Vi o quebra-cabeças formar uma imagem – feia, torta, que de certa forma registra a jornada aos trancos e barrancos até o fim, até o fundo do Rio de Janeiro

Saiba como é andar de carro sem consentimento com um político corrupto e ser exorcizada pelos policiais homens-de-preto dentro de seu batalhão => AQUI, na VERTIGEM.

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3rd COM A LEXINGTON

Ele surgiu de uma pira na Lexington, eu ando de casa até o trabalho porque acho a caminhada de meia hora mais simples do que me perder no metrô e ir parar em Coney Island (já aconteceu, sejamos realistas). Ele estava com roupas boas, pelo menos eu sairia com um cara que usasse aquele estilo, e o fogo não tinha consumido nem um fiapo do que ele vestia. A primeira coisa que o desconhecido disse foi “Isto não é fogo, é água”, apontando a pira.

Continuei andando, a quantidade e variedade de incidentes desse tipo na cidade é tamanha que nada é capaz de parar alguém que tenha um local e um horário pra estar. Quem está na cidade apenas pra perambular, ironicamente, é quem costuma parar. São estas as pessoas que se interessam por esse tipo de coisa, eu acho.

Enfim.

Por algum motivo ele passou a caminhar ao meu lado, e eu não entendi isso como algo pessoal. A definição de pessoal, “personal”, que eu aceito e aplico sempre diz respeito ao outro; é coisa dele, não minha. São sempre os outros, não nós, não você. Neste caso, certamente não era eu.

Primeiro achei que a fumaça vinha das saídas de aquecimento da rua, então notei que os vapores o acompanhavam conforme ele me acompanhava. Continuei o meu trajeto porque o trajeto é meu, não importa quem ande ao meu lado.

Meu celular vibrou no bolso da frente do casaco e eu atendi no terceiro ou quarto toque, percebendo a voz impaciente de Ellie através do aparelho, misturada a um irônico “Isso, vá em frente, atenda, finja que não estou nem aqui. Mande lembranças a Ellie”, que, naturalmente, vinha do homem fumegante. Ellie reclamou das cortinas outra vez, disse que não pagaria sua metade do aluguel se eu não tomasse uma providência, porque, pelo nosso acordo, toda a limpeza de mobiliário ficava por minha conta e as cortinas claramente são mobiliário, e estavam cheias de poeira havia meses, e ela sabia disso porque suas alergias a estavam atacando na voltagem máxima havia meses. Eu prometi tirar as cortinas à noite, quando chegasse do trabalho, embora meu plano para depois do trabalho fosse outro. Ellie espirrou teatralmente algumas vezes e desligou o telefone.

“Ellie não estava espirrando de verdade, você sabe disso”, ele falou. Eu respondi que tinha certeza absoluta disso, mas que ia tirar as cortinas e lava-las de qualquer maneira no fim de semana porque, é aquele negócio… não vale a aporrinhação.

“Por favor, a gente pode parar aqui por alguns minutos?”, ele pediu de repente. Agora havia uma trilha, como um córrego, por onde ele passava, uma pequena cascata límpida caindo pelo meio-fio. Algumas pessoas xingavam alto e faziam gestos obscenos, porque – seus sapatos etc.

“Eu não posso.”

“Você não quer. Tem dez minutos sobrando e você não quer.”

“Ok, eu não quero.”

Ele foi ficando para trás enquanto eu avançava pela calçada. Entrei no prédio da 3rd com os meus (agora, quase) dez minutos de sobra, que usei para pegar café fresco noutro andar e confirmar os planos da noite com a estagiária, antes de me fechar na minha sala e esquecer de t-

Adote um turista

POR CECILIA GIANNETTI

Não é obrigação de ninguém. Grande parte dos turistas brasileiros no exterior, é risco controlado afirmar, não gozam da mesma mordomia quando viajamos pelaí. A questão é que parece que somos intrinsecamente assim, um clichê de propaganda do Ministério do Turismo: abrimos o sorriso, lhes damos informação – e se bobear, até casa e comida.

Falo de nós em relação aos turistas, característica notável em muita vizinhança e situação.

Eles estão chegando. Na verdade, eles nunca vão embora. Não do Rio de Janeiro. Não onde observo seu fluxo fremitoso, nas praias, bares e festas, misturando línguas em um uníssono ininteligível no footing do calçadão indo do Leme – não exageraria afirmando que chegam ao Pontal (Recreio ainda não está nesse nível de badalação, mas, como a cidade só cresce, é questão de aguardar alguns anos) – bem, até São Conrado. E os subúrbios ainda não recebem turistas aos borbotões. Como boa parte dos cariocas, os turistas também preferem ficar amontoados na Zonal Sul.

Arpoador

Especialmente por estarmos sob a regência de Eduardo Paes (Vocês viram a manchete da posse: “Em discurso, o prefeito reeleito pediu a contribuição de todos”), temos acumulado bom carma assumindo de vez em quando uma vertente altruísta, com boas ações individuais que suprem deficiências que a Cidade não deveria oferecer em sua alta estação, nem em qualquer outra.

Aliás, chuta o balde: não existe mais baixa estação no Rio já há algum tempo, basta checar com os hostels e hotéis, que vivem uma era apoteótica.

Os hostels inclusive andam absorvendo os hóspedes que vários hotéis que não têm mais capacidade de recebe-los, seja por seu combo de preços extorsivos + infraestrutura risível, seja porque, ainda que se ofereçam em tal estado, ficam lotados. Somente na rua onde moro há três hostels e três hoteis. Um dos hotéis, o Novo Mundo, passou por uma reforma em 2010. O Hotel Inglês e o Hotel Hispano Brasileiro têm aparência bem menos afortunada, com um certo ar acanhado pela proximidade do outro, reformado, maior, tradicional, que fica na esquina com a Praia do Flamengo. (O Hotel Novo Mundo é onde começa a história do livro “Quase memória” de Carlos Heitor Cony.)

Praia do Flamengo, próximo ao Hotel Novo Mundo

Mas eu falava de atos altruísticos, como adotar um turista no Rio de Janeiro. Só por este verão. No próximo tudo já estará melhorado para que as expedições de forasteiros às terras cariocas não careçam mais de tal subterfúgio. (Esta frase é um oferecimento do meu novo “eu” otimista que fez sua estreia em meados de 2012 e persiste).

No pré-reveillon adotei uma família de berlinenses. Meu coração explode de bondade e boa vontade e talvez um pouco pelo excesso de lula frita consumida no fim do ano.

Os berlinenses foram muito fáceis de achar, não necessitei recorrer a um serviço de adoção internacional nem excursionar em busca deles como Brangelina catando novos bebês. E creio que o leitor que quiser um par de belgas ou um australiano tampouco terá dificuldade em encontra-los em qualquer calçada da Cidade.

No meu caso os berlinenses simplesmente se sentaram ao meu redor em uma mesa da Adega Pérola, obedecendo ao mais puro acaso, como é a regra da bodega portuguesa localizada em Copacabana.

A Adega Pérola, como já expliquei cá noutra coluna, possui essas mesinhas estreitas de seis lugares. As pessoas chegam ao bar em trios, duplas, quartetos, etc. E, como a casa é pequena, acabam se sentando junto a outros grupos diferentes. Como três cariocas e três berlinenses em uma mesa. Então os dois diferentes grupos formam um novo e único grupo de bate-papo. E inevitavelmente os não-locais estão sempre em busca de insider information sobre o Rio.

Uma pergunta comum em dezembro: “Ir à Copacabana na virada ou não?”

Não vá a menos que você tenha um apê onde cair no bairro mesmo, com comes e bebes e uma boa cama para se recuperar da festa. No dia 31 de dezembro não tente entrar em Copacabana. Não tente sair de Copacabana. Assim desejam nossos governantes, ao fechar os acessos para veículos e instituir um bilhete especial de metrô para a data (com horários específicos em cada lote de bilhetes, que fazem com que você só possa utilizar o seu bilhete no horário marcado nele: entre 21h e 22h, por exemplo).

Outra pergunta comum em dezembro: “E onde posso encontrar uma festa para passar o Réveillion?”

Festas em locais bacanas, organizadas entre DJs e produtores, podem custar entre R$ 250 (as bem simples) e R$ 800, às vezes mais. E os salgados ingressos para essas celebrações esgotam bem antes do dia 31.

No carnaval as variações daquelas perguntas tornam-se mais complicadas de se responder, pois envolvem explicar a dinâmica dos blocos de rua; como e onde encontra-los; o que significa “esquenta” e por que esse aquecimento às vezes é mais divertido do que sair com o bloco; como a utilização de um banheiro químico barbarizado pela passagem de diversos blocos NÃO vai lhe dar uma doença venérea, etc.

Deck na Praia do Flamengo

Curiosamente, em relação ao transporte público, eles são bem safos. Mesmo com nossa carência de placas decentes (Sim, poderia ser melhor, deveria ser melhor). Já testemunhei a gesticulação frenética entre um chinês em um ônibus que ia de Copacabana até o Leblon e a trocadora. Ele não tinha um mapa, nem falava ou compreendia qualquer palavra em português. Nem inglês, que alguns de nós até tentamos emplacar com ele. De alguma maneira a trocadora conseguiu fazer com que ele compreendesse que, para chegar a Ipanema, ele deveria saltar imediatamente e andar duas quadras para trás, pois passara do ponto. Para que essa mágica ocorresse, bastou que o sujeito dissesse “Parimá, Parimá“. Ele repetiu a palavra umas três ou quatro vezes, até que sua pronúncia fosse pescada pela trocadora e outros passageiros, que também tentavam ajudar.

Faz-se necessário colocar em local estratégico de Ipanema a placa onde se lê “Parimá”. No resto eles se viram – com a ajuda de algum carioca.

THE RUM DIARIES

There was no shortage of people to drink with in those days. They never lasted very long, but they kept coming. I call them vagrant journalists because no other term would be quite as valid. No two were alike. They were professionally deviant, but they had a few things in common. They depended, mostly from habit, on newspapers and magazines for the bulk of their income; their lives were geared to long chances and sudden movement; and they claimed no allegiance to any flag and valued no currency but luck and good contacts.