conversas

Entrevista a Rodigo de Souza Leão

Rodrigo de Souza Leão –  Qual a memória mais antiga que tem dos livros? A menina é a mãe da mulher?

CG – Em casa, mostrando à minha avó Cecilia que eu já conseguia ler sozinha um livro infantil inteiro, daqueles com gravuras. Eu devia ter uns seis anos. Estávamos no quarto de minha avó, que depois passou a ser meu quarto, e ela sentada na cama; acho que eu estava ajoelhada no chão, como se rezasse.

Na escola, descobri os livros de Monteiro Lobato na biblioteca e deixei de ser considerada “normal”, porque meus recreios eram passados lá dentro. Tinha uma amiga que sacou que aquilo era hilário (as histórias eram, Monteiro Lobato era sensacional) e passou a se esconder na biblioteca comigo. Valéria. Devíamos ter uns 10 anos de idade. Ao contrário do que se imagina por aí, nem toda escola vê com bons olhos esse comportamento, taxado de anti-social naquelas saletas horrorosas em que a placa à porta diz “SOE – Serviço de Orientação Educacional”.

A menina está sempre aqui. As orientadoras do SOE é que, graças a Deus, desapareceram.

RL – Quando e como começou a escrever? Escrever é um destino?

CG – Comecei a escrever minhas coisas assim que aprendi a ler e escrever. Escrevia, ilustrava e montava meus próprios livros, com capa, inclusive. Depois, a partir de uns 12 anos, comecei a experimentar com letras de música e pedi um violão (com aulas). Depois um amplificador, uma guitarra. Pedaleiras. Pedais. Cheguei a ter uma banda de música até mais ou menos 1999, 2000, viajamos bastante, tocamos por aí, MTV, showzinhos, etc., tudo por conta dessa ideia de letrista que veio da infância. Eu cantava e tocava guitarra também. Em 1998 a escrita começou a pedir mais espaço e eu fui cedendo até que só ela existisse. O espaço sempre foi dela. Destino é sim, nesse sentido.

RL – Você acredita em escritura feminina? Há diferenças entre o homem quando escritor e a mulher escritora?

CG – Há diferenças entre a experiência de um homem no mundo e a da mulher, e a maneira como cada indivíduo faz suas escolhas e expõe suas visões. Há diferenças de um autor para outro, independentemente de sexo. Vejo livros que não hesito em taxar como “mulherzinha” e que me desagradam, mas nem toda mulher escreve dessa forma. E tenho consciência de que empregar a palavra “mulherzinha” dessa maneira pode passar a impressão de ser depreciativa, o que seria burrice pra uma mulher fazer, mas corro o risco. E tem literatura de homem que é intragável pelo mesmo motivo: não tem habilidade literária para ultrapassar com literatura a questão do sexo (alguns não conseguem ultrapassar a questão de “trepar”, apenas, e fazem disso sua literatura; quando bem feito, maravilha. Mas é raro. Não?).

RL – Quais são os autores que fizeram a sua cabeça?

CG – É a pior pergunta do mundo, porque vou responder uma coisa diferente a cada vez que me perguntarem. Agora eu digo Bolaño, J. D. Salinger, Borges, Cortázar, Melville, Philip Roth, Isaac Bashevis Singer, John Fante, Jane Austen; li Henry Miller e depois abandonei, porque brigava muito com ele; Graciliano Ramos, Lima Barreto, Machado, João do Rio, Fernando Sabino, Rubem Fonseca (que tive a oportunidade de conhecer pessoalmente e, polidamente, mandou-me %$#&%*shsh quando comentei que estava com certo cagaço de escrever o segundo livro; é um bom papo, divertido, com ele me senti falando com alguém da minha idade que “por acaso” tem uma experiência fora do comum). Em certa época, quando morava em Copacabana, pirei no João Antonio.

A gente tem que se ler. Tem que se ler. O seu livro, Rodrigo, é uma das melhores coisas que chegaram na mão da gente ano passado, fiquei de cara.

Mais recentemente, tô com mania de uns americanos de novo, como Dave Eggers, e também leio as coletâneas de contos da Granta e da McSweeney’s, o britânico Will Self. Sei lá, é uma lista que eu vou completando. Gosto de ler roteiros de filmes.

RL – A fragmentação é uma característica da prosa moderna?

CG – Marca de geração pós-1990? Ou “moderna” como “a partir de 20 no Brasil? Do que tratamos? Falo meio sério, meio brincando aí. Quando apareceram os primeiros livros do Joca Reiners Terron e do Cuenca, por exemplo, começou uma gritaria de que era tudo quebrado, cadê a linearidade, cadê o Grande Romance Brasileiro? O papo segue, punheta. Hoje, quando falam em “moderna”, muitos se referem aos que publicamos dos anos 1990 pra cá, por incrível que pareça. A fragmentação é uma característica que aí está há décadas. Tenho impressão de que só alguns empoeirados, poucos, ainda se dispõem a malhar esse judas com o argumento puro de que “texto fragmentado é subliteratura”. Mesmo os que não respiram fora do ambiente acadêmico, desde 1945 suspeitam de que algo acontece do lado de cá. Não que achem boa coisa. Mas aí não é problema nosso.

RL – O que deve ter um texto para que você o considere seu? Qual é sua marca como escritora?

CG – Estou no começo. Meus textos seguem um conselho de Buddy Glass: escrever o que você mesmo, autor, gostaria de ler.

RL – Quem é o escritor brasileiro?

CG – Alguém que escreve nas raspas de horas vagas de empregos; boa parte dos que conheço hoje não são mais assim, não precisam mais bater cartão numa empresa. Mas é a realidade predominante, creio. Graciliano Ramos mesmo chegou a escrever e argumentar que achava estranho que não se comentasse a questão do dinheiro na literatura. Taí, comentemos: literatura é o que o cara faz quando chega do emprego, moído, num intervalo no emprego, nos fins de semana.

RL – O que a internet mudou a escrita? Mudou alguma coisa?

CG – Na minha escrita, acho que nada. Mas tenho o ponto de vista de uma observadora mais voraz em relação a isso – e cuja opinião sai mais ajeitada, porque ela vê isso de fora -, que é a Heloisa Buarque. Ela diz que é ÓBVIO, gritante em nossos livros, as dezenas de tabs (janelas dentro de browsers) e a atividade frenética, simultânea, em múltiplas funções na web. Que isso fez alguma coisa na cabeça da gente e resulta numa maneira de contar as histórias que não estamos preparados ainda pra enxergar como algo muito diferente do que havia antes da internet.

RL – O e-book tem futuro?

CG – No Brasil a Ediouro já despertou para essa realidade, que os gringos já sacaram pouco antes: e-book e publicação sob demanda podem ser a solução que as editoras esperam para vender mais livros.

RL – O computador trouxe um mundo novo. É admirável esse mundo novo?

CG – Eu sou uma viciada. Minha opinião não conta.

RL – Há mais escritores que leitores? O que fazer para valorizar a leitura?

CG – Ler. Não é esse o prazer primordial de quem diz gostar de literatura? Da parte das editoras, investir em autores a longo prazo, ver até onde vão, incentivar uma carreira, um catálogo. É preciso apostar.

RL – Tem algum mote (epígrafe) que a acompanhe pela vida? Fale sobre ele.

CG – “Somos uns animais diferentes dos outros, provavelmente inferiores aos outros, duma sensibilidade excessiva, duma vaidade imensa que nos afasta dos que não são doentes como nós”. Graciliano Ramos.

Read. Write. Run. Parece slogan da Nike pra nerds, mas é minha vida.

Viajar e anotar. Esse também.

RL – O escritor tem algum papel importante para a construção de um futuro? Qual o papel do escritor na sociedade?

CG – Idéias podem mudar tudo. Precisam circular. Escrevam, leiam, editem, trabalhem.

 

Rodrigo de Souza Leão (Rio de Janeiro, 1965), jornalista. É autor do livro de poemas Há flores na pele, e de Todos os cachorros são azuis (Rio de Janeiro: 7Letras, 2008) entre outros. Participou da antologia Na virada do século – poesia de invenção no Brasil (Landy, 2002). Co-editor daZunái – Revista de Poesia & Debates. Edita o blogueLowcura. Mais na Germina.

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De olho neles | Cecilia Giannetti

Portal Literal 1.0, Rio de Janeiro (RJ)

Publicado originalmente por Marcelino Freire.

EU & ELA
[ Uma conversa entre Marcelino Freire e a Cecilia Giannetti ]

EU – Você também é cantora, não? Onde tem música no que você escreve? Em que ponto o seu parágrafo é pauleira etc.?
ELA – Já cantei mais; a vagabundagem permitia. Sobre parágrafo pauleira, é “pauleira” se uma coisa que eu inventei fica viva de tal jeito no papel que todo mundo acha que aconteceu comigo. Quando algo que escrevi desperta em alguém a vontade de ler mais. Ou identificação. Ou aversão total. Se desperta alguma coisa que não seja cara-de-bicho-empalhado.

 

EU – Essa coisa de literatura feminina, de mulheres clariceanas, enche o saco, não? Mas posso perguntar? Respondaí.
ELA – Inegável que existam diferenças entre texto escrito por mulher e texto escrito por homem; tanto quanto é inegável que existam diferenças entre textos escritos por autores diferentes. Ninguém é igual a ninguém mesmo. Primeiro – acho que confundem literatura feminina e as clariceanas. Foi tanta mulher copiando Clarice durante tanto tempo que, embora essas “xerocadoras” (elegantemente, evitaremos o trocadilho) não tenham permanecido, parece ter ficado esse ranço: uma metonímia infeliz em que literatura feminina e jorro emotivo desvairado no papel passaram a significar a mesma coisa. Tem uma terrível “carta de editor” num romance do Ian McEwan, Reparação, que trata disso; a protagonista, Briony, uma escritora iniciante, envia os originais de um conto que escreveu embebida, empolgada com a leitura de As ondas, da Virginia Woolf. Aí já viu, chuá chuá. E o editor manda na lata: olha, minha filha, os leitores podem até estar familiarizados com esse negócio de teorias da consciência de Bergson mas, mesmo assim, ainda são todos doidos igual criança por uma história, por “saber o que acontece”. Ou seja: mete uma colher de pau nesse angu senão desanda. Segundo – confundem (homens e mulheres) voz literária com sexo de personagem. E – pior – sexo de autor. Exemplo: se um personagem é macho e criado por mulher, questiona-se se a autora não estaria tentando se libertar do que costumam considerar literatura feminina. A resposta – acredito – é não. Terceiro – Tem o caso da Jane Austen, que eu aproveito para citar porque é uma autora do século XIX que ainda rende scripts para cinema e bate-bocas. Sua obra é xingada de “literatura de mulherzinha” (o terceiro engano rotula a escrita feminina como propaganda do final feliz – uma lástima), embora sua escrita seja mais que perfeita, prenda totalmente a atenção do leitor e ironize os costumes da época de uma maneira que mulher alguma jamais tinha feito – com elegância, com um texto irretocável, com um puta senso de humor, um poder de observação que qualquer repórter metido a besta ou a gonzo hoje em dia reza escondido para ter (se possui discernimento para saber o que lhe falta). Em Orgulho e preconceito, ela cria um macho tão bom, mas tão bom que até hoje tem mulher vidrada nele. O que distingüe o texto masculino e o feminino? É isso o que todo mundo quer saber quando faz a pergunta sobre se existe literatura feminina ou não. Não consigo imaginar qualquer lista de características que não desembocassem em generalizações bisonhas demais para serem levadas a sério. Perdoem as minhas (mas não a ponto de ignorá-las).

 

EU – Quais os seus escritores preferidos? Aqueles, à cabeceira?
ELA – Bolãno, Salinger, Julio Cortázar, a própria Jane Austen, Graciliano Ramos (gosto da secura elegante), o Hemingway do Paris é uma Festa, Fitzgerald… É esquisito ficar inventariando prediletos porque eu nunca sei se excluo os que não li tanto assim mas, quando li, causaram impacto. E só para completar: teve um autor, no evento Encontros de Interrogação, que achei um pouco injusto quando acusou o “absurdo” de nós (uns quatro escritores que estávamos ali num debate representando a nova dentição) não termos lido Fulano ou Beltrano lá do cânone dele, que ninguém tinha citado nenhum dos que, para ele, eram absolutamente essenciais. Além de ter desconsiderado totalmente a possibilidade de os clássicos dele não corresponderem aos clássicos dos outros, opinou como se nossa declaração de prediletos fosse uma lista fechada, lacrada para sempre, um emblema de nossa geração perdida. Parecia dizer que, ainda entre os vinte e poucos anos e os trinta, não iríamos mais recorrer às estantes para buscar novas referências a qualquer momento. Uma bobagem. Nessa hora, eu tive 80, porque costurei minha boca igual uma velha e deixei a criança dele falar besteira.

 

EU – E o seu livro, por que não saiu ainda? Livro individual, há tempo esperado. O que você quer com esse livro, assim? O que espera de sua estréia e eta danado?
ELA – Comecei a ser publicada pouco tempo depois de eu ter descoberto que queria escrever mesmo, que eu não estava nisso para jardinagem ou coleção de selos. Ou seja, logo depois daquela fase em que eu percebi que “aquela coisa que eu fazia” era A Coisa Que Eu Quero Fazer. Pouco tempo depois de um namorado meu ter descoberto meu caderno cheio de começos de histórias e ter dado chilique achando que era um diário, que era tudo verdade. Até eu conseguir transformar esses remendos de personagens e diálogos em ficção em histórias mais complexas, foram seis anos de treino. E treino é escrever, escrever diariamente. E aí, antes de eu achar que já fazia alguma coisa menos amadora, alguém achou por mim e publicou um conto meu. Muito rápido. Com o romance, eu quero ir mais devagar. O editor me deixou à vontade com isso, acho que ele entendeu o que eu estou fazendo. O romance que eu comecei há dois anos está diferente do que era no começo e isso não é ruim. Não gostaria de entregar o livro sem ter experimentado nele o que eu aprendi com esses contos que foram publicados no meio do caminho. Cada conto que eu escrevi até agora me deu a sensação exata de um passo na direção do que eu quero. Escrever é a coisa na vida que me dá essa sensação. Minha expectativa com a estréia é em relação ao livro que virá depois. Se funcionar do jeito que eu quero, o próximo vai ser melhor e assim por diante. Eu quero é mais horas no dia, na noite para escrever.

 

EU – E a nova onda literária no Rio, como anda? O que acha?
ELA – O convívio é bom, trocar opinião é preciso. Mas, na hora de escrever, existe escrever. Sugiro menos farra, mais texto (e agora tenho 80 anos. Olha, o piercing… não, oitenta).

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– Na minha casa é que ela não está.

Foi o que respondeu Cecilia Giannetti à pergunta:

– Cadê a nova Clarice Lispector?

Isso foi durante o evento Encontros de Interrogação, que aconteceu aqui em São Paulo em novembro passado. Cecília era uma das convidadas, numa mesa que reunia as novas caras e apostas literárias.

Eta danado!

Aproveitei o reencontro com ela e tasquei, apaixonado:

– Você é toda mulher que eu gostaria de ser.

Antes que vocês digam alguma coisa, explicito: é a mais humana verdade, pô! Tenho paixão por escritoras e cantoras, quando descubro alguma à vista. E Cecilia é as duas coisas juntíssimas.

Lembro quando a conheci pela primeira vez. Foi na Primavera dos Livros, no Rio. Menina de cabelos cor de fogo e sorriso tatuado. Uma graça. Lá, em um microfone na alfândega, fazendo show para a moçada. Não lembro que música cantava. Mas a letra era bem boa.

E que letra! É só ler, por exemplo, os textos que ela tem publicado no movimentado site Paralelos (www.paralelos.org). Ou o seu belíssimo conto chamado “Ilha Debaixo da Terra”, que abre a antologia “Prosas Cariocas” (editora Casa da Palavra) etc. e tal.

Ouçam só, do conto, a frase inicial:

“Se essa mancha escura for mar, o mar fede”.

Eta!

Literatura, de fato, a gente já conhece pelo cheiro. Vigoroso. Curto e grosso, Nada de delongas, baby. Cecilia tem isso. Sabe escrever, envolver, cutucar. E mais nada é preciso – a não ser nadar.

“As crianças se jogam nas ondas pesadas, brilhando debaixo dos refletores novos, não se cansam, enchem as calçadas em frente à praia, bóiam no tanque curativo com pranchas, pés-de-pato, pneus”.

Digo “Eta!” de novo, Meu Deus!

Foi daí que fui, aqui e ali, conhecendo o trabalho da Cecilia. E me apaixonando ainda mais. Acompanhei matérias assinadas por ela no Jornal do Brasil. Comecei a visitar, assiduamente, o seu

www.escrevescreve.wordpress.com

Numa resposta longamente inspirada, Cecilia volta a falar sobre a autora de A hora da estrela:

– O problema não é a Clarice, mas as xerocadoras dela.

– Hã?!!

Meu coração já bate e rebate, assim, querendo dividir com vocês, agora, a mesma espera.

***

Entrevista com a escritora Cecilia Giannetti [Veículo sem link]

1. Comumente se caracteriza a literatura contemporânea pela ausência de fórmulas. Apesar disso, você identifica prescrições / proscrições na literatura do século XXI? Se sim, quem as receita?

Tem muita foca ensinada no ramo. Sempre vai ter. Quem joga a sardinha? Todo mundo sabe. A vaidade, o mercado, os editores, um certo segmento de público.

2.    Em Lugares que não conheço, pessoas que nunca vi, lemos que “todos sucumbem à estilização” (pág. 161). Como se caracteriza o estilo de Cecilia Giannetti, isto é, como a autora opera a sua “ordenação dos sonhos”?

Uso muito um monte de caderninhos antes de ir pro computador. Ou às vezes uso os dois no mesmo período em que começo a escrever um livro. Escrevo um turbilhão de coisas já com alguma ideia formada a respeito de uma história. Depois junto papéis, cadernos e Word; aí divido tudo em um arquivo principal e vários arquivos que não são exatamente capítulos formados ainda, mas diferentes partes da história; então corto, aumento, vejo como se comportam os personagens em torno do turbilhão inicial; junto tudo. Reescrevo mil vezes,  peço extensão de prazo ao editor, reescrevo novamente e entrego quando eu estiver satisfeita com aquilo. Se eu vivesse numa cabana com internet e praia, vivendo de livros e frilas, meus livros sairiam mais rapidamente; mas o processo de escrever e reescrever até que eu goste do que criei seria mantido de qualquer maneira. Apenas seria realizado em menos tempo. A vida, ao mesmo tempo que distrai, ajuda a escrever. E isso é complicado.

3. Beatriz Resende, em Contemporâneos, aponta como marca da literatura contemporânea uma “preocupação obsessiva com o presente” (pág. 27). Você também partilha dessa ânsia? Há lugar para alguma tradição (literária, inclusive) na sua obra?

Quando começaram a publicar as primeiras coisas que eu escrevi, contos, havia demanda pelo Presente. Um editor chegava pra gente e dizia: “Olha, fala do HOJE. Você têm medo de escrever sobre o seu próprio tempo.” E no caso da gangue com quem eu andava, éramos estudantes, com no máximo 24 anos e achamos que aquilo era necessário mesmo. Não quer dizer que eu tenha essa ânsia hoje ou jamais a tenha tido de verdade. Eu escrevo sobre o que me interessa, vou e volto no tempo. Não quero estar presa ao relógio em nada que eu faço, muito menos literatura. Isso era cool quando o Public Enemy começou e o Flavor Flav usava aquele relojão pendurado no pescoço.

4. Você acredita que a literatura brasileira contemporânea esteja paulatinamente voltando a preencher as categorias tradicionais ou ela ainda se dedica maciçamente à exploração dos meandros chamados pós-modernos?

Eu acredito que tem gente demais tentando agradar críticos e igrejinhas ao mesmo tempo, e também escrever de acordo com o que acreditam ser o modelo mais bem aceito nas competições por prêmios literários. É mais fácil fazer rabanada sem ovos do que obter satisfação esse malabarismo forçoso. Êxito, porém, obtem-se. Mas eu não sei falar sobre isso, não quero saber falar sobre isso. “Não responda a ataques de quem não tem categoria literária: seria pregar rabo em nambu. E se o atacante tiver categoria, não ataca, pois tem mais o que fazer.” => Drummond.

5. Em O século oculto, Nelson de Oliveira observa que “a prosa curta da Geração de 90 ora aceita, ora rejeita a relação sublime e absurda que há entre o homem e a natureza” (pág. 147). Esse movimento pendular também baliza seus contos?

Falando especificamente dos meus contos, estão quase sempre presentes animais e um forte desejo por paisagens não urbanas. É sempre um movimento de aceitação quando se trata de um personagem que traz mais a minha marca pessoal do que a de gente em que possa ter me inspirado para escrever e com quem não simpatizo.

6. Enquanto você escrevia o romance Lugares que não conheço, pessoas que nunca vi, já pensava em solicitar ilustrações para dialogar com o texto escrito ou essa necessidade foi posterior à escrita da obra? Em todo caso, por que agenciar a linguagem não-verbal?

Não, não. Acho que a resposta à próxima pergunta esclarece isso melhor.

7. Em seu romance, há  constantes referências a dentes, dentaduras, obturações, chupetas e mamadeiras, signos que também comparecem nas ilustrações de Christiano Menezes. Qual a importância desse diversificado complexo fágico no livro?

O ilustrador trabalhou a partir do meu texto, é a visão dele do livro. Não tinha em mente um livro ilustrado, ele quis fazer e eu deixei porque na época ainda nos conhecíamos bem.

8. Podemos identificar, em Lugares que não conheço, pessoas que nunca vi, uma tendência alegorizante, materializada, dentre outros exemplos, na Central do Tédio e no Porco de Silício. Essa preferência pode ser entendida como uma das diversas manifestações do diálogo entre a literatura contemporânea e o cinema? Por quê?

Imenso prazer em responder esta.

Você menciona como “tendências alegorizantes” dois episódios do livro que retirei de experiências e convivência reais.

O Porco de Silício não é uma alegoria. Quando aconteceu, eu estava com uma amiga antes de tudo atéia, cínica em relação a qualquer coisa que se possa querer atribuir ao sobrenatural, cética. Formada em filosofia pela UFRJ, um osso duro de roer. Deus, diabo, goblins, pogroms, gremlins, duendes, santos, religião, exorcismos, fantasmas – em nada disso ela acredita. É capaz de chutar macumba na rua. Não crê nem mesmo na existência de uma alma que habite o corpo.

Na época a gente não tinha bebido, fumado, consumido nada que alterasse a percepção, estávamos sozinhas batendo papo no meu quarto. Era dia, numa casa no subúrbio. Também naquela época a gente não lidava com literatura, não foi uma “histeria coletiva literária”.

Aconteceu o que aconteceu – ou melhor: experimentamos juntas e sóbrias o que experimentamos e que é o que relato naquele capítulo do Lugares que não conheço, pessoas que nunca vi.

A companheira de experiência continua atéia e cética em relação a tudo que já mencionei. Exceto o Porco.

Conversa de 02.11.09 entre mim e ela sobre o Porco de Silício:

Eu: O que você pensa hoje do Porco de Silício? O evento.

J.: Olha… uma questão dos canos da casa? rs… Não sei explicar.

16:27

Eu: Era forte aquela “presença”? Você se lembra dela assim?

16:

J.: Lembro do barulho que se aproximava da gente, né, num crescendo.

Eu: É isso que estraga a hipótese dos canos até hoje. Eu também me lembro que era uma coisa que ia chegando perto.

16:28

J.: Foi uma experiência. Realidade concreta e experimentada. Acho diminuidor procurar explicação de verdade. O que a gente experimentou, a gente experimentou. E isso basta. Sabe o que é engraçado? Eu nao lembro do depois. Parou o barulho?

Eu: Lembro que o barulho parou quando chegou gente em casa.

Se você soubesse que o Porco de Silício está aqui e eu te chamasse pra experimentar aquilo de novo, você viria?

J.: Eu iria

Eu.: Por que você viria?

J.: Pra reeencontrar o Porco.

Sobre diálogo entre minha literatura e cinema, J. toma a fala novamente. Ela faz mestrado em literatura agora e também escreve pra uma revista de cinema. É uma das primeiras pessoas a ler um livro eu, antes do editor:

J.: Ler aquilo e pensar em cinema… seu livro não tem nada que tome emprestado narrativa de cinema. Justamente ele dificulta a imaginação de um tempo fluido. É cheio de durezas, é feito de vestígios. É linguagem pura.

Enquanto estamos no terreno das esquisitices desse romance, gostaria de acrescentar que:

Se existe um traço “profético” no livro é “Meus amigos perdiam seus contornos um pouco a cada dia: Uma vez um deles apareceu com o nariz no lugar do pescoço; o outro, a orelha no lugar da boca; um terceiro alojou uma ferradura no lugar do coração”.

9. Conceitua-se, em seu romance, a ideia de “imaginação disfarçada”: “o evento imaginado disfarçadamente é constatado como fato corriqueiro com que se pode contar garantidamente” (pág. 178). Como esse conceito orienta a trajetória da protagonista e do próprio romance?

A narradora uniu o útil ao agradável: não estava satisfeita com a própria rotina, com a maneira como vinha se deixando levar a vida e, ao mesmo tempo, amalucou-se. É cruel, é uma análise fria dizer que “juntou o útil ao agradável” para escapar a uma rota de vida que não considerava satisfatória e aproveitou incidentes, mesmo encorajou acidentes, para que pudesse alterar essa rota. Ela afrouxou os próprios parafusos ou se tornou enfraquecida o bastante frente a fatos que não podia alterar – como a cena que é meio traumática pra ela, no começo do livro – para que esses parafusos se soltassem. Facilitou? Não sei se existe tal coisa, mas enquanto eu escrevia e ia conhecendo a mulher, me pareceu que era isso que estava acontecendo. Quem sou eu pra julgá-la?

10. Por que, em Lugares que não conheço, pessoas que nunca vi, “talvez o nome dos lugares e das pessoas realmente tivesse importância fundamental no destino.” (pág. 16)?

É um traço supersticioso da personagem. O mínimo de controle sobre sua rotina, que ela perde, ou de que abre mão, ou que nunca teve, lhe traz a necessidade de carregar superstições. Ser devota delas. Como quando ela se obriga a ouvir o noticiário antes de sair de casa e a todo momento, para tomar conhecimento de toda e qualquer coisa ruim que possa estar ocorrendo em seu bairro, cidade, no mundo – como se assim pudesse ter controle.

Cristina, como muita gente, incluindo a torcida do Flamengo multiplicada por bilhão, quer ter controle sobre seu mundo. Embora a gente saiba muito bem que toda sensação de controle é ilusória. Mesmo um escritor não tem 100% controle sobre seus personagens.

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BATE-PAPO UOL COM Cecilia Giannetti – 20/11/2007 às 15h00

Cecilia Giannetti

A escritora e roteirista conversou com os internautas sobre “Lugares que Não Conheço, Pessoas que Nunca Vi”. O seu primeiro romance conta a história de uma repórter de televisão que entra em crise ao presenciar uma forte cena para a qual pensava estar preparada e acaba sendo arremessada para uma nova realidade.

(03:06:43) Cecilia Giannetti: olá, boa tarde!
(03:06:49) joana: qual a diferenca de escrever contos e um livro? quer dizer, fora as básicas… qual a experiencia mais desgastante?
(03:08:39) Cecilia Giannetti: oi, joana, tudo bom? escrever um romance pode ser muito mais desgastante. com certeza foi meu caso com o primeiro romance, “lugares que não conheço, pessoas que nunca vi”. em relação aos mais de dez contos que eu já havia publicado antes, a experiência do romance foi de lascar. mas valeu a pena. o livro é o que eu queria dizer enquanto o escrevia.
(03:10:04) MANDRAKE: Oi, vc ainda participa de saraus de poesia, como aqueles que aconteciam em Santa Teresa?
(03:13:07) Cecilia Giannetti: oi, mandrake. cheguei a ir a alguns eventos acompanhando amigos poetas. mas não escrevo poesia. um ou dois poemas por ano é o que me permito, só para ter certeza de que não é mesmo minha praia. mas gosto de ler poesia. o bom desses eventos é que me colocam em contato com autores novos.
(03:13:39) alice: oi, cecilia! a ação do seu livro é resultado de uma cena violenta vista pela personagem. vc já viu algo que te transformou tb? morar no brasil e ter toda essa violencia foi fundamental pro tom do romance?
(03:18:10) Cecilia Giannetti: alice, a personagem já está transformada pela paranóia em relação à violência (que é inteiramente justificada pela realidade infelizmente), no momento em que vê a tal cena. mas é verdade, sim, o Rio e o estado que as autoridades dizem não ser uma guerra, são fundamentais para a construção daquela personagem e do mundo que ela recria na paranóia dela. já me colocaram fuzil na cabeça, numa estrada, voltando de uma viagem. eu era a única mulher no carro quando os bandidos nos fecharam e fizeram todo mundo descer. não entrei em choque, mas aquilo mexeu muito comigo. faz dez anos e eu nunca esqueci. de lá pra cá, acho que todos concordam, a situação não melhorou.
(03:18:36) luda: oi, cecília , como vai. O artigo que hoje li na Folha poderia ter sido escrito por mim. ainda sobre a coluna de hoje gosto também de sentir o que o povo fala sempre que saio e como você disse espreitar o homem sem que ele perceba
(03:19:36) Cecilia Giannetti: oi, luda! tudo bem? aqui, tudo certo. adoro quando alguém comenta as colunas comigo. é o melhor feedback. quanto ao tema da coluna de hoje, sou bisbilhoteira mesmo. o tempo livre que tenho, gosto de pegar boa parte dele pra olhar gente na rua e, se possível, escutar conversas. rende que é uma beleza para quem escreve.
(03:20:01) carola: oi cecilia, tudo bem? a crítica que saiu na Folha diz que seu livro é movido pelas esquisitices do tédio. vc concorda? se sim, quais esquisitices são essas?
(03:26:15) Cecilia Giannetti: carola, tudo certo? o tédio, definitivamente, não é o que move a protagonista, que às vezes é narradora, às vezes é observada como uma peça distante no jogo que eu criei ali. o tédio move os personagens que – não por acaso – reunem-se numa espécie de clube móvel chamado “Central do Tédio”. tive a ideia, ali, de descrever sintomas da minha geração que percebo há muito tempo. não falta exatamente ânimo… talvez haja medo demais, comodismo. o tédio está presente, mas não é a mola do livro. o medo é a mola do livro, enquanto a personagem procura se livrar dele e encontrar um estado menos angustiante de ser.
(03:26:23) 4trackfan: cecilia, e a sua banda, o 4track valsa, que depois virou casino, acabou mesmo? eu vi um show de voces em curitiba num festival e amei!
(03:29:07) Cecilia Giannetti: 4trackfan: 4track e casino acabaram. o ex-guitarra e tecladista da banda, christiano menezes, fez todas as ilustrações do meu primeiro romance, assim como a capa e até as fotos de divulgação. ele é artista plástico e fotógrafo. eu sou escritora. nós éramos a dupla que compunha. compor, ensaiar e viajar pra fazer shows é impossível pra gente.
(03:31:23) Cecilia Giannetti: 4trackfan: comecei a escrever meus primeiros contos quando a banda ainda existia. acharam um caderno meu, naquela época, e pensaram que se tratava de um diário. eu tinha escrito atrocidades. resultou num mega mal entendido :-) nem eu mesma sabia o que estava escrevendo. foi assim que começou, foi por aí que percebi que meu lugar não era bem na música. amo cantar, espero ter mais tempo pra isso daqui em diante, mas preciso escrever. senão eu tenho um troço.
(03:30:00) rafa: ha quanto tempo e escritora?
(03:33:38) Cecilia Giannetti: rafa: meus primeiros textos que eu poderia qualificar de contos apareceram em 1998. eu tinha passado pelo assalto com fuzis na estrada. depois por uma cirurgia para retirar um tumor (benigno, graças a Deus). uma separação. e então uma experiência com ácido. já escrevia livrinhos infantis quando era criança. acho que o mix dessas experiências me fez “voltar” à minha atividade de infância, que era justamente escrever.
(03:33:55) joão: Vc faz parte de uma geração de novos escritores. Quais são seus autores favoritos desta geração, e vc acha que os autores dessa geração têm algo em comum?
(03:38:26) Cecilia Giannetti: joão: tive a sorte de ler os originais do livro do teu xará, joão paulo cuenca, enquanto terminava de revisar o meu “Lugares…” e João tb leu meus originais. Achamos vários pontos cruzados – desconstruímos, cada qual a sua maneira muito própria, a cidade em que vivemos e a tranformamos num playground maníaco à nossa moda. diferentes mas vizinhos. isso é um exemplo. cada vez que leio um livro da chamada nova geração, procuro afinidades – inevitável – mas tb busco o que nos diferencia. temos algo em comum, mas me interessa mais o que cada um me mostra de diferente.
(03:38:33) Moderadora/UOL:

Capa de “Lugares que Não Conheço, Pessoas que Nunca Vi”, primeiro romance de Cecilia Giannetti (crédito: reprodução)
(03:38:37) carola: a critica do livro publicada no o globo, e, acho que posso dizer, um ensaio sobre a violencia urbana e o lugar que isso ocupa na literatura hoje. ate que ponto voce considera o “lugares” uma cronica urbana. uma observação, “pronta pra guerra” do rio de janeiro?
(03:42:32) Cecilia Giannetti: carola: a crítica do Globo foi profunda, a que eu mais demorei para ler porque sabia que ia ser pesada. de uma maneira boa. me fez pensar sobre o que eu tinha escrito e isso às vezes é difícil, em se tratando de livro de estréia recém-lançado. cheguei a ver o “Lugares” quase como ficção científica. na verdade, tive medo de que fosse rotulado assim. por outro lado, pode se dizer que é uma distorção – hiperbólica – da realidade não só do rio, como de outros buracos em que têm nos enterrado neste país. mas uma distorção em cima de uma realidade que, por si só, já é exageradamente absurda. talvez por isso não tenham considerado ficção científica, mas crônica urbana, cenas como a de mendigos sendo engolidos por buracos que se abrem automaticamente no chão para devorá-los. para ficar num só exemplo…
(03:43:01) jorge: oi cecilia! caetano falou “E sei que a poesias está para a prosa/Assim como o amor está para a amizade/E quem há de negar que esta lhe é superior” sei que vc edita um portal tb. e aí? quem é superior? rs
(03:45:43) Cecilia Giannetti: jorge: acredito que é superior todo texto, independente da forma ou temática, que se transforma junto ao leitor. um texto “plano”, tenha sido ele escrito com a intenção de tornar-se poesia ou prosa, não me interessa como literatura; “plano”, que não me toca, não me interessa.
(03:47:47) Pattoli: oi Cecília. gostaria que você contasse um pouco do seu processo para escrever. você senta na frente do computador e se obriga a escrever ou a inspiração vem fácil no dia-a-dia?
(03:50:59) Cecilia Giannetti: Pattoli: preciso de tempo pra entrar no livro. um tempo que não pode ser programado por prazos mordiscando minha canela. preciso me desligar de tudo, fico sem sair de casa e tb acabo tendo que desligar todos os programinhas maravilhosos de interação que me mantêm em contato com amigos que moram longe de mim. desta vez, enquanto escrevo meu segundo romance, Cafe Fatal, vou tentar fazer diferente, um corte menos radical. para escrever as crônicas da Folha, meu roteiro é outro: vou pra rua, com um bloquinho. às vezes o tema sai do que observo, às vezes não presto atenção em nada em volta e escrevo em cima de uma idéia que já vinha matutando.
(03:52:18) Bombay: cecilia, como começou sua coluna na folha? voce acha que ja encontrou seu formato para uma coluna semanal?
(03:55:11) Cecilia Giannetti: Bombay: minha coluna desde o começo é o olhar de uma carioca sobre outros cariocas – ou sobre qualquer outra gente e lugar com o qual eu entre em contato. às vezes é mais bem humorada, noutras, como no caso daquela sobre o acidente da TAM, é mais “downtempo”. pode ser desesperada. é um aqui-e-agora com a minha voz, meu estilo de narrar.
(03:55:15) MANDRAKE: Que dica vc daria para um escritor em começo de carreira?
(03:57:26) Cecilia Giannetti: Mandrake: ler e escrever diariamente. separar um horário do dia ou da noite para isso. não deixar de ler os contemporâneos, mas também não perder tempo demais com um texto que nitidamente não te agrada. comece escrevendo QUALQUER COISA. escrever começa assim, ir mexendo numa primeira frase até que ela se torne outra coisa e outra coisa e outra coisa.
(03:57:30) Pedro_Poplist: que tipo de música você gosta de escutar quando ta escrevendo? tem diferenças quando você tava se concentrando no seu romance, ou quando você ta escrevendo uma coluna?
(03:59:33) Cecilia Giannetti: Pedro: com raras exceções, enquanto escrevo, a música de prefrência não pode ter vocal. jazz velho, bem velho. big bands. swing. mas na maioria das vezes prefiro silêncio total.
(04:00:55) Cecilia Giannetti: Pedro: a coluna da Folha escrevo no som da rua. às vezes no meio de uma feira, literalmente, como foi o caso do texto sobre a Feira de São Cristóvão e outro sobre o Chorinho na Feira de Laranjeiras
(04:00:15) Lucia: oi, Cecília, a crítica da Cult foi muito dura tanto com seu livro, como de outras “novas” escritoras. Cabe fazer aquilo tipo de direcionamento do olhar do leitor sobre novas produções?
(04:02:32) Cecilia Giannetti: Lucia: não cheguei a ver a Cult. Se cabe tentar impedir o leitor de chegar a um livro com uma crítica destrutiva? É o editor de cada veículo quem decide. Outra discussão é: quem critica está aparelhado para criticar?
(04:02:51) Bia bhte: Ola ,muito boa tarde! gostaria de saber o pq desta capa do livro de onde veio esta inspiração?
(04:05:59) Cecilia Giannetti: Bia, boa tarde! A capa quem fez foi Christiano Menzes, artista plástico que conheço desde os 10 anos de idade e um dos raros capistas que lêem os livros antes de criarem qualquer coisa no photoshop para cobri-los. Dentro da TV, na capa, vemos uma cesária. Gosto da maneira que ela remete ao coração de Cristo numa folhinha na parede atrás da TV. Na contracapa, tempos um jarro de flores de plástico, suburbaníssimo. O tom de azul lembra o muro da casa da avó do personagem Baiano, que tem um centro espírita. A boneca de olhos vidrados… bom, descrever cada coisa é uma viagem sem fim. Vai ver a gente deve perguntar ao artista :-)
(04:07:59) Cecilia Giannetti: agradeço a todos aqui no bate-papo e ao UOL pelo convite. foi muito boa a conversa, adorei o feedback. obrigada, amigos.
(04:08:14) Moderadora/UOL: O Bate-papo UOL agradece a presença de Cecilia Giannetti e de todos os internautas. Até o próximo!
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escritoras06
CECÍLIA GIANNETTI
29 ANOS – RIO DE JANEIRO

Eu era dessas crianças que faziam ‘livrinhos’. Escrevia a história, ilustrava, grampeava as páginas, bo-lava uma capa”, lembra a carioca Cecilia Giannetti, sobre o começo da “carreira” como escritora. Jornalista, Ciça, como é conhecida, tem vários contos publicados em livros e agora se prepara para lançar seu primeiro romance, no ano que vem, pela Editora Agir. “Em 1998, coloquei umas idéias em um caderno. Era um monte de barbaridade, nem eu imaginava que estava começando um conto. E quem leu – bisbilhotou, na verdade – não sabia que era ficção. Foi ali que notei, pela primeira vez, que o que escrevia poderia ter impacto sobre outras pessoas. E, mesmo sendo ficção, representa um grau de exposição enorme para o autor”, conta Ciça, sobre as primeiras linhas escritas. Mas foi só quando começou a trabalhar diariamente em uma redação de jornal que percebeu que havia nascido para ser escritora. “Fiquei sem tempo para escrever. E, se não escrevo, não sou eu. Vi que não dava”, assume. Outra paixão é a música. Ela tocava guitarra e cantava na banda Casino. Hoje faz pequenas apresentações.