de silvos a Mogwai

teto ruiu, despenca em pequenos flocos relaxado ao cair, rindo das quatro paredes que ficam de pé

ainda e agora me diz miúdo miudinho e dorme

o teto que me impedia o céu de cicatrizes metálicas e nuvens de esponjas encardidas
o teto era uma camada, o céu é outra e por trás dele tem mais coisa

agora o telefone não para, me interpelam na rua, me perguntam o que há de mais além, perguntam sussurrando ou em franco desespero, de silvos a Mogwai

e eu fico devendo resposta

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O AMARROTADO E O PASSADO

Não importa do quê ou como nos arrependemos, mas o arrependimento, apenas. Depois do arrependimento, não tem volta, ninguém nunca mais é novo de novo. Tem gente que consegue recuperar o rosto iluminado o jeito de andar sem medo o rebolado – até as pernas livres de meias de alta compressão. Só que pra isso é preciso enlouquecer um bocado.

 

 

CONTO @ FORMAS BREVES

Em mãos, num clique => ‘O Réveillon de Max Richter’

[trecho]

Sei que deve fazer muito tempo que não se diz o Nome em nossa casa, porque olho para Tula, na poltrona diante da minha, e é esta sua versão gasta que enxergo agora, não a que vejo nos meus sonhos de festas e viagens, de imagens de outro tempo. Imagens que vêm do mesmo lugar de onde saiu o Nome. Vêm da época em que até ela sonhava.

Tula sonhava. Éramos crédulos. Não passava pela cabeça da gente que podíamos, talvez, ter chegado atrasados ao mundo. Que tudo já havia sido feito e consumido, que nos sobrava o regurgitado, o já dito, escrito e reescrito. Nunca achamos isso – nós, novos, não. Tudo o mais já era velho.

p.s.: há erros que merecem revisão no texto citado? sim. ai do mundo sem os erros. história, há? sim. ai de mim sem histórias.

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A 16 quadros por segundo

POR CECILIA GIANNETTI

“Ficar sozinho pode ser muito solitário. Mas ao menos com gente em volta podemos ficar solitários com barulho”. – Herbert H. Herbert, personagem de Jerry Lewis em “O Terror das Mulheres” (“The Ladies Man“, 1961).

Para Henry Miller, o comediante era um meio de a humanidade chegar a Deus, era uma criatura capaz de esvaziar os manicômios, sem propor uma cura mas tornando todos loucos. E a música, um tônico para a glândula pineal, o abridor de latas da alma. 

A ideia de fugir do meu escritório no meio do dia, como quem mata aula, me ocorre como piada. Só pode ser. Ir ao sebo agora é de uma irresponsabilidade atroz da minha parte, uma aventura. Recorro ao amigo livreiro antes de enfrentar o Word brancão e suas demandas.

Tapo os ouvidos com os fones e a playlist (cue sheet), que batizei de “\o/” no iPod, faz o acompanhamento sonoro. A rua fica engraçada quando saio de casa pela primeira vez em cinco dias bem contados. Enxergo como se captasse tudo em uma cadência de 16 fotogramas por segundo e projetasse em fast motion automaticamente por trás das minhas pálpebras a 24 fps, aumentando de tal forma a velocidade da ação que o registro parece contaminado por uma energia extraordinária. Os cachorros que se encontram e se cheiram e nesse balé se embaralham coleiras, bichos e donos. A Guarda Municipal, homens e mulheres uniformizados com suas cabeças girando comicamente ao redor, olhares perdidos e mãos inúteis na cintura, sobre a calçada vazia de onde os camelôs acabaram de desaparecer feito mágica assim que o primeiro apitou o sinal avisando a chegada dos cacetetes. Um ônibus tão lotado que os passageiros viajam com seus corpos encaixados feito peças de Lego.

Somos todos peças intercambiáveis da Máquina, destino que pode se apresentar trágico ou cômico, dependendo da velocidade de projeção em que você escolhe enxerga-lo, bem como do acompanhamento sonoro, que nos tempos do cinema mudo era feito por pianistas ou orquestras, de acordo com cue sheets.

O Word brancão, ao longo deste dia e dos próximos meses, vai me olhar diversas vezes provocador ou debochado –, seja me cobrando um capítulo novo de um novo livro meu, seja exigindo mais dez páginas de tradução do livro de um outro, que passa a ser um pouco meu enquanto o traduzo.

Os horários dedicados a cada tarefa se emendam sem brecha entre si: pela manhã faço a coluna, que é diária, assim que termino pego a tradução até às 22h e, se tiver uma ideia que me move muito tarde de noite, é a vez do meu livro. Às vezes acontecem esses períodos, provisoriamente, quando mais nada cabe na equação. Ir ao sebo é uma piada interna rápida.

Por isso, aproveito bem. Por mais breve que vá ser a visita, entro na loja como quem vai receber um Oscar. A conversa do livreiro me dá combustível pra jornada na máquina. Esse combustível não me chega mais pelos cabos, updates remotos das vidas dos amigos via chat. Muitos deles mais amigos meus do que o meu amigo livreiro, é verdade. Mas tempo demais “conectada” desde 1997 me trouxe recentemente a um ponto de saturação, eu me tornei uma infiel – na fachada, seguidora; por dentro, relutante. Para mim entre o online e o ao vivo não existe mais disputa.

Encontrar o homem no sebo é o meu item de consumo orgânico essencial da semana.

Senão a coisa não anda, aprendi a duras tecladas.

Sem uma ração regular de presencial, eu travo. A máquina continua e eu travo. A máquina não é apenas o ente eletrônico que ligamos à tomada. A máquina é tudo que dela dePPPPendePrazos, Produção, Propaganda, Passar a mercadoria adiante – e de que dependo eu mesma para continuar.

– Leva este.

O livreiro brota como um gigante do meio da desordem de títulos empilhados que toma o canto da loja onde foram depositados, aguardando limpeza, centenas de aquisições recém-chegadas.

– Vêm de casa de viúva, de órfão, de jornalista que recebe 500 lançamentos toda semana pra resenhar (tem quem resenhe sem ler…), de quem precisa liberar espaço pra alimentar o vício comprando outros.

Compro “este” por R$ 12, novo mas cheira a velho, não espero outra coisa. Faz parte do gosto por comprar em sebos.

O autor “deste” morreu há seis anos, aos 84, tendo sobrevivido a um bombardeio em Dresden e sido capturado pelos alemães na II Guerra Mundial. O epitáfio que pediu, ainda em vida, um exemplo de como a enxergava: “Everything was beautiful and nothing hurt”. Soube abordar catástrofes e injustiças sem inflamar o discurso. Sua prosa às vezes lembra uma cantiga de roda sobre o fim do mundo, com repetições de palavras e frases características como um carrossel, repetições como refrões cujo propósito sutil é embalar o leitor na história.

O que me lembra uma frase do Carlos Heitor Cony, que ele soltou em palestra na Academia Brasileira de Letras há exatos dez anos, e guardei num desses cadernos que insisto em ter na bolsa:

“O jornalista é um peixe de aquário. Tem que ser bonitinho e ficar ali naquele mundozinho, tem que fazer pirueta, tem que fazer gracinha. Se ele não for bonitinho, ele perde o emprego. O escritor é um peixe de fundo, habita o território do mar onde não chega a luz, o sol. Em geral ele é feio. Mas ele tem o oceano todo pra ele.”

Consigo espaço o bastante para segurar o livro à minha frente no rush do metrô carioca e ao mesmo tempo me agarrar a um dance pole do vagão. “Pastelão ou solitário nunca mais” (“Slapstick or lonesome no more“) é de 1976. Tem a idade do amigo livreiro. O romance esquisito de Kurt Vonnegut nada em cultura pop mas vem do fundo do mar. Coincidência, abre falando sobre como os fps podem tornar um destino leve ou pesado.

“A base do humor do Gordo e o Magro, creio eu, era que eles se esforçavam ao máximo em cada prova que tinham pela frente. Nunca deixavam de enfrentar de boa fé o seu destino, e eram fantasticamente adoráveis e engraçados na tentativa. (…) O que realmente parece importante? Lutar de boa fé com o destino.”

Como Vonnegut, J.D. Salinger também falou sobre Laurel & Hardy, definindo-os como “seres e artistas enviados do Paraíso”. Como Miller, Salinger também ama e dá valor ao riso. Fez Seymour Glass escrever ao seu irmão, Buddy, em “Seymour: Uma apresentação”: “Faça as pazes com seu senso de humor.”

Indiscutível.

poem #5

I had a black and white satin dress
On, It made my maiden years seem mere playful
Song.

In it I sat and played with my supermodern cellphone on my lap
It has lights which sparkle and such
When Voices reach out to me through its wireless throat

Me and you – worlds apart
Like me and the cellphone

I too sparkle (the black and white satin dress, and a little jewelry hanging from my neck)

But I sit still – wait

Like I was made up by a 19th century girl who
Thought she could create characters out of her loneliness and very limited society.

When I let out a sigh
I notice I am wearing a cleavege that could easily be Victorian
And that my heart is as old as my fashions

That this cellphone of mine is as useless tonight than it would be on any 19th century night or day

And that gentlemen of your likeness, you have travelled trough time.PQAAAPfWi9FstPUBu-mrKMFvvcJB1i0_t6OFuesvBPvrsnJ0xl97V1rE18pV66XB3Jp_PUhFs_edDHxnK01EcCucyGMAm1T1UMTR2CDLlHaLH6ir8FD6U1JfXZ1B

O Passado e O Futuro do Presente

POR CECILIA GIANNETTI

[Esta coluna é prima da de ontem, “Todo mundo junto agora“]

Eu me lembro muito bem da estreia da MTV no Brasil, a terceira versão do canal fora dos Estados Unidos. Em outubro de 1990, poucos dias depois de ela entrar no ar, eu estava sentada, em um dia de semana, horário de aula, assistindo à programação predominante de videoclipes que se repetiam a cada hora quando uma vizinha colocou sua cabeça loira oxigenada pela janela da minha sala para opinar sobre o meu Futuro.

Seu vaticínio era tenebroso: se eu não voltasse imediatamente ao colégio para terminar aquele ano letivo, eu acabaria morando debaixo de uma marquise com um cachorro.

– Não pode ser um gato? Não cresce tanto e eu imagino que a marquise será curtinha e os jornais também não são muito largos. Pra cobrir um pastor alemão, por exemplo, eu precisaria de muito mais espaço e jornais maiores (mal sabia, naquela época, que muitos jornais brasileiros adotariam no Futuro o formato tabloide, ainda mais curtos pra se usar como cobertor).

Ela resmungou alguma coisa sobre mendigos e vira-latas e retirou a cabeça da janela, seguindo caminho até a segunda casa à esquerda da minha, onde mantinha encarcerados dois filhos, alunos da mesma escola, para quem tinha um Futuro bem planejado e a quem fazia cumprir todas as ordens que eu havia driblado naquele outubro de 1990 – tais como: terminar o ano letivo obediente e uniformizada acompanhando todas as aulas, inclusive as extras, nos finais de semana.

Não vou comentar o que aconteceu no Futuro real, o não-calculado milimetricamente pela vizinha, com os seus filhos, porque a web é um campo minado onde todos os fantasmas do passado ressurgem para nos assombrar, especialmente se você pisa num calo deles. Digo apenas que não saiu exatamente conforme o planejado. Não saiu nada conforme o planejado. Embora eles tenham terminado direitinho aquele ano, naquela escola.

Enquanto que eu.

Em setembro eu fiz um dos únicos cálculos em que obtive resultado correto em toda a minha vida. Eu não lido bem com números. Deixo o espaço que ocupariam no meu cérebro para aprender a lidar melhor com as letras (a menos que estas venham acompanhadas de números e sinais como em

et al) e espero que um dia esse esforço alfabético me valha.

Como eu ia dizendo: em setembro daquele ano eu havia calculado as notas que eu precisaria atingir para passar direto em Físico-Química, Física (aulas teóricas complementadas por aulas práticas no Laboratório de Física, ou seja, uma matéria em que, além de não saber calcular as fórmulas corretamente, eu podia explodir a gente), Química, Matemática e Geometria.

Eu era extremamente realista e conhecedora das minhas limitações no que dizia respeito a equações e quetais. E, por mais que eu fosse ruim em cálculo, reconheci que as notas de que eu precisava pra passar eram números inatingíveis. Ainda que eu ficasse o Natal e as férias de janeiro em recuperação, não havia qualquer garantia de que aqueles parcos meses seriam suficientes para implantar na minha cabeça modelos de raciocínio que eu rechaçava inconscientemente por falharem em apresentar um terço do charme das crônicas do Paulo Mendes Campos, que eu tinha acabado de descobrir.

Sem contar que era uma escola com currículo e disciplinamento voltados, desde o Jardim de Infância, inteiramente pra Passar no Vestibular. Eu nem sabia ainda com o que eu iria querer trabalhar mais tarde, bem mais tarde. Não fazia sentido.

E não só isso. Tratava-se da escola mais cara de toda a Ilha do Governador. E quem pagava essa conta, sozinha, era a minha mãe, militante ferrenha da máxima – vocês vão se lembrar da primeira vez em que ouvi isso clicando aqui – “Dinheiro Não Dá em Árvore”, que é uma frase que gente que tem grana de verdade raramente profere sem dar uma risadinha interna.

Se Dinheiro Não Dava em Árvore, que diabos eu estava fazendo naquele estabelecimento dos infernos? A escola era cara mas não era perfeita, com colegas de classe grávidas na adolescência, alunos matando aula para beber e professores que atiravam walkmans e outros pertences de alunos no telhado das Casas da Banha, o supermercado vizinho, pra assustar a gente.

Tudo culpa da vizinha que metia a cabeça pela janela da minha sala pra opinar sobre as nossas vidas:

Talvez porque pensássemos que ela estacionava a Delorean do “De Volta Para o Futuro” na garagem de sua casa e que voltava dos anos 2000 ao presente de 1990 para nos ajudar a corrigir um terrível erro de escolha didática, concordamos com ela quando decretou que o meu Futuro Perfeito estaria garantido se eu estudasse na mesma escola que os seus filhos.

Mas com os resultados do meu cálculo em mãos e a MTV chegando ao Brasil, era o meu momento de argumentar contra a teoria do capacitor de fluxo da vizinha, a sós, com a provedora da casa.

– Eu não vou passar. Você vai torrar uma grana à toa. Em cinco meses começa outro ano letivo. Eu vou pra outra escola, repito de ano. Fim do problema. (Além do mais eu peguei a Delorean da vizinha e vi que em 2010 o químico, historiador e jornalista Andrew Robinson vai lançar um livro afirmando que a escola atrapalha a genialidade. E de qualquer maneira ele diz no mesmo livro que no Futuro nós teremos cada vez menos gênios.)

Durante o meu período sabático aprendi a tocar violão e li livros que me interessavam, além de não ter ficado grávida nem vomitado cerveja quente depois da aula na porta das Casas da Banha. Mas, ei, não estamos aqui para julgar ninguém.

Quando comecei na escola nova, sem a pressão pró-vestibular, aprendi coisas que achava que nunca conseguiria realizar, como a mira perfeita com zarabatana de Bic e bolinha de papel com cuspe e

Ou coisa parecida.

Na hora de enfrentar a prova de fogo para entrar na universidade, passei. E a provedora do lar acabou economizando uma nota preta, do tipo que Não Dá em Árvore.

Meu discurso pra minha mãe foi um pouco diferente daquilo que escrevi ali em cima, mas a essência dele foi preservada. “Quando uma coisa não tem remédio, remediada está.” E a MTV foi um excelente calmante para todos lá em casa entre outubro de 1990 e março de 1991, meu sabático.

Que a VEVO TV, de que falei aqui ontem, possa fazer o mesmo pelas novas gerações, substituindo o Rivotril e a Ritalina desde sua mais tenra idade.

A invasão territorial de Belluci e Cassel

POR CECILIA GIANNETTI

Não interessa que idade ela tem hoje. É simples: foi imortalizada no cinema; e vocês, no máximo, no Instagram. Portanto, piriguetes, modeletes, socialites, hipsters de shortinho + bota de cowboy: acabou. A atriz italiana Monica Belluci decidiu morar no Rio de Janeiro, junto com o seu maior acessório de luxo, o também ator (francês) Vincent Cassel. Estão em um apartamento no Arpoador.

Tranquem-se em casa e desistam de dar pinta pelo calçadão. Talvez: baixem pela internet alguns episódios de seriados como Homeland ou The Big Bang Theory e distraiam-se com esse tipo de coisa. Ou, confinadas, finalmente leiam “Guerra e Paz”. Os homens nunca mais vão olhar para a carência de panos de vocês da mesma maneira. Porque Monica Belluci agora é carioca e a proximidade de Monica – ainda que ela mesma permaneça a maior parte do tempo em uma torre de princesa, em um prédio alto do Arpoador – fará com que a imaginação do homens do Rio projete a imagem da deusa sobre a sua pele de mortal, como se você não passasse de uma tela do cine Estação.

Quanto ao Vincent, tenho observações de outra ordem, anotações pessoais de um passado remoto.

Nos idos de 2004 eu trabalhava no Jornal do Brasil. À época sua sede já havia sido transferida para a Avenida Rio Branco, centro da cidade do Rio de Janeiro. Era uma sexta-feira. Independentemente disso, era raro o telefone tocar para informar outra coisa que não a necessidade de um assessor de imprensa de passar para o JB impresso seu press release em forma de matéria. Até que – não sei quem, não sei com qual interesse nisto – ligou justo para o meu ramal avisando que Vincent Cassel estava no Rio de Janeiro, como já vinha se tornando hábito no pré-carnaval e durante as festividades de Momo, e que estava hospedado no Copacabana Palace. Mais: dentro de algumas horas, ele iria almoçar no restaurante Pérgula do Copacabana Palace.

Sambei na cadeira giratória. A editora do Caderno B rebolou na dela. Frêmito na baia ao lado, o crítico de cinema oficial ouviu tudo e empertigara-se. Mas, por motivo que também não entendo, foi a mim que mandaram até o Copa. Desci no elevador do predião até a Rio Branco, peguei um táxi com voucher (o saudoso voucher) do jornal e decidi que iria almoçar com Vincent Cassel na Pérgula, no Copacabana Palace, de qualquer jeito.

Acreditem se quiserem, eu estava vestindo um paletó de tailleur feminino sobre uma camiseta branca, e calças pretas, apesar de estar nos meus vinte e alguns anos e no início dos 2000. Paletó: acho que por alguma ilusão de proximidade a Gay Talese. (Uma redação de jornal pode enlouquecer as pessoas. Não sinto remorso, no entanto).

Passei pela entrada principal do hotel procurando exalar pouco minha suburbanidade e o fato de que eu não tinha credenciais (nem de imprensa nem bancárias) para estar ali dentro. Avancei até o restaurante Pérgula. Mesas vazias, exceto por um casal que bebia numa delas. Imediatamente o maitre me abordou.

Minhas cordas vocais e boca simplesmente fizeram o serviço sem a ajuda do cérebro. “Estou aqui para encontrar o Vincent… Cassel. Estou com o grupo. Ele deve descer para o almoço logo. Vou esperar.” O maitre me indicou uma mesa e de pronto puxou a cadeira para que eu me sentasse. Pensei que o passo seguinte, resultado da minha atuação digna de uma indicação à Framboesa de Ouro, seria um rápido interrogatório de alguma autoridade maior do hotel e depois a sumária expulsão.

Passaram-se uns 20 minutos até que um homem cujo nome jamais vou me lembrar se sentou comigo à mesa. “Está esperando o Vincent?” E eu disse que sim. Ele também estava. Era ele quem arranjava as diversões para o ator enquanto o mesmo passava férias no Rio, me contou. A minha sorte é que ele não parava de falar de si mesmo e de Vincent. Não tive – não quis, não precisei de – oportunidade de dizer quem eu era e de que buraco havia saído. Pensei: é o poder do paletó. Mas o homem já tinha me sacado. Foi ele mesmo quem mandou que eu tirasse o paletó. Eu protestei: “tenho tatuagens nos braços”. Ele disse: “melhor ainda. Esse paletó é que vai te entregar.”

As coisas que aprendemos quando pensamos que ninguém está reparando…

Já estava sem o bendito paletó quando Vincent Cassel e um grupo de umas cinco pessoas surgiram no restaurante Pérgula e tomaram seus lugares à mesa. Ele tinha 37 anos naqueles dias, vestia bermudas, chinelos e uma camiseta simples e não parava de sorrir. E falava português. Muito. Queria apenas aproveitar o carnaval e descansar das filmagens de “Renegade” (ou “Blueberry”, título original).

Cassel contou que seu personagem no filme, o Tenente Blueberry, encarava uma viagem surrealista e introspectiva, “com toques de Carlos Castañeda”. Para captar o clima da película, recorreu – por meios pouco ortodoxos (ao menos para a maioria das pessoas pelaí) – a lembranças de uma experiência vivida anos antes:

“Tomei Ayahuasca… As principais alucinações que tive foram com cobras. É uma coisa que se tem que fazer em casa, acompanhado das pessoas certas. É muito mais poderoso que o LSD.”

Para ele, as imagens e sensações que experimentou com o Ayahuasca o ajudaram a se conhecer melhor e a entrar no papel:

“Meu personagem faz uma viagem em busca dele mesmo. Apesar de ter muita ação, é um filme que faz pensar, que fica na cabeça”, disse, no português aprendido através dos amigos e da MPB, segundo ele.

Sentado em frente ao amigo Zeca Marquez, designer responsável pelo baile de carnaval do Copacabana Palace, Cassel falava em desenvolto carioquês comigo e em francês com uma decoradora parisiense, em espanhol com uma dupla de investidores mexicanos e em inglês com uma norueguesa que havia acabado de conhecer no hotel. Tudo ao mesmo tempo.

“Eu adoro o Rio de Janeiro, conheço bem a cidade”, disse ele, que sabe, por exemplo, dirigir até a praia da Macumba, na Zona Oeste do Rio. Praticamente um local. Já dava indicativos de que iria voltar pra ficar.

“Acho Paris muito estressante. Quero alugar um apartamento aqui no inverno e ficar uns meses relaxando.” Monica Bellucci, naquele ano anunciada como a musa do baile do Copa, não o acompanhou na visita à cidade. Mas os dois já haviam tido um verão agitado no Brasil, há cerca de quatro anos:

“O carnaval de rua da Bahia é ótimo, mas não me diverti muito porque fiquei o tempo todo preocupado com a minha mulher”, riu, abrindo os braços e tentando mostrar como fazia para cercar e proteger a estonteante Bellucci.

Bebíamos coquetéis e champanhe. Meu celular vibrava loucamente dentro da minha bolsa. Era a fotógrafa do jornal, querendo anunciar sua chegada. Se uma fotógrafa aparecesse, o clima relax iria pro ralo.

Cassel começou a cantarolar ”pra tudo se acabar na quarta-feira”, trecho de “A Felicidade”, de Tom Jobim e Vinicius de Moraes, e lembrou como sua vontade de conhecer o Rio tinha acontecido.

“Acho que foi quando assisti “Orfeu negro”, de Marcel Camus (1959). Prefiro essa versão à mais recente,” disse, fazendo uma careta ao lembrar da refilmagem de 1999. Em seguida, comparou a atriz Lourdes de Oliveira, que em “Orfeu negro” interpretou Mira, a uma ”Jessica Rabit em carne e osso”.

Outros convivas já cantavam canções mexicanas, embalados por tequila. Cassel comemorou o começo de suas férias no Rio e reclamou outra vez de Paris.

“Lá todo mundo é muito fechado. A cidade é muito cansativa, estressante“, repetiu o adjetivo.

“Paris é estressante”

As amizades brasileiras deixavam o ator enturmado entre a fauna que circula pelo hotel nesta época do ano e os bairros.

“Aqui as pessoas conversam na rua, em filas, nos bares. Gosto disso.”

Foi quando a fotógrafa do jornal chegou e estragou tudo. Acabaram-se as histórias sobre experiências com alucinógenos, os drinks, a descontração e todo o grupo desapareceu do restaurante e para dentro do hotel como se tivesse visto um velho fantasma conhecido. A imprensa.

Senhoras e senhores, estamos flutuando no espaço

Limbo. O nome é limbo. Deste período entre o dia 26 e o dia 31 de dezembro de todos os anos que tenho tido a oportunidade de observar desde que primeiro percebi as primeiras anomalias em torno das Festas, ainda que eu mesma fique do lado de cá de uma espécie de vidro fumê que escurece e distorce as formas e acontecimentos do lado de lá, as formas e acontecimentos que carregam o peso maior da realidade ao final de cada ano.

Mesmo para aqueles liberados do trabalho, que fogem para outro país, ou para uma serra ou uma praia, outro país, uma serra ou a praia apenas os distraem do fato de que estão num limbo do ano. Eles viajam envoltos em vidro fumê à prova de realidade e a realidade fora não pode atingi-los. Pequenas férias ou feriados não são a realidade, são uma oportunidade que excita a tal ponto a alma e o corpo que os intoxica e causa o efeito vidro fumê à prova do mundo.

É um período de anestesia geral que começa na tarde (manhã, em muitos casos) do dia 24 de dezembro, quando os amigos se reunem para beber a cerveja natalina pré-ceia familiar. Esta cerveja é apenas um condutor inofensivo para o início de tudo, como o Dormonid que o fazem colocar sob a língua antes de você receber a injeção que vai lhe tirar do ar completamente para passar por uma cirurgia. Ali seus membros e sua mente se entregam a um estado de consciência de aparelho de tv com chuviscos que definirá o ritmo dos próximos dias. Todos eles se parecerão demais com a onda do Dormonid ou da cerveja com os amigos ou os dois misturados.

Nesta época somos astronautas flutuando no asfalto, esquecidos de nossa missão.

Ou é como se o Hotel Nautilus já estivesse pronto e oferecesse uma promoção a cem pilas o pernoite para toda a espécie, em vez de limitar a experiência a engenheiros e astronautas e cientistas e técnicos (do futuro): venham passar uns dias com a gente a 515 km da Terra, girando no espaço a uma velocidade de 28 mil quilômetros por hora, sem sequer notar o movimento e o afastamento e todas as coisas que você conhece – da janela do seu quarto no Hotel Nautilus você verá apenas a Terra ao longe.

Agora você está tomando uma pílula de Piña Colada no Hotel Nautilus enquanto recebe uma massagem de outro mundo feita por uma andróide do filme “2046”, de Wong Kar Wai, você está em órbita até o ano que vem.

Eu vejo o Hotel Nautilus, esta empreitada bem real, como uma ficção vermelha e sem dúvida sentimental – sentimental de minha parte, não do incrível chinês que escreveu o longa-metragem -, como o trem de “2046”.

O Hotel Nautilus, se você já se esqueceu dele ou nunca leu a respeito, é uma promessa que acelera corações presos ao peito por um cabo de conexão bastante resistente e que flutuam no céu. Em 2005 uma empresa chamada Bigelow Aerospace, de propriedade do bilionário Robert T Bigelow, um entusiasta de vôos comerciais ao espaço, anunciou o conceito de um resort espacial – o Hotel Nautilus. A missão da Bigelow Aerospace é “oferecer opções acessíveis para vôos espaciais até agências espaciais e clientes corporativos” – e pretende fazê-lo não com foguetes multibilionários, mas com grandes estações espaciais infláveis.

INFLÁVEIS. Como os corações que flutuam, estes a gás.

É um plano sólido, o da Bigelow, testes estão em andamento e com bons resultados há anos, mas – inflável é algo que costumamos associar às bóias que enchemos com esforço dos pulmões e da boca e colocamos para a segurança dos nossos filhos em seus bracinhos antes de eles entrarem na água. Não algo em que podemos imaginar centenas de seres humanos relaxando no espaço.

Mas não façamos pouco dos infláveis. São capazes de proteger seus habitantes da radiação (por utilizar materiais não-metálicos), o que não é coisa pouca quando se está passando férias fora da Terra. E os infláveis espaciais também possuem um material chamado Vectran que é do balacobaco: os micrometeoritos que cutucam e chegam a perfurar a Estação Espacial Internacional não fazem nem cócegas no Vectran (ou melhor, só penetram superficialmente, sem danos).

A tecnologia inflável espacial não é novidade, está aí desde os anos 1950, quando os EUA lançaram o Echo 1 e o Echo 2, satélites de comunicações passivas (os primeiros), que eram balões de 30,5 metros de diâmetro fabricados com mylar (o mesmo material usado na fabricação de filtros solares caseiros) de cerca de 0,013 milímetros de espessura, balõezões capazes de refletir sinais ao redor do mundo.

Foi preciso um intervalo de cerca de 40 anos para que se avançasse na pesquisa dos materiais necessários para que se começasse a pensar em uma TransHab – Transit Habitat, que a Nasa alardeou mas não cumpriu porque gastou demais nas comprinhas de Natal ou coisa parecida (ultrapassara o seu orçamento em 4.8 bilhões de dólares – mais ou menos como quando entramos no coma coletivo de fim de ano e gastamos mais do que podemos no cartão de crédito).

Foi quando a Bigelow Aerospace entrou no jogo, prometendo sambar na cara das agências espaciais financiadas pelo governo, como a NASA e a da Rússia. Em 2007 a Bigelow lançou a sonda Genesis II (inflável), cujo núcleo só se expandia até formar uma estrutura maior quando já estava em órbita, diminuindo drasticamente os custos de seu lançamento. Um avanço.

A Bigelow Aerospace possui imensos terrenos no deserto do Mojave, na Califórnia, com edifícios não muito diferentes daqueles de empreiteiros da vizinhança, mas com um toque de humor – pelo menos quero crer que esse bilionário ri desse detalhe e o instituiu como brincadeirinha: os homens de sua equipe de alta segurança têm grudados em seus uniformes o desenho de um alien verde, daqueles com olhos gigantescos e arredondados e tudo.

Algumas fontes dizem que o hotel da Bigelow ficará pronto em 2015. Outras mencionam 2017. Eu chuto 2046.

Até lá flutuamos no espaço aqui mesmo, descuidados e avançando talvez mais rápido do que a empresa de Robert T Bigelow. Apenas sem perceber esta velocidade que há em tudo em torno.

HERÓIS E BANDIDOS

POR CECILIA GIANNETTI

(originalmente publicado no Destak)

A matéria de capa da revista Veja desta semana é um especial reunindo resultados de alguns estudos que colocam na conta do consumo de maconha:

1. A interferência em funções cerebrais que causam psicoses irreversíveis;

2. Danos às sinapses que permanecem muito mais tempo, em alguns casos para toda a vida, ao contrário dos efeitos do álcool e da cocaína, que se dissipariam em poucos dias após uso interrompido dessas substâncias;

3. Baixo Q.I.;

4. Bipolaridade, depressão aguda, esquizofrenia, ansiedade (sendo o vício na maconha um componente do quadro psicótico e não determinante).

5. E, como não poderiam deixar faltar, a clássica formulação “Porta de entrada para outras drogas”.

A maconha não escapa ao vai-e-vem dos cientistas e dos resultados de seus estudos em relação aos seus benefícios ou malefícios, como não escapam outros hábitos que a humanidade mantém há séculos, como:

A. Consumo de ovos;

B. Consumo de carne vermelha;

C. Consumo de café;

D. Consumo de chocolate;

E. Consumo de álcool.

Antes de citarmos os mais atuais estudos que dizem que:

I. O consumo de ovos faz bem e que dizem que o consumo de ovos faz mal à saúde;

II. Estudos que dizem que o consumo de café vai arruinar o seu organismo e estudos que afirmam que o consumo de café fará de você um super-humano;

III. Estudos que comprovam que o consumo de carne vermelha é veneno puro e estudos que afirmam o contrário, que a carne vermelha não é uma vilã;

IV. Estudos que apontam que comer chocolate regularmente emagrece e estudos que dizem que o chocolate é a obesidade personificada em forma de barrinha preta;

V. Estudos que demonstram que o consumo regular de álcool (cerveja e vinho, basicamente) é benéfico à saúde de homens e mulheres e estudos que apregoam que o álcool apenas mata.

Antes de esmiuçarmos tais controvérsias, um minuto para o comercial. 

Sim, para o comercial. Porque o que digo abaixo sobre “imparcialidade” no jornalismo tem muito a ver com o departamento comercial de veículos de notícias.

Sabemos – ou a esta altura já deveríamos desconfiar disso – que repórter algum consegue ser totalmente imparcial no que diz respeito à reportagem que escreve. A primeira razão para que isso ocorra é que a mera escolha de palavras, das fontes onde vai buscar dados, a seleção dos dados a ser publicada e a organização/edição do texto já configuram uma opinião de quem o produz.

Há repórteres que assumem a postura ilusória da imparcialidade para impor uma opinião como fato, sem oferecer ao leitor a opção de identificar o que é a opinião do repórter e/ou veículo e o que é fato.

No final das contas, na grande fábrica de salsichas do jornalismo, bastantes resultados (não tudo, nem todos e nem sempre) dependem dos ângulos que cada repórter e/ou editor escolhem destacar.

Sobre ovos, café, carne vermelha, chocolate, álcool e maconha existem estudos que afirmam que cada um desses itens pode ser benéfico para a saúde e existem estudos que afirmam que cada um desses itens pode ser prejudicial para a saúde.

O repórter e/ou editor responsável por uma reportagem a respeito de qualquer um desses itens, se desejar atingir um nível básico de imparcialidade, recorrerá a estudos que apresentam resultados nos dois campos: benéfico e prejudicial.

O repórter e/ou editor responsável por uma reportagem a respeito de qualquer um desses itens, se desejar puxar a brasa para a sardinha do prejudicial, utilizará apenas estudos que apresentam resultados no campo do prejudicial; se desejar puxar a brasa para a sardinha do benéfico, utilizará em seu texto apenas estudos que apresentam resultados no campo do benéfico.

Dito isto, vamos aos ovos:

Os ovos, como a maconha, são objeto de pesquisas importantes que ao longo dos anos revelaram tanto que são nocivos quanto benéficos à saúde.

OVO VILÃO: De acordo com pesquisa da Universidade de Western Ontario, comer gemas de ovos é quase tão ruim para o coração quanto fumar.

OVO HERÓI: Por outro lado, uma das mais recentes pesquisas sobre ovos, realizada pela Universidade do Estado de Louisiana, afirma que o ovo apresenta colina, nutriente essencial para a saúde do cérebro, inclusive para formação de novos neurônios. Por isso o consumo de colina é indicado na prevenção das doenças neurodegenerativas, como Alzheimer e Parkinson. E mais: ingerir ovos pela manhã emagrece.

E aquele churras?

A carne vermelha, como a maconha, é objeto de pesquisas importantes que ao longo dos anos revelaram tanto que é nociva quanto benéfica à saúde.

CARNE VERMELHA VILÃ: pesquisa publicada no periódico Archives of Internal Medicine, realizada na Faculdade de Saúde Pública de Harvard, revela que o consumo de carne vermelha pode aumentar os riscos de morte prematura, além do aparecimento de doenças cardiovasculares e câncer.

CARNE VERMELHA HEROÍNA: Comer carne vermelha não faz mal ao coração. O bife foi absolvido de graves acusações após longos anos como o bicho-papão das doenças cardíacas, graças a pesquisas apresentadas durante o 66º Congresso Brasileiro de Cardiologia.

Agora, ao nosso amado café:

O café, como a maconha, é objeto de pesquisas importantes que ao longo dos anos revelaram tanto que é nocivo quanto benéfico à saúde.

CAFÉ VILÃO: A cafeína pode causar fortes oscilações da glicose no sangue, causando baixa de açúcar no sangue (hipoglicemia) = fraqueza, nervosismo, sudorese, tremores e palpitações cardíacas; pode aumentar a pressão arterial e o colesterol (!); causa risco de úlceras, refluxo ácido, e síndrome do intestino irritável; pode causar irritações cutâneas; pode causar desequilíbrio cálcio-fósforo no organismo, associado à artrite reumatóide e osteoporose; pode agravar a TPM e os sintomas da menopausa; pode prejudicar a qualidade do seu sono, agravar os sintomas de ataques de pânico e ansiedade; pode aumentar o risco de aborto espontâneo, malformações congênitas e baixo peso em recém-nascidos. Se você ingere mais de 100 mg de cafeína (meio copo de café) por dia, está viciado em cafeína e pode ter alguns sintomas de abstinência, como rigidez muscular, dor de cabeça, irritabilidade, fadiga e dificuldade de concentração. E mais: pesquisa do Brigham and Women´s Hospital, de Boston, sugere que os compostos encontrados no café podem aumentar a pressão dentro do globo ocular, causando uma alteração na visão, conhecida como síndrome de esfoliação. Isso pode levar ao glaucoma.

CAFÉ HERÓI: Estudo do Harvard Medical School revela que mulheres que bebem duas ou mais xícaras de café por dia estão menos inclinadas a sofrer de depressão; café pode aliviar sintomas de mal de Parkinson, de acordo com estudo conduzido pela Universidade McGill, no Canadá, publicado na revista norte-americana Neurology; quem toma café vive mais, segundo pesquisa de Neal Freedman de 2012; café ajuda a queimar calorias, segundo um estudo do Instituto Australiano de Esportes; tomar café reduz risco de câncer endometrial, de acordo com pesquisa realizada pela Universidade de Harvard; consumo moderado de café reduz risco de diabetes, segundo o European Prospective Investigation into Cancer and Nutrition (EPIC). A pesquisa indica também que o consumo de café não está associado ao aumento de doenças cardíacas ou do câncer; dois estudos realizados durante 20 anos pela Universidade de Harvard apontam que o consumo regular de café pode diminuir os riscos de um tipo comum de câncer de pele entre os norte-americanos, o carcinoma basocelular.

E os chocólatras, irão sobreviver ao seu vício?

O chocolate, como a maconha, é objeto de pesquisas importantes que ao longo dos anos revelaram tanto que é nocivos quanto benéfico à saúde.

CHOCOLATE VILÃO: o chocolate é um alimento proibido – 1) para os ossos. É um ladrão de uma substância essencial para o fortalecimento ósseo. Rico em oxalatos, diminui a absorção do cálcio. 2) Também causa enxaqueca, irritações na pele, aumento da glicemia, ganho de peso e diarreia. 3) Além de gerar um efeito no cérebro semelhante ao ópio, segundo pesquisa publicada pelo jornal Current Biology, pois faz surgir no cérebro do *usuário de chocolate* uma substância química natural chamada encefalina, uma endorfina similar às propriedades do ópio. Esse neurotransmissor, a encefalina, pode levar a formas de consumo excessivo e dependência e apresentar considerável participação na geração de níveis patológicos de consumo excessivo, distúrbios alimentares, vício em drogas e outros comportamentos compulsivos.

CHOCOLATE HERÓI: pesquisa no Karolinska Institutet em Estocolmo afirma que o alimento diminui o risco de derrame. E o Departamento de Ciência do Alimento e Biotecnologia da Universidade de Chung Hsing, em Taiwan, mandou avisar que os ácidos fenólicos presentes no cacau fazem com que o alimento seja considerado um aliado de quem quer emagrecer.

E o alquinho?

O álcool, como a maconha, é objeto de pesquisas importantes que ao longo dos anos revelaram tanto que é nocivo quanto benéfico à saúde.

ÁLCOOL VILÃO: em 2010, nossos amigos pesquisadores afirmaram que o álcool é mais prejudicial que o crack e a heroína, em pesquisa publicada no periódico médico Lancet.

ÁLCOOL HERÓI: em 2011 a cerveja foi equiparada ao vinho em matéria de benefícios à saúde. Pesquisa do instituto italiano Research Laboratories, da Fondazione di Ricerca e Cura Giovanni Paolo II indicou que o consumo moderado da bebida faz bem ao coração. O estudo foi publicado no European Journal of Epidemiology. Além disso, pesquisa realizada em parceria entre a Universidade de Barcelona, o Hospital Clínico de Barcelona e o Instituto Carlos III de Madri revelam que a cerveja não acarreta obesidade (tem cerca de 200 calorias por caneca, o mesmo que uma xícara de café com leite integral). A cerveja, absolvida por essa pesquisa, também não é responsável pelo aumento da gordura abdominal. O problema são as frituras que geralmente a acompanham.

Last, but not least – maconha:

A maconha, como os ovos, a carne vermelha, o café, o chocolate e o álcool, é objeto de pesquisas importantes que ao longo dos anos revelaram tanto que é nociva quanto benéfica à saúde.

MACONHA VILÃ: para conhecer somente as pesquisas que apontam unicamente o lado negativo do uso da maconha, basta ler a Veja desta semana. Com a chamada na interna “Pesquisas comprovam que a maconha faz mal” e frases como “consequências funestas” em referência à erva no texto, a revista esqueceu das pesquisas que comprovam que a maconha oferece benefícios. O que teria dado mais credibilidade à matéria, diga-se de passagem. Mas do jeito que foi apresentada a reportagem, pareceu agenda. Uma moeda de um lado só.

MACONHA HERÓI: em 2012, foi constatado que o uso de cannabis pode ter um efeito benéfico sobre o funcionamento cognitivo em pacientes com graves distúrbios psiquiátricos. Pacientes bipolares com histórico de consumo de cannabis demonstram desempenho neurocogitivo superior em comparação a pacientes sem histórico de uso, de acordo com pesquisadores do Hospital Hillside Zucker em Long Island, e pesquisadores da Mount Sinai School of Medicine e do Albert Einstein College of Medicine, em Nova York. Os dados foram publicados na revista Psychiatry Research. E mais: estudo publicado neste ano na revista American Journal of Epidemiology mostra que maconha não danifica o cérebro de forma permanente. Outro estudo, divulgado no Journal of Neuroscience, realizado pela Universidade Complutense de Madri e pelo Instituto Cajal, mostra ainda que o uso da erva pode reduzir a inflamação associada ao Alzheimer e, assim, evitar o declínio mental. E um estudo da Escola de Medicina da Universidade da Califórnia em San Diego, realizado em 2012, aponta que o uso da maconha pode ajudar no tratamento da esclerose múltipla. A droga ajuda a aliviar sintomas e dores em pacientes que sofrem da doença.

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Nota pessoal:

Durante a produção desta coluna foram ingeridos 2 ovos mexidos, uma xícara de café, uma lata de água tônica light e quatro quadrados de chocolate com recheio cremoso de avelã. Nenhum cigarro de maconha foi tragado durante a produção deste texto. Nem antes. Nem depois.