BESOURO AZUL ENTRE O BEM E O MAL

Da antologia ‘Heróis Urbanos’

Editora Rocco, 2016

[trecho]

– Em 2006 eu estava para deixar Ontário. Morei lá durante um tempo. Na manhã da minha partida eu acordei com todos os sintomas de um porre descomunal. Fazia sentido, eu tinha bebido com o pessoal no bar perto de casa. Eu não lembrava de mais nada da noite anterior, apagão completo. Comecei a fazer o meu café, a cabeça vazia e latejando. Quando ia tomar o primeiro gole de café, a boca quase na xícara, deixei cair no chão, quebrou, metade do café foi parar em cima da minha camisa, pelando. Foi aí a primeira fisgada, o começo de impressão sobre o que havia ocorrido na outra noite. Eu tinha matado alguém. E tinha matado com ódio.

– O que é que isso tem a ver com–

– …a mais nítida impressão! Eu terminei de fazer as malas como um fugitivo, mergulhado naquele terror que poderia, que pode, ainda – indelével – ser absurdo, infundado. Pode ser mesmo só uma sensação, e mesmo que seja, ainda trago isso comigo. Eu voltei pro Brasil no pior voo da minha vida, sem dormir um segundo, ardendo de febre, embrulhado naquele cobertor miserável e mal lavado, cheio de pele e de fios de cabelos de passageiros de voos anteriores. Eu aguardei. Por muito tempo. Mas nunca surgiu qualquer evidência de que eu matei alguma daquelas pessoas do bar, ou qualquer outra, nunca ninguém me procurou abanando indícios, esfregando provas na minha cara. E, se eu passei pela segurança do aeroporto… Mesmo que tenha acontecido de verdade, ninguém sabe. Nem eu mesmo sei. E eu te digo: talvez não chegue a ser memória, mas eu odeio esse animal me rondando, cercando-me por toda parte, mais ávido do que toda a força policial poderia ter feito comigo se de fato eu– Provas? Nenhuma, mas– Essa sensação que nunca me deixa, de que eu posso realmente ter feito aquilo, essa possibilidade existir na minha cabeça, isso é a minha pedreira, é para o resto da vida.

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CONTO @ FORMAS BREVES

Em mãos, num clique => ‘O Réveillon de Max Richter’

[trecho]

Sei que deve fazer muito tempo que não se diz o Nome em nossa casa, porque olho para Tula, na poltrona diante da minha, e é esta sua versão gasta que enxergo agora, não a que vejo nos meus sonhos de festas e viagens, de imagens de outro tempo. Imagens que vêm do mesmo lugar de onde saiu o Nome. Vêm da época em que até ela sonhava.

Tula sonhava. Éramos crédulos. Não passava pela cabeça da gente que podíamos, talvez, ter chegado atrasados ao mundo. Que tudo já havia sido feito e consumido, que nos sobrava o regurgitado, o já dito, escrito e reescrito. Nunca achamos isso – nós, novos, não. Tudo o mais já era velho.

p.s.: há erros que merecem revisão no texto citado? sim. ai do mundo sem os erros. história, há? sim. ai de mim sem histórias.

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ANTOLOGIA HERÓIS URBANOS

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A Ana Bergin – talvez pressentindo a minha ansiedade em ver e folhear e cheirar o projeto impresso -, me enviou um exemplar com perfume de rotativa, novinho, de ‘Heróis Urbanos’. Muito feliz em participar dessa antologia da Rocco (Jovens Leitores) ao lado da Luisa Geisler, do Rubem Fonseca, Raphael Montes e outros que vou conhecer agora, lendo este livro.

O meu conto aqui é o ‘Besouro Azul entre o Bem e o Mal’ e vou colar mais abaixo algumas ilustrações desse lançamento, feitas pelo Rascal.

Antes:

coincidência ou não, ao receber o livro – voltado à classe de leitores hoje conhecida como Y.A. (Young Adults, jovens adultos) -, eu estava de papo com uma amiga que tenho desde a pré-adolescência, falando de como às vezes, muitas vezes, tantas vezes, era simplesmente—

uma merda.

Uma merda colossal: aquela idade, aquilo tudo. Não existia ainda, ao menos entre nós, o termo ‘jovens adultos’, Y.A. etc. Mas sabíamos muito bem o que era o bafo na nuca, a pressão, a cobrança.

Muitos A.A.M. (Adultos Adultos Mesmo) ainda não são capazes de decisões que a gente é forçado a tomar mal saídos da infância. Aliás, acho que por conta disso é que eu já passei do lado newbie dos 30 e às vezes eu ainda sinto uma necessidade feroz de tirar 10 em tudo.

Tem A.A.M. que só vai ser feliz quando receber uma estrelinha dourada no contracheque… Com recadinho do patrão: ‘querido funcionário, você é *perfeito*’.

Olha: nem toda responsabilidade tem que ser um peso insuportável.

Faz alguma coisa que você gosta – desde que não seja agredir e machucar deliberadamente -, e, no mais, não se estressa tanto. As coisas melhoram.

Enfim, as histórias em ‘Heróis Urbanos’ não têm heróis perfeitos, certinhos. Nenhum deles recebe estrela dourada no trabalhinho. Mas fazem o melhor que podem, e erram e acertam.

Muito obrigada a Ana Bergin, Larissa Helena, Milena Vargas, toda a equipe da Rocco Jovens Leitores, aos super-heróis super-atentos da revisão – vocês são do time que realmente ajuda as coisas a melhorarem.

 

 

LANÇAMENTO

O lançamento da antologia ‘O Meu Lugar’ – em que escrevi sobre época e personagem antigos da Ilha do Governador – será no dia 17 de outubro, no espetacular Al-Fárábi (Rua do Rosário, Centro), negócio animado, com roda de samba comandada por Nina Rosa e Marina Íris.


Capa e contracapa do livro, onde estou bem acompanhada pelo Marcelo Moutinho, a quem sou grata pelo convite a participar da antologia, e por outros craques:

ENQUANTO TEMOS OS PÉS NO CHÃO

– Há vida aqui.

– Há mato crescendo. É muito diferente. Eu e você somos o capim que espicha, e depois o que fará o capim crescer – debaixo do sol e da chuva, que não poderão mais nos tocar. Feito o capim, o que você chama de vida é esperar pela poda.

– Então, o que é que você/

– Quero para ela apenas que não seja como eu. Eu tenho uma casa, tenho rostos familiares no convívio, tenho refeições com horário quase sempre certo. Quero para ela uma vida.

what's the story

TOP 3 EM LITERATURA NA AMAZON!

Acabei de saber: o nosso e-book, lançado HOJE no e-galáxia, já virou TOP 3 de Literatura na AMAZON e TOP 6 nas demais.

A antologia tem conto meu, e também os de Alessandro Garcia, André de Leones, Claudia Lage, Estevão Azevedo, Luis Carmelo, Victor Heringer, Luisa Geisler, Maria Clara Mattos e Toni Marques.

Sinopse, trechos e atalhos para download, aqui: http://blog.e-galaxia.com.br/ho-ho-ho

 

‘AUSENTE’ – CONTO DE NATAL NO E-GALAXY

“CONTOS DE NATAL” é um e-book para download gratuito, oferecido de presentim a vocês pela agente confidente reluzente Marianna Teixeira Soares, da agência literária MTS, e pelo e-galáxia.

Já está no ar HOJE, 17/dez.

Tem conto meu, chamado ‘Ausente’, mais os de Luisa Geisler, Alessandro Garcia, André de Leones, Estevão Azevedo, Claudia Lage, Victor Heringer,Toni Marques, Maria Clara Mattos e Luís Carmelo.

Baixem aqui o livro: http://blog.e-galaxia.com.br/ho-ho-ho/

***

TRECHO DE ‘AUSENTE’ 

Não sei por que a minha mulher quer sempre os dois filhos vestidos de vermelho na data. A menina não tem escolha. O mais velho se rebela como pode. De camisa vermelha, sim, mas com furos – suponho que começados na brasa de cigarro, em seguida arrombados por sucessivas passagens pela máquina de lavar, trata-se de um revolucionário limpinho -, um dedo sob o chamado Anonymous Wants You! aponta para quem olha a estampa.

Na garagem a lâmpada moribunda numa paródia de discoteca, como quando eu brincava ali com o amigo, mexendo no interruptor sem parar, acender/apagar ininterrupto, dançando Tom Jones na mesma garagem, os dois ainda sem idade para entrar em casa noturna. Mais escuro do que claro, chamei por ele uma só vez e então reparei no portão de ferro da garagem aberto. Querendo ir até o portão, tropecei em um bolo de coisas pelo caminho, parei, me agachei, examinei: a camisa social azul, a calça cinza, meias e sapatos – a lâmpada da garagem finalmente morreu, já foi tarde, e só o poste da rua emprestava luz. Larguei as roupas dele no chão e andei até a calçada. A rua deserta, como de costume. Para onde tinham ido os paparazzi? E nem sinal do cara também. Fiquei um pouco ali, sem saco para voltar à sala e tentar uma explicação, e lembrei de uma coisa que ele tinha dito mais cedo:

– É como se eu nunca estivesse presente.

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