VELHAS NOVAS

Lima Barreto estreou no Correio da Manhã em 1905 com uma série de reportagens sobre as primeiras escavações no Morro do Castelo, primeiro local de ocupação do Rio de Janeiro, após a transferência da vila montada no Morro Cara de Cão, na Urca. Em 1920, o escritor questionou a demolição total proposta pelo prefeito-engenheiro Carlos Sampaio. Em 1922, por ocasião do centenário da Independência do Brasil, Lima escreveu em Careta que o povo carioca só se interessava por football e fogos (além das paradas militares). Em 1919, foi internado no Hospício Pedro II, justamente na Urca, onde também fui interna enquanto cursava jornalismo, nas dependências do manicômio herdadas pela Escola de Comunicação da UFRJ – gosto de lembrar.

Correio da Noite, 19/01/1915: “Infelizmente, nos preocupamos muito com os aspectos externos, com as fachadas, e não com o que há de essencial nos problemas da nossa vida urbana, econômica, financeira e social”. Lima criticava, então, numa antiga folha carioca, a fixação do prefeito Pereira Passos – que governara a cidade entre 1902 e 1906 – pelo embelezamento dos seus “passeios”, em detrimento de preocupar-se com medidas para solucionar o caos urbano. Claro, ainda não se tratava de violência pulp, avassaladora. Eram as chuvaradas de verão, que destruíam casas e alagavam ruas, como em 1915 seguiram fazendo e o fazem ainda hoje.

Quase um século atrás, o estrago causado pelas chuvas já era assunto recorrente nos textos de cronistas que decidiam implicar com certas manias dos administradores da cidade. Como a de transformar o Rio de Janeiro numa Paris dos trópicos, idéia que não pode ser atribuída exclusivamente a Passos – chegou a empolgar prefeitos birutas mundo afora, com diferentes resultados.

Naquela espécie de concurso megalomaníaco para ver quem construía as melhores réplicas de boulevards da capital francesa, como se as cidades fossem feitas de peças de Lego, Pereira Passos aloprou: remodelou o Rio, removeu cortiços e expulsou o “excedente” da população do Centro. Mas – aí é que está a pegadinha – deixou de fora da reforma o Morro do Castelo. O prefeito não gostava das cabras, galinhas e porcos, nem das roupas penduradas em varais desordenados que podiam ser vistos da sua avenida Central, aberta em 1906 à custa da destruição de uma parte do Castelo. Considerava o local e seus habitantes um problema de saúde pública, que deixaria para seus sucessores.

Quatorze anos após a administração de Passos, o prefeito-engenheiro também não gostava nem um pouco daquela montanha salpicada de pobres. Derrubou-a inteirinha, arrasando o bairro da Misericórdia, que ficava no sopé, e duas áreas residenciais paupérrimas que haviam resistido à “higienização” de Passos. Em dezembro de 2007, seria inaugurado no exato local onde ficava o Morro um estacionamento para 250 veículos, com direito a bicicletário e elevadores.

Cada época com seus dramas? Não. É cumulativo. Os séculos se misturam, os erros, embolam-se ao football, às praias, aos fogos de artifício de outras décadas, aos turistas assassinados e nativos sem teto. Nunca foi tão fácil enlouquecer no Rio de Janeiro.

SONETO PARA THE EVENT E OS AMIGOS QUE PULARAM DO AVIÃO QUANDO SAÍ DE MIM

Deus abençoe a sinceridade.

A jukebox do Village Voice.

O Village Voice soltando tinta em meus dedos.

Uma calçada da 23 com a Lexington. O Bowery. E Kreuzberg. São Paulo, RJ, aqui.

Um labrador que espera o fim do dia de trabalho de seu dono em frente à mesa da recepcionista num edifício preto e espelhado.

Um muy aguardado e-mail sobre o que fazer com o sonho de escrever e o medo de morrer sozinho.

Minha predisposição a jamais não gostar imediatamente de alguém. “Mas ele tentou te matar!”. Tenho certeza de que tinha um bom motivo.

Os ursos que nos abraçam e nos devoram, pra cuspir a carcaça fora no rio. (ALÔ, AMIGÃO).

A única maneira de saber quem é quem (cochicho ininteligível, close da boca do herói da série em sua orelha antes que pule do helicóptero: “Tenho uma filha no Alabama, cuide bem dela… e, ah: a única maneira de saber quem importa é ver como reagem ao seu desmoronamento.”)

Acho que filha no Alabama é coisa de outro seriado.

Não importa, apenas assine o RSS e clique diariamente ou te cutucarei com uma morsa empalhada enquanto você dormir.

Segunda-feira, Maio 05, 2008

ACORDA PRA CUSPIR

I wonder if any of you have an entrepreneurial spark. If you did, you’d realize that traditional print, TV and radio journalism are on life support. Stop talking about your honorable, noble mission as journalists for a second and wake up. You’re in dying business models.

escrito às 4:20 PM por giannetti
Segunda-feira, Março 31, 2008

FOLHA DE S. PAULO

O fim da picada

São Paulo, terça-feira, 25 de março de 2008

CECILIA GIANNETTI

A secretária sempre acha graça quando troco, religiosamente, meu dispositivo anti-mosquito na tomada da parede. Já tive dengue não uma, mas duas vezes. Meus pais também, ao mesmo tempo que eu, na minha estréia naquele mal que transforma o doente em zumbi. Hoje temo a versão hemorrágica do pesadelo. Pavor infundado? Responda-me depois que tiver passado por um ou dois episódios de dengue – se sobreviver a eles.

Em meio à epidemia que varre a cidade, achei que deveria contar ao menos este particular a vocês. Os leitores não sabem muito sobre a maior parte das pessoas que se lhe dirigem nos jornais e revistas. Como se quem escreve as notícias não as viva vez em quando.

No meu caso, prefiro que as coisas continuem mesmo deste jeito: vocês aí conhecendo só parte do meu longo rosário de reclamações sobre cidades inchadas, não-cidadãos e des-governos, que desfio em crônicas quinzenais nesta Folha. E eu sabendo de vocês apenas o que me chega via e-mail. Cria-se assim um pacífico convívio virtual.

Pacífico desde que eu não me meta a falar do aparente epicentro da urbanidade contemporânea, o shopping center. Em dezembro passado quase fui linchada em praça (de alimentação) pública por ter escrito a respeito do comportamento aloprado dos consumidores durante a semana que precede a troca de presentes no Natal. Esqueçamos tal tabu agora, pois, neste trópico, o Natal só chega no verão. E ainda estamos no começo do outono.

Outono my ass!, fala a amiga japonesa-novaiorquina Kumiko, que acaba de desembarcar de mala-e-cuia no Rio. Já aprendeu três coisas essenciais sobre este não-lugar: 1) Que todo carioca vai repetir seu nome no diminutivo e rir toda vez que o fizer. 2) Que nosso outono é de mentira, assim como as políticas de prevenção e contenção da epidemia de dengue que ajuda a castigar mais ainda os já tão caquerados moradores desta cidade. 3) Que deve ter medo. Muito medo. Pois, como dizia Hunter Thompson, não existe paranóia. E como diria ainda outro gênio, Tim Maia, existe a percepnóia.

Fazer o quê? Kumiko quer ser boêmia da Lapa, gata do Posto 9, flor do subúrbio.

Ao final da tarde, 35 graus; à noite, 30. A questão já não é se está quente ou frio. Porém que, quanto mais duram as altas temperaturas, mais tempo têm para crescer os números de casos de dengue registrados (e os não registrados também).

Tudo isso vocês já sabem. Estão em toda parte os números da doença que há muito já deveria ter desaparecido. Vocês já leram que devem ter ocorrido não 47 casos de morte por dengue no Rio em 2008, mas o dobro disso; que são reportados mais de 50 casos por hora somente na cidade. As fotos que aparecem junto a notícias sobre dengue sugerem que em torno de shoppings não há os mosquitos-de-risco. Que as bromélias de um hotel em Copacabana ou poças de água inerte no Arpoador não são perigosas. Mas o mosquito está em qualquer rua, onde circulam professores, advogados, garçons, enfermeiras, garis, publicitários – e até jornalistas; quem disse que vaso ruim não quebra?

Gostaria que estivéssemos num tempo em que alguém pudesse me acusar de alarmista. Antes fosse exagero meu, e não abandono. Abandono é novamente a palavra que define esta velha-nova estação, em que sequer a temperatura mudou; que dirá a lentidão das autoridades a lidar com a epidemia que já fez neste ano mais de 20 mil doentes só na capital.

Haja repelente, Kumiko!

escrito às 7:25 PM por giannetti

Quarta-feira, Março 12, 2008

FOLHA DE S. PAULO

Meninismo

São Paulo, terça-feira, 11 de março de 2008

CECILIA GIANNETTI

O meninismo sempre existiu como o lado doméstico, escondido e até mesmo lúdico do machismo

“TÁ CADA VEZ mais fácil ser homem”, dizia com desdém de cuspe, e depois mandava o “rerere” grave emprestado dos velhos da última geração de boêmios cariocas. Aí repetia a sentença, afogando as sílabas finais da pretendida afronta num gole que matava 300 ml de chope. Eu não dava bola à provocação embutida na fanfarra do palestrante. A amizade entre sexos opostos demanda certo grau de surdez voluntária para que desentendimentos sejam evitados.

Estava longe de ser das coisas mais irritantes que o amigo -agora desaparecido- costumava dizer. A explicação que engrenava após a frase de efeito (“Tem mulher demais no mundo! Desesperadas! Sem filtro! Engolem qualquer porcaria!” etc.) não chegava a ser a sua contribuição menos graciosa a uma conversa de bar em que havia -comprovando, em alguma instância, sua precária tese- mais mulheres do que homens. Nem mesmo podia ser considerada uma postura machista. Tal pecha já caducou.

Impossível encaixá-la -sem forçar a barra- em qualquer padrão de comportamento vigente desde o final do século passado; não serve para qualificar as teorias e piadas do meu amigo desaparecido. E não foi só ele que sumiu. O próprio machismo tem estado ausente. Ou assumiu outras formas: como o meninismo, por exemplo, que de inédito nada tem.

O meninismo sempre existiu, por baixo de pêlos viris e ternos bem ou malcortados, como o lado doméstico, escondido e até lúdico do machismo. Bem traduzido no tom imperativo com que o homem-menino da casa pergunta se a sua refeição ou a roupa está pronta, entre outras questões práticas que cabem à governanta, secretária, faxineira, mãe e amante de cada moleque. Ao menos é assim que ouço falarem de seus ex-maridos uma e outra amiga descasadas.

Há ainda o depoimento da vizinha gay que, separada da mulher, notou que suas roupas já não flanavam elegantemente, sozinhas, da máquina de lavar ao varal e do varal até que se recolhessem ao armário. Mas que alguém deveria lavá-las e levá-las de um canto ao outro. Na ausência da ex-mulher -que sempre cuidara de tudo enquanto ela trabalhava no escritório, longe da área de serviço-, quem teria de assumir as tarefas domésticas era ela mesma. O que não foi capaz de fazer ainda, enfraquecendo assim argumentos sexistas que nunca foram lá grande coisa.

Neste mês das mulheres, coincidentemente, faz quatro semanas o sumiço do frasista em questão (meu amigo meninista, autor do clássico pensamento alcoolizado: “Tá cada vez mais fácil ser homem”). Por isso lembrei do repertório moderno de vantagens masculinas das quais ele se gabava -não por machismo, mas por saudades do tempo em que ser machista ainda significava alguma coisa. Ainda que fosse apenas chamar a Betty Friedan de “sapatão”.

Mas onde se enfiou esse meu amigo gaiato, menino de 11 anos em corpo de 30, com suas verdades masculinas supostamente inapeláveis, que sem querer transformava em piadas? Dedico-lhe uma anedota, para não perder o hábito:

Pane de homem não se dá durante o vôo, mas quando ele se vê obrigado a pôr os pés no chão. Se, por outro lado, consegue voar, vai embora feito folha de papel solta, Guido em 8 e 1/2, cada vez mais alto. As letras que formam seu nome despencam entre Paris e Madri, desabam como chuva sobre capitais frias as páginas de sua história pregressa, de quando teve chão. E agora, onde pousar, renascerá menino.

escrito às 4:17 AM por giannetti

Terça-feira, Março 11, 2008

the mind slave of the tongue

escrito às 4:18 AM por giannetti
Segunda-feira, Fevereiro 25, 2008

ESFINGE VANGUARDISTA

Cecilia Giannetti está disposta a todas as batalhas, tanto no terreno formal quanto na crítica social

Lúcia Bettencourt • Rio de Janeiro – RJ

Lugares que não conheço, pessoas que nunca vi
Cecilia Giannetti
Agir
229 págs.

“Primeiro romance da jornalista e escritora Cecilia Giannetti. De estilo incomum, ácido e entrecortado, este livro traz o amadurecimento literário de uma autora considerada uma das mais originais e atuantes do cenário contemporâneo. Um prazeroso exercício de vanguarda e inteligência, de extremo bom gosto.” Assim começa a apreciação sobre Lugares que não conheço, pessoas que nunca vi assinada por Mariane Morisawa na revista IstoÉ. “Incomum”, “ácido”, “entrecortado”, “vanguarda”, “inteligência”, “extremo bom gosto” demonstram bem o entusiasmo da autora da crítica com relação à autora da ficção. Morisawa continua seus elogios: fala que Cecilia “escreve com urgência”; diz encontrar “imagens e frases poderosas” , o que seria “um alento em meio a tantos romances simplórios”. Termina afirmando que “Cecilia Giannetti é uma autora que merece atenção”.

Claro que, com um arauto desses, o leitor chega ao livro com uma atitude de certo respeito, esperando encontrar páginas, no mínimo, clássicas. No entanto, Lugares… recusa-se a capitular facilmente. O livro é duro, hermético, de leitura difícil. Exige perseverança e persistência. Voltamos, então, às qualificações de Morisawa: – “incomum” -, sim, certamente incomum, bem como “entrecortado”. A história de uma jornalista que presencia uma cena de violência e entra numa espécie de surto, vem aos jatos, desconexa como delírios. Lembramos, então, que a crítica havia falado em vanguarda, e, certamente, há muito de vanguardista neste livro – na acepção mais bélica, o texto vem disposto a todas as batalhas, tanto no terreno formal quanto na crítica social de uma “cidade partida”. E, já que se fala em cidade partida, seu único espelho possível é um que também esteja partido, e isso já se anuncia na capa do livro. O excelente projeto gráfico de Christiano Menezes traduz não apenas os pesadelos dos personagens, como oferece a imagem ideal para a obra em sua capa: o espelho de nossa era, a TV, expondo nossas vísceras enquanto nossa cegueira aparece na boneca descomposta e um resquício de fé espreita ao fundo, tudo isso num ambiente descuidado, de velhos ladrilhos evocadores de hospitais, banheiros, ou copas mal mantidas.

As fraturas do texto, suas desigualdades, os vaivéns entre histórias e delitos se repartem em trinta e um capítulos de tamanhos diferentes, podendo conter apenas uma frase, como Registro, que abre o livro com uma sentença enigmática: “Um dia as coisas pararam de acontecer”. Se pararam, o que vai ser narrado não está acontecendo, seriam lembranças ou alucinações. E é por esse caminho que precisamos enveredar, nos flashes de memória de festas chatíssimas, pedaços de telereportagens, imagens de pessoas sem cabeça, fantasmas insistentes, considerações sobre o desaparecimento de amigos, sobre a opressão da fé, imaginações disfarçadas, sobre o tédio e a insipidez da vida, ou uma poderosa declaração de amor se destacando quase intacta no meio de ruínas, até que a imagem se congela em Cristina. Os cinco capítulos finais chamam-se Cristina, e falam, talvez, da cura da jornalista, ou de seu repúdio total ao mundo como se passa na TV. Cristina se livrando dos fantasmas; Cristina indiferente ao que vê na TV, mesmo quando vê a si mesma na telinha mágica; Cristina juntando os pedaços de imagens para descrever depois; Cristina descobrindo o presente, o vazio, o fugaz: “A felicidade é assim: aconteceu”. Cristina desaparece, também. O último capítulo chama-se Sobem créditos e consiste numa única frase: “Boa noite”. – despede-se.

Neste romance, que Cecilia tão bem parece descrever dentro do próprio texto (“[…] peças que contam a história de uma civilização. […] meu museu. A construção, no entanto, resulta rapeada, sampleada, em cacos – sua confusão mesma, o começo de outra civilização.”), estão expressas as angústias de uma geração, numa tentativa de controlar o vazio e o caos percebido. Escrever sobre isso é uma forma de exorcismo, talvez tão eficaz quanto a receita, citada no livro, retirada de Ovídio, outro escritor, mas das eras romanas, que, apesar de distantes no tempo, parecem tão conturbadas quanto nossos dias cariocas. Assim, é Cecilia quem diz que: “se nomeamos o fenômeno, dominamos alguma porção da loucura”. Talvez se deva lembrar o comentário que diz que nunca se escreveu tanto como ultimamente, e que o problema da literatura atual é que não existem mais leitores, só escritores. Cecilia, talvez tenha nos dado a chave desta tendência. Estamos todos tentando domesticar nossos monstros e as coleiras que fabricamos são de palavras. Remendadas, sampleadas, rasuradas, tal como aparecem nas ilustrações do livro, escrevemos os horrores que nos assolam e, sem tempo, nem vontade de ordenar o caos, deixa-se a tarefa aos leitores e à crítica.

E o leitor?

Há que indagar, então, qual o papel do leitor nesta nova literatura? O quanto do livro depende da colaboração do leitor? Essa é uma questão válida para as obras literárias de qualquer tempo. Proust chama a atenção para o fato de que, ao lermos um livro, estamos lendo a nós mesmos. Os romances escritos em outros tempos ombreiam com as narrativas escritas hoje e os leitores se identificam com os textos ou os repudiam, por não se encontrarem naquelas porções dominadas de loucura. “Cheguei ao meio do livro com a sensação de que não estava entendendo mais nada”, depõe uma amiga e leitora de Giannetti, Helena Aragão. No entanto, amiga fiel, persevera e termina de ler o livro, e, então, “come[ça], sem querer, a traçar a narrativa que, sim, está presente, sutil e impiedosa…” Ela reflete sobre a co-dependência entre livro e leitor, mas conclui: “Independentemente disso, alheia a humores está a certeza de um livro milimetricamente pensado – mas longe de ser um engodo, ele conta com palavras assustadoramente no lugar para formar esse mosaico disforme que deixa o Rio incompreensível”.

Talvez Helena se engane, e o que deixe o Rio incompreensível não seja o mosaico, mas o que esse mosaico revela – a atitude de quem, passivamente sentado frente a um aparelho de TV, absorve imagens cortadas e montadas, interrompidas por solicitações de MSN, de toques de telefone, de chamadas Skype, acompanhado de muito tédio existencial e de uma proverbial e desalentadora incapacidade de se dedicar aos outros, que, para receberem atenção, precisam se comportar como insistentes fantasmas, assombrações. Mesmo assim, é de Helena a percepção de que o livro é o testemunho da construção de um novo Frankenstein. Esse organismo construído de cadáveres cujas partes são resgatadas e coladas, formando um texto que precisa ser decifrado para deixar de ser ameaçador. Enquanto formos incapazes de compreender nosso mundo, ele continuará nos ameaçando, e mesmo o alívio obtido por “baianos” ou por alegrias químicas, não serão suficientes para impedi-lo de nos destruir e fragmentar, até nos transformar em algo igual à sua deformação.

Antes de terminar, acho conveniente mencionar a tarefa em que Cecilia Giannetti se encontra empenhada, um romance de amor passado em Berlim, para desejar que ela escreva palavras de tanta sinceridade e entrega como as que usa ao descrever seu personagem Baiano. Alguns dos melhores trechos do livro estão nas páginas dedicadas ao amor entre Cristina e ele. Diz a narradora: “Da primeira vez que toquei com as mãos os ossos dos quadris dele, empurrava aberta uma janela e o sol me lambia por dentro”. A atração entre os personagens é tão grande que ela percebe que “um homem me abraça inteira num aperto de mão”, enquanto os outros amantes tiveram “mãos covardes”. Trata-se de sexo – “hormônios ou o quê” – ou de amor, envergonhado, escondido atrás desse quê. Seja lá o que for, é verdadeiro. Bem sentido e bem escrito.

A AUTORA

CECILIA GIANNETTI nasceu no Rio de Janeiro, em 1976. Formou-se em Jornalismo em 2003 pela UFRJ. Já trabalhou no Jornal do Brasil, na Tribuna da Imprensa, e atualmente contribui para a Folha de S. Paulo. Tem contos publicados em várias antologias como 30 mulheres que estão fazendo a nova literatura brasileira, organizada pelo Luiz Ruffato, e também em revistas e blogs. Recentemente, Cecilia foi mandada para Berlim, participando do projeto Amores Expressos. O romance em decorrência da viagem ainda está em gestação, mas o blog narrando suas experiências demonstra sua amarga sensibilidade (http://blogdaceciliagiannetti.blogspot.com/).

TRECHO • Lugares que não conheço, pessoas que nunca vi

Temos os fantasmas que merecemos. Eles são feitos de coisas que não cabem aqui. Vieram sem anúncio e somente quando decidiram ir embora é que percebi o quanto sempre estiveram presentes, pois, até então, nunca haviam desaparecido. Estavam aqui e agora, se há matéria, é só palavra, papel, tinta – um fantasma no envelope fechado; um fantasma dobrado na gaveta. Que meia dúzia de palavras corajosas poderiam lhes escapar lá de dentro?

Temos o diário que merecemos. Ele é doce e partido, a promessa, a emoção do começo rápido!, antes que desapareça, é meu cada ponto de tinta em suas páginas, em que me imagino reportando misérias alheias. Recuperando peças que contam a história de uma civilização. Eu deveria erguer meu museu. A construção, no entanto, resulta rapeada, sampleada, em cacos – sua confusão mesma, o começo de outra civilização. Único lugar em que me imagino existir.

escrito às 1:57 PM por giannetti

Quinta-feira, Fevereiro 21, 2008

DJ

Amigos,

estou produzindo uma festa GLS no Rio de Janeiro chamada Hey Ladies!, em que vou colocar som, junto com as djs Miss Silk e deFátima (que também toca na Republika).

Como a maioria dos DJs por aí, eu tenho um pseudônimo: é DJ Bree, invenção da amiga e poeta Bruna Beber.

Com a festa, retomo o clima de vida noturna em que comecei a escrever meu próximo romance, Cafe Fatal, ainda em Berlim, no ano passado. No Rio, não costumo sair à noite há anos. Literalmente, anos. A única maneira de me forçar a sair da toca novamente seria com a obrigação de eu mesma organizar, divulgar e fazer acontecer uma festa.

As festas em Berlim são, 90% delas, GLS. O livro que escrevo trata de androginia e, a princípio, transsexuais, pois foi isso que vi em Berlim. Conforme eu já havia anunciado na FLIP em 2007.

A imprensa é engraçada. Mas eu sou muito mais. Por isso escolhi trabalhar fora das redações, locais onde o senso de humor no dia-a-dia é artigo raro.

Eu estava me divertindo com a produção da festa – que realmente me ajuda a escrever – até ler a nota publicada por um blog do GloboOnline. Seu autor acredita que, por se tratar de uma festa em que a DJ e produtora tem pseudômino e é escritora, produzi-la seria uma “manobra de marketing” e “tentativa de manipulação” do público. A nota, que contém informações erradas sobre a festa, emprega tom maldoso e termos pejorativos.

A festa não é uma estratégia de marketing para vender um livro que ainda não está pronto, como insinua a nota do GloboOnline. Não precisaria de uma estratégia tão mirabolante como esta para divulgar um livro. Já lancei alguns livros antes, sei como é feita a divulgação desse tipo de produto – é bem simples: a editora manda exemplares para a imprensa, que os comenta ou não. Tive uma experiência maravilhosa também com outra forma de divulgação: o boca-a-boca, através do qual vários leitores comentaram com amigos sobre meu romance e os amigos o leram e o recomendaram a outras pessoas, e por aí em diante. Isso não só é eficaz enquanto divulgação como muito graficante para o autor.

Voltando à nota de que eu falava, ela foi publicada em um blog do GloboOnline especializado em vida noturna. Que, apesar do assumido limite de escopo, arrisca-se a comentar possíveis ligações literárias entre esta escritora e J. T. Leroy. Ora, I wish!, o cabelo de J. T. é infinitamente melhor do que o meu.

Enfim, euzinha, Cecilia Giannetti, sou a produtora e DJ da festa Hey Ladies!, e não há “Dj Mascarada”, não há informações secretas, teorias conspiratórias, nem motivo para chiliques de blogueiros da naite. Há uma festa. E sabe o que a gente faz quando há uma festa? A gente se joga!

HEY LADIES! dia 27/02, @ Pista 3. Esperamos vocês lá! E que essa nova experiência me ajude a continuar escrevendo o livrinho sobre Berlim.

escrito às 5:56 PM por giannetti

Segunda-feira, Fevereiro 11, 2008

FOLIA NA REDOMA

Mais uma de carnaval.

Uma cidade maravilhosa só para VIPs

Nos camarotes, onde crime é beijo roubado, ricos e famosos curtem festa numa redoma

CECÍLIA GIANNETTI
COLUNISTA DA FOLHA

Um Rio de Janeiro climatizado, com ar-refrigerado, sem moleques descalços sob marquises, sem balas perdidas, bairros inteiros sem pedintes, sem crimes senão beijo na boca roubado. É a fantasia de Carnaval mais radical já inventada. Dona do maior latifúndio da Sapucaí, a Brahma sanitizou a Cidade Maravilhosa, transformando-a em uma ficção exclusiva para seus VIPs.

Chão de pedras portuguesas fake, Galvão Bueno, chope claro, chope escuro, Manoel Carlos e sua bengala, imitação de bondinho, Alexia Deschamps, passistas e ritmistas contratados para sambar no meio do público, gente dormindo jogada nos sofás do espaço Motorola, Copacabana sem putas, Glória sem travestis, André Marques abraçado a um Rei Momo, seguranças e “fiscais de brisa” da produção do evento à caça de penetras, Zeca Pagodinho venerado, Marília Gabriela e Regina Duarte mandando beijinhos, moças brilhantes (só de purpurina) tentando comer o enfeite de mesa que imitava frituras de boteco.

Quem tem seus contatos recebeu em casa sua camiseta branca e vermelha com a logomarca da cerveja e pôde viver duas madrugadas nesta loucura, em que a mais feia tragédia urbana concebível era a celulite. Mulheres lindíssimas desfilavam pelo Rio cenográfico em shortinhos ínfimos e microssaias, provando do alto de seus saltos que não cometiam o pecado da carne flácida. Seus acompanhantes, quase sempre moços altos, com braços da largura de um tronco de árvore centenária, serviam para espantar os fotógrafos, que só conseguiam clicar de queixo caído.

Quem são essas pessoas que curtem o Carnaval dentro de uma redoma, ao lado de Monica Bellucci, Lucy Liu, artistas globais, misses e milionários?

Os camarotes são a versão carnavalesca dos condomínios de segurança máxima da Barra da Tijuca. Mas sempre há quem fure o cerco. “Aqui tô encontrando gente que eu conheço e sei que não tem um tostão furado! Rárárá! Acho isso bacana, é uma inversão das regras que só tem no Brasil”, comentou o poeta Jorge Salomão, sentado em uma espreguiçadeira sobre as areias da praia fake, com direito a conchinhas e salva-vidas (embora houvesse mar apenas desenhado no cenário), e artistas como Ary Fontoura bronzeando-se sob os refletores em frente à fachada do Copacabana Palace de mentirinha.

Desfile de escolas de samba para quê, se aqui dentro tem praia, com vendedor de biscoito Globo e carrinho de picolé? Se existe até um Jardim Botânico com orquídeas e “chuva” fina borrifada ocasionalmente sobre os banquinhos de madeira dispostos em torno de lagos? Gente de olhar perdido, como no Carnaval de verdade, não há fantasia que disfarce. A ruiva Thalita, do “Big Brother Brasil 8”, percebeu isso no camarote da Schincariol, que contava até com uma boate! -e garantiu no pay-per-view: dava para sentir uma tremenda “marola” na Sapucaí.

O Copa ficava colado a uma Lapa livre do cheiro de urina, com direito a uma reprodução da Escadaria Selarón nas paredes de um palco. Mais tarde, neste “Centro do Rio”, apareceu o DJ Marlboro sobre uma espécie de imitação de bondinho de Santa Teresa, acompanhado de duas loiras rebolativas e absurdamente em boa forma. Delírio geral.

Beth Carvalho tomava o café da manhã no restaurante da Brahma enquanto muitos ainda enchiam o pote de chope. A sambista observava a very important people gritando com o som de Marlboro “Eu só quero é ser feliz, andar tranqüilamente na favela onde eu nasci” -a favela só podia ser a Portelinha da novela. “Não me incomoda eles estarem cantando uma coisa que não vivem. O samba também tem letras que falam do morro e que qualquer classe canta junto. O importante é contar pra quem não é de favela o que acontece lá. Mas funk? A esta hora da manhã…”

Tainá Muller (“Cão Sem Dono”) -que embarca em março para Lisboa, onde vai gravar os primeiros capítulos da próxima novela do SBT- e Paula Braun (“O Cheiro do Ralo”), amigas e agora sócias de sua própria produtora de cinema, não chegaram a ver a performance funk. Espertas, deixaram o Rio cenográfico por volta de 2h da madrugada, a chamada “hora chique”. São exceção na festa de excessos. De 3h da madruga em diante, famosos e anônimos estão nas mãos do palhaço.

Na hora que apavora, a segregação dos abadás (“eles” vestem a camiseta vermelha e branca; “nós”, imprensa, preta e branca) não impede que ambos os lados desse apartheid sigam com suas tarefas, embora um tanto breacos. Os famosos pulam, bebem, beijam na boca, rebolam e gritam urrú; os jornalistas pulam, bebem, anotam, fotografam, rebolam e gritam urrú. Tem mais VIP e imprensa do que gente.

A arte imita a vida, ou algo assim… Mesmo que aqui tudo seja cosplay, quando o ator Marcelo Faria me aborda para fazer uma brincadeira, lembro do episódio recente em que policiais surrupiaram cerveja de um caminhão. “Bota aí, pode publicar: foi o Caio Junqueira quem roubou meu chope!”, repetia, às gargalhadas, encostado a um dos balcões que representavam os mais conhecidos botequins cariocas. Acusado, o aspira Neto de “Tropa de Elite” continuou bebericando o “material apreendido” ao lado de Marcelo e de André Ramiro, o aspira Matias; este, muito quieto, só tomava H2OH!.

O glamour dos salões de baile tradicionais não foi substituído pela revitalização dos blocos, mas pelos abadás de cervejarias. O Brasil é o país dos VIPs; o Rio, sua capital, balneário da fama por tudo e por nada. E ai de quem não for VIP nem amigo de um. Fica de fora, vivendo na realidade.

escrito às 1:04 AM por giannetti

Sexta-feira, Fevereiro 08, 2008

O BAILE DO COPA

Quando me credenciaram, surgiu a questão da roupa. Como assim, só se entra de longo? Meu vestido mais comprido vai até os joelhos. Desisti de alugar um traje logo na primeira loja do ramo em que entrei: base de preços entre 200 e 400 reais. Melhor comprar um, e bem mais baratinho. Ricos são eles, eu tô trabalhando. O fotógrafo que me acompanhou pensava o mesmo. Então lá fomos, simples porém limpinhos. Na fila, debaixo de chuva, com o povo ovacionando ou zoando ricos, famosos e anônimos que aguardavam sua vez de entrar no mais tradicional baile de carnaval, um sujeito de smoking segura o guarda-chuva mega do Copa em cima de nós dois. “Ooooi, como você se chama”. Nos salões, senhores pra lá de Marrakesh e do Cabo da Boa Esperança seguravam o braço de qualquer rabo de saia que passasse – uma versão terceira idade dos rapazes da Bunker. Saí de lá com o telefone de uma drag queen e de um dentista, além de uma crônica meio melancólica.

Todo Carnaval tem seu fim

São Paulo, segunda-feira, 04 de fevereiro de 2008

CECILIA GIANNETTI
COLUNISTA DA FOLHA

“Adivinha qual o meu estado civil?”. Estamos no fim do baile do Copa. São 5 horas da manhã e a senhora que não conseguia tirar fotos com sua câmera digital conseguiu me achar outra vez. Pelo tom meio trágico que ela usa na pergunta, chuto com segurança: Viúva. “Sim, há 4 anos. Eu e meu marido sempre vínhamos juntos ao carnaval do Copa. Debutei aqui neste hotel.” Ela é do tempo do verbo debutar, da época em que o baile de gala do Copacabana Palace, criado em 1924, reinava como destino obrigatório para gostosas, ricas, famosas e/ou estrangeiras.

Foi lá que o bustiê de Jayne Mansfield caiu em 1959 e que Jorginho Guinle mostrou várias vezes o que significava o título de playboy. Hoje, em tempos de silicone, quando qualquer adolescente de bermudão e chinelos de dedo pode ganhar a alcunha de playboy, a festa não pode parar. Ou melhor, não quer. Apesar das celebridades cada vez mais escassas e das maneiras pouco ortodoxas de alguns de seus freqüentadores, como Narcisa Tamborindeguy e Bruno Chateubriand (os atiradores de ovos). A plebe paga R$ 1.000 pelo ingresso; os ricos vão de camarote, a quase 3 mil reais por cabeça. O longo para as damas já não é tão obrigatório assim, há vários vestidinhos curtos circulando; os homens insistem nos smokings alugados. Boa parte dos fantasiados é contratada pela produção. Alguns chiquérrimos insistem em comer seus camarões e lagostas sobre a tampa dos pianos do Copa. É uma cena de Buñuel.

Nos salões de dois grandes hotéis do Rio um certo glamour procura resistir às custas de saudosismo e reverência à tradição de antigos carnavais. Além do Copa, há o concurso de fantasias do Glória, que em sua 34a. edição, embora seja organizado com cada vez menos verba, aos trancos e barrancos por seu criador, Arnaldo Montel, de 78 anos, continua lotando o centro de convenções do hotel no sábado de carnaval.

No espaço que serve de camarim para os 60 concorrentes e seu ajudantes, assisto a algumas complicadas operações de montagem de fantasias. Vendo as provas de roupas, descubro que as duas moças que subiram comigo no elevador são rapazes. Um (a) deles (as) ostenta agora a faixa de Rainha Trans de Niterói. Merecidamente: é um mulherão, com apenas um porém entre as pernas bem torneadas.

No salão do Glória enfeitado com balões coloridos – parecem ter sido todos enchidos até que tomassem o mesmo diâmetro – uma mulata de calça jeans e top justos amarra um par de sapatilhas de balé nos pés. Quando se levanta, já é sobre as pontas das sapatilhas cor-de-rosa, e ensaia a coreografia que deverá apresentar mais tarde. O corpo parece ter sido desenhado por Nani. A cintura finíssima contrasta com um traseiro do tamanho do pão-de-açúcar, tão duro quanto. Ela ocupa o salão inteiro com sua dança, misturando passos de balé clássico e samba, sempre na pontinha dos pés. Técnicos de TV páram de montar câmeras e tripés para observar aquele absurdo. É uma das poucas jovens que participará desta tradição da terceira idade.

Começa a chegar público. O travesti Rogéria, ao lado de um senhor que veste um smoking repleto de lantejoulas, chama jurados como Íris Bruzzi, e outros que carregam uma fama de natureza diferente da atriz. É o caso de Zé das Medalhas, personagem do livro Anônimos Famosos de Gustavo Medeiros e Carlos Eduardo Novaes – funcionário de uma farmácia em Copacabana que passa o ano inteiro com quilos de colares, pulseiras e anéis (de três a quatro em cada dedo) –, hoje vestido com uma bota prateada, a outra dourada; assim como as pernas de suas calças. Outro personagem de peso, entre os desconhecidos mais conhecidos do carnaval da cidade, é Bolinha, um senhor que se veste como Chacrinha. Trabalhava como advogado até perceber que sua verdadeira vocação era imitar o Velho Guerreiro. Veste-se como ele também o ano inteiro, mesmo quando viaja de avião. “As aeromoças adoram. Viajo muito para participar de festas e bailes, mas gosto mesmo é concurso do Glória,” diz, sentado ao meu lado, ainda entre o público. “Quando meu nome for chamado, você vai bater palma pra mim?”

Lembro desse pedido depois, no baile do Copa, quando a mulher com o rosto coberto de purpurina me pede que adivinhe seu estado civil. Os carnavais mais luxuosos do Rio são também os mais solitários. Quanto mais plumas e paetês, maior a carência.

escrito às 11:40 AM por giannetti

COLUNA DA FOLHA

São Paulo, terça-feira, 29 de janeiro de 2008

CECILIA GIANNETTI

Bairro das quatro letras

“UM CARA ATIROU no Arco-Íris!”, a garota bufou e puxou minha mão direita até ela, para que eu pudesse sentir a palpitação alterada. Havia outros indícios, além do coração em disparada, de que estava nervosa: olhos esbugalhados, fala corrida, desconexa, e o fato de que fez uma desconhecida pôr a mão em seu peito enquanto tentava contar uma história. A menina também podia estar doidona: era a Lapa, afinal. A briga estourou cinco minutos depois que saí do “Narco Íris” -apelido do bar, por conta da venda de tóxico no local. Um sujeito levantou e meteu bala noutro que lá estava, “sussa” com sua cervejinha. Todos correram, até o ferido. A garota afobada não soube explicar se havia um por quê para o faroeste caboclo que mal descrevia.

Isso aconteceu há mais ou menos sete anos, quando o bairro carioca se reerguia após uma temporada em que figurou como inferno número um do Rio, vencendo até Copacabana. Ainda era comum ouvir tiros em seus botecos, mas o povo já começava a marcar presença nas sextas e sábados dos Arcos.

No início do século passado era outra história. Lapa eram prostitutas, Portinari, sambistas, Villa-Lobos, políticos, Carlos Drummond de Andrade, traficantes, Manuel Bandeira, travestis, João Gilberto, Carlos Lacerda, Rubem Braga, Mário Lago e Madame Satã. O local juntava pobres e ricos ao mesmo pico, todo mundo atrás de bordéis e cabarés, extensões de hotéis de luxo, como o Guanabara (onde se engendrou a candidatura de Epitácio Pessoa à Presidência da República). Havia desde dona de prostíbulo leitora de Colette e Camilo Castelo Branco até orquestra cigana, óperas e valsas no Danúbio Azul e música popular no Capela.

A ditadura de Getúlio Vargas limpou a área, fechando prostíbulos e causando a debandada geral de seus maiores tesouros: boêmios e moças francesas, austríacas, espanholas, portuguesas, japonesas. Com o pós-guerra, chegaram as jukeboxes para matar a música ao vivo, que até então figurara como seu segundo ingrediente aglutinador local (o primeiro era a prostituição). Não por coincidência, Ipanema e Copa passaram a acolher muita gente boa nas décadas seguintes. João Gilberto, por exemplo, em seus tempos de Zé Maconha (pré-bossa), ia à Lapa para pegar um fino e só. Música, fazia noutros cantos. O charme de tempos idos não pertencia mais ao lugar. O Circo Voador, celeiro da geração “BRock”, não chegou a modificar essa situação na década de 80. A turma enchia a cara em frente à lona, mas o bairro ao redor dela não existia para os roqueiros. Asa Branca e as gafieiras atraíam outro tipo de público. Era cada macaco no seu galho, sem a misturança incrível que testemunho agora quando passo de ônibus por ali de madrugada.

Hoje as ruas têm presença da polícia, em variação menos ostensiva das blitze. O talento aglutinador do bairro -que engloba funk, rock, gafieira, forró e hip hop- é explorado em alguns livros como o de Moacyr Andrade, “Lapa: Alegre Trópico” (Relume Dumará), e “Lapa do Desterro e do Desvario”, organizado por Isabel Lustosa (Casa da Palavra). Não é lenda nem invenção de editor de caderno cultural o boom da Lapa, a variedade de opções musicais, de tipos e cores que circulam pela Joaquim Silva. Até o “Narco Íris” voltou a ser Arco-Íris. Cada bar cospe um ritmo diferente na calçada e chama gente de todo tipo. De dia, destino das minhas caminhadas de domingo; à noite, berço de quem não dorme.

escrito às 10:38 AM por giannetti
Quarta-feira, Janeiro 23, 2008

32 EM 23

Parece uma manhã fria de inverno em São Paulo mas é uma manhã fria de verão em São Paulo. E, por mais que tenhamos nos aplicado com dedicação à tarefa, nem bem terminamos de beber todas as cervejas que sobraram do Reveillon e já vai começar o carnaval.

Quando chegou nesta cidade pra ficar, há oito dias, Thiago encostou bolsas e mochilas ao lado de uma banca de jornais na rodoviária e automaticamente comprou a Folha de S. Paulo. Na capa, viu a chamada pra uma coluna: “Sou a primeira carioca a optar por férias em São Paulo”. Achou aquilo esquisito, pensou: “Não é só você, não”. Uma semana depois, eu mudava de um apartamento em Higienópolis para este aqui em Pinheiros. Toquei o interfone e quem abriu a porta para me ajudar com minha mega- mala foi o mesmo hiago. Levou uma semana pra me falar do texto que leu na Folha como uma espécie de sinal quando desembarcou, e descobrir que sua colega-de-sala (ele dorme no sofá vermelho, eu durmo no azul) era quem tinha deixado o sinal. Mais esquisito ainda: na viagem de carro descrita no texto estava seu amigo de infância, meu amigo desde 2003 (?)… que acabou hospedando nós dois aqui. Thiago mexe com números, eu não sei fazer equações básicas. Ele faz parte da trupe mais recente do Rio a se mudar de mala e cuia para SP, capital. Eu, por equanto, sou visita. Faz frio no verão.

São Paulo também pode ser um ovo. Me dei conta disso depois de ouvir (e duvidar) numa conversa de boteco que aqui também, como no Rio de Janeiro e nas novelas, as pessoas vivem esbarrando com quem querem e com quem não querem encontrar. Pra que isso aconteça, basta conhecer gente. Ao sair do bar e passar de carro pela praça Vilaboin, quase de madrugada, avistei na rua um amigo paulista que não via há meses. De todos os horários e lugares, ele estava onde eu estava na hora em que eu estava, e eu tive que ceder: SP também enrosca as pessoas em órbitas de coincidências improváveis.

escrito às 12:06 PM por giannetti

Terça-feira, Janeiro 15, 2008

COTIDIANO

A partir desta terça-feira, minha coluna passa a ser publicada no Cotidiano, da Folha de S. Paulo. Meus agradecimentos aos reis de Kingston Rafa Spoladore e Fred Leal; a Sereia e Fabs, HelenaN e Márvio por me darem aquela força com web, abrigo e/ou coração enquanto estou cigana. E ao Reinaldo Azevedo, pelos comentários finos.

Leia aqui trecho de Fuga para São Paulo:

CECILIA GIANNETTI

DESTA VEZ PEGUEI a estrada. Imagina se caía de novo na conversa do “tudo sob controle nos aeroportos”? Eu, hein… tédio, pão de queijo e cafezinho superfaturados nas salas de longa espera, filas estáticas para o check-in -nem pensar. Esse estresse eu não queria, não neste verão. Não nas minhas primeiras semiférias em pouco mais de dez anos de serviços prestados a… bom, aos mais variados ramos de serviços que se possam prestar lendo, escrevendo e sapateando.

Lamúrias em excesso numa frase comprida demais, tô ligada, mas precisava desovar tanta palavra que guardei nas seis ou sete horas de viagem de carro. No trajeto fiquei até tranqüilona, olhando vacas e fazendas, mascando (biscoitos) e emudecendo feito elas (sonho de gente tensa da cidade é ser quieto feito vaca ou fazenda). Depois disso, passaram por nós cidades minúsculas e um tanto esquecidas. Que sumiram conforme vieram na paisagem, até que a tripulação de nosso carro encontrasse São Paulo de uma vez por todas. Muito prazer, Cotidiano: segundo meus amigos do Rio, sou a primeira carioca a optar por férias em São Paulo (…)

Terça-feira, Dezembro 18, 2007

NA FOLHA HOJE

São Paulo, terça-feira, 18 de dezembro de 2007

CECILIA GIANNETTI

Backup: só o que presta

SE NÃO for confusão de mente enfeitiçada pela correria da metrópole, é uma brincadeira de mau gosto que a idade me faz: à medida que envelhecemos, os 365 dias do ano passam cada vez mais rápido.

Parece que, justo quando começamos a aprender alguma coisa sobre saborear em vez de engolir sem mastigar o mundico a nossa volta, ele aperta o passo e apressa a vida, apaga os limites entre os dias, os meses e -feliz ano novo, cá (lá) estamos. Sempre haverá quem discorde de tal impressão, possivelmente roncando no sofá enquanto aguarda a chegada da década de 70. Para o saudosista, independente de faixa etária, o único tempo que conta é o passado.
Para quem vive de fato, vai tudo acelerado demais. Quando damos pela coisa, já é 1º de janeiro e curtimos uma ressaca que pode ser tão difícil de evitar quanto a passagem do tempo. Acordamos no ano novíssimo em folha com gosto de guarda-chuva velho na boca, para descobrir que algumas poses lamentáveis, fotografadas no Réveillon em câmeras digitais e celulares, foram distribuídas por blogs, fotologs, orkuts e flickrs internet afora. Neste caso, também, sempre haverá quem discorde; e para esses, com o intuito de evitar qualquer interpretação diversa do texto, afirmo: em hipótese alguma tento insinuar que sofram de ressaca e saiam tortos em fotografias, como ocorre com 90% da humanidade. Viva a diferença!

De qualquer jeito, para o bem ou para o mal, é possível que seus descendentes jamais cheguem a ver suas imagens digitais, a menos que você as imprima e colecione, ou que os sites que hospedam álbuns de fotos virtuais sobrevivam às revoluções por minuto da rede mundial de computadores. Outra vez haverá quem discorde: “A internet, assim como a TV, nunca haverá de colapsar”. E aqui concordarei com os discordantes, para tranqüilizá-los e a mim mesma. Mas não deixo de ter meus ataques agudos de cassandrismo, em que imagino a possibilidade de todos os nossos micos fotográficos contemporâneos serem um dia varridos da interface da web e da face da Terra num colapso mais catastrófico do que o alarmado -e nunca ocorrido- bug do milênio.

Quando esse pensamento nefasto me aflige, entro em crise de backup compulsivo e gravo em CDs toda a vidinha eletrônica de que disponho. Incluo no meu baú de reserva não só as fotos, mas textos e músicas também. Tal paranóia tem raízes em um trauma real. Nem sempre fui tão cautelosa, cheguei a perder meu primeiro livro num apagão de computador. Meu editor, então, foi solidário; havia perdido sua tese de mestrado da mesma maneira. Em ambas as situações, fizemos o que tinha que ser feito: recomeçamos.

Curva de rio sujo só junta tranqueira. Por isso tanta gente se apega ao ritual do 31 de dezembro, dá-lhes a sensação de estar nadando noutras águas, mais limpas. Pode ser característica de tempos velozes, ou, pelo contrário, talvez seja mais antigo que o calendário romano -mas algumas coisas têm de ficar para trás. E aí, de novo, fazemos o que tem de ser feito: recomeçamos.

escrito às 12:54 PM por giannetti

Terça-feira, Dezembro 11, 2007

O DRAMA DO ANALFABETISMO FUNCIONAL

Analfabeto funcional é a denominação dada à pessoa que mesmo tendo aprendido a decodificar minimamente a escrita, geralmente frases curtas, não desenvolve a habilidade de interpretação de textos.

O conceito de analfabetismo funcional surgiu nos Estados Unidos em 1985, mas só ganhou popularidade em 1992 quando foi realizada uma pesquisa chamada Young Adult Literacy Survey, com 26 mil jovens. Posteriormente foram realizados levantamentos em mais de 20 países.

Um estudo realizado em 1999 pelas agências americanas National Alliance of Business e National Institute for Literacy estima que a deficiência de habilidades básicas dos empregados resultava em uma queda de produtividade de U$ 60 bilhões.

Dureza, Brasil.

Mas é uma satisfação saber que ao menos uma parcela dos nossos analfabetos funcionais se esforça para ler, senão literatura, nossos jornais.

escrito às 9:52 PM por giannetti

O DRAMA DO ANALFABETISMO FUNCIONAL

Analfabeto funcional é a denominação dada à pessoa que mesmo tendo aprendido a decodificar minimamente a escrita, geralmente frases curtas, não desenvolve a habilidade de interpretação de textos.

O conceito de analfabetismo funcional surgiu nos Estados Unidos em 1985, mas só ganhou popularidade em 1992 quando foi realizada uma pesquisa chamada Young Adult Literacy Survey, com 26 mil jovens. Posteriormente foram realizados levantamentos em mais de 20 países.

Um estudo realizado em 1999 pelas agências americanas National Alliance of Business e National Institute for Literacy estima que a deficiência de habilidades básicas dos empregados resultava em uma queda de produtividade de U$ 60 bilhões.

Dureza, Brasil.

Mas é uma satisfação saber que ao menos uma parcela dos analfabetos funcionais se esforça para ler, senão literatura, nossos jornais.

escrito às 9:47 PM por giannetti

Sábado, Dezembro 08, 2007

A LITERATURA DE SITUAÇÕES-LIMITE

O homem de hoje vive em alta tensão, diante do perigo da aniquilação e da morte, da tortura e da solidão. É um homem de situações extremas, chegou aos limites últimos de sua existência ou está diante deles. A literatura que o descreve e o interroga só pode ser, portanto, uma literatura de situações excepcionais. – Sabato, O escritor e seus fantasmas.

escrito às 2:21 AM por giannetti

escrito às 1:59 AM por giannetti

BILHETE DA PROFESSORA

Uma faculdade de Letras adotou o Lugares que não conheço, pessoas que nunca vi no projeto final do curso este ano. A professora vê coisas no meu texto que, até receber os comentários dela, eu não tinha percebido.

Cali: ô, teu livro fez sucesso, hein! com os meus alunos… eu fiquei meio intrigada, li o livro e outros textos e vi que tem uma recorrência, no narrador duvidar sempre da realidade mais próxima, ou a mais distante. O narrador duvida da intimidade. Não existe, não é possível. Nunca. E o momento mais estranho é quando eles ousam pensar que são íntimos. ohhh, tragic! bye, stranger!

É?

escrito às 1:42 AM por giannetti

Domingo, Dezembro 02, 2007

ONDE ENCONTRAR

Lugares que não conheço, pessoas que nunca vi

.

escrito às 6:17 AM por giannetti
Quarta-feira, Novembro 28, 2007

VERY BRITISH

Cheguei a Natal, Rio Grande do Norte, depois de dois voôs atrasados noite adentro, em que mais uma vez participei como figurante da comédia do caos aéreo. Da viagem de ida, destaco este quadro, que meus amigos acham que inventei (em estado de perpétua negação, desprezam um produto que é marca registrada do país – a piada pronta):

Suando dentro da aeronave em Recife (conexão) enquanto aguardamos o embarque de passageiros de outro avião que se atrasara, somos avisados de que finalmente iremos decolar. Depois de mais de uma hora parados em solo, como agora é regra. E a regra é clara: avião algum decola antes que estejam nitidamente aporrinhados todos os seus passageiros – todos eles, dos casais paulistas em lua-de-mel aos homens de negócios, da criança de colo ao ancião de olhos esgazeados, sem exceção. Já havia casal com cara de divórcio, bebê com cara de empresário e velho com cara de bebê, vencidos por fome e cansaço, quando apontou lá à frente o carrinho do serviço de bordo. Naquele momento, se tivéssemos cauda, teríamos abanado a mesma com euforia.

Comes e bebes são tudo de que uma companhia aérea desleixada dispõe para comprar seus passageiros depois de mais um atraso estressante. E, sinceramente, àquela hora ninguém iria reclamar se tentassem nos apaziguar pelo estômago. A menos que viessem com barrinhas de cereal e água. Aí não. Poderíamos nos vender por pão com queijo e presunto e suco industrializado, mas não por menos.

Não se tratava de barrinhas de cereal e água, como descobrimos logo que o carrinho chegou à segunda fila de cadeiras. Na primeira, já roncava alguém que havia desistido de esperar acordado a decolagem. O aeromoço parou ao lado de um sujeito que, pela bossa de seu blackberry, diria que era da ala dos empresários, mostrou um copinho de água mineral e sorriu. O passageiro esticou o pescoço para o carrinho e perguntou: “Só água?! E quente, ainda por cima?!”

O comissário (agora ele vira comissário, porque ninguém com a alcunha de aeromoço faria coisa tão vil): “Gelo?”, perguntou, oferecendo um cubinho que segurava com a pinça.

Se o horário dos vôos não é britânico, o tipo de humor me parece.

escrito às 2:43 AM por giannetti

Domingo, Novembro 25, 2007

DO PRIMO QUE FOI RICO

“Por que lemos”, do Ny Times.

The gestation of a true, committed reader is in some ways a magical process, shaped in part by external forces but also by a spark within the imagination. Having parents who read a lot helps, but is no guarantee. Devoted teachers and librarians can also be influential. But despite the proliferation of book groups and literary blogs, reading is ultimately a private.

escrito às 6:14 PM por giannetti

AQUI AO LADO

Do El Pais:

Na Colômbia há uma explosão de autores jovens que sem dúvida é interessante, mas é cedo demais para julgá-la”, opina Marianne Ponsford, diretora da revista cultural “Arcadia”. As editoras praticamente brigam pelos novos nomes da literatura e do jornalismo, como contratações para um time de futebol. E a verdade é que essa nova geração está recebendo muito mais atenção da mídia que a anterior. O surgimento da “Arcadia”, junto com o da revista “Piedepágina”, também ajudou a dar maior destaque à leitura e aos livros. Hoje é o único veículo exclusivo sobre meios culturais na Colômbia. (…) A principal característica da indústria nestes últimos anos, segundo Iriarte, é que a oferta de livros de autores nacionais passou a ocupar um lugar de destaque, diferentemente do que acontecia em décadas anteriores. Hoje, um primeiro romance de um autor colombiano pode vender entre 1 mil e 1,5 mil exemplares, o que supera muitas vezes o que se vende de um autor estrangeiro editado pela primeira vez no país. Também há exceções, como “El Olvido que Seremos”, de Héctor Abad, que no último ano vendeu mais de 50 mil exemplares.

Há poréns, que não impedem o interesse pela leitura:

Fonte de criação literária, de bons narradores e poetas, mas de poucos leitores. É uma parte dos paradoxos da Colômbia, onde o alto custo dos livros representa 10% do salário mínimo, o Plano Nacional de Leitura e Bibliotecas começa a ser um sucesso e o público costuma lotar os eventos culturais e participar, perguntar, debater.

Para surpresa de muitos, a última pesquisa de Hábitos de Leitura 2007 revela que os 42 milhões de colombianos passaram de ler 2,4 livros por ano em 2000 para 1,6 em 2005. O paradoxal é que nunca antes foram feitos tantos esforços para promover e fomentar a leitura. Isso deu origem a teorias segundo as quais os culpados seriam a situação econômica, o alto preço dos livros ou o pouco tempo para ler fora do trabalho.

escrito às 6:09 PM por giannetti

Quarta-feira, Novembro 21, 2007

ENCONTRO NATALENSE DE ESCRITORES

Eu, Zuenir Ventura, Luis Fernando Verissimo, Heloisa Buarque de Hollanda, Jaguar, Chacal, Carlos Heitor Cony, Rui Guerra, entre outros, vamos nos encontrar a partir de amanhã no largo da rua Chile, berço da boemia potiguar, para o 2º Encontro Natalense de Escritores – ENE.

Além de lançamentos de livros, debates e performances de artistas locais, a festa também terá muita música, com shows como o de Tom Zé e o da banda Jazz 6 (de Verissimo) no palco no coração do bairro histórico da Ribeira. Movimentando a cidade entre 22 a 24 de novembro, o 2º ENE é uma realização da Prefeitura do Natal, através da Fundação Cultural Capitania das Artes. Veja a programação aqui.

escrito às 4:28 PM por giannetti

escrito às 12:47 AM por giannetti

Terça-feira, Novembro 20, 2007

TECLA QUE EU TE RESPONDO

Íntegra do meu bate-papo no UOL. Perdoem a pontuação e erros de digitação nas minhas respostas, mas o chat acontece rápido e temos que disparar para atender todo mundo. Gostaria de ter conseguido ser mais clara em algumas respostas, também, mas não dava tempo. Tinha gente à beça na sala, apesar de eu ter avisado em cima da hora.

Obrigada!

BATE-PAPO COM CECILIA GIANNETTI

Jornalista e escritora conversou com os internautas sobre “Lugares que Não Conheço, Pessoas que Nunca Vi”. O primeiro romance da colunista do jornal Folha de São Paulo conta a história de uma repórter de televisão que entra em crise ao presenciar uma forte cena para a qual pensava estar preparada e acaba sendo arremessada para uma nova realidade.

Participaram do Bate-papo 101 pessoas
Este-bate-papo ocorreu em 20/11/2007, às 15h00

ÍNTEGRA
O texto abaixo reproduz exatamente a maneira como os participantes
digitaram suas perguntas e respostas

(03:06:43) Cecilia Giannetti: olá, boa tarde!

(03:06:49) joana: qual a diferenca de escrever contos e um livro? quer dizer, fora as básicas… qual a experiencia mais desgastante?

(03:08:39) Cecilia Giannetti: oi, joana, tudo bom? escrever um romance pode ser muito mais desgastante. com certeza foi meu caso com o primeiro romance, “lugares que não conheço, pessoas que nunca vi”. em relação aos mais de dez contos que eu já havia publicado antes, a experiência do romance foi de lascar. mas valeu a pena. o livro é o que eu queria dizer enquanto o escrevia.

(03:10:04) MANDRAKE: Oi, vc ainda participa de saraus de poesia, como aqueles que aconteciam em Santa Teresa?

(03:13:07) Cecilia Giannetti: oi, mandrake. cheguei a ir a alguns eventos acompanhando amigos poetas. mas não escrevo poesia. um ou dois poemas por ano é o que me permito, só para ter certeza de que não é mesmo minha praia. mas gosto de ler poesia. o bom desses eventos é que me colocam em contato com autores novos.

(03:13:39) alice: oi, cecilia! a ação do seu livro é resultado de uma cena violenta vista pela personagem. vc já viu algo que te transformou tb? morar no brasil e ter toda essa violencia foi fundamental pro tom do romance?

(03:18:10) Cecilia Giannetti: alice, a personagem já se está transformada pela paranóia em relação à violência (que é inteiramente justificada pela realidade infelizmente), no momento em que vê a tal cena. mas é verdade, sim, o Rio e o estado que as autoridades dizem não ser uma guerra, são fundamentais para a construção daquela personagem e do mundo que ela recria na paranóia dela. já me colocaram fuzil na cabeça, numa estrada, voltando de uma viagem. eu era a única mulher no carro quando os bandidos nos fecharam e fizeram todo mundo descer. não entrei em choque, mas aquilo mexeu muito comigo. faz dez anos e eu nunca esqueci. de lá pra cá, acho que todos concordam, a situação não melhorou.

(03:18:36) luda: oi, cecília , como vai. O artigo que hoje li na Folha poderia ter sido escrito por mim. ainda sobre a coluna de hoje gosto também de sentir o que o povo fala sempre que saio e como você disse espreitar o homem sem que ele perceba

(03:19:36) Cecilia Giannetti: oi, luda! tudo bem? aqui, tudo certo. adoro quando alguém comenta as colunas comigo. é o melhor feedback. quanto ao tema da coluna de hoje, sou bisbilhoteira mesmo. o tempo livre que tenho, gosto de pegar boa parte dele pra olhar gente na rua e, se possível, escutar conversas. rende que é uma beleza para quem escreve.

(03:20:01) carola: oi cecilia, tudo bem? a crítica que saiu na Folha diz que seu livro é movido pelas esquisitices do tédio. vc concorda? se sim, quais esquisitices são essas?

(03:26:15) Cecilia Giannetti: carola, tudo certo? o tédio, definitivamente, não é o que move a protagonista, que às vezes é narradora, às vezes é observada como uma peça distante no jogo que eu criei ali. o tédio move os personagens que – não por acaso – reunem-se numa espécie de clube móvel chamado “Central do Tédio”. tive a pretensão, ali, de descrever sintomas da minha geração que percebo há muito tempo. não falta exatamente ânimo… talvez haja medo demais, comodismo. o tédio está presente, mas não é a mola do livro. o medo é a mola do livro, enquanto a personagem procura se livrar dele e encontrar um estado menos angustiante de ser.

(03:27:23) Cecilia Giannetti: carola: quase sempre discordo da crítica… defeito de fabricação meu :-)

(03:26:23) 4trackfan: cecilia, e a sua banda, o 4track valsa, que depois virou casino, acabou mesmo? eu vi um show de voces em curitiba num festival e amei!

(03:29:07) Cecilia Giannetti: 4trackfan: 4track e casino acabaram. o ex-guitarra e tecladista da banda, christiano menezes, fez todas as ilustrações do meu primeiro romance, assim como a capa eaté as fotos de divulgação. ele é artista plástico e fotógrafo. eu sou escritora. nós éramos a dupla que compunha. compor, ensaiar e viajar pra fazer shows é impossível pra gente.

(03:31:23) Cecilia Giannetti: 4trackfan: comecei a escrever meus primeiros contos quando a banda ainda existia. acharam um caderno meu, naquela época, e pensaram que se tratava de um diário. eu tinha escrito atrocidades. resultou num mega mal entendido :-) nem eu mesma sabia o que estava escrevendo. foi assim que começou, foi por aí que percebi que meu lugar não era bem na música. amo cantar, espero ter mais tempo pra isso daqui em diante, mas preciso escrever. senão eu tenho um troço.

(03:30:00) rafa: ha quanto tempo e escritora?

(03:33:38) Cecilia Giannetti: rafa: meus primeiros textos que eu poderia qualificar de contos apareceram em 1998. eu tinha passado pelo assalto com fuzis na estrada. depois por uma cirurgia para retirar um tumor (benigno, graças a Deus). uma separação. e então uma experiência com ácido. já escrevia livrinhos infantis quando era criança. acho que o mix dessas experiências me fez “voltar” à minha atividade de infância, que era justamente escrever.

(03:33:55) joão: Vc faz parte de uma geração de novos escritores. Quais são seus autores favoritos desta geração, e vc acha que os autores dessa geração têm algo em comum?

(03:38:26) Cecilia Giannetti: joão: tive a sorte de ler os originais do livro do teu xará, joão paulo cuenca, enquanto terminava de revisar o meu “Lugares…” e João tb leu meus originais. Achamos vários pontos cruzados – desconstruímos, cada qual a sua maneira muito própria, a cidade em que vivemos e a trasnformamos num playground maníaco à nossa moda. diferentes mas vizinhos. isso é um exemplo. já me senti próxima também de daniel pellizzari, joca terron, o nazarian de “Mastigando Humanos”. cada vez que leio um livro da chamada nova geração, procuro afinidades – inevitável – mas tb busco o que nos diferencia. temos algo em comum, mas me interessa mais o que cada um me mostra de diferente.

(03:38:33) Moderadora/UOL:

Capa de “Lugares que Não Conheço, Pessoas que Nunca Vi”, primeiro romance de Cecilia Giannetti (crédito: reprodução)

(03:38:37) carola: a critica do livro publicada no o globo, e, acho que posso dizer, um ensaio sobre a violencia urbana e o lugar que isso ocupa na literatura hoje. ate que ponto voce considera o “lugares” uma cronica urbana. uma observação, “pronta pra guerra” do rio de janeiro?

(03:42:32) Cecilia Giannetti: carola: a crítica do Globo foi profunda, a que eu mais demorei para ler porque sabia que ia ser pesada. de uma maneira boa. me fez pensar sobre o que eu tinha escrito e isso às vezes é difícil, em se tratando de livro de estréia recém-lançado. cheguei a ver o “Lugares” quase como ficção científica. na verdade, tive medo de que fosse rotulado assim. por outro lado, pode se dizer que é uma distorção – hiperbólica – da realidade não só do rio, como de outros buracos em que têm nos enterrado neste país. mas uma distorção em cima de uma realidade que, por si só, já é exageradamente absurda. talvez por isso não tenham considerado ficção científica, mas crônica urbana, cenas como a de mendigos sendo engolidos por buracos que se abrem automaticamente no chão para devorá-los. para ficar num só exemplo…

(03:43:01) jorge: oi cecilia! caetano falou “E sei que a poesias está para a prosa/Assim como o amor está para a amizade/E quem há de negar que esta lhe é superior” sei que vc edita um portal tb. e aí? quem é superior? rs

(03:45:43) Cecilia Giannetti: jorge: acredito que é superior todo texto, independente da forma ou temática, que se transforma junto ao leitor. um texto “plano”, tenha sido ele escrito com a intenção de tornar-se poesia ou prosa, não me interessa como literatura; “plano”, que não me toca, não me interessa.

(03:45:55) Rodrigo: enquanto eu espero pelo censor, li a critica ao seu livro. Pois bem que agora sabemos que quase sempre discorda da crítica, voce mesma critica e analisa nosso modus vivendi, modus operandi ou qualquer modo latino ou saxão que adotemos. Por que então o estranhamento? aquilo que a filosofia ocidental e os romances medievais acalentaram como virtude não foi sempre estranho?

(03:47:15) Cecilia Giannetti: rodrigo: a que estranhamento vc se refere?

(03:47:47) Pattoli: oi Cecília. gostaria que você contasse um pouco do seu processo para escrever. você senta na frente do computador e se obriga a escrever ou a inspiração vem fácil no dia-a-dia?

(03:50:59) Cecilia Giannetti: Pattoli: preciso de tempo pra entrar no livro. um tempo que não pode ser programado por prazos mordiscando minha canela. preciso me desligar de tudo, fico sem sair de casa e tb acabo tendo que desligar todos os programinhas maravilhosos de interação que me mantêm em contato com amigos que moram longe de mim. desta vez, enquanto escrevo meu segundo romance, Cafe Fatal, vou tentar fazer diferente, um corte menos radical. para escrever as crônicas da Folha, meu roteiro é outro: vou pra rua, com um bloquinho. às vezes o tema sai do que observo, às vezes não presto atenção em nada em volta e escrevo em cima de uma idéia que já vinha matutando.

(03:52:18) Bombay: cecilia, como começou sua coluna na folha? voce acha que ja encontrou seu formato para uma coluna semanal?

(03:55:11) Cecilia Giannetti: Bombay: minha coluna desde o começo é o olhar de uma carioca sobre outros cariocas – ou sobre qualquer outra gente e lugar com o qual eu entre em contato. às vezes é mais bem humorada, noutras, como no caso daquela sobre o acidente da TAM, é mais “downtempo”. pode ser desesperada. é um aqui-e-agora com a minha voz, meu estilo de narrar.

(03:55:15) MANDRAKE: Que dica vc daria para um escritor em começo de carreira?

(03:57:26) Cecilia Giannetti: Mandrake: ler e escrever diariamente. separar um horário do dia ou da noite para isso. não deixar de ler os contemporâneos, mas também não perder tempo demais com um texto que nitidamente não te agrada. comece escrevendo QUALQUER COISA. escrever começa assim, ir mexendo numa primeira frase até que ela se torne outra coisa e outra coisa e outra coisa.

(03:57:30) Pedro_Poplist: que tipo de música você gosta de escutar quando ta escrevendo? tem diferenças quando você tava se concentrando no seu romance, ou quando você ta escrevendo uma coluna?

(03:59:33) Cecilia Giannetti: Pedro: com raras exceções, enquanto escrevo, a música de prefrência não pode ter vocal. jazz velho, bem velho. big bands. swing. mas na maioria das vezes prefiro silêncio total.

(04:00:55) Cecilia Giannetti: Pedro: a coluna da Folha escrevo no som da rua. às vezes no meio de uma feira, literalmente, como foi o caso do texto sobre a Feira de São Cristóvão e outro sobre o Chorinho na Feira de Laranjeiras

(04:00:15) Lucia: oi, Cecília, a crítica da Cult foi muito dura tanto com seu livro, como de outras “novas” escritoras. Cabe fazer aquilo tipo de direcionamento do olhar do leitor sobre novas produções?

(04:02:32) Cecilia Giannetti: Lucia: não cheguei a ver a Cult. Se cabe tentar impedir o leitor de chegar a um livro com uma crítica destrutiva? É o editor de cada veículo quem decide. Outra discussão é: quem critica está aparelhado para criticar?

(04:02:51) Bia bhte: Ola ,muito boa tarde! gostaria de saber o pq desta capa do livro de onde veio esta inspiração?

(04:05:59) Cecilia Giannetti: Bia, boa tarde! A capa quem fez foi Christiano Menzes, artista plástico que conheço desde os 10 anos de idade e um dos raros capistas que lêem os livros antes de criarem qualquer coisa no photoshop para cobri-los. Dentro da TV, na capa, vemos uma cesária. Gosto da maneira que ela remete ao coração de Cristo numa folhinha na parede atrás da TV. Na conbtracapa, tempos um jarro de flores de plástico, suburbaníssimo. O tom de azul remete ao muro da casa da avó do personagem Baiano, que tem um centro espírita. A boneca de olhos vidrados… bom, descrever cada coisa é uma viagem sem fim. Vai ver a gente deve perguntar ao artista :-)

(04:07:59) Cecilia Giannetti: agradeço a todos aqui no bate-papo e ao UOL pelo convite. foi muito boa a conversa, adorei o feedback. obrigada, amigos.

(04:08:14) Moderadora/UOL: O Bate-papo UOL agradece a presença de Cecilia Giannetti e de todos os internautas. Até o próximo!

escrito às 4:38 PM por giannetti

BATE PAPO UOL HOJE

A partir das 15h, tô batendo papo sobre o livro.

Jornalista e escritora conversa com os internautas sobre “Lugares que Não Conheço, Pessoas que Nunca Vi”. O primeiro romance da colunista do jornal Folha de São Paulo conta a história de uma repórter de televisão que entra em crise ao presenciar uma forte cena para a qual pensava estar preparada e acaba sendo arremessada para uma nova realidade.

escrito às 3:06 PM por giannetti

FALA QUE EU TE ESCUTO

“Minha mãe era apaixonada por beleza,”, diz uma mulher de uns 60 anos, descontado o botox, a uma amiga de mesma idade e compleição também recauchutada. Estamos em um barzinho numa calçada da Lapa. As duas são interrompidas por um moleque que pede moedas. Ele tem um bicho na mão, que acaricia. É um rato branco. Grande demais para ser um ramster. O segurança do bar o enxota. As senhoras emudecem, pagam a conta e perco a continuação da história.

Toda terça-feira, desde o começo do ano, publico uma coluna na Folha de S. Paulo. A de hoje está aqui.

escrito às 12:07 PM por giannetti

Sábado, Novembro 17, 2007

RESENHAS

Têm saído: Folha, Globo, IstoÉ, um bisu na Trip, outro na (vejam só) revista Quem. A resenha de que mais gostei, só consegui ler duas semanas depois de ter sido publicada. Eu estava num sítio onde não pegava nem telefone nem internet. É a do Prosa & Verso, escrita por Beatriz Resende. Consegui escaneá-la, em três fragmentos. Um quebra-cabeças que postei no Flickr.

escrito às 4:54 PM por giannetti

Sexta-feira, Novembro 09, 2007

PARA A CLASSE TRABALHADORA

‘good morning,’ says the sun to all the buildings.
‘you look like you’ve been up all night.
waiting for my answers
there’s no more room in heaven,
so when you tumble down,
your bricks will lay foundations
for new structures, roads and towns.’ – “Good morning”, Lullaby For The Working Class.


blanket warm

No site da Rolling Stone você pode ouvir uma meia dúzia de faixas dessa banda de poetas. Recomendo “Honey, drop the knife” (“Querida, larga essa faca”… da letra: “honey, please, put the knife away/ honey, please drop the knife on me/ drop your clothes for forgiveness”). As canções invariavelmente têm letras que dariam um conto e são à base de violões, às vezes alguns violinos. O melhor álbum, pra mim, é o Blanket warm. Na minha rádio na LastFM você consegue ouvir algumas faixas também, se der sorte. Mas eu sei que você é sortudo. Eu sei.

escrito às 12:13 PM por giannetti

BERLIM

O blog de Berlim ainda é atualizado com frequência (cadê a trema neste teclado?). Foto, texto e música. É, descobri a música de novo. O silêncio daquela cidade me deu esse presente.

escrito às 12:12 PM por giannetti
Domingo, Outubro 28, 2007

SP

Abri “Malagueta, Perus e Bacanaço” numa página qualquer e:

Era um domingo.
Dia claro, intenso, desses dias de outubro. Um sol…
Desses dias de São Paulo, que ninguém precisa dizer que é domingo.
– João Antonio.

escrito às 6:04 PM por giannetti

FOTOS

Assim que reclamei do post que não conseguia apagar, ele desapareceu. Traquinagi.

Minha geek master e amiga exilada em São Paulo Helena Nacinovic tem fotos do meu lançamento em SP, clicadas por ela numa câmera poderosa. As minhas, feitas numa câmera indigente que eu amo, mas insisto em esquecer em todo lugar onde vou, foi novamente resgatada e acabou indo parar, por algum motivo, na redação da revista Trip. Hmmm.

escrito às 2:23 AM por giannetti

ALTERIDADE E AUTORIDADE

“Não sou eu quem descrevo.
Eu sou a tela.” – Pessoa.

escrito às 12:03 AM por giannetti

Sábado, Outubro 27, 2007

PROVAÇÕES

Um sábado com algumas delas, pra quem precisa sentar o rabo e escrever. Como o sol convidativo que apareceu lá fora pra enxugar a lama da chuvarada que – como é tradição há décadas – bota o Rio de Janeiro pra descer a ladeira (mais ainda). Eu sabia que ele ia sumir antes do fim da tarde; e sumiu. Menos uma provação. Mas uma sujeita que acaba de se mudar para o apartamento abaixo do meu decidiu que sábado era um bom dia para furar o teto e colocar persianas novas. A furadeira, sem dúvida, estava trabalhando bem embaixo da mesa onde fica meu computador. A sala inteira tremia. O barulho chegava a cobrir as vozes que sobem do bar da esquina, um feito e tanto.

O incômodo resistiu mais que o sol. Aparentemente furar o teto (meu chão) é tarefa demorada. E a mulher parecia se dedicar a ela com sadismo. Um dentista escavando um canal. Um canal abaixo dos meus pés. Meu apartamento deve ter agora um daqueles recortes redondos que se fazem em desenhos animados ou nos filmes do Inspetor Clouseau, e a qualquer momento o chão cederá sob este exato recorte. Escoarei pelo buraco com computador e tudo ao apartamento de baixo. Espero aterrissar sobre a cabeça da nova moradora do prédio.

Por outro lado, tentei apagar o post das fotos. Pensei melhor e decidi que o Flickr é o lugar apropriado para imagens de lançamentos etc. Mas não consegui apagá-lo. Nem no Firefox nem no Explorer. O post nem aparece entre os editáveis do Blogger.com. Botton line is: quero tirar as fotos do post abaixo e não tenho como. Porque o post abaixo, segundo me mostra a tela de edição do Blogger.com, não existe. Isso deve parecer fascinante para vocês, feito um episódio de Lost. Um mistério incrível, assim como as intenções da cocoroca do apartamento abaixo. Persianas… really?

escrito às 11:46 PM por giannetti

Quinta-feira, Outubro 18, 2007

LANÇAMENTO

Nesta quinta-feira, 18, lanço Lugares que não conheço, pessoas que nunca vi, às 20h, em São Paulo, na Mercearia São Pedro (ver convite abaixo). Meu desejo é que vá todo mundo. Mas se apenas a minha turma de São Paulo comparecer, fico feliz.

escrito às 3:05 AM por giannetti

Terça-feira, Outubro 16, 2007

LANÇAMENTO EM SÃO PAULO

escrito às 10:38 PM por giannetti

QUEM

Quem (a revista), me colocou lá em sua lista de “70 pessoas que amamos”. Tá em todos os salões de beleza do Catete ao Lebronx, pô. Até meu cabeleireiro hetero viu. E em semana de lançamento do livro. Perfeito. “Hype com conteúdo”, escola Will Self-made-man mais popular (se bem que ele participou até de seriado de TV).

escrito às 9:53 PM por giannetti

Sábado, Outubro 13, 2007

MODELO

Adivinhe:

1. Tom Waits
2. Mark Wahlberg
3. Meu primo

escrito às 1:55 PM por giannetti

DIA DAS CRIANÇAS

Tom Waits voltou cambaleando ao meu player arrastado por Daniel, auto-proclamado último judeu da Ilha do Governador (um inferno, não tem metrô), subúrbio que, a se levar em conta o depoimento desse primo de segundo grau, fica agora sem judeu algum: a partir de hoje, assim que Eliezer, seu pai, vier buscá-lo, Daniel volta a morar no Méier (um inferno, não tem metrô). Quando saiu nos jornais que a Ilha constava em segundo lugar na lista de zonas mais perigosas do Rio de Janeiro, a família a que ele pertenceu nos últimos 365 dias apenas perifericamente – Daniel viveu sozinho num barraco no bairro insulano do Zumbi desde os 12 anos. Ele agora tem 13 – convenceu-o a voltar para casa, na condição de que jamais tornassem a mencionar a questão que o levou a partir em primeiro lugar (a descoberta de que sua mãe consentira em fazer sexo, e não só isso, mas tendo tornado a fazê-lo meses antes de a irmã de Daniel, Natasha, nascer). Está esperando aqui em casa para fazer a transição, como um pit-stop de upgrade de subúrbios. Afinal, esses dias o Méier é considerado um pouco superior à Ilha.

Daniel ama Tom Waits. Durante o ano em que passou longe da família, bebeu Coca Zero com Bourbon traficado por uma tia que, recém-filiada aos Alcóolicos Anônimos, não sabia o que fazer com seu estoque particular; o objetivo de Daniel era ganhar a voz de Tom Waits. Os cigarros de palha Cowboy (aqueles com um cowboy na embalagem) vendidos pelo jornaleiro cego ajudaram. Daniel canta igualzinho ao Tom Waits, mas não sabe nenhuma letra inteira de cor. A bebida deve interferir na memória. O guri é nossa aposta pro Tim Festival de 2015.

Daniel até fez uma tatuagem igual a de Tom Waits. Com a ajuda de um amigo imaginário, um canivete e anestesia de uma garrafa da tia, desenhou o coração envolto em uma faixa na qual não está inscrito nome algum. É o seu jeito de se aproximar das garotas no colégio (Daniel não abandonou os estudos, apesar de não acreditar que a educação formal possa ajudá-lo a se tornar o sucessor oficial de Tom Waits). Ele fala com a voz rascante e arrastada de um interno da Febem: “Ei, seu nome aqui. Que tal?”. Ainda não beijou ninguém e seus dentes já estão apodrecendo.

A música preferida do filho mais novo do meu primo mais velho é justamente “You can´t unring a bell”. Ele me explica o significado da parte da letra de que se lembra – não por acaso o título da canção: “Quer dizer que merdas cagadas não voltam ao cu,” diz pausadamente, movendo um palito do canto esquerdo para o canto direito da boca. Tom Waits pode ser um gênio, mas Daniel sabe colocar as coisas de uma maneira menos empolada.

“Tia, a sua geladeira só tem cerveja. Onde estão os destilados?” “Eu não sou sua tia. Tecnicamente sou sua prima. E você foi adotado, ou seja, não faz sentido ter fugido pra Ilha do Governador pois sua mãe não fez sexo para ter você, ela só assinou uns papéis. Os destilados ficam embaixo da pia.”

Tenho jeito com criança. Vou enrolando.

“Baixa o Closing time e queima um CD pra mim.” Feito.

E ainda tem Tropa de Elite I, II e III (aquele com o BOPE esculachando na real) pra gente ver até Eliezer chegar.

escrito às 1:42 AM por giannetti

AUSTEN

“After long thought and much perplexity, to be very brief was all that she could determine on with any confidence of safety.”
— Northanger Abbey, Chapter 29

escrito às 1:15 AM por giannetti

Sexta-feira, Outubro 12, 2007

TAKE IT LIKE A MAN

“You can’t unring a bell” – Tom Waits. Beleza pura.

escrito às 8:18 PM por giannetti

Quinta-feira, Outubro 11, 2007

BERLIM

Continuo postando no meu blog do projeto Amores Expressos fotos de Berlim com a historinha do lugar em legenda, micos, mitos, anotações. Vou ver se deixo de preguiça e coloco aqui um link fixo para o outro blog.


Veja o que é.

escrito às 10:33 AM por giannetti

Quarta-feira, Outubro 10, 2007

OBI WAN KENOBI

Recebemos e-mail de leitor. Recebemos dois. Três. Por aí vai. Não temos no blog caixa de comentários, para evitar spam, piolho e outras endemias da selva. Tenho colado aqui as mensagens sobre o meu livro, como a de Paula F.

Se fosse resenha, não me convencia.

Resenhista não dança balé, como a Paula (fucei o Orkut da Paula. Paula dança balé). Resenhista lê de pé. No metrô. Ou no engarrafamento. Falando ao celular. Assim que funciona, acho. Trabalhei em jornal, deduzo daí.

Leitor… bem, leitor lê. Paula, diferentemente de outros leitores, diz ainda por cima ter me ouvido também. Vamos progredindo, então, para-psicologicamente, de carta de leitor em carta de leitor.

Qualquer dia vai me chegar um e-mail informando que alguém comprou o Lugares que não conheço, pessoas que nunca vi, e que, ao abri-lo, me materializei em holografia a sua frente.

“Help me, Obi Wan Kenabi, you´re my only hope”. Esse tipo de coisa.

(Tive um amigo que, toda vez que bebia e era solto na rua feito fera, ajoelhava-se frente à primeira caçambinha da Comlurb, dessas presas a poste, e pedia com urgência e humildade: “Help me, Obi Wan Kenobi, you´re my only hope”, como se ali enxergasse o Membro do Alto Conselho Jedi de Guerra nas estrelas.)

Cecília,

te vi a primeira vez na FLIP deste ano. Ri e me emocionei com as suas palavras no palco.
Te vi pela segunda vez ainda na flip, porém entre uma multidão..
estava sozinha e observando pessoas ou alguma coisa.
te vi pela terceira vez numa livraria. li mais de suas palavras e te comprei para presentear uma amiga. (quero deixar claro q fiquei em duvida entre vc e o nobel coetzee, mas fiquei com a 1ª opção pq gosto de lugares que não conheço e de pessoas que nunca vi, apesar de ter te visto já duas vezes até então).
te vi pela 4ª vez aqui nesse novo meio de comunicação.

posso te adicionar?

beijos da sua leitora de terças feiras – Paula F.

Te add.

escrito às 12:46 AM por giannetti

Terça-feira, Outubro 09, 2007

HIC ET ILLE

Um espelho não tem coração, mas tem muitas idéias. (Malcolm de Chazal).

“Todo ser humano carrega consigo, vida afora, um espelho exclusivamente seu e do qual será tão difícil livrar-se quanto de sua própria sombra.

Jogo de salão para uma tarde chuvosa: imaginar os espelhos de nossos amigos. O amigo A tem um enorme espelho de pendurar em parede com uma moldura dourada e barroca; o B, um pequeno e discreto espelho de bolso, dentro de um estojo de pelica, com as iniciais gravadas no verso; sempre que olhamos para o amigo C, este está prestes a jogar fora seu espelho, mas se olharmos para dentro de seu bolso, ou mesmo para o forro das mangas de seu paletó, encontraremos outro espelho, sobressalente.

A maioria, talvez a totalidade de nossos espelhos, distorce ou não faz jus a nossa imagem, embora isso se dê em graus e formas diferentes. Alguns aumentam, outros diminuem, outros refletem imagens lúgubres, cômicas, sarcásticas ou aterrorizantes.

Mas as propriedades de nossos espelhos não são tão importantes como às vezes julgamos. Seremos avaliados não pelo tipo de espelho que possuímos, mas pelo tipo de utilização que a ele damos por nossa, riposte ao nosso reflexo.” – w.h. auden, em “A mão do artista” [se me deixam citar sem brincadeiras. senão, passem ao post abaixo, em que brinco de citar.]

escrito às 12:12 AM por giannetti

Segunda-feira, Outubro 08, 2007

PANAMERICANA

Aparecem pela minha casa uns bloquinhos finos, de papel branco, pautado, marca: PanAmericana. A capa estampa meio termo entre vaca malhada e dálmata. Pequenos mesmo: 100×70. Milímetros. Irresistíveis, combinam com toda sorte de vício disfarçado sob o genérico termo “pesquisa”. Três livros que leio e deles anoto nos caderninhos minúsculos. A regra de utilização dos caderninhos é que cada entrada tenha no máximo cinco linhas. Se for algo muito excitante, é concedida à notação uma página INTEIRA de 100x70mm.

Minha caligrafia vem se amiudando com o treino nos caderninhos. Logo, só eu vou entender o que escrevo neles. Deve ser isso que xingam de obscurantismo infantil.

A “pesquisa” é toda codificada, como o diário de Annie Lister em inglês do século 21, o que teria sido mais difícil de decodificar caso meus bloquinhos fossem encontrados em fins de 1800 dentro das calças um tanto folgadas de Lady Lister ou sob a cama de uma de suas amantes, Marianne. Aquele marido de Marianne, vou te dizer. Um bovino (bovariano) sem testículos. Annie teria mais chance – e teve. Lister não foi a primeira sapata moderna, mas a primeira menine moderna a escrever. Há quilômetros de diferença, como Berlim insiste em evidenciar, entre as duas coisas. Um dos milestones que marcam essa distância é estabelecido pelo banheiro público. Pense, McFly.

Um(a) menine entra no banheiro público feminino. As mesmas características que podem fazer com que seja espancada no banheiro masculino podem levar com que seja expulsa do banheiro feminino pela maldade das mulheres que acham que se trata de um tipo de mulher cujo exterior não corresponde ao sexo com que nasceu. The “urinary segregation”, como descreve Lacan (now I´m just messing with ya. diga se apanhei-te, cavaco, e te direi quem és).

Dito isto, troco o diário por um romance inútil do Gore Vidal em que o fanfarrão Harold acusa o idealista Peter (esta vai pro meus bros reducionistas, yo):

– Diletante.

Delectare, deleitar. Os caderninhos. Cada nota no máximo cinco linhas.

escrito às 11:12 PM por giannetti

Domingo, Outubro 07, 2007

PEQUENO POST QUE VALE POR UM BIFINHO

Do Diário da Corte de Pisuerga: “Vou atacar a razão de novo, sabe, porque sou um tipo fascistóide e obscurantista. A razão é boazinha, coitada, muito trabalhadeira e tal, mas meio chocha. Se for madrugada e você vir um ou dois filmes de horror, cria um bom clima de medo na casa, e esse clima é, afinal, gostoso. Mas o que acontece se dois amigos se reunirem para ver uma maratona de filmes racionalistas de madrugada? Sei lá, documentários ateus da BBC, ou de mágicos desmascarando médiuns? Ao final desses filmes o que os amigos dizem um ao outro? “Ah, ficou um clima de racionalismo bem gostoso, né?” Isso não é vida. E que espécie de pessoas se contariam histórias de racionalismo em volta de uma fogueira?”.

escrito às 12:29 AM por giannetti

Sábado, Outubro 06, 2007

DE PESSOAS QUE NUNCA VI

[nem via internet, facebook, mIRC, sms, vídeo-conferência, telepatia. é bom assim também, que dá uma medida diferente de resenha.]

Olá Cecília,

acabei de ler seu livro e gostei tanto que escrevi um textinho recomendando a leitura para uns amigos. Mando para você ler (aí embaixo) porque imagino que se eu tivesse escrito um livro gostaria de receber as impressões das pessoas sobre ele. Aproveito também para pedir que, se possível, você me envie alguns contos seus, porque não consegui encontrar quase nada na internet. É possível me enviar os contos publicados nos livros indicados em seu blog?

Tenho um blog onde rascunho umas linhas de vez em quando, se você quiser olhar, www.razaoedelirio.blogspot.com. Meu post preferido é o mais antigo, lá no fim da página.

Um abraço,

Luciana.

Comentário sobre o livro:

Em meio a buscas de autores contemporâneos de nossa geração, tive a felicidade de cruzar com o livro de Cecília Gianetti, Lugares que não conheço, pessoas que nunca vi. É, foi feliz que fechei a contracapa do livro, feliz por ter vislumbrado beleza ali, não a beleza própria das coisas belas, mas aquela mais difícil de capturar porque emergente das camadas sujas de uma realidade brutal. No livro da Cecília, a violência urbana do Rio encontra uma expressão literária que eu sinceramente não acreditava possível, pois não é somente cenário para peripécias subjetivas, mas desempenha o papel ativo de tanto desencadear a narrativa, como de fornecer o material que deverá ser elaborado e decifrado pela mente da protagonista. O testemunho de uma cena de violência brutal detona um processo de desconstrução e reconstrução da identidade da personagem. A quase dissolução do eu em imagens tecidas em raios de lembranças e alucinações abrirá também um caminho de libertação. Nesse contexto, a tessitura do livro tem a consistência própria à memória e ao delírio, os quais impõe duplamente um caráter fragmentário à sua estrutura, o que não suprime, por outro lado, uma narrativa sutil que é sugerida aqui e ali.

Os conteúdos alucinatórios parecem ser a única resposta coerente à realidade social (pelo menos, de um ponto de vista de classe média, que é afirmado logo de partido no livro), sendo uma tentativa de organizar e conferir sentido à sua irracionalidade. Nesse esforço, competem em irrealidade com o mundo externo mesmo, conduzindo à dúvida do que é mais absurdo, se os delírios ou a sociedade.

A memória, por sua vez, abre múltiplas temporalidades no narrado. A maior parte do livro é construído como um diário do processo de desintegração do eu da personagem após o testemunho da cena de violência e isso já constitui uma forma de rememorar – e, portanto, de deformar e selecionar –, mesmo que um passado próximo. Naquele processo, como uma segunda camada de memória, lembranças distorcidas vão fornecendo pontos de referência para recompor um passado que muitas vezes a protagonista quer negar voluntariamente.

Fechar o livro da Cecília numa caixinha de poucas linhas é injusto, mas foi minha tentativa de despertar em vocês um pouquinho de vontade de compartilhar essa leitura comigo (posso emprestar o livro para quem pedir primeiro). Segue um trechinho para sentirem o ritmo da toada:

Coloco o homem porta afora. Bêbado, vai fácil. Giro a chave três vezes e fecho ainda outro trinco acima da fechadura. O homem vacila, escuto seu corpo bater contra a madeira da porta, soando magro e disforme. Dou as costas àquela aporrinhação, leve, estou livre de alguém que não reconheço mais, indiferente à dor fanfarrona do sujeito. É como se pela primeira vez eu me desse conta de mim mesma, leve, ainda que ignore informações básicas que – é possível perceber pela maneira como meus amigos me olham quando me fazem perguntas – eu deveria, por algum motivo, reter. Além de seus nomes e profissões, algumas outras informações como: a importância, na minha história, do homem que uiva do lado de fora. Subo as escadas do duplex até o quarto, adivinhando que agora ele gasta com ninguém a cara de cachorro perdido, bufando na calçada deserta a aporrinhação que me desbotaria o sangue, caso eu me deixasse abater.

***

Cecilia,

vi teu livro hoje em uma livraria…e não pude deixar de me emocionar um pouco com essa força da literatura. é como dizia o Whitman… peguei no teu livro e era como se estivesse bem proximo desse teu olhar meio triste e meio doce… sou até capaz de adivinhar alguma selvagem ternura dentro desses olhos…mas o livro foi mais forte e me pegou…fiquei meia hora em pé lendo… vou juntar uma rana para comprar o meu ainda nesta semana. só senti isso…a necessidade quase física de ter uma coisa ..quando saiu opor aqui o primeiros discos dos Smiths e do Pixies….ah e quando comprei a caixa do Salinger. Quero te entrevistar lá para o meu confuso e abstrato teatrofantasma… Posso enviar as questões?

MARCELO.

***

Cecilia
Vou encomendar o teu livro em várias livrarias, assim eles terão no estoque…( E é claro indicar para vários amigos…) O título me atingiu em cheio…

MARCELO.

escrito às 12:38 PM por giannetti

Quarta-feira, Outubro 03, 2007

SOBRE PESSOAS E MONSTROS

De Galvão, Vida Besta.

escrito às 4:02 PM por giannetti

Terça-feira, Outubro 02, 2007

UM BLOGUEIRO COM A CABEÇA NO LUGAR

Da minha coluna na Folha desta terça:

SE A blogosfera fosse um balneário ensolarado, eu chamaria esse cara pra tomar um chope. E se o jornalista e blogueiro Hossein Derakhshan (aka Hoder) tivesse permanecido em Teerã, onde nasceu, estaria preso ou já teria, literalmente, perdido a cabeça.

Hoder tinha 27 anos e uma coluna diária sobre cultura e internet no jornal “Asr-e Azadegan” (algo como “Tempo dos Livres”), quando, em 2000, o aiatolá Khamenei mandou fechar essa e outras 16 publicações, incluindo o “Jameah” (“Sociedade”), primeiro jornal reformista iraniano. Pego de surpresa, como centenas de colegas jornalistas que ficaram desempregados da noite para o dia, mudou-se para Toronto, no Canadá. (…)

escrito às 10:37 AM por giannetti

pois é, brasil

escrito às 10:35 AM por giannetti

Segunda-feira, Outubro 01, 2007

SÚBITO BARRA ÓBITO

meu amor perdeu
os dentes da frente
não pode mais assobiar
seu próprio uivo

meu amor perdeu
todos os dentes
não pode mastigar os cacos
de vidro da dor.

da bruna beber.

escrito às 5:25 PM por giannetti
Sexta-feira, Setembro 28, 2007

GENTE VIVA É OUTRA COISA

[Minha coluna publicada na Folha de S. Paulo terça-feira passada]

É UMA raça. Seu maior atrativo transcende a estética e as superfícies, e pode ser sentido mesmo nos mais simples da linhagem. Não são necessariamente bonitos, mas também não se sabe de algum que não circule por aí com uma aura que com freqüência é apontada como beleza, ainda que em alguns casos seja chamada de não-convencional. Cabelos fora do lugar, certo desalinho nas roupas, uma cicatriz em quelóide: nada parece repelente neles. Não precisam de moda, carros, celulares que tiram fotos e tocam músicas, de internet nem de tapinhas nas costas.

Sem essas coisas não se sentem inseguros; com elas, não ficam nem um pouco melhores do que já são. Quanto mais perto deles chegamos, fascinados, curiosos, mais força eles ganham.

Não consigo apanhá-los. Mas sinto que, perto de qualquer um da espécie, fico mais forte. E quando por acaso passo algum tempo sem ter contato com eles, as coisas desbotam.

Quando saem de cena, algumas pessoas se sentem aliviadas (ao contrário de mim) como se nada mais de errado pudesse acontecer outra vez nas suas vidinhas. Eles podem ser vistos como erro. Mas, depois de muito tempo sem eles, seu retrato é retirado de uma caixa para servir de comparação com as pessoas comuns. A diferença é gritante.

Falando desse jeito, parecem gente ruim, os da raça. E são. A crueldade deles é a que costumam atribuir aos gatos seus detratores; intrínseca a um carinho. Gato chega lerdo perto do sofá e esfrega a cabeça na mão desocupada do jornal. Deixa o dono sentir o pêlo gostoso por pouco tempo, dá-lhe uma mordiscada na mão e vai comer passarinho no quintal, de preferência filhote, que cabe inteiro na boca de uma vez.

O animal sempre parece saber alguma coisa que a gente não sabe. Se for blefe, o que ele sabe então é que somos idiotas, pois acreditamos que sabem alguma coisa além do que há para saber. Acreditamos sim, por isso olhamos tanto para eles, pros nossos animais. Esperando a comunicabilidade impossível.

Voltando a eles, à raça, encontram você ao acaso e o impacto de sua chegada é maior. Pode ser de madrugada, numa lanchonete ordinária, mastigando palavras que te fazem esquecer o cheiro de hambúrguer e fritura.

Respirar não lhes basta. Precisam confundir mundos, trocar lugares de lugar, colocar a água do mar no calçadão, transformar guaraná em chope, papel em dinheiro, zumbis, criaturas semimortas, em pessoas com alguma vontade de sair de casa e rir um pouco.

A linhagem é rara. Mas não tão rara que não se possa vê-los tomando o metrô no largo do Machado, saltando em algum ponto de Copacabana, pegando telefones, fazendo ligações, marcando desencontros, partindo, deixando uma fila sem fim de cabeças que não entendem. Que não podem esquecê-los simplesmente porque eles, os da raça, estão vivos demais.

escrito às 12:37 AM por giannetti

Quinta-feira, Setembro 27, 2007

AINDA ORANGOTANGOS

Roubado do blog do Fabro:

Sobre o filme baseado no livro de Paulo Scott.

escrito às 3:29 PM por giannetti

Quarta-feira, Setembro 26, 2007

MELÔ

desacovardei a estrofe-bregueira grunhida. e me vieram com
“café pelo menos”, “um pedacinho de” não insista em me alimentar.
não foi pra eu comer barra de cereal que inventaram os aviões.
cadê as estradas, pra que lado fica você?
vou atrás do verbo que fecha minha garganta.

escrito às 5:23 AM por giannetti

POPULARIDADE É UMA COISA SUPERESTIMADA

O Paulo Scott organizou no domingo o Primeiro Popular no Rio, na Cinemateque. Cheguei sem saber o que ia mostrar no palco, mas a coragem de performers top de linha me inspirou a fazer besteira. Abri a noite confessando que era um travesti, toquei uma guitarra sem corda e li metade de um capítulo do meu livro, Lugares que não conheço, pessoas que nunca vi. À venda em todas as livrarias, inclusive pela internet via Livraria Cultura.

Agora comprem meu livro.

***

No vago sol que cai e feta sobre o lombo de livros, Scott, a gente sempre vai ficar melhor aglutinado, amotinado, etc.

escrito às 1:51 AM por giannetti

Segunda-feira, Setembro 24, 2007

RESENHA

É mais que isso pra mim.

Publico abaixo a crítica de Helena Aragão, bastante comentada pelos leitores do Overmundo. Me deixou feliz. Até agora foi votada 276 vezes pelos usuários do site e os comentários dizem que ganharei novos leitores.

Segue a crítica:

Nos últimos dias, estive em companhia de uma mulher em decomposição. Ela estava ali, como uma sombra à minha frente nos ônibus, nas filas, na mesa do almoço, antes de dormir. Não, apesar do meu estado de espírito ultimamente, não se trata de um alter-ego. A repórter de TV de “Lugares que não conheço, pessoas que nunca vi”, primeiro romance de Cecilia Giannetti lançado semana passada pela Agir, está à espreita. Alucinante e alucinógena. A vaidade como obsessão e a indiferença como padrão jornalístico já estão praticamente incorporados na vida estéril daquela fêmea meio robótica quando uma cena chocante causa um curto-circuito. Acaba a rotina, começa o fluxo de pensamento. Bem-vindo ao caos.

Fico imaginando se um cineasta aventureiro pirasse na batatinha e resolvesse filmar aquilo. Funcionaria como um meta-filme em que a personagem está no cinema e vê a tela derretendo em múltiplas cores. No decorrer da história, há ares expressionistas, sombrios e estranhos dentro da personagem, e impressionistas – aqueles fragmentos de cores que, unidos, em geral formam alguma coisa. E formam alguma coisa?

“Meus amigos perdiam seus contornos um pouco a cada dia:
Uma vez um deles apareceu com o nariz no lugar do pescoço; o outro, a orelha no lugar da boca; um terceiro alojou uma ferradura no lugar do coração”.

Cheguei ao meio do livro com a sensação de que não estava entendendo mais nada – e caí na bobagem de interromper no meio, agora que sei que é um livro bom de ser lido de uma ‘vezada’ só. Perdidona, me senti que nem naqueles livros de imagens em que se fixa o olhar para ver pular do papel uma forma em 3D. Como me irritava ficar dezenas de minutos de olhos em pontinhos alinhados e daqui a pouco um amigo do meu lado gritar: CARAMBA, É UM BARCO! AQUI, AQUI, UM BARCO, QUE LINDO!!!! E eu, invejosa e desesperada, tentando enxergar uma ligação entre pontos que pudesse parecer com aquilo. Humpf. Mas voltando ao livro: lá pela metade, como disse, estava meio com essa sensação. Mas foi só deitar na cama e comecei, sem querer, a traçar a narrativa que, sim, está presente, sutil e impiedosa, com auxilio enlouquecido das ilustrações de Cristiano Menezes. Repare que ninguém falou aqui em verdade. Há uma tentativa de suicídio, uma tatuagem mal-apagada, uma mudança de apartamento… Há quase mini-contos espalhados no caminho, com direito a um homem sem cabeça e chineses agitados. “Assim penso ter apreendido o significado da fé: crendo distraidamente no que não pode ser.” Há a Central do Tédio, há Baiano, Tio Santo e Doca, o menino que quer ser Erê. Há beleza pouco óbvia. Tudo com o Rio de Janeiro ao fundo, embaçado, ruas que conheço derretendo bueiro abaixo.

Chego ao fim (fim?), fecho o livro e a lombada marcada deixa a capa meio entreaberta. Vejo então o trecho da dedicatória de Cecília:

“Heleninha…
Meu Rio de Janeiro fragmentado… Gosta?”

ô.

**

A dedicatória foi escrita na terça-feira passada, durante o lançamento, claro. Bar de quintal e garagem, fila de respeito para comprar o livro e pegar o autógrafo da autora, que é editora do Portal Literal, assina coluna semanal na Folha de São Paulo e participa de uma pá de projetos literários. Não entendo essa coisa de lançamento, assim como não entendo velórios. A maior interessada (no caso do lançamento, hohoho) parece ter oportunidade escassa de curtir seus convidados, entre assinaturas e goles de vinho. Uma vez li que o Nelson Motta botou o vendedor de um livro dele para pegar os endereços (não sei se é uma prática corriqueira). Mandaria as dedicatórias pelo correio e curtiria sua festa. Sei que tem cara de grã-fino, mas que faz sentido, faz…

Mas mesmo com obrigação de assinar centenas de livro, Ciça estava curtindo. Fiquei feliz em notar que o feudinho literário carioca estava todo presente para prestigiar: editores, jornalistas de cadernos literários, designers, escritores ?da nova geração?. (é engraçado ficar acompanhando de longe as conversas do feudinho, o prêmio tal anunciado hoje… a reação de um editor à tal capa ontem… parece aquela coisa de ligar a TV numa novela que você quase nunca vê e ficar rindo… só até se envolver com as histórias e adentrar no mundo da ficção).

Fiquei mais feliz ainda ao ver que na fila, à minha frente, uma turma de jovens e velhos importados diretamente da infância de Cecília na Ilha do Governador a levou às lágrimas. Recebi minha dedicatória-pergunta (“Gosta?”) e fui conversar com o editor do livro, também amigo. Lembramos de como a trajetória daquela obra foi enviesada. Uma novela que começou em 2002, superou uma perda total da história num micro que deu pau e ainda uma troca de editora. “E posso te garantir, Aragão, que todas esses solavancos fizeram bem ao livro, cada versão foi ficando melhor”, disse-me ele. “Males que vêm para bem, males que vêm para bem”, fui embora repetindo, como um mantra.

**

Quanto é nossa participação na história proposta pelo autor dependendo de como estamos naquele momento da leitura? Em tempos estranhos, pode bater completamente diferente de como agiria se fosse um período primaveril. Independente disso, alheia a humores está a certeza de um livro milimetricamente pensado – mas longe de ser um engodo, ele conta com palavras assustadoramente no lugar para formar esse mosaico disforme que deixa o Rio incompreensível. Achei bom pra cacete, mesmo depois de tanta expectativa ao acompanhar, mesmo que a distância, aquele Frankenstein sendo construído. Fiquei com vontade de continuar acompanhando Ciça em suas aventuras literárias (e, por acaso, ultimamente meio barra-pesadas): comentei com ela que ia emendar com a leitura de “Muito longe de casa – Histórias de um menino soldado”, de Ishamel Beah (foi Cecília quem traduziu). Para quem não sabe, este é o rapaz de Serra Leoa que, bem antes de vir para a Festa Literária de Parati com uma carinha meio deslumbrada (eu também ficaria), foi soldado-mirim e fez coisas terríveis na guerra que devastou seu país. O livro trata disso. Leve como eu queria.

Mas foi a própria Ciça quem alertou.

– Não faça isso com você agora. Too much, too much…

escrito às 7:44 PM por giannetti

Quarta-feira, Setembro 19, 2007

ALIVE AND KICKING

Beleza do Levino, Aos pedaços, que o povo do Overmundo tá descobrindo hoje.

Rodrigo assina a Curadoria de Poeta deste mês no Portal Literal.

Aliás, sobre o Portal, pra comemorar entre os amigos: atingimos a marca de mais de um milhão de visitas constantes ou sei lá como chamam isso.

Agora escrevo o segundo livro mais tranqüila.

Minha coluna na Folha sai toda terça. Quem não conseguir acessar online e não achar o jornal na sua cidade, me mande um e-mail e eu dou um jeito nesse negócio.

E tô ali naquela programaçãozinha esta semana. Lê ali embaixo, ó.

escrito às 4:08 PM por giannetti

OBRIGADA

Tem gente que sempre chega na hora certa. Só falta usar capa e voar.

escrito às 3:57 PM por giannetti

Terça-feira, Setembro 18, 2007

PROGRAMAÇÃO
Amigos,

Vou ao Happy Hour da Astrid Fontenelle na quarta-feira, 19 de setembro. O programa é ao vivo, no GNT, das 19h às 20h. A pauta é Língua Portuguesa. Vou levar meu livro, o Lugares que não conheço, pessoas que nunca vi. E é capaz de eu já contar a história toda do próximo, Cafe Fatal sobre Berlim.

Na sexta, 21, falo na Bienal do Livro ao lado do João Paulo Cuenca, numa sala dentro do estande da Ediouro, Pavilhão Verde, num bate-papo com mediação de… não me disseram o nome da jornalista, mas o editor me disse que é alguém bacana e que não vai deixar a gente se perder em reminiscências de nossa infância, quando crescemos juntos, eu e Cuenca, em Maricá.

Ainda na sexta, vou à pré-estréia do filme de Murilo Salles, Nome próprio, baseado nos escritos da Clarah Averbuck, e que tem uns trechos de coisas minhas remixados. Sou a tia da Catarina (filha da Clarah) que se meteu de papagaio de pirata no roteiro.

No sábado, 22, volto à Bienal, desta vez no Fórum de debates, às 14h, pro meu stand-up comedy.

No domingo, 23, eu, Cuenca, Ferla e Paulo Scott invadiremos a Cinematéque da Voluntários da Pátria, às 19h30. Cantoria e leitura, coisa de vedete.

escrito às 2:11 AM por giannetti

Terça-feira, Setembro 11, 2007

TRÊS ANOS, UM LIVRO

Por Miguel Conde, no Prosa

Por três anos, a escritora Cecilia Giannetti trabalhou em seu primeiro romance, “Lugares que não conheço, pessoas que nunca vi” (Agir). Nesse período, ela perdeu e teve que refazer 70 páginas por conta de uma pane no computador, interrompeu a escrita várias vezes por causa de encomendas para antologias de contos, e tentou responder com paciência a quem perguntava: “e o livro?”. Quando o texto já estava entregue à editora e sendo revisado, ela ainda adicionou um novo capítulo à história – mais uma alteração, a última, na obra. O livro ficou pronto ontem, em cima da hora para ser levado à Flip, onda essa manhã ela participou da primeira mesa, com outros dois jovens autores: Fabrício Corsaletti e Verônica Stigger.

Cecilia já tinha participado de debates do tipo antes, mas nunca com um livro para chamar de seu debaixo do braço.

– Não vou ficar discutindo esse livro. Acho que o que eu tinha para dizer está dito nele – diz a autora, de 31 anos.

Os contos publicados em antologias e revistas tornaram o nome de Cecilia conhecido no meio literário, e criaram expectativas quanto ao seu livro. Entregar o texto foi um alívio, ela diz:

– É bom saber que eu já fechei um romance. Não vou ficar mais de maluquice nas próximas vezes, parada na frente do computador toda dura, esperando ter uma idéia. Agora já sei que o melhor é sair de casa, dar uma volta, e uma hora o texto vem. Além disso, esse é um livro muito cheio de paranóias, muito ligado ao Rio de hoje, de certa maneira foi bom me livrar dele. Estou feliz de ter conseguido criar uma história em cima de uma realidade tão escrota.

Sobretudo, diz, ela não queria escrever “só mais um romance realista”, nem, em outro extremo, “prosa poética de mulherzinha”. Os dilemas durante a escrita foram divididos com alguns poucos amigos, como o cronista do GLOBO João Paulo Cuenca, que ela conheceu anos atrás numa lista de discussão sobre música na internet. Agora, o que ela não quer é ler as resenhas do livro.

– Eu tenho que trabalhar, ler crítica do livro dos outros – diz a autora, que é editora do site Portal Literal e colunista da “Folha de S. Paulo”.

Outros dois livros já estão começados. Um será uma história de humor. Outro, o romance para o projeto “Amores Expressos”, que mandou 16 escritores a diferentes cidades por um mês para que eles escrevessem uma história de amor a partir da experiência (Cecilia foi para Berlim).

– Eu separo totalmente contos e romances do que eu escrevo no blog. A única influência da internet no meu trabalho é que ela me ajudou a não pirar. Eu era vocalista numa banda, vivia sempre em grupo, e quando resolvi escrever a sério tive que dar uma sumida, porque não tem outro jeito para escrever a não ser sozinha, sentada com a bunda na cadeira. Com o blog, eu mantinha algum contato com as pessoas.

escrito às 2:30 PM por giannetti

Segunda-feira, Setembro 03, 2007

DEMÊNCIA

Próxima quarta-feira, na aula da Oficina Literária do Portal Literal:

Daí a necessidade que os escritores têm de optar pela insegurança, o que os leva, muitas vezes, a pagar violento preço pessoal. Mas o que fazer se não for assim? Há, nessa escolha, um forte risco de perder-se, de sofrer, até de enlouquecer. Mas Sabato é taxativo e não recua: “O homem livre, o herético, tem de estar possuído de um valor quase demencial”.

escrito às 11:53 AM por giannetti