente onde todos virarão pó, e todos serão vultos de terror espesso e presas desdenhosas, crescendo ao seu redor como muros de chapisco num subúrbio cinza que é cimento cru e tédio. Onde as crianças não têm vontade de brincar na calçada. Ficam trancadas nos quartinhos remoendo pequenas culpas, sofrendo mais que os corpos ardendo de infância deviam agüentar, e agüentam, remorsos sufocados na frente da TV, crescem dali para casulos ainda menores. O crescimento é uma atrofia. E mais dois: Temos os fantasmas que merecemos. Eles são feitos de coisas que não cabem aqui. Vieram sem anúncio e só quando decidiram ir embora é que percebi o quanto sempre estiveram presentes, pois, até então, nunca haviam desaparecido. Estavam aqui e agora, se há matéria, é só palavra, papel, tinta – um fantasma no envelope fechado; um fantasma dobrado na gaveta. Que meia dúzia de palavras corajosas poderiam lhes escapar lá de dentro? Temos o diário que merecemos. Ele é doce e partido, a promessa, a emoção do começo rápido!, antes que desapareça, é meu cada ponto de tinta em suas páginas, em que me imagino reportando misérias alheias. Recuperando peças que contam a história de uma civilização. Eu deveria erguer meu museu. A construção, no entanto, resulta rapeada, sampleada, em cacos – sua confusão mesma, o começo de outra civilização. Único lugar em que me imagino existir. Bons, hã?! E, além de tudo, há que se falar do incrível design gráfico do livro, desde a capa até às ilustrações internas, tudo criado por Christiano Menezes, que nos colocam ainda mais dentro desse mundo criado por Cecília.

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Jornal do Brasil
Cartografia carioca é renovada

Antologia reúne 17 novos contistas que mapeiam os mais diversos bairros do Rio
Por Beatriz Resende
É Marques Rebelo, escritor tão carioca que até nasceu no Rio de Janeiro, quem dá o mote à organização deste conjunto de narrativas de jovens escritores, cada uma delas dando conta de um espaço da cidade: ”Cada bairro tem uma personalidade própria: o Rio é uma cidade com muitas cidades dentro”. O mais importante no volume foi a idéia de Marcelo Moutinho e Flávio Izhaki: propor aos jovens escritores a realização de uma ”nova cartografia” da Cidade Maravilhosa, ”tão castigada e tão bela”, como dizem Gilberto Gil e Milton Nascimento. Fica evidente que vale a pena não só conhecer a escritura de novos autores, mas também conferir que Rio é esse remapeado por olhos e pés com 30 anos de idade. A ressalva ao perigo dos rótulos pasteurizadores é importante, já que, nesta amostra, como em todas as antologias que têm aparecido, a característica principal é a diversidade dos textos apresentados. Finalmente, como exemplos felizes da pluralidade desta fértil geração, diversa na construção do texto, e na relação com o espaço onde localizam suas narrativas, citaria aqui ”Encontro”, de Adriana Lisboa (…) e ‘‘Ilha debaixo da terra”, de Cecilia Giannetti, não sem antes saudar o fato da presença de mulheres ter-se tornado mais freqüente nesta ”geração” do que nos anos 80/90.  ”A Ilha do Governador”, no conto de Cecilia Giannetti, fede. O bairro é um não-lugar, espaço de passagem: ”Enlouquece-se mais cedo por aqui”. Na irreverência e auto-ironia da narradora, as lembranças, em idas e vindas, são risadas amargas de dentes escurecidos como a de moças do lugar. Entre as duas autoras existe em comum a habilidade imprescindível na construção de um conto: a possibilidade de uma história inteira – e boa – ser contada em poucas páginas. Mas o que não podemos deixar de notar é que nestas duas cartografias tão diversas da mesma cidade há outra coisa em comum: a dor. Profunda, sempre, como a de uma flechada._______________________________________________________________________________________________________Do Recortes, por Ane Aguirre

Sábado na Bienal do Livro. No auditório Clarice Lispector o debate foi sobre Literatura em rede a revolução na Internet. A mediadora, Beatriz Resende conversou com Cecilia Giannetti, Ricardo Noblat, Ricardo Neves e Dodô Azevedo. Na tarde anterior, a escritora Cecilia Giannetti, autora de Lugares que não conheço, pessoas que nunca vi, já havia mostrado indícios de como seria sua participação. E não deu outra. Disse a que veio ao descer as escadas com o microfone e o livro Hotel Hell de Joca Reiners Terron: isto é um livro, mas era um blog. Renovou a promessa de pagar o almoço caso alguém provasse que um blog tem um formato tão diferente que não possa ser publicado. A platéia apalpou o objeto e o fez passar de mão em mão enquanto Cecilia lia trechos do que poderia ser o blog de Kafka: “Perdi ociosamente a manhã dormindo e lendo jornais”. É um diário do escritor. Ela volta a afirmar que não existe literatura de internet, se existir algo que não possa ser transposto para livro, então teremos um produto específico de internet. Mais tarde, já sentada à mesa junto aos demais, salientou: existem blogs literários com bom conteúdo e outros com conteúdo ruim; nada impede que qualquer um deles seja publicado em papel, evidentemente o que é blog ruim vai ser um livro ruim. Noblat, que mantém um ótimo blog sobre política, apresentou a imagem de sua neta ainda em gestação para ilustrar como será o mundo de Luana. Expôs alguns números que provocaram espanto: a telefonia fixa levou 74 anos para atingir um milhão de usuários, a Internet levou quatro anos para atingir a mesma marca. Os brasileiros ficam mais horas conectadas (cerca de 19h por mês) do que franceses e japoneses, o que tem a ver com o nosso espírito gregário: nosso jeito de ser, de sentar num bar e chamar pessoas para conversar, puxar assunto com desconhecidos, fazer amigos, bater papo. Os blogs surgiram nos Estados Unidos há dez anos, eram 36 milhões há um ano, hoje são 75 milhões e possivelmente sejam 100 milhões antes do final do ano. Para Noblat não resta dúvida, a geração de Luana não vai ler jornal em papel e sim na tela do computador.

Da Tribuna de Minas

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Cecilia Giannetti e Prisca Agustoni discutem pontos de contato entre literatura e realidade

Em uma manhã corriqueira, uma repórter de TV vai a uma favela carioca entrevistar uma mãe de família. No meio da reportagem, aparecem os dois filhos da mulher, que, perfurados por balas, morrem diante das duas. O que de imediato causa vertigem à jornalista, servirá, também, como peça-chave para uma vida de alucinações. Em seu primeiro livro, Cecilia Giannetti aborda a realidade a partir de sua faceta mais cruel. “Lugares que não conheço, pessoas que nunca vi” (2007), com selo da editora Agir, foi recebido de forma calorosa pela crítica e rendeu à autora indicação ao Prêmio São Paulo de Literatura de 2008.

A escritora é a convidada deste sábado do Ave, Palavra, projeto da Livraria A Terceira Margem, que vem promovendo na cidade encontros de literatura contemporânea ao longo do ano. O universo kitsch, o clima hospitalar, a crítica à sociedade de consumo e as muitas vísceras dos personagens aparecem em sua obra a fim de causar desconforto em quem lê. “Cecília Giannetti parte de perspectivas de estranhamento (palavra que significa justamente colocar-se de fora de uma situação conhecida) para abordar de frente os fantasmas que sempre insistimos em varrer para debaixo de nossos fofos tapetes”, avalia a escritora e crítica Noemi Jaffe.

A escritora carioca foi coautora, ao lado de João Paulo Cuenca, Michel Melamed e Luís Fernando Carvalho, da minissérie “Afinal, o que querem as mulheres?”, exibida pela Globo em 2010. Com roteiro fragmentário e fantástico, a série de humor retratava o universo feminino através da psicanálise freudiana.

O segundo livro de Cecilia pretende preservar a leveza da minissérie, sem perder a acidez de sua obra de estreia.