SIM

“Precisamos de uma literatura? Precisamos. Mas de uma arte literária, como de um teatro, de um cinema, de um jornalismo que firam, penetrem, compreendam, exponham, descarnem as nossas áreas de vida (…) O caminho é claro e, também por isso, difícil – sem grandes mistérios e escolas. Um corpo-a-corpo com a vida brasileira. Uma literatura que se rale nos fatos e não que rele neles. Nisso, a sua principal missão – ser a estratificação da vida de um povo e participar da melhoria e da modificação desse povo. Corpo-a-corpo. A briga é essa. Ou nenhuma.” – João Antônio, Corpo-a-corpo com a vida.

RUMOS DO LIVRO NOVO

[Café Fatal, romance que se passa em Berlim]

Duas personagens se descolaram totalmente de seus modelos originais; têm trajetória, comportamento, pensamentos dissociados de pessoas que conheci e quis descrever.

Agora conheço melhor seus derivados, como se rostos, fios de cabelo, pele e memórias tivessem se despregado de corpos vivos, e deixado, no lugar do que me era familiar, carcaças de estranhos.

Cruzar novamente com essas pessoas reais seria ainda mais bizarro do que ver um livro cuspir no chão uma personagem. Se, por acaso, uma dessas pegasse um avião ou o telefone para entrar em contato comigo, eu teria que dizer “Desculpe, mas você não pode atender; você não está”.

28.2.05

ESPELHO TRINCADO

Tour, do Sergio Mello, de quem roubei uma epígrafe.

então ela se aproxima do seu ouvido
e confessa que morre de medo
de roda gigante de parque do interior
intermináveis demãos de tinta
pra esconder a ferrugem
ou senta-se ao seu lado na praia
pra comentar suas costelas saltadas
¿parece até que você engoliu uma gaiola¿, ela diz
enquanto você tá deitado descansando
de uma corrida apostada de um canal a outro
valendo uma garrafa de qualquer coisa
que faça sair fumaça do fígado
a loucura pode te enquadrar
com um português de aeromoça
ou de uma prostituta infantil e litorânea
dessas que costumam ser barradas na porta do hotel
e eu não quero ver meus amigos enlouquecerem
tampouco quero ler as suas cartas
de acuados no canto de um cômodo sujo
falando coisas de uma cidade
pra qual meu ônibus tá se dirigindo

escrito às 12:06 PM por giannetti

25.2.05

BOATOS E FATOS E ATIVIDADE CLANDESTINA NO ARMÁRIO

(armário aqui assume a conotação assexuada de um escritório clandestinamente embutido na parede como nas velhas histórias de castelos e passagens secretas; mesa e micro podem facilmente ser escondidos em questão de segundos, como num truque de mágica, bastando para isso um fechar de portas. pode-se guardar até dois autores de estatura mediana ou um de projeção internacional dentro dele junto com a mesa e o micro, se os bardos concordarem em se agachar.)

Dito isto, o armário está escancarado, a janela aberta, livros novos lotam duas caixas aguardando alguém disposto a ficha-los para uma editora e enquanto tudo isso acontece do seu jeito estático – já repararam que existem poucos filmes de ação sobre escritores?

escrito às 11:53 AM por giannetti

22.2.05

NARIZ E CORAÇÃO PARTIDOS

social distorcion – “ball and chain” – broken nose / broken heart / empty bottle of gin…

jayhawks – “trouble” – it was just the blind leading the blind / it´s better than being alone…

Ontem o Eduardo Fernandes (“O prazer de decepcionar”, Ciência do Acidente, 2003), que editava a FRAUDE, deu um toque pra eu escrever um artigo sobre Hunter pra uma revista. Não sei se vai ser publicado mas o mote do negócio era tentar explicar o suicídio do Dr. Gonzo. Mesmo depois de descrever as duas teorias que consegui colher no mundo mágico e fértil da confusão mental, continuei sem resposta. Vai ver o Cardoso tá certo; a hipótese do Agente Laranja é roleta russa gone awry.

Que outro motivo? Alguma doença terminal que ele não estivesse a fim de ver como termina, puro pânico ou tédio na Owl Farm?

O problema na Owl Farm foi quando a realidade começou a ficar parecida demais com o que antes não passava de paranóia. A paranóia era sua droga preferida, seu combustível pra escrever. Quando certas monstruosidades antes apenas imaginadas começam a brotar na primeira página dos jornais, “a festa acabou”, como ele mesmo escreve na autobio Kingdom of fear.

Nesse livro (Penguin, 2003), Hunter prega mais Bob Dylan que um pastor cita a Bíblia; o velho fanho aparece em epígrafes e meiucas de texto por toda a parte. Acho ruim qualquer hipótese que apareça pra explicar o que aconteceu mas tem uma que é especialmente escrota. Passa por “Things have changed”, do próprio Dylan: “People are crazy, times are strange / I´m locked in tight, I´m out of range / I used to care but / things have changed”. Nesse caso, entendiou de tudo que sempre o interessou mais. A paranóia, a zona do mundo, isso tudo virou a doença que ele não queria pagar pra ver como progride nos próximos anos. Kill the head and the body will die.

escrito às 9:21 AM por giannetti

21.2.05

HUNTER

Hunter Stockton Thompson, assim como o gin, o bourbon, o tabaco e o Kentucky Derby, é um típico produto de Louisville. A cidadezinha do Kentucky, no sul dos Estados Unidos, é conhecida por sua produção de bebidas e cigarros, além de abrigar o tradicional, e por vezes violento, Kentucky Derby, um evento onde todos os anos a platéia costuma ingerir uma inacreditável quantidade de bebida e mantém a polícia ocupada com brigas, desmaios e outras ocorrências relacionadas ao consumo excessivo de álcool.

Thompson nasceu em meio ao período da Depressão, em 18 de Julho de 1939 (as biografias divergem quanto ao ano, registrado algumas vezes 1937), filho de Virginia Ray e Jack R. Thompson, um agente de seguros. Seu primeiro trabalho como jornalista foi publicado no Southern Star, um jornal mimeografado que custava três centavos de dólar, consistindo em duas páginas de notícias locais, opinião e anúncios, e editado por Walter Kaegi, Jr., de dez anos de idade. Thompson, na época, era uma criança hiperativa de oito anos. Data deste mesmo ano seu primeiro atrito com a lei; junto a outros moleques, vandalizou um banheiro masculino do Parque Cherokee, atirando latas, espalhando lixo e pichando as paredes. O grupo foi pego pela polícia e levado à delegacia, onde uma ocorrência chegou a ser preenchida.

Os pais de Thompson eram alcoólatras; Jack costumava ter surtos violentos em casa e bater nos filhos. Quando morreu, aos 57 anos, de um ataque cardíaco, Thompson, aos 15, começou a beber também. Se, até esse momento, era um rapaz bastante ligado aos esportes (tendo inclusive começado um clube de baseball com os amigos), agora enchia a cara e trabalhava no balcão de doces de uma lojinha; não hesitava em comer os doces que deveria vender e logo que começou a ganhar peso, teve que deixar o time Castlewood. Sem a disciplina imposta pelo pai em casa e exigida pelo esporte, começou a procurar outras atividades onde pudesse despejar sua energia. Para continuar na esfera do esporte, que permaneceria como um interesse prioritário (junto a outro que se somaria mais tarde, a política) por toda a sua vida, escrevia sobre o assunto no Southern Star, que àquela altura já crescera em público e número de páginas. Mas o trabalho no periódico não era o suficiente para mantê-lo na linha, nem mesmo na escola, onde conseguia convencer os amigos a escapar para beber. Nesse período, ele e outros alunos com problemas de conduta formavam o grupo que denominaram The Wreckers (algo como “Os Quebradores”) , cuja função era, basicamente, praticar atos de vandalismo pela cidade.

escrito às 11:35 AM por giannetti

Aos 17 anos, Thompson foi condenado a sessenta dias de prisão por um assalto. Passou seu aniversário de 18 anos na cadeia. Por sugestão do juiz que o condenara, aceitou alistar-se na força aérea e, na base de Eglin, sua fama de arruaceiro delineou-se rapidamente: Thompson era considerado um “problema moral”, embora todos admitissem que suas matérias para a Command Courier, a revista da base, eram interessantes. Quando obteve dispensa de Eglin, com honras, – apesar das queixas em que configurava desobediência aos oficiais e normas da base -, Thompson aceitou um convite da El Sportivo para residir em Porto Rico, escrevendo sobre boliche para a revista. Em pouco tempo, decepcionado com a monotonia do trabalho na El Sportivo, retornou aos Estados Unidos para, em 1962, tornar a viajar, desta vez à América do Sul, onde atuou como correspondente da revista National Observer. Thompson enviava para a National Observer reportagens que englobavam os costumes locais e suas próprias observações sobre os lugares que visitava. Em 1963, esteve no Brasil, de onde escreveu “Brazilshooting” para a National Observer, reportagem que figura como um dos primeiros trabalhos em que Thompson opina mais diretamente e aparece como parte da cena que descreve. Thompson começa sua reportagem questionando a postura da polícia e do exército brasileiros, baseado em um incidente que apresenta ao leitor através da transcrição do telefonema que o atraiu à ação (um tiroteio na boate Domino, em Copacabana):

A polícia brasileira tem a reputação de ser extremamente leniente, e diz-se que o exército brasileiro é um dos mais estáveis e inclinados à democracia em toda a América Latina, mas nas últimas semanas, a administração da “justiça” no Brasil adquiriu um novo perfil, e muitos começam a se perguntar para que existem a polícia e o exército.(…)

Entra o telefonema e, junto com ele, Thompson (referido na terceira pessoa como “um jornalista americano”; alguns anos depois, Thompson trocaria a terceira pessoa pela primeira, forçando mais sua presença na ação):

Em uma noite dessas, com a usual temperatura de 38o C e o barulho de ar-condicionados por toda a cidade, um jornalista americano foi acordado por um telefonema às 4h30 da manhã. Era um amigo, telefonando de uma boate em Copacabana. “¿vem pra cá e traz a sua câmera! O exército está em toda a parte pelas ruas com armas! Eles destruíram a Domino, está tudo aos pedaços, e eles estão matando gente bem do lado de fora do bar onde eu estou sentado – nós trancamos a porta, mas eles podem invadir.”

A conclusão da reportagem é opinativa e irônica:

Depois do ataque ao Domino, o Jornal do Brasil deu uma suíte entitulada: “Exército não vê crime em sua ação”. Ou, como observou George Orwell, “Em terra de cego, quem tem um olho é rei.”

Quando retornou aos EUA, meses depois, Thompson cobriu suas primeiras convenções para diversas publicações; não tardou a enxergar no jornalismo uma oportunidade de conhecer o mundo e garantir seu sustento enquanto, paralelamente, poderia a investir em uma carreira literária. O interesse pela literatura e sua imersão no mundo do jornalismo, aliados à natureza irrequieta e ao temperamento explosivo de Thompson, resultariam no surgimento de uma diferenciação de Jornalismo Literário, mais ligada à contracultura: O jornalismo gonzo.

escrito às 11:28 AM por giannetti

escrito às 11:16 AM por giannetti

CAÇADOR DE TUBARÕES

“(…) The eye of the journalist would be functioning as a camera. The writing would be selective and necessarily interpretative but once the image was written, the words would be final; in the same way that a Cartier-Bresson photograph is always (he says) the full-frame negative. No alterations in the darkroom, no cutting or cropping, no spotting… no editing.” (Hunter Thompson).

escrito às 8:16 AM por giannetti

HUNTER

Se matou ontem.

escrito às 8:10 AM por giannetti

14.2.05

BULLSHIT

Como um Buddy Glass surpreso e grato por encarnar num suporte humano depois de vários anos confinado à celulose e tinta, apesar do nome incompatível com meu sexo, fui a própria imagem da felicidade durante os dias que passei sem telefone em casa. Eu mesma tinha mandado desligar. Graham Bell não sabia mas o telefone foi só um jeito de chegarmos a uma das mais eficientes formas de comunicação depois da telepatia – a Internet – e de pedir Domino´s às terças. A invenção do escocês ficou muito mais interessante no começo do século XXI com o surgimento do Disk Skol e do Disk Devassa. Porém isso não é suficiente pra me deixar à vontade com um aparelho capaz de, de um instante pro outro, me obrigar a atender alguém acometido por uma vontade de dizer alguma coisa inadiável, o que às vezes acontece de cinco em cinco minutos, não raro com os mesmos gênios.

A maioria das pessoas que a gente conhece tem uma relação umbilical com o aparelho, seja o fixo ou o celular. Avançados experimentos realizados pelo Massachusetts Institute of Technology comprovam que o celular serve pra passar mensagens escritas curtas que custam entre quatro e 25 centavos cada. Qualquer função além dessa é inútil (os viciados em Snake Pit pra salas-de-espera e Space Invaders no banheiro perdoem a falta de sensibilidade; fiquei assim depois da guerra).

Eu sei que o Graham Bell inventou isso pensando nos surdos. Mas aposto que ele não viveu pra ter que sustentar uma conversa de 15 minutos no telefone com uma tia que só diz HEIN? HEEEEIN?

Por mais que eu tente aparecer com uma justificativa boa pra não gostar de telefone, sempre parece boutade, o fino da ironia exagerada pras quatro paredes ressonantes do OMblog. Nenhum argumento é sustentável porque todo mundo adora pegar a porcaria do telefone e fazer uma ligaçãozinha. Pi-pi-pi-pi-pe-pe-pi-pu, aqueles barulhinhos e a tela verde ou azul brilhando e logo logo do outro lado atende alguém Oi! Ou esse demônio preto que tenho em cima da mesa do computador, responsável pelo sono interrompido às oito da manhã em sábados, domingos e feriados (sempre engano): Trililililililim Trilililililililililim. Tudo que eu preciso dizer pra alguém sai melhor numa mensagem que me custa entre quatro e 25 centavos e menos de dez caracteres, ou num e-mail, ou num post ou num livro. Falando ao telefone, sai tudo errado. Só saiu certo uma vez, há uns oito ou nove anos, numa conversa que durou mais de cinco horas. Devo ter esgotado toda a minha energia telefônica naquele ponto perdido do passado – o interlocutor era o fantasma do sambista Donga, que depois botou o Cortázar na linha, os dois falam pra caralho – e hoje dou vazão a qualquer impulso que tenha de telefonar pras pessoas ou espectros fazendo ICQ no celular.

Isso aí já é totalmente diferente, o ICQ de celular. Torpedinhos. Quatro ou 25 centavos, mais ou menos o valor de um conselho meu mais caprichado.

Antes, como eu dizia, eu estava brincando de Buddy na minha cabana e o cybercafe em frente, quando necessário, dava conta do recado da maneira que o ICQ de celular não podia. Fomos plenamente felizes, minha neurose e eu, até que prioridades ligadas a condições temporárias de trabalho (sempre tem um jeito bonito de dizer qualquer merda, não tem? Que o diga este coroa, professor de filosofia em Princeton e autor da polêmica tese intitulada “On Bullshit”, de que o New York Times trata hoje nos intratáveis termos de “unprintable ubiquity”), forçaram o fim do idílio através da reinstalação de uma linha aqui, criando assim as condições emocionais pra que eu pudesse escrever este pequeno protesto, requiém pra minha frágil paz de espírito.

Se o Salinger me ligar eu mudo de opinião.

escrito às 9:36 PM por giannetti

11.2.05

CRIAÇÃO DESEMBESTADA DE ANIMAIS MITOLÓGICOS

Desse carnaval não vi coisa nenhuma; nem o começo, nem o temporal que afogou os Escravos da Mauá, nem o deserto da quarta-feira, que eu imaginei de um cinza
chapado, chapiscado nos muros. Gosto muito, tenho o carnaval tatuado. Não adianta contar o motivo de ter perdido o carnaval porque quase nada justifica um carnaval obliterado (e a gente tem que ser mesquinho com esses detalhes).

Dentro da geladeira, no canto de guardar os ovos: duas maçãs, um pedaço de queijo e mal cabe aquela hidra ansiosa com pedigree pra alongar a eternidade das maravilhas cronicáveis do mundo. Mas é vagabunda, a sem-vergonha, preguiça até de cuspir fogo. Desembaraça da correia com lerdeza as patas quando anda na rua de coleira. E não junta lé com cré, a besta mitológica, não diz coisa com coisa.

escrito às 4:55 PM por giannetti

ZEN PARA PRINCIPIANTES

Pra que cidade se os apartamentos são auto-suficientes, residências de bichos e águas que pingam, com vizinho que ensaia violino libidinosamente emborcado à direção da janela, vizinhas (“não fui eu quem deu nome de flor pras meninas”) que ainda conversam na porta do prédio (uma filha fala muito mal o inglês: “I go! I learn!”, no celular, do outro lado da linha, do oceano, provável gringo colhido no carnaval carioca)? What for, querida, se o eixo pro umbigo é encostar o queixo na barriga?

escrito às 3:25 PM por giannetti

“ESCREVER ERA BOM”

“(…) sobretudo para mostrar aos companheiros de café, quando cada um de nós sacava do bolso os seus produtos literários do dia e expunha-os à crítica informal dos outros.”

p.s.: à dona do livro, se estiver lendo, esqueci não: obrigada pelo empréstimo e mando entregar os desatinados rapazes na sua casa na semana que vem.

escrito às 2:54 PM por giannetti

7.2.05

S & F

som, fúria (pensou que era o quê?)

Sugestão do Major Thom. Sim, com H. Mas ele sabe que o do Bowie é sem.

Think back now when we were young
There were always tears at the birthday party
You know how children can be
So cruel
That’s how it starts, but
What if we never learn how to behave?
I did something, and you never forgave me
I never thought that it could be like this

But now I see
I see you share your cake with him
Unwrapping presents that I should have sent
What can I do?
Must I watch you?

Close the door, dim the lights, blow out the candles
So Happy Birthday again

And it’s the same every year
Seems that I remember it as something more, but
You know how children can grow
So strange
I still adore you

What if we never learn from our mistakes?
But then, you’ll never know how my heart aches

I never thought that it would be like this
But now I see
I see you share your cake with him
Unwrapping presents that I should have sent
What can I do?
Must I watch you?

Close the door, dim the lights, blow out the candles
So Happy Birthday again
Close the door, dim the lights, blow out the candles
So Happy Birthday again

One day I know he’ll forget
To pay you the compliments you’re after
You’ll hang your sad, aching head
Behind a brittle smile or a shrill of laughter

What if we only get what we deserve?
Somehow I couldn’t quite summon the nerve

Upon each anniversary
Then do you ever think of me?
Unwrapping presents that I should have sent
What can I do?
Must I watch you?

Close the door, dim the lights, blow out the candles
So Happy Birthday again
Close the door, dim the lights, blow out the candles
So Happy Birthday again
Close the door, dim the lights, blow out the candles
So Happy Birthday again
Close the door, dim the lights, blow out the candles
So Happy Birthday again

escrito às 9:29 PM por giannetti

2.2.05

REVISÕES CITAÇÕES OMISSÕES

Muito trabalho em casa, revisando textos nas horas livres (aka madrugadas, antes às claras paradoQUIÇALmente em ambientes menos iluminados). Pra entrar no pique é bom texto calado, distante, penteado por dinheiro, inspecionado por obrigação. (vontade de um texto que não tá na estante).

***

Williams Carlos Williams on being single: ¿You know what happened to poor Norman Mailer. One wife after another, and all that alimony. I’ve been spared all that.¿

P.R.: Is emotional stability necessary to write well? You told me once that you could only write well when you were in love. Could you expound on that a bit more?

HEMINGWAY: What a question. But full marks for trying. You can write any time people will leave you alone and not interrupt you. Or rather you can if you will be ruthless enough about it. But the best writing is certainly when you are in love. If it is all the same to you I would rather not expound on that.

escrito às 5:06 PM por giannetti

chercher le bonheur et crever de rire

(ah ah uh uh gritam sem portugues algum)

escrito às 10:18 AM por giannetti

30.1.05

ZANZARE

– Onde é que você se meteu?
– Numa narina letrada.
– Foi bom?
– Enterro de escritor. Olha, é igualzinho a qualquer pessoa, só um pouco mais frio.

escrito às 2:07 PM por giannetti

28.1.05

FELIPE

Dez da noite passada – retrasada, maroto relógio de posts – telefonema de Mosca-de-Banana (que conheci num sebo, ele, pequeno monstro já desviado de seus instintos e, desde nosso primeiro encontro, senti que devia ajudar Felipe – tinha nome e era esse – a retornar ao estágio primordial de existência que define as moscas e a mosquidão. Mas ele insistia em virar traça e perseguia livros velhos em vez de bananas, bosta e cadáveres. Eu queria fazer ele voar.)

Felipe não quer conselhos, não aceita tutela. Dribla as pontas das brochuras capas duras pockets pelas prateleiras imitando o jeito de andar de algo que nem ele nem eu nunca vimos se mover. Felipe já travou contato com traças antes, em sua primeira semana de estadia na seção de ficção norte-americana, entre um Henry Miller e um alfabeticamente deslocado Truman Capote, e sabe muito bem que as traças não gingam nem se espreguiçam a cada dois passos. Mas deu tratos à bola. Inventou que têm malemolência de garrincha e agora caminha de acordo com isso pra cima e pra baixo, roendo de vez em quando pedacinhos de um bolo de canhotos de cheques velhos encontrado no fundo da minha bolsa que eu mesma lhe dou.

escrito às 11:19 PM por giannetti

DESPLUGAR

A Carol Bensimon fala no Insanus.org sobre ler, escrever, publicar.

escrito às 9:18 PM por giannetti

CONSIDERAÇÕES

(E-mail composto em Granjon tamanho 5, automaticamente tornada visivel ao olho humano graças ao Blogger, que desconhece essa fonte):

on 28.01.2005 Mosca-de-Banana wrote:

Ficção e mentirada? O maior atrativo da ficção é que ela pode ser mais viva que a vida (i mean, se a vida é chata que nem a sua, rs…)

Tô num cybercafe em frente à sua casa. Que horas você sai do trabalho?

bjs,
M.d.B

escrito às 2:43 PM por giannetti

FÁBULAS DE ESÔFAGO

Um jeito de virar escritor de ficção, Mosca-de-Banana, é ficar atento à sua própria mentirada e à maneira como ela sai boca afora. Começar em seu próprio quintalzinho. Depois, prestar atenção nos outros mentirosos. Todo mundo mente – pra se safar, pra proteger os outros ou por doença da cabeça mesmo – e esse talento, assim como seus subprodutos, podem ser revertidos em ficção escrita.

Analise os tentáculos dessas mentiras: por que são contadas, quem as fabrica e repassa e o que acontece às pessoas a quem elas são contadas? Quais as suas consequências?

O mentiroso que dá por encerrada sua obra ao criar um engano não é um autor de ficção. Mas o que não se contenta em espalhar pistas falsas com a boca pode tentar escrever para o mesmo efeito. “Aumentar” por escrito a mentira falada e espalhada é duplamente ficção.

O quê?… não, não, Mosca-de-Banana. Não precisa maldade pra fabricar isso. Vejo que esteve disperso lixando as unhas no começo da conversa. O que acontece às pessoas pra quem as mentiras são fabricadas? Descobrir-se enganado causa ricto, vômito, rugas, fricotes generalizados e beicinho trêmulo. Mas se você for uma Mosca autenticamente interessada em bullshit como todas as outras moscas há de lambuzar as patinhas e fazer do engano uma historinha.

Agora voa, Mosca-de-Banana, voa. Olha, logo ali, uma lixeira.

escrito às 11:15 AM por giannetti

SCHCHCHCHCH

(barulho de delay)

Não mando um texto pro editor ler faz muito tempo. Tava quase escrevendo alguma coisa que achasse recuperável, aí pediram outro conto pra uma antologia. Outros autores chamados não puderam aceitar porque estão escrevendo seus romances e roteiros e piram num assunto só. Eu sei como é (já soube mais que hoje).

p.s.: ali embaixo eu queria ter escrito uma coisa bonita. Mas ela não veio. Por enquanto está desse jeito. Não é só pesado. É que eu acho os textos do L.B. bonitos, mesmo quando são implacáveis. E eu tava muda, sem graça, só podia citar. Escute “Going in circles”, do Friends of distinction (Valeu Fred).

escrito às 1:56 AM por giannetti

27.1.05

O JOKER O CORINGA O PALHAÇO

L. B. morreu jovem e recuperado de vícios-xarope e outros mais pesados do farmacêutico universo tarja-preta. O que não interessa pra nossa história, que vem a ser:

Em dias assim suas notas devolvem fôlego a mortos-vivos e gente que dá importância a Visões, ruídos.

E um trecho teu:

“(…) She looked forty, if she was alive (…) and he looked at her and she at him and a pact was thereby sealed before a single word was spoken on either side – now is that true love, or what? Mutual convenience perceived through alcoholic fog was more like it. He walked over and slid up onto the empty stool next to her, and she took one look at him – his hair, his clothes, his hangdog face – and immediately knew who was buying the drinks. She asked what he´d have, he ordered a shot of rum and a pint of Guiness. He wanted to court blackout or at least unaccountability before he had a chance o think about what he might be getting into. He drank so fast even she was a little surprised, laughing and drawling something like, “Surely I can´t look that bad – Christ, I just came back from the powder room or is Art really that agonizing? (…)”

“He was just too pathetic, anybody could eat him for a meal but she was the one willing to take him out of sheer strumpet benevolence if nothing else – and since she owned him dick to dorsal he might as well get an equivalent eyeful of his Owner: she looked good. Damn good. Better, in fact, at least to him at that moment, than all those damn ersatz Twiggies flitting around Carnaby Street on Dexedrine scripts and boyfriends in bands with first albuns just breaking in the U.S. Top 1000, the kind of girl you saw everywhere then and he´d fucked enough of to know he didn´t really like them, because anorexia somehow just failed to light his fuse (…)”

escrito às 2:49 PM por giannetti

20.1.05

AUDEN PARIS REVIEW

“Bem, estou perfeitamente de acordo com a idéia de cerimônias de casamentos, mas o que acho que estraga tantos casamentos é a idéia romântica de ficar apaixonado. É claro, isso acontece, imagino que para algumas pessoas de imaginação extraordinariamente fértil. Sem dúvida, ocorre uma experiência mística. Mas com a maior parte das pessoas que pensam que estão apaixonadas, a situação pode ser descrita de maneira bem mais simples e, acredito, brutal. O problema com todo esse negócio de amor é um ou dois parceiros acabarem se sentindo mal – ou culpados – porque as coisas não acontecem da maneira como eles viram nos livros.

Acredito que é absolutamente essencial que os parceiros compartilhem um senso de humor e uma maneira de encarar a vida.”

escrito às 10:33 AM por giannetti

CAMERA OBSCURA

Underachievers please try harder

“your favorite colour is that of red wine
which brings me around to your
favorite past time
with your pen and notebook
you blow me away”

escrito às 9:45 AM por giannetti

reescreve, reescreve

escrito às 9:39 AM por giannetti

19.1.05

OLHO VIVO

Poquim de POP: Bright eyes, mania recente que escuto em loop, no Village Voice.

I was living in the devil town
Didn´t know it was the devil town
All my friends were vampires
Didn´t know they were vampires
Turned out I was a vampire myself in the devil town

escrito às 7:10 AM por giannetti

18.1.05

PASTELÃO OU SOLITÁRIO NUNCA MAIS

“Qualquer criação que tenha unidade e harmonia, suspeito de que seja obra de um artista ou inventor que haja trabalhado com a audiência de uma única pessoa em mente.”

Dificilmente o resto do livro vai ser melhor que a introdução do Kurt Vonnegut. “A base do humor do Gordo e o Magro, creio eu, era que eles se esforçavam ao máximo em cada prova que tinham pela frente. Nunca deixavam de enfrentar de boa fé o seu destino, e eram fantasticamente adoráveis e engraçados na tentativa. Havia muito pouco amor em seus filmes. Era freqüente haver uma poética situação de casamento, o que é diferente. Tratava-se, no entanto, de mais uma prova – com possibilidades cômicas, desde que a ela todos se submetessem de boa fé”. O livro é de 1976, comprei usado num sebo em Ouro Preto. Fui colega de trabalho do dono da loja, que nunca vi de cara amarrada. Nasci quatro anos depois de 76 toda vez que consigo ser como ele. Converso (assunto relaxar antes de escrever) – Sabe como é que é? Você leva isso aqui – ele diz, saindo da bagunça que toma o canto da loja onde empilham os livros recém-chegados pra limpar. Vem tudo das casas das viúvas e dos jornalistas que recebem 800 títulos diferentes toda semana pra resenhar, ou assim quer a minha pouca imaginação hoje – Leva isso e vê se não resolve.

“Outra coisa: sou incapaz de distinguir entre o amor que tenho por gente e o que sinto por cachorros”. – Melhorou a concentração? – Ele lembra que é a segunda vez que me vê na loja na mesma semana. “Pastelão ou solitário nunca mais” dentro da minha bolsa pra ler no metrô, se eu conseguir espaço suficiente pra segurar um livro à minha frente no metrô às 18h. – Herbert H. Herbert: “Ficar sozinho pode ser muito solitário. Mas pelo menos com gente em volta podemos ficar solitários com barulho”. – Vonnegut foi intoxicado por o Gordo e o Magro, ele pelo Jerry Lewis. Filtra qualquer coisa com Jerry Lewis. Decodifica um dia depois do outro com o que se lembra desses filmes.

Ele tem um isopor com gelo e cerveja atrás do balcão, embaixo do aparelho de som. De vez em quando vai lá e tira duas latinhas. O teste mais difícil é ficar sozinho e depois saber voltar pro mundo toda vez que precisar. – Cuma? – Desconfia que essa conversa vai degringolar, lata em riste – O irmão do escritor é cientista. Especializado em questões ligadas à atmosfera. O outro, você sabe em quê. Mas os dois querem saber o que está acontecendo por baixo do que escrevem, de números ou frases compridas.

escrito às 11:34 PM por giannetti

BLOG

Citado no Estadão pelo Marcelino Freire.

escrito às 9:09 PM por giannetti

16.1.05

COMIGO NÃO TÁ

Depois de escrever, consertar e entregar pra quem vai publicar, a melhor coisa é deixar quieto. Como tentaram me avisar noutro dia: “deixa quieto”, a tradução – em duas excelentes palavras – de sete parágrafos assinados por Cesare Pavese que recebi do Chico por e-mail e colei aqui, como post-it pra mim mesma. Mas tem que mostrar, e escutar. Escolher dois ou três que tenham bom histórico de paciência e alguma vontade de ler e comentar. O objetivo não é buscar aprovação. Tem que escutar as diferenças, não inalar o que parecer boçal (aka boçal para além de suas próprias possibilidades), salvar o que parecer pertinente (muito passível de erro) e combinar tudo no que passa a ser a nossa versão da versão dos outros sobre a nossa versão dos fatos ou de fábula que passa por fato. (Não escrever ‘ah’ em minúsculas e entreparênteses depois de uma frase longa, boba, pra imprimir distanciamento porque a moda agora é eliminar todo o cinismo. Vamos ver até onde isso vai).

Não é tão preto-no-branco assim e nem sempre acontece da mesma maneira mas, assumindo a simplificação: qualquer coisa escrita num estilo de tom confessional pode passar por escrita autobiográfica se as pessoas que lêem conhecem trechos da sua vida. Dá pra confessar assassinato em primeira pessoa e esperar a pergunta: ‘tu que matou ou conheceu o assassino?’ Aceita a dúvida esdrúxula, e aí pode escrever qualquer coisa. Tem que aceitar também o que não é perguntado, mas afirmado (qual a necessidade de perguntar se a resposta já é óbvia desde o parágrafo em que o autor faz uma personagem dizer ‘eu matei’?). Como eu já disse, não é tão simples assim e eu sei – sem e-mails (Billy Bragg avisa que “scholarship is the enemy of romance”. Não sucateia nosso amô com resenhas, leitô. Canta o refrão).

Isso deixa mais fácil pro autor dizer o que ele viu e fez fora do quarto quente onde batuca, alinhado com a tendência baixa-renda que vem emprestando charme romântico a rotina desinteressante da classe há vários séculos. Quando não tem mais o que criar, inventaria mudando a ordem dos fatos, uma palavra ou outra, a cor dos cabelos da menina que cospe pro alto e encontra de volta na cara o relato do beijo.

Mas de verdade, de verdade mesmo eu tô falando dessas coisas pra engambelar minha vontade de picotar trechos do conto, de refazer. Tô sempre tentando reescrever tudo.

escrito às 9:22 PM por giannetti

12.1.05

REVISTA ACARO

Liguei pra casa depois de 60 dias sem um alô. Eles ainda usam o modelo de telefone lançado no ano em que eu nasci, com um disco e furos em cima dos números. Minha secretária eletrônica vive cheia de vozes abafadas sob os chiados do velho aparelho. Tomei a iniciativa por causa de uma seqüência desses recados ininteligíveis, e me preparei pra um monólogo cheio de ruído e conversa de cerca-lourenço.

Trecho do “Método Feliciani de Conservação do Núcleo Familiar”, meu texto que deve sair mês que vem ou no próximo (eu nunca sei as datas) na revista Ácaro, do Chico Mattoso e do Paulo Werneck, com ilustração do Guto Lacaz (Fôia de SP). Bárbara, não fique aborrecida; roubei só o nome da sua família. O Método de Conservação é inventado.

escrito às 12:35 PM por giannetti

escrito às 12:28 PM por giannetti

11.1.05

TERRÍVEL IVANA

Os patrões que humilham seus empregados, os chefetes que usam o poder para prejudicar seus funcionários, os homens que batem em mulheres, os pais que batem em seus filhos que se cuidem porque praga de um pequeno ofendido impotente é potência pura.

A prece acima rogada sai de uma crônica de Ivana Arruda, que agora atende neste endereço http://doidivana.zip.net e, em breve, lança livro pela AGIR. De vez em quando leio um negócio deles (de sumpaulo) que dá vontade de correr pra bater papo todo dia na Mercearia, viu.

escrito às 10:41 AM por giannetti

6.1.05

MANJADO E ESSENCIAL

“Eu tinha 20 anos. Não me venham dizer que é a mais bela idade da vida.” – Paul Nizan.

escrito às 4:05 PM por giannetti

ESFINGE VANGUARDISTA

Segunda-feira, Fevereiro 25, 2008

Cecilia Giannetti está disposta a todas as batalhas, tanto no terreno formal quanto na crítica social

Lúcia Bettencourt • Rio de Janeiro – RJ

Lugares que não conheço, pessoas que nunca vi
Cecilia Giannetti
Agir
229 págs.

“Primeiro romance da jornalista e escritora Cecilia Giannetti. De estilo incomum, ácido e entrecortado, este livro traz o amadurecimento literário de uma autora considerada uma das mais originais e atuantes do cenário contemporâneo. Um prazeroso exercício de vanguarda e inteligência, de extremo bom gosto.” Assim começa a apreciação sobre Lugares que não conheço, pessoas que nunca vi assinada por Mariane Morisawa na revista IstoÉ. “Incomum”, “ácido”, “entrecortado”, “vanguarda”, “inteligência”, “extremo bom gosto” demonstram bem o entusiasmo da autora da crítica com relação à autora da ficção. Morisawa continua seus elogios: fala que Cecilia “escreve com urgência”; diz encontrar “imagens e frases poderosas” , o que seria “um alento em meio a tantos romances simplórios”. Termina afirmando que “Cecilia Giannetti é uma autora que merece atenção”.

Claro que, com um arauto desses, o leitor chega ao livro com uma atitude de certo respeito, esperando encontrar páginas, no mínimo, clássicas. No entanto, Lugares… recusa-se a capitular facilmente. O livro é duro, hermético, de leitura difícil. Exige perseverança e persistência. Voltamos, então, às qualificações de Morisawa: – “incomum” -, sim, certamente incomum, bem como “entrecortado”. A história de uma jornalista que presencia uma cena de violência e entra numa espécie de surto, vem aos jatos, desconexa como delírios. Lembramos, então, que a crítica havia falado em vanguarda, e, certamente, há muito de vanguardista neste livro – na acepção mais bélica, o texto vem disposto a todas as batalhas, tanto no terreno formal quanto na crítica social de uma “cidade partida”. E, já que se fala em cidade partida, seu único espelho possível é um que também esteja partido, e isso já se anuncia na capa do livro. O excelente projeto gráfico de Christiano Menezes traduz não apenas os pesadelos dos personagens, como oferece a imagem ideal para a obra em sua capa: o espelho de nossa era, a TV, expondo nossas vísceras enquanto nossa cegueira aparece na boneca descomposta e um resquício de fé espreita ao fundo, tudo isso num ambiente descuidado, de velhos ladrilhos evocadores de hospitais, banheiros, ou copas mal mantidas.

As fraturas do texto, suas desigualdades, os vaivéns entre histórias e delitos se repartem em trinta e um capítulos de tamanhos diferentes, podendo conter apenas uma frase, como Registro, que abre o livro com uma sentença enigmática: “Um dia as coisas pararam de acontecer”. Se pararam, o que vai ser narrado não está acontecendo, seriam lembranças ou alucinações. E é por esse caminho que precisamos enveredar, nos flashes de memória de festas chatíssimas, pedaços de telereportagens, imagens de pessoas sem cabeça, fantasmas insistentes, considerações sobre o desaparecimento de amigos, sobre a opressão da fé, imaginações disfarçadas, sobre o tédio e a insipidez da vida, ou uma poderosa declaração de amor se destacando quase intacta no meio de ruínas, até que a imagem se congela em Cristina. Os cinco capítulos finais chamam-se Cristina, e falam, talvez, da cura da jornalista, ou de seu repúdio total ao mundo como se passa na TV. Cristina se livrando dos fantasmas; Cristina indiferente ao que vê na TV, mesmo quando vê a si mesma na telinha mágica; Cristina juntando os pedaços de imagens para descrever depois; Cristina descobrindo o presente, o vazio, o fugaz: “A felicidade é assim: aconteceu”. Cristina desaparece, também. O último capítulo chama-se Sobem créditos e consiste numa única frase: “Boa noite”. – despede-se.

Neste romance, que Cecilia tão bem parece descrever dentro do próprio texto (“[…] peças que contam a história de uma civilização. […] meu museu. A construção, no entanto, resulta rapeada, sampleada, em cacos – sua confusão mesma, o começo de outra civilização.”), estão expressas as angústias de uma geração, numa tentativa de controlar o vazio e o caos percebido. Escrever sobre isso é uma forma de exorcismo, talvez tão eficaz quanto a receita, citada no livro, retirada de Ovídio, outro escritor, mas das eras romanas, que, apesar de distantes no tempo, parecem tão conturbadas quanto nossos dias cariocas. Assim, é Cecilia quem diz que: “se nomeamos o fenômeno, dominamos alguma porção da loucura”. Talvez se deva lembrar o comentário que diz que nunca se escreveu tanto como ultimamente, e que o problema da literatura atual é que não existem mais leitores, só escritores. Cecilia, talvez tenha nos dado a chave desta tendência. Estamos todos tentando domesticar nossos monstros e as coleiras que fabricamos são de palavras. Remendadas, sampleadas, rasuradas, tal como aparecem nas ilustrações do livro, escrevemos os horrores que nos assolam e, sem tempo, nem vontade de ordenar o caos, deixa-se a tarefa aos leitores e à crítica.

E o leitor?

Há que indagar, então, qual o papel do leitor nesta nova literatura? O quanto do livro depende da colaboração do leitor? Essa é uma questão válida para as obras literárias de qualquer tempo. Proust chama a atenção para o fato de que, ao lermos um livro, estamos lendo a nós mesmos. Os romances escritos em outros tempos ombreiam com as narrativas escritas hoje e os leitores se identificam com os textos ou os repudiam, por não se encontrarem naquelas porções dominadas de loucura. “Cheguei ao meio do livro com a sensação de que não estava entendendo mais nada”, depõe uma amiga e leitora de Giannetti, Helena Aragão. No entanto, amiga fiel, persevera e termina de ler o livro, e, então, “come[ça], sem querer, a traçar a narrativa que, sim, está presente, sutil e impiedosa…” Ela reflete sobre a co-dependência entre livro e leitor, mas conclui: “Independentemente disso, alheia a humores está a certeza de um livro milimetricamente pensado – mas longe de ser um engodo, ele conta com palavras assustadoramente no lugar para formar esse mosaico disforme que deixa o Rio incompreensível”.

Talvez Helena se engane, e o que deixe o Rio incompreensível não seja o mosaico, mas o que esse mosaico revela – a atitude de quem, passivamente sentado frente a um aparelho de TV, absorve imagens cortadas e montadas, interrompidas por solicitações de MSN, de toques de telefone, de chamadas Skype, acompanhado de muito tédio existencial e de uma proverbial e desalentadora incapacidade de se dedicar aos outros, que, para receberem atenção, precisam se comportar como insistentes fantasmas, assombrações. Mesmo assim, é de Helena a percepção de que o livro é o testemunho da construção de um novo Frankenstein. Esse organismo construído de cadáveres cujas partes são resgatadas e coladas, formando um texto que precisa ser decifrado para deixar de ser ameaçador. Enquanto formos incapazes de compreender nosso mundo, ele continuará nos ameaçando, e mesmo o alívio obtido por “baianos” ou por alegrias químicas, não serão suficientes para impedi-lo de nos destruir e fragmentar, até nos transformar em algo igual à sua deformação.

Antes de terminar, acho conveniente mencionar a tarefa em que Cecilia Giannetti se encontra empenhada, um romance de amor passado em Berlim, para desejar que ela escreva palavras de tanta sinceridade e entrega como as que usa ao descrever seu personagem Baiano. Alguns dos melhores trechos do livro estão nas páginas dedicadas ao amor entre Cristina e ele. Diz a narradora: “Da primeira vez que toquei com as mãos os ossos dos quadris dele, empurrava aberta uma janela e o sol me lambia por dentro”. A atração entre os personagens é tão grande que ela percebe que “um homem me abraça inteira num aperto de mão”, enquanto os outros amantes tiveram “mãos covardes”. Trata-se de sexo – “hormônios ou o quê” – ou de amor, envergonhado, escondido atrás desse quê. Seja lá o que for, é verdadeiro. Bem sentido e bem escrito.

A AUTORA

CECILIA GIANNETTI nasceu no Rio de Janeiro, em 1976. Formou-se em Jornalismo em 2003 pela UFRJ. Já trabalhou no Jornal do Brasil, na Tribuna da Imprensa, e atualmente contribui para a Folha de S. Paulo. Tem contos publicados em várias antologias como 30 mulheres que estão fazendo a nova literatura brasileira, organizada pelo Luiz Ruffato, e também em revistas e blogs. Recentemente, Cecilia foi mandada para Berlim, participando do projeto Amores Expressos. O romance em decorrência da viagem ainda está em gestação, mas o blog narrando suas experiências demonstra sua amarga sensibilidade (http://blogdaceciliagiannetti.blogspot.com/).

TRECHO • Lugares que não conheço, pessoas que nunca vi

Temos os fantasmas que merecemos. Eles são feitos de coisas que não cabem aqui. Vieram sem anúncio e somente quando decidiram ir embora é que percebi o quanto sempre estiveram presentes, pois, até então, nunca haviam desaparecido. Estavam aqui e agora, se há matéria, é só palavra, papel, tinta – um fantasma no envelope fechado; um fantasma dobrado na gaveta. Que meia dúzia de palavras corajosas poderiam lhes escapar lá de dentro?

Temos o diário que merecemos. Ele é doce e partido, a promessa, a emoção do começo rápido!, antes que desapareça, é meu cada ponto de tinta em suas páginas, em que me imagino reportando misérias alheias. Recuperando peças que contam a história de uma civilização. Eu deveria erguer meu museu. A construção, no entanto, resulta rapeada, sampleada, em cacos – sua confusão mesma, o começo de outra civilização. Único lugar em que me imagino existir.

DJ

Quinta-feira, Fevereiro 21, 2008

Amigos,

estou produzindo uma festa GLS no Rio de Janeiro chamada Hey Ladies!, em que vou colocar som, junto com as djs Miss Silk e deFátima (que também toca na Republika).

Como a maioria dos DJs por aí, eu tenho um pseudônimo: é DJ Bree, invenção da amiga e poeta Bruna Beber.

Com a festa, retomo o clima de vida noturna em que comecei a escrever meu próximo romance, Cafe Fatal, ainda em Berlim, no ano passado. No Rio, não costumo sair à noite há anos. Literalmente, anos. A única maneira de me forçar a sair da toca novamente seria com a obrigação de eu mesma organizar, divulgar e fazer acontecer uma festa.

As festas em Berlim são, 90% delas, GLS. O livro que escrevo trata de androginia e, a princípio, transsexuais, pois foi isso que vi em Berlim. Conforme eu já havia anunciado na FLIP em 2007.

A imprensa é engraçada. Mas eu sou muito mais. Por isso escolhi trabalhar fora das redações, locais onde o senso de humor no dia-a-dia é artigo raro.

Eu estava me divertindo com a produção da festa – que realmente me ajuda a escrever – até ler a nota publicada por um blog do GloboOnline. Seu autor acredita que, por se tratar de uma festa em que a DJ e produtora tem pseudômino e é escritora, produzi-la seria uma “manobra de marketing” e “tentativa de manipulação” do público. A nota, que contém informações erradas sobre a festa, emprega tom maldoso e termos pejorativos.

A festa não é uma estratégia de marketing para vender um livro que ainda não está pronto, como insinua a nota do GloboOnline. Não precisaria de uma estratégia tão mirabolante como esta para divulgar um livro. Já lancei alguns livros antes, sei como é feita a divulgação desse tipo de produto – é bem simples: a editora manda exemplares para a imprensa, que os comenta ou não. Tive uma experiência maravilhosa também com outra forma de divulgação: o boca-a-boca, através do qual vários leitores comentaram com amigos sobre meu romance e os amigos o leram e o recomendaram a outras pessoas, e por aí em diante. Isso não só é eficaz enquanto divulgação como muito graficante para o autor.

Voltando à nota de que eu falava, ela foi publicada em um blog do GloboOnline especializado em vida noturna. Que, apesar do assumido limite de escopo, arrisca-se a comentar possíveis ligações literárias entre esta escritora e J. T. Leroy. Ora, I wish!, o cabelo de J. T. é infinitamente melhor do que o meu.

Enfim, euzinha, Cecilia Giannetti, sou a produtora e DJ da festa Hey Ladies!, e não há “Dj Mascarada”, não há informações secretas, teorias conspiratórias, nem motivo para chiliques de blogueiros da naite. Há uma festa. E sabe o que a gente faz quando há uma festa? A gente se joga!

HEY LADIES! dia 27/02, @ Pista 3. Esperamos vocês lá! E que essa nova experiência me ajude a continuar escrevendo o livrinho sobre Berlim.

FOLIA NA REDOMA

Mais uma de carnaval.

Uma cidade maravilhosa só para VIPs

Nos camarotes, onde crime é beijo roubado, ricos e famosos curtem festa numa redoma

CECÍLIA GIANNETTI
COLUNISTA DA FOLHA

Um Rio de Janeiro climatizado, com ar-refrigerado, sem moleques descalços sob marquises, sem balas perdidas, bairros inteiros sem pedintes, sem crimes senão beijo na boca roubado. É a fantasia de Carnaval mais radical já inventada. Dona do maior latifúndio da Sapucaí, a Brahma sanitizou a Cidade Maravilhosa, transformando-a em uma ficção exclusiva para seus VIPs.

Chão de pedras portuguesas fake, Galvão Bueno, chope claro, chope escuro, Manoel Carlos e sua bengala, imitação de bondinho, Alexia Deschamps, passistas e ritmistas contratados para sambar no meio do público, gente dormindo jogada nos sofás do espaço Motorola, Copacabana sem putas, Glória sem travestis, André Marques abraçado a um Rei Momo, seguranças e “fiscais de brisa” da produção do evento à caça de penetras, Zeca Pagodinho venerado, Marília Gabriela e Regina Duarte mandando beijinhos, moças brilhantes (só de purpurina) tentando comer o enfeite de mesa que imitava frituras de boteco.

Quem tem seus contatos recebeu em casa sua camiseta branca e vermelha com a logomarca da cerveja e pôde viver duas madrugadas nesta loucura, em que a mais feia tragédia urbana concebível era a celulite. Mulheres lindíssimas desfilavam pelo Rio cenográfico em shortinhos ínfimos e microssaias, provando do alto de seus saltos que não cometiam o pecado da carne flácida. Seus acompanhantes, quase sempre moços altos, com braços da largura de um tronco de árvore centenária, serviam para espantar os fotógrafos, que só conseguiam clicar de queixo caído.

Quem são essas pessoas que curtem o Carnaval dentro de uma redoma, ao lado de Monica Bellucci, Lucy Liu, artistas globais, misses e milionários?

Os camarotes são a versão carnavalesca dos condomínios de segurança máxima da Barra da Tijuca. Mas sempre há quem fure o cerco. “Aqui tô encontrando gente que eu conheço e sei que não tem um tostão furado! Rárárá! Acho isso bacana, é uma inversão das regras que só tem no Brasil”, comentou o poeta Jorge Salomão, sentado em uma espreguiçadeira sobre as areias da praia fake, com direito a conchinhas e salva-vidas (embora houvesse mar apenas desenhado no cenário), e artistas como Ary Fontoura bronzeando-se sob os refletores em frente à fachada do Copacabana Palace de mentirinha.

Desfile de escolas de samba para quê, se aqui dentro tem praia, com vendedor de biscoito Globo e carrinho de picolé? Se existe até um Jardim Botânico com orquídeas e “chuva” fina borrifada ocasionalmente sobre os banquinhos de madeira dispostos em torno de lagos? Gente de olhar perdido, como no Carnaval de verdade, não há fantasia que disfarce. A ruiva Thalita, do “Big Brother Brasil 8”, percebeu isso no camarote da Schincariol, que contava até com uma boate! -e garantiu no pay-per-view: dava para sentir uma tremenda “marola” na Sapucaí.

O Copa ficava colado a uma Lapa livre do cheiro de urina, com direito a uma reprodução da Escadaria Selarón nas paredes de um palco. Mais tarde, neste “Centro do Rio”, apareceu o DJ Marlboro sobre uma espécie de imitação de bondinho de Santa Teresa, acompanhado de duas loiras rebolativas e absurdamente em boa forma. Delírio geral.

Beth Carvalho tomava o café da manhã no restaurante da Brahma enquanto muitos ainda enchiam o pote de chope. A sambista observava a very important people gritando com o som de Marlboro “Eu só quero é ser feliz, andar tranqüilamente na favela onde eu nasci” -a favela só podia ser a Portelinha da novela. “Não me incomoda eles estarem cantando uma coisa que não vivem. O samba também tem letras que falam do morro e que qualquer classe canta junto. O importante é contar pra quem não é de favela o que acontece lá. Mas funk? A esta hora da manhã…”

Tainá Muller (“Cão Sem Dono”) -que embarca em março para Lisboa, onde vai gravar os primeiros capítulos da próxima novela do SBT- e Paula Braun (“O Cheiro do Ralo”), amigas e agora sócias de sua própria produtora de cinema, não chegaram a ver a performance funk. Espertas, deixaram o Rio cenográfico por volta de 2h da madrugada, a chamada “hora chique”. São exceção na festa de excessos. De 3h da madruga em diante, famosos e anônimos estão nas mãos do palhaço.

Na hora que apavora, a segregação dos abadás (“eles” vestem a camiseta vermelha e branca; “nós”, imprensa, preta e branca) não impede que ambos os lados desse apartheid sigam com suas tarefas, embora um tanto breacos. Os famosos pulam, bebem, beijam na boca, rebolam e gritam urrú; os jornalistas pulam, bebem, anotam, fotografam, rebolam e gritam urrú. Tem mais VIP e imprensa do que gente.

A arte imita a vida, ou algo assim… Mesmo que aqui tudo seja cosplay, quando o ator Marcelo Faria me aborda para fazer uma brincadeira, lembro do episódio recente em que policiais surrupiaram cerveja de um caminhão. “Bota aí, pode publicar: foi o Caio Junqueira quem roubou meu chope!”, repetia, às gargalhadas, encostado a um dos balcões que representavam os mais conhecidos botequins cariocas. Acusado, o aspira Neto de “Tropa de Elite” continuou bebericando o “material apreendido” ao lado de Marcelo e de André Ramiro, o aspira Matias; este, muito quieto, só tomava H2OH!.

O glamour dos salões de baile tradicionais não foi substituído pela revitalização dos blocos, mas pelos abadás de cervejarias. O Brasil é o país dos VIPs; o Rio, sua capital, balneário da fama por tudo e por nada. E ai de quem não for VIP nem amigo de um. Fica de fora, vivendo na realidade.

COLUNA DA FOLHA

São Paulo, terça-feira, 29 de janeiro de 2008

CECILIA GIANNETTI

Bairro das quatro letras

“UM CARA ATIROU no Arco-Íris!”, a garota bufou e puxou minha mão direita até ela, para que eu pudesse sentir a palpitação alterada. Havia outros indícios, além do coração em disparada, de que estava nervosa: olhos esbugalhados, fala corrida, desconexa, e o fato de que fez uma desconhecida pôr a mão em seu peito enquanto tentava contar uma história. A menina também podia estar doidona: era a Lapa, afinal. A briga estourou cinco minutos depois que saí do “Narco Íris” -apelido do bar, por conta da venda de tóxico no local. Um sujeito levantou e meteu bala noutro que lá estava, “sussa” com sua cervejinha. Todos correram, até o ferido. A garota afobada não soube explicar se havia um por quê para o faroeste caboclo que mal descrevia.

Isso aconteceu há mais ou menos sete anos, quando o bairro carioca se reerguia após uma temporada em que figurou como inferno número um do Rio, vencendo até Copacabana. Ainda era comum ouvir tiros em seus botecos, mas o povo já começava a marcar presença nas sextas e sábados dos Arcos.

No início do século passado era outra história. Lapa eram prostitutas, Portinari, sambistas, Villa-Lobos, políticos, Carlos Drummond de Andrade, traficantes, Manuel Bandeira, travestis, João Gilberto, Carlos Lacerda, Rubem Braga, Mário Lago e Madame Satã. O local juntava pobres e ricos ao mesmo pico, todo mundo atrás de bordéis e cabarés, extensões de hotéis de luxo, como o Guanabara (onde se engendrou a candidatura de Epitácio Pessoa à Presidência da República). Havia desde dona de prostíbulo leitora de Colette e Camilo Castelo Branco até orquestra cigana, óperas e valsas no Danúbio Azul e música popular no Capela.

A ditadura de Getúlio Vargas limpou a área, fechando prostíbulos e causando a debandada geral de seus maiores tesouros: boêmios e moças francesas, austríacas, espanholas, portuguesas, japonesas. Com o pós-guerra, chegaram as jukeboxes para matar a música ao vivo, que até então figurara como seu segundo ingrediente aglutinador local (o primeiro era a prostituição). Não por coincidência, Ipanema e Copa passaram a acolher muita gente boa nas décadas seguintes. João Gilberto, por exemplo, em seus tempos de Zé Maconha (pré-bossa), ia à Lapa para pegar um fino e só. Música, fazia noutros cantos. O charme de tempos idos não pertencia mais ao lugar. O Circo Voador, celeiro da geração “BRock”, não chegou a modificar essa situação na década de 80. A turma enchia a cara em frente à lona, mas o bairro ao redor dela não existia para os roqueiros. Asa Branca e as gafieiras atraíam outro tipo de público. Era cada macaco no seu galho, sem a misturança incrível que testemunho agora quando passo de ônibus por ali de madrugada.

Hoje as ruas têm presença da polícia, em variação menos ostensiva das blitze. O talento aglutinador do bairro -que engloba funk, rock, gafieira, forró e hip hop- é explorado em alguns livros como o de Moacyr Andrade, “Lapa: Alegre Trópico” (Relume Dumará), e “Lapa do Desterro e do Desvario”, organizado por Isabel Lustosa (Casa da Palavra). Não é lenda nem invenção de editor de caderno cultural o boom da Lapa, a variedade de opções musicais, de tipos e cores que circulam pela Joaquim Silva. Até o “Narco Íris” voltou a ser Arco-Íris. Cada bar cospe um ritmo diferente na calçada e chama gente de todo tipo. De dia, destino das minhas caminhadas de domingo; à noite, berço de quem não dorme.

VALE A PENA VER DE NOVO

Quando me credenciaram, surgiu a questão da roupa. Como assim, só se entra de longo? Meu vestido mais comprido vai até os joelhos. Desisti de alugar um traje logo na primeira loja do ramo em que entrei: base de preços entre 200 e 400 reais. Melhor comprar um, e bem mais baratinho. Ricos são eles, eu tô trabalhando. O fotógrafo que me acompanhou pensava o mesmo. Então lá fomos, simples porém limpinhos. Na fila, debaixo de chuva, com o povo ovacionando ou zoando ricos, famosos e anônimos que aguardavam sua vez de entrar no mais tradicional baile de carnaval, um sujeito de smoking segura o guarda-chuva mega do Copa em cima de nós dois. “Ooooi, como você se chama”. Nos salões, senhores pra lá de Marrakesh e do Cabo da Boa Esperança seguravam o braço de qualquer rabo de saia que passasse – uma versão terceira idade dos rapazes da Bunker. Saí de lá com o telefone de uma drag queen e de um dentista, além de uma crônica meio melancólica.

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Todo Carnaval tem seu fim

CECILIA GIANNETTI
COLUNISTA DA FOLHA

Baile do Copa, 2008

“Adivinha qual o meu estado civil?”. Estamos no fim do baile do Copa. São cinco horas da manhã e a senhora que não conseguia tirar fotos com sua câmera digital conseguiu me achar outra vez. Pelo tom meio trágico que ela usa na pergunta, chuto com segurança: Viúva. “Sim, há quatro anos. Eu e meu marido vínhamos juntos ao Carnaval do Copa. Debutei aqui neste hotel.” Ela é do tempo do verbo debutar, da época em que o baile de gala do Copacabana Palace, criado em 1924, reinava como destino obrigatório para ricas e famosas.

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Foi lá que o bustiê de Jayne Mansfield caiu em 1959 e que Jorginho Guinle mostrou o que significava o título de playboy. Hoje, em tempos de silicone, quando qualquer adolescente de bermudão e chinelos pode ganhar a alcunha de playboy, a festa não pode parar.

Apesar das celebridades cada vez mais escassas e das maneiras pouco ortodoxas de alguns como Narcisa Tamborindeguy e Bruno Chateubriand (os atiradores de ovos). A plebe paga R$ 1.000 pelo ingresso; os ricos vão de camarote, a quase R$ 3.000 por cabeça.

O longo para as damas já não é tão obrigatório assim, há vários vestidinhos curtos circulando; os homens insistem nos smokings alugados. Alguns chiquérrimos insistem em comer seus camarões e lagostas sobre a tampa dos pianos do Copa.

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Na noite de sábado, em outro hotel, o Glória, acontece o concurso de fantasias, criado por Arnaldo Montel, 78, que, em sua 34ª. edição e com cada vez menos verba, continua lotado.

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No espaço que serve de camarim para os 60 concorrentes e seu ajudantes, assisto a complicadas operações de montagem de fantasias. Descubro que as duas moças que subiram comigo no elevador são rapazes.

Entre os desconhecidos mais conhecidos da cidade, está Bolinha, um senhor que se veste como Chacrinha. Era advogado até perceber que sua vocação era imitar o Velho Guerreiro. Veste-se como ele sempre. “Viajo muito para participar de bailes, mas gosto mesmo é do concurso do Glória,” diz. “Quando meu nome for chamado, você vai bater palma pra mim?”

Lembro dele quando, no Copa, a mulher com o rosto coberto de purpurina me pede que adivinhe seu estado civil. Os Carnavais mais luxuosos do Rio são também os mais solitários.

CARNAVAL E CONSTRUÇÃO ACADÊMICA: MÉTODO PERIPATÉTICO ARISTOTÉLICO APLICADO

hans castorp
20:51
a primeira coisa q eu comi hj foi AGORA. e cervejinha. pq sofri.

Jufa
20:52
eita

hans castorp
20:52
37 grau na rua
procurando credenciamento de carnaval

Jufa
20:54
é
:/
cervejinha a noite é tudo

hans castorp
20:54
nao, serio
to na zona de controle. na ;agua de coco. mas HOJE.
HOJE…
HOJE HOJE.
hoje tinha
pq eu me fudi MUITO
eu acabei de chegar
sem comer sem beber dia todo no sol

Jufa
20:55
imagino
q merda

hans castorp
20:55
andando de um lado pro outro horas com info errada até q uma criatura decidiu me explicar o correto e eu andei mais e aí uma mulher dirigindo um carrinho dentro do jokey ficou com pena e me levou até METADE do caminho de volta (pela terceira vez).

Jufa
20:55
caraca

hans castorp
20:55
e depois foram 3h de fila de pe mais uma hora brincando de achar ônibus
sem comer porra nenhuma
ódio kill bill
vendo tudo vermelho

hans castorp
20:56
se me dessem “oi” tavam fudido

Jufa
20:56
rs

hans castorp
20:56
POISE’
pra n dizer q n comi
na hora da fila de 3h de duração passou UM GARÇOM
ele tinha UMA
UMA BOLINHA
DE
QUEIJO
e eu comi
isso era 4, 5h da tarde

Jufa
20:56
ahahhahahahahhhahhahah q merda

hans castorp
20:56
meu ORGANIRRRRMO não compreendia tanta fome.
nego tava se batendo por causa de bolinha de queijo coxinha
como é chique a nofa elite.

Jufa
20:57
ô
elite brazileira

hans castorp
20:57
e tu pensa q a imprensa ganha de brinde tb a vodca importada e a CHAMPANHA?
pensa?
não.
ganha chinelo, desodorante (pq a IMPRENSA FEDE), ganha BANDANA.

Jufa
20:57
HAHAHHAHAHAHHHA

hans castorp
20:57
absolut? mumm?
não, “bebe xixi aí. que fodase.”

Jufa
20:58
afe
nao distribuia pra vcs?

hans castorp
20:59
a magriça distribuinte de cana cara crente q eu ia pedir uma GARRAFA quando fui perguntar um negocio pra organizacao mas eu queria saber era do convite, se tb era necessario alem do CARTAO CREDENCIAL e do ABADÁ (yes, amiga. abadá).

Jufa
20:59
ABADÁ

hans castorp
20:59
de cana importada pra nois não.
“bebe xixi”
e tem uma coisa incrível, né
a BANDANA vem com FOLHETO de INSTRUCOES DE USO
(q eu vou fotografar e postar, É OBVIO)
“como usar sua bandana”, e ilustracoes
chorei.

Jufa
21:00
caralho
instruçao de uso pra BANDANA
AMARRE NA CABEÇA

hans castorp
21:00
aí eles dão pra imprensa tb: shampoo e condicionador e desodorante
chamando de q?
de sujo
bicho
foi um dia ultrajante
alias, eu vou postar nosso chat
como prova das <i>humilhassoens que a imprenssa paça</i>

Jufa
21:02
poste sim

hans castorp
21:03
q o mundo, cara, tem q sabe

Jufa
21:04
ser alertado

hans castorp
21:04
ta achando q vai lotar inflacionar facúl de comunicação e o mercado pra ISSO?
si fudê
tão achando q é GRAMUR?
p.s.: e cada vipa piragna q eu vi inacreditável.
chorei.

Jufa
21:09
e eram gostosaças pelo menos?

hans castorp
21:10
perfeição
ninguém nem disfarçava, metia o olhão
não dava
estavam em suas supostas roupas CIVIS

Jufa
21:10
então é issae
hahahhahaha

hans castorp
21:10
um micro short e um body vermelho
(variava a cor do BODY)
as beee não fazem outra coisa, é acadImia dia todo
<b>construção acadêmica é isso</b>