LANÇAMENTO

O lançamento da antologia ‘O Meu Lugar’ – em que escrevi sobre época e personagem antigos da Ilha do Governador – será no dia 17 de outubro, no espetacular Al-Fárábi (Rua do Rosário, Centro), negócio animado, com roda de samba comandada por Nina Rosa e Marina Íris.


Capa e contracapa do livro, onde estou bem acompanhada pelo Marcelo Moutinho, a quem sou grata pelo convite a participar da antologia, e por outros craques:

ENQUANTO TEMOS OS PÉS NO CHÃO

– Há vida aqui.

– Há mato crescendo. É muito diferente. Eu e você somos o capim que espicha, e depois o que fará o capim crescer – debaixo do sol e da chuva, que não poderão mais nos tocar. Feito o capim, o que você chama de vida é esperar pela poda.

– Então, o que é que você/

– Quero para ela apenas que não seja como eu. Eu tenho uma casa, tenho rostos familiares no convívio, tenho refeições com horário quase sempre certo. Quero para ela uma vida.

what's the story

TOP 3 EM LITERATURA NA AMAZON!

Acabei de saber: o nosso e-book, lançado HOJE no e-galáxia, já virou TOP 3 de Literatura na AMAZON e TOP 6 nas demais.

A antologia tem conto meu, e também os de Alessandro Garcia, André de Leones, Claudia Lage, Estevão Azevedo, Luis Carmelo, Victor Heringer, Luisa Geisler, Maria Clara Mattos e Toni Marques.

Sinopse, trechos e atalhos para download, aqui: http://blog.e-galaxia.com.br/ho-ho-ho

 

‘AUSENTE’ – CONTO DE NATAL NO E-GALAXY

“CONTOS DE NATAL” é um e-book para download gratuito, oferecido de presentim a vocês pela agente confidente reluzente Marianna Teixeira Soares, da agência literária MTS, e pelo e-galáxia.

Já está no ar HOJE, 17/dez.

Tem conto meu, chamado ‘Ausente’, mais os de Luisa Geisler, Alessandro Garcia, André de Leones, Estevão Azevedo, Claudia Lage, Victor Heringer,Toni Marques, Maria Clara Mattos e Luís Carmelo.

Baixem aqui o livro: http://blog.e-galaxia.com.br/ho-ho-ho/

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TRECHO DE ‘AUSENTE’ 

Não sei por que a minha mulher quer sempre os dois filhos vestidos de vermelho na data. A menina não tem escolha. O mais velho se rebela como pode. De camisa vermelha, sim, mas com furos – suponho que começados na brasa de cigarro, em seguida arrombados por sucessivas passagens pela máquina de lavar, trata-se de um revolucionário limpinho -, um dedo sob o chamado Anonymous Wants You! aponta para quem olha a estampa.

Na garagem a lâmpada moribunda numa paródia de discoteca, como quando eu brincava ali com o amigo, mexendo no interruptor sem parar, acender/apagar ininterrupto, dançando Tom Jones na mesma garagem, os dois ainda sem idade para entrar em casa noturna. Mais escuro do que claro, chamei por ele uma só vez e então reparei no portão de ferro da garagem aberto. Querendo ir até o portão, tropecei em um bolo de coisas pelo caminho, parei, me agachei, examinei: a camisa social azul, a calça cinza, meias e sapatos – a lâmpada da garagem finalmente morreu, já foi tarde, e só o poste da rua emprestava luz. Larguei as roupas dele no chão e andei até a calçada. A rua deserta, como de costume. Para onde tinham ido os paparazzi? E nem sinal do cara também. Fiquei um pouco ali, sem saco para voltar à sala e tentar uma explicação, e lembrei de uma coisa que ele tinha dito mais cedo:

– É como se eu nunca estivesse presente.

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1 MÊS, 2 CONTOS NO E-GALÁXIA

Deu no Estadão que o e-book Contos de Natal, parceria entre a agência literária MTS e a e-Galáxia, estará disponível para download gratuito a partir de quarta, 17.12, em diversas lojas de e-books. Cecilia Giannetti, Luisa Geisler, André de Leones, Victor Heringer e Estevão Azevedo, entre outros autores da MTS, terão seus textos publicados na antologia => neste link [em: “digital | CONTOS”, pé da página].

CONTO: O RÉVEILLON DE MAX RICHTER

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[Clique no link para baixar]

Com seu estilo veloz e incomum, Cecilia Giannetti constrói uma narrativa ácida e entrecortada, num verdadeiro mosaico de emoções humanas.

Escritora e roteirista, nascida no Rio de Janeiro. Colunista da Folha de S. Paulo entre 2007 e 2010. Autora do romance “Lugares que não conheço, pessoas que nunca vi” (Ediouro/Agir, 2007), foi finalista do Prêmio São Paulo de Literatura 2008. Co-autora de “Afinal o que querem as mulheres” (TV Globo, núcleo Luiz Fernando Carvalho, 2010) e colaboradora em novelas da emissora desde 2013.

Formas Breves é um selo digital dedicado ao gênero conto. Seu único princípio é a qualidade. Com traduções diretas e exclusivas de grandes clássicos do conto universal ou com narrativas da nova geração de escritores em língua portuguesa, Formas breves é um ancoradouro desta galáxia chamada conto.

“AQUELA POR QUEM A GENTE VIRA HOMEM”

Dizem que antes era cafetão, o sapateiro. Mas quem acredita nessas vozes do passado?

Meu reflexo no acúmulo d’água em um buraco no quintal da casa da infância dos meus avós, num mal-parado carioca. Lá, onde antigamente faltava luz sempre que chovia. Lá, onde também faltava água. Nos dois casos, sem explicações. A mesma coisa, ainda hoje.

O reflexo na água não sou eu, é o cinema na poça que a chuva da noite passada deixou. Lá (aqui), no quintal que exibe cenas passadas há tempos, contadas a mim em versões que diferem umas das outras, dependendo do parente que as relata.

Esta é a minha versão para uma das histórias, cenas passadas:

Lá, a minha avó, muito nova, vestida com o seu perigoso uniforme da Telephone Company of Brazil, nas primeiras décadas do século passado.

Lá, o meu avô, prestes a conhecê-la e ter a vida mudada como não esperava – nem sequer desejava.

Ela trabalha na Telefônica e é o tesouro da família, única filha a ter se interessado por estudar. Também costura direitinho.

Ele (“lendas, lendas… A única verdade é que o uniforme de trabalho de sua avó na Telefônica era, de fato, perigoso. Riso perigoso. O que é mulher perigosa? Toda aquela por quem a gente vira homem…”) trabalha com mulher na noite. Mulher, mulheres, que ganham a rua e trazem de volta para uma casa de paredes sujas a pequena parte delas que resta, a parte graúda que cabe a ele.

O irmão de minha avó, Alípio, é colega de futebol desse homem malvisto, que anda por aí de terno branco e chapéu (isto ele manteria).

Certa noite, enquanto todo o Centro comemorava a chegada da iluminação elétrica às ruas, Alípio encontra o meu avô sozinho e muito trôpego, próximo ao Mangue, o Mangue onde viviam as mulheres, da casa de paredes sujas, coincidentemente clientes do tanque de minha avó, com sua roupas sujas.

Alípio o toma pelo braço e levanta até apoiá-lo num ombro. Como o homem não consegue balbuciar onde mora (um ano antes, o lança-perfume estreara no carnaval do Rio, tendo causado tamanha boa impressão que alguns não viam problema em estender seu uso a outras celebrações, como a da chegada das luzes, confusas, perigosas, as luzes), Alípio o arrasta para a casa na Praça Onze, onde vive com as irmãs, a mãe e também com tias infladas, importadas, autênticas portuguesas.

Alípio desova o bêbado no sofá e toma um gole de cachaça, como forma de se preparar para fazer a defesa da presença do amigo contra eventuais protestos das tias.

Pela manhã, a moça que um dia será minha avó acorda e dá com o sujeito na sala. Corre para Alípio: – Que traste você me põe dentro da própria casa, quem?

A moça e as tias aceitam a explicação de bom samaritano de Alípio. Sempre ajudando, o Alípio.

O traste é convidado a se sentar para tomar café com os irmãos, minha avó, Alípio, minha bisavó Carola, lavadeira portuguesa, as tias contrariadas, os buços trêmulos. Ele come o pão, sorve o café-com-leite, como se sempre fizesse assim naquela casa pequena de família numerosa, como se a sua presença ali não fosse um espanto. Depois, enquanto ajuda a tirar a mesa, agradece pela guarida e pela refeição. Mas completa com o insulto: comenta timidamente com Alípio que gostou muito de minha futura avó.

Sua voz chega aos ouvidos de Carola.

Insulto, sim, não tem argumento, não tem cabimento, um homem desses. A portuguesa o coloca porta afora, sabe bem o que ele faz da vida, lava as roupas do Mangue que ele, por indireto, é quem manda sujar.

Desde então, apesar do desfecho abrupto da visita, ele volta ao portão, à espera, todos os dias, às 17h, quando Carola sai para entregar roupa lavada às casas perto dos trilhos do trem.

A costureira-telefonista simpatiza com essa insistência; o rosto do homem não lhe parece mais o de um traste. Ela não o deixa entrar na casa, conversam pela janela. Ele diz que sente nela o perigo sobre o qual leu em folhetim. Ela não saberia que coisa é essa, não teria lido o mesmo folhetim? Ou livro que repetisse o assunto?

Alípio faz jogo duro: só permite o casamento se o colega de futebol largar o serviço, aquele. Toma para o futuro o caminho da retidão, deixamos pra lá o seu passado. Não se fala mais nisso.

A esta altura a costureira-telefonista já sente o mesmo pelo sujeito, o perigo: nunca mais ser a mesma, exceto pelo riso de desviar desviado. Ele aceita um emprego de sapateiro: nunca mais torna a pegar dinheiro com aquelas do Mangue. Nem de outra praça. Tudo isso vejo numa poça d’água, protoplasmas antigos.