DO MANUAL P/——

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Portanto, para resumir o último capítulo revisitado do nosso Compêndio de Histologia da Alma, o ente começa a dissolver-se. Desaparece, enfim. Como antes explicado, contudo, não é um processo rápido. Não é tão logo um corpo se vai, que ele some.
Não somem logo os sapatos do dia-a-dia ou o jeito como se vestia para o trabalho pela manhã. Os trejeitos, trajes da ex-pessoa permanecem sólidos como esta maçã que alguém deixou sobre as provas corrigidas, na minha mesa. (Ela está suja, precisa ser bem lavada antes de comer ou que seja aceita em metáfora).
Mas. Vão-se os calos que um dia carregou nos pés (lembra, nos dedinhos trepados e na base dos calcanhares?), causados pelos sapatos de bater pela cidade.
Malditas pedras portuguesas, sempre dizia. Elas não somem.
O ente e o jeito alegre ou às vezes apenas cansado como você o percebia no mundo – e como o recebia em casa para o almoço num feriado – isto, sim, irá desaparecer. Desaparece o que representava tudo isso para você, e dá lugar a um estirar eterno dos seus braços, alcançando nada.
O que não quer dizer que deixará de sentir o cheiro conhecido dos cabelos, o perfume do corpo que só exala na curva do pescoço, e mais acima, ainda, atrás dos lóbulos das orelhas. Não.
Uma vez me disseram que há ainda algo de muito positivo neste capítulo, coisa que basta buscar sob a lupa, em notas de rodapé e sonhos vívidos – nos sonhos mais estranhos. Que basta caminhar adiante, ainda que mancando e com as calças a deslizar pelos joelhos. Que basta, que devemos nos bastar.
O que eu sei, não de segunda mão, é que se sente um medo bruto, estarrecedor, de que aconteça isto mesmo – o obliterar total da ex-pessoa. Que toda ela suma e nunca mais. Retém então as rugas, as ranhuras das folhas e plantas que ela emprenhou na terra. Guarda, enquanto pode: a memória dos poros dela.
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ENQUANTO TEMOS OS PÉS NO CHÃO

– Há vida aqui.

– Há mato crescendo. É muito diferente. Eu e você somos o capim que espicha, e depois o que fará o capim crescer – debaixo do sol e da chuva, que não poderão mais nos tocar. Feito o capim, o que você chama de vida é esperar pela poda.

– Então, o que é que você/

– Quero para ela apenas que não seja como eu. Eu tenho uma casa, tenho rostos familiares no convívio, tenho refeições com horário quase sempre certo. Quero para ela uma vida.

what's the story

Frio demais para ser quem é

Faz frio demais para eu ser eu mesmo – pede via mensagem, um lirismo de gargarejo – Me dá um pouco de quem eu sou, de como lhe pareço, enquanto eu bato queixo eu acho que eu não penso, eu não ajo como Eu – você continua – então Você, a melhor pessoa pra saber dizer o que eu diria, como eu diria: me diz qualquer coisa de mim –

Eu, eu, eu, eu. Como pode ter problema para se reconhecer, com tantos Eus? (Ah. Agora entendo: precisamente este o problema).

Não lembro muito bem de quem me escreve. Existiu tempos atrás, pra trás fica tudo que não nos serve: geladeira velha, máquina de lavar velha, motor de carro velho, ferro de passar velho, traíra velho, filho da puta velho.

Mas lembro do dilema dele, que interessava toda a turma do delírio coletivo das séances em torno da mesa na calçada, quando evocavam entre si laços que só existiam encharcados de bar e nunca mais se reataram. Calcada nisso, e por desejo de exibir minha educação classuda, é que respondo:

Nem um nem outro: otimismo não, pessimismo tampouco. A diferença é que, tendo contraído o primeiro, você conta com o chão debaixo dos pés. Mas ele pode sumir, de qualquer jeito, por mais que você acreditasse (só lhe serve o pretérito e precisa ser imperfeito). Contando com o segundo, de início sabe que a queda é livre e a qualquer momento, se sente dono do estabaco, caso o buraco tenha fundo.

Woke up this morning blues around my head
No need to ask the reason why
Went to the kitchen and lit a cigarette
Blew my worries to the sky

I’m stepping out
I’m stepping out
I’m stepping out
I’m stepping out

If it don’t feel right you don’t have to do it
Just leave a message on the phone and tell them to screw it
After all is said and done you can’t go pleasin’ everyone
So screw it…

I’m stepping out
I’m stepping out
I’m stepping out baby
I’m stepping out

Baby’s sleeping the cats have all been blessed
Ain’t nothing doing on TV (summer repeats)
Put on my space suit I got to look my best
I’m going out to do the city

I’m stepping out
I’m stepping out
I’m stepping out babe
I’m stepping out (boogie)

I’m stepping out (hold it down)
I’m stepping out
I’m stepping out
Gotta gotta gotta gotta get out
I’m stepping out babe
Just awhile
Ain’t been out for days…

A SÍNDROME DO MUDAR-DE-TELA

Cerca de um mês atrás um grupo de conhecidos debatia certo receio de se ficar cético ou frio demais em relação a conhecer novas pessoas e dar uma chance a relacionamentos que tenham a possibilidade de se tornar estáveis. É preciso dizer que essa conversa se desenrolou via web, conforme se dão tantos diálogos que mantemos hoje em dia. E que algumas dessas pessoas nunca se encontraram fora do espaço virtual onde tratam de temas variados, desde cultura, política e economia a dúvidas existenciais e sentimentais. Não é preciso dizer quem são essas pessoas, nem “onde” rolava o papo. Só é indispensável lembrar que esta é a natureza da internet, um caminho que ela estabeleceu para a comunicação livre e desinibida na dinâmica dos microcosmos dos chats, fóruns, redes sociais e listas de discussão online. Muitos de vocês frequentam algum desses espaços e compreendem perfeitamente seu funcionamento: não preciso explica-lo, sabem bem do que se trata.

Pode-se dizer que a maior parte das conversas de uma imensa fatia da humanidade se dá hoje através de mensagens na internet ou SMS. Arrisco sem medo de errar que hoje mais palavras são trocadas dessa forma do que cara a cara (não vale gritar “Skype!”). Frases são trocadas online e via celular entre milhares de pessoas o tempo todo – fazem isso enquanto estão no trabalho e continuam depois, ao chegar em casa, também quando saem à rua e sequer percebem que não lhes ocorre refrear o impulso de seguir acompanhando e participando do andamento de alguma conversa na web ou aplicativos como o WhatsApp.

Isso não é novidade para ninguém com uma conexão (por cabo ou mesmo através da velha imprensa de papel) com o mundo atual. Comento porque, neste caso, o “u” tem tudo a ver com as “alças”.

Um artigo de janeiro do “New York Times” ressuscitou com vigor na minha timeline do Facebook neste domingo. Partes dele foram traduzidos por um jornal brasileiro e ganharam a atenção dos nossos leitores – apesar de explorarem em vários parágrafos o tema do “date“. Não existe na cultura brasileira a noção de “date” (encontro) conforme é (ou era) utilizada em diversos outros países, na América do Norte e Europa. O artigo relaciona a popularização da paquera em sites como o OkCupid, também no Facebook e diversas outras vias de trocas de mensagens na web, com o fim do que os gringos conheciam como o seu ritual de corte que levava a relacionamentos bem sucedidos. Elenca depoimentos de jovens que simplesmente não sabem ou não conseguem marcar um cinema ou uma conversa a dois em um bar ou restaurante, e daqueles que ainda esperam que do outro lado do celular que envia uma mensagem pelo WhatsApp esteja uma pessoa que possa se tornar especial em sua vida (dado o devido tempo para que se conheçam de fato).

No primeiro grupo estão os que enviam mensagens de último momento a alguém por quem tenham interesse, mas o convite acaba demonstrando o contrário: “tô aqui no pub com uns amigos, se quiser chegar…” Por aí. O que essa mensagem quer dizer, no mundo real, é: “vamos encher a cara (o álcool é ingrediente indispensável nesse cenário social de retração, ele é o desinibidor) e se a gente for com a cara um do outro, no final da noite a gente se pega.”

Esse comportamento também não é novo. Faz parte da tal cultura do ficar. Mas sofreu uma adição que o tornou ainda mais volátil.

A aproximação e a oportunidade de se criar um vínculo que leve à intimidade é sobrepujada por uma selva de ruídos: a oferta no mercado de gente disponível online parece infinita.

A internet te entrega um mundo de pessoas de bandeja – é realmente fácil pensar que se pode “pegar” todas elas, ou ao menos uma quantidade considerável delas, ou que a sua grande chance de se apaixonar está sempre adiante, uma tela à frente, noutro avatar – nunca no que se encara no presente.

Imagino que foi esse o aspecto do artigo do “NYT” que fez soar o alarme em alguns leitores de uma cultura sem “date“, entre leitores no nosso país: para que estacionar em uma só pessoa, e gastar alguns dias tentando conhece-la (um cinema em um final de semana; um barzinho no próximo; no terceiro final de semana vocês se beijam… quase um mês!) se durante esse período você pode estar perdendo algo/alguém melhor?

Não vou citar comentários daquele grupo de conhecidos virtuais, da conversa que mencionei lá no comecinho. Seria uma traição a um contrato jamais assinado e constantemente respeitado por todos os participantes. Cito apenas o meu comentário, porque sou dona dele e não me avexa em nada. O comentário que postei sobre o assunto tratava dessa angústia assim: “Vejo hoje as pessoas trocando de tela muito rápido, sem ver direito o que tem em cada uma, passando logo para a próxima, feito o Tom Cruise em ‘Minority Report’.”

Trocar de tela é uma analogia sobre passar ao parceiro ou parceira seguinte de pronto – como John Anderton e outros personagens se portavam no longa diante de uma tecnologia que, mais de uma década após a estreia do filme dirigido por Spielberg, temos em nossos celulares e tablets (exceto que não há ainda um aplicativo para prever o futuro que se compare aos videntes pre-Cogs da ficção). Com um rápido movimento das mãos sobre a superfície do gadget, avança-se até a próxima cena ou foto, descartando o que já se viu. Avançam sempre e céleres: “The best is yet to come“, clássico de Cy Coleman e Carolyn Leigh, famoso na voz de Sinatra, ganha um novo significado. Significa ansiedade, com uma pitada de desespero. O “melhor” está sempre por vir, você não o está experimentando agora, neste beijo, neste toque. Avançando, sempre e célere.

Algumas pessoas concordaram com a minha analogia naquele debate. Pensei então que se tratava de uma coisa de geração, e local – ou menos do que isso: um pessimismo passageiro, desabafado online. Agora, lendo o texto do “NYT“, encontrei um eco para aquele pensamento.

O artigo menciona ainda o livro da escritora e pesquisadora norte-americana Donna Freitas, “The End of Sex: How Hookup Culture is Leaving a Generation Unhappy, Sexually Unfulfilled, and Confused About Intimacy” (O fim do sexo: como a cultura do “ficar” está deixando uma geração infeliz, sexualmente frustrada e confusa em relação à intimidade), que deverá ser lançado em abril. Nas entrevistas que conduziu com estudantes, muitos deles já formandos, a autora descobriu imaturidade, insegurança e fragilidade diante da possibilidade de um relacionamento que não seja rápido e vazio. Descobriu que pouco sabiam sobre como marcar um encontro de verdade (o “date“) ou mesmo “chegar em alguém” – de forma não-virtual. Donna afirma: “Eles se perguntam: ‘Se você gosta de alguém, como é que você se aproxima dele? O que diz? Que palavras usar?'”.

Eu discordo um pouco do foco escolhido pela dona Freitas. O problema não é bem a cultura do ficar. A cultura do ficar está aí há muito tempo e velhos praticantes/ficantes, hoje casados ou em relacionamentos duradouros, podem comprovar que ela não os transformou em solteirões insensíveis sem a menor noção de como proceder para atingir a intimidade com outra pessoa de uma forma saudável. “A questão casca-grossa é o que chamo de “Síndrome do Mudar-de-Tela”. Que lá eles chamam de “FOMO” – fear of missing out, medo de estar perdendo algo “melhor”; uma forma de ansiedade ampliada pela web.

Antes, era “virar a página”. Se um relacionamento ou prospecto não dava certo, virava-se a página. Faz sentido então que hoje mudemos de tela. E muito mais rápido do que se virava uma página na vida.

Este algo melhor pode estar entre as 4 mil pessoas que você tem adicionadas em seu Facebook, e na rede estendida de seus amigos de Facebook, pode estar entre os milhares de perfis disponíveis nos sites de namoro em que você está cadastrado e naqueles onde você ainda não se cadastrou, pode estar no novíssimo e sem-rodeios Bang With Friends, ou de bobeira no Twitter, onde vai postar alguma frase curta que você vai achar engraçada e genial e aí você vai checar a foto do perfil de quem a postou, e vai gostar do que vê, e então bastará você retuitar a frase para, quem sabe, comecem a se falar? Somente para que você troque esse avatar que antes o atraiu por um outro que o atrairá assim que retornar a insuportável sensação de estar parado em um lugar onde não vale a pena estar.

É um chilique compulsivo que se tornou modo de vida. Uma nova escala em déficit de atenção. Assim, é mais fácil deixar passar apressadamente algo muito mais interessante do que um compulsivo desse tipo pode supor, enquanto ele(a) corre a mão pela tela atrás de coisa melhor. Sempre e célere, next.

Carta decomposta

Devia ter imaginado, quando chegou em revolucionário envelope. Não pelos cabos tradicionais.

Dobrei-a cuidadosamente e guardei numa gaveta de onde só tirei quando quis comparar você às pessoas comuns e à escrita e à fala dessas pessoas, e dos apresentadores de telejornais e dos atores nos filmes. Você não soa como eles.

“Não é minha culpa que todo mundo viva de porre,” você diz, “Porre de serotonina, benzodiazepínicos, adrenalina, gonadotropinas, esteroides, de esperança, de pura e inocente e infantil esperança,” você diz, “Poderia escrever um livro sobre a esperança como alucinógeno. O entusiasmo. A felicidade é uma alucinação. É você quem ativa os mecanismos que te fazem ver coisas que não existem. O copo meio cheio ou meio vazio que sorri pra você,” você diz, “Ri de você”. Você diz que felicidade é insanidade, ativada pelo entusiasmo, pela crença, pela fé, pela esperança.

“Como você pode não enxergar?,” você diz, “Ninguém proíbe a fé. A fé é incentivada. A esperança é cultivada. Ninguém para essa gente. Embalada nesse espírito, se qualquer idiota te abre um sorriso, pra você é a salvação, é a vida que vai mudar – e não é,” você diz. “Pode ser, por algum tempo, mas não é, definitivamente, não é. E o seu corpo e a sua cabeça, pode ter certeza, têm limites em sua tão badalada capacidade de adaptação,” você diz.

“Quer pagar pra ver?,” você finalmente pergunta.

“Quantas pancadas você agüenta? Quantas vezes numa vida você suporta ser sacaneado, enganado, discriminado, mal pago? Cada vez que o seu olho brilha pro sorriso de um idiota, você se droga. A adrenalina sobe, a serotonina aparece, várias outras substâncias que vão te fazer maluca. Pareço uma professora velha tentando ensinar o óbvio, deste lado do sinal uma incógnita, as iniciais de um nome próprio, do outro um zero. Faça as contas. Me escreva de volta, com a lição pronta,” você pede.

Assisto à sua carta se descompor.

A única resposta possível a ela seria:

Se você tiver a oportunidade de retornar ao otimismo, deve aproveitá-la como quem adota uma outra nacionalidade e recomeça a vida em um país próspero.

Mas não sei mais enviar cartas.

poem #5

I had a black and white satin dress
On, It made my maiden years seem mere playful
Song.

In it I sat and played with my supermodern cellphone on my lap
It has lights which sparkle and such
When Voices reach out to me through its wireless throat

Me and you – worlds apart
Like me and the cellphone

I too sparkle (the black and white satin dress, and a little jewelry hanging from my neck)

But I sit still – wait

Like I was made up by a 19th century girl who
Thought she could create characters out of her loneliness and very limited society.

When I let out a sigh
I notice I am wearing a cleavege that could easily be Victorian
And that my heart is as old as my fashions

That this cellphone of mine is as useless tonight than it would be on any 19th century night or day

And that gentlemen of your likeness, you have travelled trough time.PQAAAPfWi9FstPUBu-mrKMFvvcJB1i0_t6OFuesvBPvrsnJ0xl97V1rE18pV66XB3Jp_PUhFs_edDHxnK01EcCucyGMAm1T1UMTR2CDLlHaLH6ir8FD6U1JfXZ1B

PRA PINACOTECA

(…) Se um homem aí na cidade te dá bom dia, respondo cá com uma facada no inimigo.

Imagine quantos já matei.

Se vais num baile, e sei que vais a um ou outro, acompanhando madame, aqui imito as barras das tuas saias girando na dança, girando eu na lama do chão, bêbedo feito um diabo arrastado. (…)

[quando eles liberaram lá, posto o texto completo]