DO MANUAL P/——

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Portanto, para resumir o último capítulo revisitado do nosso Compêndio de Histologia da Alma, o ente começa a dissolver-se. Desaparece, enfim. Como antes explicado, contudo, não é um processo rápido. Não é tão logo um corpo se vai, que ele some.
Não somem logo os sapatos do dia-a-dia ou o jeito como se vestia para o trabalho pela manhã. Os trejeitos, trajes da ex-pessoa permanecem sólidos como esta maçã que alguém deixou sobre as provas corrigidas, na minha mesa. (Ela está suja, precisa ser bem lavada antes de comer ou que seja aceita em metáfora).
Mas. Vão-se os calos que um dia carregou nos pés (lembra, nos dedinhos trepados e na base dos calcanhares?), causados pelos sapatos de bater pela cidade.
Malditas pedras portuguesas, sempre dizia. Elas não somem.
O ente e o jeito alegre ou às vezes apenas cansado como você o percebia no mundo – e como o recebia em casa para o almoço num feriado – isto, sim, irá desaparecer. Desaparece o que representava tudo isso para você, e dá lugar a um estirar eterno dos seus braços, alcançando nada.
O que não quer dizer que deixará de sentir o cheiro conhecido dos cabelos, o perfume do corpo que só exala na curva do pescoço, e mais acima, ainda, atrás dos lóbulos das orelhas. Não.
Uma vez me disseram que há ainda algo de muito positivo neste capítulo, coisa que basta buscar sob a lupa, em notas de rodapé e sonhos vívidos – nos sonhos mais estranhos. Que basta caminhar adiante, ainda que mancando e com as calças a deslizar pelos joelhos. Que basta, que devemos nos bastar.
O que eu sei, não de segunda mão, é que se sente um medo bruto, estarrecedor, de que aconteça isto mesmo – o obliterar total da ex-pessoa. Que toda ela suma e nunca mais. Retém então as rugas, as ranhuras das folhas e plantas que ela emprenhou na terra. Guarda, enquanto pode: a memória dos poros dela.
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SIM

“Precisamos de uma literatura? Precisamos. Mas de uma arte literária, como de um teatro, de um cinema, de um jornalismo que firam, penetrem, compreendam, exponham, descarnem as nossas áreas de vida (…) O caminho é claro e, também por isso, difícil – sem grandes mistérios e escolas. Um corpo-a-corpo com a vida brasileira. Uma literatura que se rale nos fatos e não que rele neles. Nisso, a sua principal missão – ser a estratificação da vida de um povo e participar da melhoria e da modificação desse povo. Corpo-a-corpo. A briga é essa. Ou nenhuma.” – João Antônio, Corpo-a-corpo com a vida.

BESOURO AZUL ENTRE O BEM E O MAL

Da antologia ‘Heróis Urbanos’

Editora Rocco, 2016

[trecho]

– Em 2006 eu estava para deixar Ontário. Morei lá durante um tempo. Na manhã da minha partida eu acordei com todos os sintomas de um porre descomunal. Fazia sentido, eu tinha bebido com o pessoal no bar perto de casa. Eu não lembrava de mais nada da noite anterior, apagão completo. Comecei a fazer o meu café, a cabeça vazia e latejando. Quando ia tomar o primeiro gole de café, a boca quase na xícara, deixei cair no chão, quebrou, metade do café foi parar em cima da minha camisa, pelando. Foi aí a primeira fisgada, o começo de impressão sobre o que havia ocorrido na outra noite. Eu tinha matado alguém. E tinha matado com ódio.

– O que é que isso tem a ver com–

– …a mais nítida impressão! Eu terminei de fazer as malas como um fugitivo, mergulhado naquele terror que poderia, que pode, ainda – indelével – ser absurdo, infundado. Pode ser mesmo só uma sensação, e mesmo que seja, ainda trago isso comigo. Eu voltei pro Brasil no pior voo da minha vida, sem dormir um segundo, ardendo de febre, embrulhado naquele cobertor miserável e mal lavado, cheio de pele e de fios de cabelos de passageiros de voos anteriores. Eu aguardei. Por muito tempo. Mas nunca surgiu qualquer evidência de que eu matei alguma daquelas pessoas do bar, ou qualquer outra, nunca ninguém me procurou abanando indícios, esfregando provas na minha cara. E, se eu passei pela segurança do aeroporto… Mesmo que tenha acontecido de verdade, ninguém sabe. Nem eu mesmo sei. E eu te digo: talvez não chegue a ser memória, mas eu odeio esse animal me rondando, cercando-me por toda parte, mais ávido do que toda a força policial poderia ter feito comigo se de fato eu– Provas? Nenhuma, mas– Essa sensação que nunca me deixa, de que eu posso realmente ter feito aquilo, essa possibilidade existir na minha cabeça, isso é a minha pedreira, é para o resto da vida.

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CONTO @ FORMAS BREVES

Em mãos, num clique => ‘O Réveillon de Max Richter’

[trecho]

Sei que deve fazer muito tempo que não se diz o Nome em nossa casa, porque olho para Tula, na poltrona diante da minha, e é esta sua versão gasta que enxergo agora, não a que vejo nos meus sonhos de festas e viagens, de imagens de outro tempo. Imagens que vêm do mesmo lugar de onde saiu o Nome. Vêm da época em que até ela sonhava.

Tula sonhava. Éramos crédulos. Não passava pela cabeça da gente que podíamos, talvez, ter chegado atrasados ao mundo. Que tudo já havia sido feito e consumido, que nos sobrava o regurgitado, o já dito, escrito e reescrito. Nunca achamos isso – nós, novos, não. Tudo o mais já era velho.

p.s.: há erros que merecem revisão no texto citado? sim. ai do mundo sem os erros. história, há? sim. ai de mim sem histórias.

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ANTOLOGIA HERÓIS URBANOS

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A Ana Bergin – talvez pressentindo a minha ansiedade em ver e folhear e cheirar o projeto impresso -, me enviou um exemplar com perfume de rotativa, novinho, de ‘Heróis Urbanos’. Muito feliz em participar dessa antologia da Rocco (Jovens Leitores) ao lado da Luisa Geisler, do Rubem Fonseca, Raphael Montes e outros que vou conhecer agora, lendo este livro.

O meu conto aqui é o ‘Besouro Azul entre o Bem e o Mal’ e vou colar mais abaixo algumas ilustrações desse lançamento, feitas pelo Rascal.

Antes:

coincidência ou não, ao receber o livro – voltado à classe de leitores hoje conhecida como Y.A. (Young Adults, jovens adultos) -, eu estava de papo com uma amiga que tenho desde a pré-adolescência, falando de como às vezes, muitas vezes, tantas vezes, era simplesmente—

uma merda.

Uma merda colossal: aquela idade, aquilo tudo. Não existia ainda, ao menos entre nós, o termo ‘jovens adultos’, Y.A. etc. Mas sabíamos muito bem o que era o bafo na nuca, a pressão, a cobrança.

Muitos A.A.M. (Adultos Adultos Mesmo) ainda não são capazes de decisões que a gente é forçado a tomar mal saídos da infância. Aliás, acho que por conta disso é que eu já passei do lado newbie dos 30 e às vezes eu ainda sinto uma necessidade feroz de tirar 10 em tudo.

Tem A.A.M. que só vai ser feliz quando receber uma estrelinha dourada no contracheque… Com recadinho do patrão: ‘querido funcionário, você é *perfeito*’.

Olha: nem toda responsabilidade tem que ser um peso insuportável.

Faz alguma coisa que você gosta – desde que não seja agredir e machucar deliberadamente -, e, no mais, não se estressa tanto. As coisas melhoram.

Enfim, as histórias em ‘Heróis Urbanos’ não têm heróis perfeitos, certinhos. Nenhum deles recebe estrela dourada no trabalhinho. Mas fazem o melhor que podem, e erram e acertam.

Muito obrigada a Ana Bergin, Larissa Helena, Milena Vargas, toda a equipe da Rocco Jovens Leitores, aos super-heróis super-atentos da revisão – vocês são do time que realmente ajuda as coisas a melhorarem.

 

 

TOP 3 EM LITERATURA NA AMAZON!

Acabei de saber: o nosso e-book, lançado HOJE no e-galáxia, já virou TOP 3 de Literatura na AMAZON e TOP 6 nas demais.

A antologia tem conto meu, e também os de Alessandro Garcia, André de Leones, Claudia Lage, Estevão Azevedo, Luis Carmelo, Victor Heringer, Luisa Geisler, Maria Clara Mattos e Toni Marques.

Sinopse, trechos e atalhos para download, aqui: http://blog.e-galaxia.com.br/ho-ho-ho

 

‘AUSENTE’ – CONTO DE NATAL NO E-GALAXY

“CONTOS DE NATAL” é um e-book para download gratuito, oferecido de presentim a vocês pela agente confidente reluzente Marianna Teixeira Soares, da agência literária MTS, e pelo e-galáxia.

Já está no ar HOJE, 17/dez.

Tem conto meu, chamado ‘Ausente’, mais os de Luisa Geisler, Alessandro Garcia, André de Leones, Estevão Azevedo, Claudia Lage, Victor Heringer,Toni Marques, Maria Clara Mattos e Luís Carmelo.

Baixem aqui o livro: http://blog.e-galaxia.com.br/ho-ho-ho/

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TRECHO DE ‘AUSENTE’ 

Não sei por que a minha mulher quer sempre os dois filhos vestidos de vermelho na data. A menina não tem escolha. O mais velho se rebela como pode. De camisa vermelha, sim, mas com furos – suponho que começados na brasa de cigarro, em seguida arrombados por sucessivas passagens pela máquina de lavar, trata-se de um revolucionário limpinho -, um dedo sob o chamado Anonymous Wants You! aponta para quem olha a estampa.

Na garagem a lâmpada moribunda numa paródia de discoteca, como quando eu brincava ali com o amigo, mexendo no interruptor sem parar, acender/apagar ininterrupto, dançando Tom Jones na mesma garagem, os dois ainda sem idade para entrar em casa noturna. Mais escuro do que claro, chamei por ele uma só vez e então reparei no portão de ferro da garagem aberto. Querendo ir até o portão, tropecei em um bolo de coisas pelo caminho, parei, me agachei, examinei: a camisa social azul, a calça cinza, meias e sapatos – a lâmpada da garagem finalmente morreu, já foi tarde, e só o poste da rua emprestava luz. Larguei as roupas dele no chão e andei até a calçada. A rua deserta, como de costume. Para onde tinham ido os paparazzi? E nem sinal do cara também. Fiquei um pouco ali, sem saco para voltar à sala e tentar uma explicação, e lembrei de uma coisa que ele tinha dito mais cedo:

– É como se eu nunca estivesse presente.

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Frio demais para ser quem é

Faz frio demais para eu ser eu mesmo – pede via mensagem, um lirismo de gargarejo – Me dá um pouco de quem eu sou, de como lhe pareço, enquanto eu bato queixo eu acho que eu não penso, eu não ajo como Eu – você continua – então Você, a melhor pessoa pra saber dizer o que eu diria, como eu diria: me diz qualquer coisa de mim –

Eu, eu, eu, eu. Como pode ter problema para se reconhecer, com tantos Eus? (Ah. Agora entendo: precisamente este o problema).

Não lembro muito bem de quem me escreve. Existiu tempos atrás, pra trás fica tudo que não nos serve: geladeira velha, máquina de lavar velha, motor de carro velho, ferro de passar velho, traíra velho, filho da puta velho.

Mas lembro do dilema dele, que interessava toda a turma do delírio coletivo das séances em torno da mesa na calçada, quando evocavam entre si laços que só existiam encharcados de bar e nunca mais se reataram. Calcada nisso, e por desejo de exibir minha educação classuda, é que respondo:

Nem um nem outro: otimismo não, pessimismo tampouco. A diferença é que, tendo contraído o primeiro, você conta com o chão debaixo dos pés. Mas ele pode sumir, de qualquer jeito, por mais que você acreditasse (só lhe serve o pretérito e precisa ser imperfeito). Contando com o segundo, de início sabe que a queda é livre e a qualquer momento, se sente dono do estabaco, caso o buraco tenha fundo.