DO MANUAL P/——

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Portanto, para resumir o último capítulo revisitado do nosso Compêndio de Histologia da Alma, o ente começa a dissolver-se. Desaparece, enfim. Como antes explicado, contudo, não é um processo rápido. Não é tão logo um corpo se vai, que ele some.
Não somem logo os sapatos do dia-a-dia ou o jeito como se vestia para o trabalho pela manhã. Os trejeitos, trajes da ex-pessoa permanecem sólidos como esta maçã que alguém deixou sobre as provas corrigidas, na minha mesa. (Ela está suja, precisa ser bem lavada antes de comer ou que seja aceita em metáfora).
Mas. Vão-se os calos que um dia carregou nos pés (lembra, nos dedinhos trepados e na base dos calcanhares?), causados pelos sapatos de bater pela cidade.
Malditas pedras portuguesas, sempre dizia. Elas não somem.
O ente e o jeito alegre ou às vezes apenas cansado como você o percebia no mundo – e como o recebia em casa para o almoço num feriado – isto, sim, irá desaparecer. Desaparece o que representava tudo isso para você, e dá lugar a um estirar eterno dos seus braços, alcançando nada.
O que não quer dizer que deixará de sentir o cheiro conhecido dos cabelos, o perfume do corpo que só exala na curva do pescoço, e mais acima, ainda, atrás dos lóbulos das orelhas. Não.
Uma vez me disseram que há ainda algo de muito positivo neste capítulo, coisa que basta buscar sob a lupa, em notas de rodapé e sonhos vívidos – nos sonhos mais estranhos. Que basta caminhar adiante, ainda que mancando e com as calças a deslizar pelos joelhos. Que basta, que devemos nos bastar.
O que eu sei, não de segunda mão, é que se sente um medo bruto, estarrecedor, de que aconteça isto mesmo – o obliterar total da ex-pessoa. Que toda ela suma e nunca mais. Retém então as rugas, as ranhuras das folhas e plantas que ela emprenhou na terra. Guarda, enquanto pode: a memória dos poros dela.
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DE OUTROS CARNAVAIS

Todo Carnaval tem seu fim 
CECILIA GIANNETTI
COLUNISTA DA FOLHA

“Adivinha qual o meu estado civil?”. Estamos no fim do baile do Copa. São cinco horas da manhã e a senhora que não conseguia tirar fotos com sua câmera digital conseguiu me achar outra vez. Pelo tom meio trágico que ela usa na pergunta, chuto com segurança: Viúva. “Sim, há quatro anos. Eu e meu marido vínhamos juntos ao Carnaval do Copa. Debutei aqui neste hotel.” Ela é do tempo do verbo debutar, da época em que o baile de gala do Copacabana Palace, criado em 1924, reinava como destino obrigatório para ricas e famosas.

Foi lá que o bustiê de Jayne Mansfield caiu em 1959 e que Jorginho Guinle mostrou o que significava o título de playboy. Hoje, em tempos de silicone, quando qualquer adolescente de bermudão e chinelos pode ganhar a alcunha de playboy, a festa não pode parar.

Apesar das celebridades cada vez mais escassas e das maneiras pouco ortodoxas de alguns como Narcisa Tamborindeguy e Bruno Chateubriand (os atiradores de ovos). A plebe paga R$ 1.000 pelo ingresso; os ricos vão de camarote, a quase R$ 3.000 por cabeça.

O longo para as damas já não é tão obrigatório assim, há vários vestidinhos curtos circulando; os homens insistem nos smokings alugados. Alguns chiquérrimos insistem em comer seus camarões e lagostas sobre a tampa dos pianos do Copa.
Na noite de sábado, em outro hotel, o Glória, acontece o concurso de fantasias, criado por Arnaldo Montel, 78, que, em sua 34ª. edição e com cada vez menos verba, continua lotado.

No espaço que serve de camarim para os 60 concorrentes e seu ajudantes, assisto a complicadas operações de montagem de fantasias; noto agora que as duas moças que subiram comigo no elevador são rapazes.

Entre os desconhecidos mais conhecidos da cidade está Bolinha, um senhor que se veste como o Chacrinha. Era advogado até perceber que sua vocação era imitar o Velho Guerreiro. Veste-se como ele não só aqui: “Viajo muito para participar de bailes, mas gosto mesmo é do concurso do Glória,” diz. “Quando meu nome for chamado, você vai bater palma pra mim?”

Lembro dele quando, no Copa, a mulher com o rosto coberto de purpurina me pede que adivinhe seu estado civil. Os Carnavais mais luxuosos do Rio são também os mais solitários.

Vi o quebra-cabeças formar uma imagem – feia, torta, que de certa forma registra a jornada aos trancos e barrancos até o fim, até o fundo do Rio de Janeiro

Saiba como é andar de carro sem consentimento com um político corrupto e ser exorcizada pelos policiais homens-de-preto dentro de seu batalhão => AQUI, na VERTIGEM.

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de silvos a Mogwai

teto ruiu, despenca em pequenos flocos relaxado ao cair, rindo das quatro paredes que ficam de pé

ainda e agora me diz miúdo miudinho e dorme

o teto que me impedia o céu de cicatrizes metálicas e nuvens de esponjas encardidas
o teto era uma camada, o céu é outra e por trás dele tem mais coisa

agora o telefone não para, me interpelam na rua, me perguntam o que há de mais além, perguntam sussurrando ou em franco desespero, de silvos a Mogwai

e eu fico devendo resposta

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XPRIMENTA

have a taste – he said.

A quem se deve esquecer

Como se o tempo não tivesse passado eu disse o nome dele e parei a xícara vazia sobre o pires. O Treinador ficou irritado. O Treinador ficou surpreso e irritado que eu pudesse trazer à tona em uma conversa qualquer o nome de alguém tão morto, tão remoto.

Por esse nome ele ainda atende, com esse nome abre e fecha contas bancárias, termina, começa uma nova vida, talvez até, tanto tempo faz agora, já o tenha dado seu nome de homem a outra mulher.

— Para você, o Nome deveria ser letra morta – o Treinador protestou, alternando condenação, goles de água gasosa e vinho. Aqui, onde nos deixamos ficar pelos últimos nove meses, já é quase noite, e é quando o dia do meu velho conhecido costuma seguir frenético. O céu escuro não foi feito para descansarmos, velhos não dormem.

O treinador empertigou-se na cadeira, alerta e afiado, como se tivesse percebido um escorpião subindo pelo meu peito, como na intenção de salvar-me do veneno.

— Aquele Nome, isso foi há vinte anos – protestou, alto, vinho.

Dezoito – corrigi.

Ele entende sobre os mortos que seguem vivendo, enterrados apenas para nós-com-quem-não-podem-mais-dividir-a-vida. Ao mencionar o Nome ao Treinador, distraidamente deixei que ele o visse, empalhado, no porão da minha memória. Constrangimento – não, pior:

É repelente que eu considere normal pensar nisso, que o relembre em voz alta diante de alguém tão cínico, que, ao menos para mim, nunca admitiu lembrar-se alguém já desativado de sua vida, logo o Treinador, que não menciona quem há preso dentro de si.

Talvez não fosse por mim, não fosse por instinto de me proteger. Ouvir aquele Nome apenas o incomodou à medida em que demonstrei que é possível não esquecer. Que não esquecer, jamais, é algo real, que existe no mundo. Ele que tente engolir isso com vinho.

Ele perde a paciência, ganha cor na face. Inicia-se o Treino propriamente dito.

O tema desta sessão:

“Apaixonamo-nos pelo mesmo motivo porque nos interessamos por ficção. E porque vamos ao teatro, ao cinema. Queremos a polpa da história, somos junkies de narrativas, nunca deixamos de querer.”

Já ele, mais modestamente, contenta-se com o copo cheio e lições., que–

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Então, o Treinador começa:

Fixa-te num ponto. O cacto à janela, o molho de chaves pendurado à porta. Para termos práticos – praticidade, uma estranheza aqui -, já que tudo o mais é árduo, olha bastante a escrivaninha, ao menos ela está próxima de você.

Guarda suas formas, e a memória de todo e qualquer contato que com esse objeto você tem a cada vez que senta para trabalhar.

Enquanto não estiver próxima à escrivaninha, tome por hábito pensar em seu tom escuro e na textura lisa da madeira.

Quando não estiver ali sentada, se o móvel tem um cheiro próprio, a mistura da madeira, mesma (e a de óleos para sua limpeza), evoca-os até que se tornem para você o que se pode chamar de perfume.

Entende o que digo?, claro que sim. Você possui objetos assim na sua existência solitária. Pequenas coisas que, se por acaso for obrigada a vender, ou caso as perca – um pedaço de fita com as cores gastas da bandeira do teu país, teu único país; a própria escrivaninha, que você usa todos os dias e não combina com qualquer outro móvel neste apartamento, mas é seu lugar escolhido para ler e lidar com trabalhos incompreensíveis, que te observo fazer no monstruoso computador —

Pequenas coisas que lhe fariam falta se desaparecessem.

Agora fixa-te numa pessoa. Qualquer.

No começo, talvez você precise mentir. não um engano completo, que aí, então, nada funcionaria. Mas comete algum exagero nesse início de exercício: te agrada sua companhia?, ou olhos castanhos? (que sejam: azuis, verdes?), ou o jeito de vestir-se ou a voz ou as mãos? Observa e recolhe dessa pessoa tudo o que te agrada. E então engrandece essas qualidades um tanto, faça-as crescer.

Guarda as formas desse, dessa qualquer, guarda a memória de todo e qualquer contato que têm a cada vez que se vêem. Que têm, você e a companhia escolhida; olhos castanhos; ou azuis; ou verdes; o jeito de vestir, voz, mãos.

Guarda com você.

No começo pode ser que você não seja percebido. Uma conversa qualquer entre você e seu ponto, o ponto, esse outro ponto fora de você no qual escolheu fixar-se, isso pode demorar a acontecer. Isso torna ainda mais essencial que evoque o perfume, ainda que esse outro não use perfume.

Então pensa numa textura: da qualidade de roupa que Qualquer costuma vestir, seu objeto. De Qualquer. Essas roupas são de algodão, linho, cânhamo, são camisetas ou ternos? Você chegou perto o suficiente para ver seus poros? Pensa nos poros. Pense muito, por algum tempo, o tempo que for.

Um dia, sem que você antecipe, quando não se encontrarem por acaso, você poderá desejar até que tivessem marcado uma hora e um lugar para se verem.

O acaso já não poderá mais dar conta de uma vontade.

Você agora deseja algo que inventou.

Esteve sempre ali, Qualquer, e existem sempre muitos qualqueres e qual-quereres também. Mas você lembrou da minha instrução, desta aula, pôs tudo em prática. Fixou-se numa e noutra característica de Qualquer e cuidou de pensar nisso em horas descuidadas. E agora o resultado é que não se trata mais de um exagero achar interessante em dentes um pouco tortos, detalhe que você escolheu notar quando trocaram algumas palavras pela primeira vez. Os dentes tortos, você não está mentindo para si: os dentes tortos têm encanto.

Encanto, você vai usar secretamente este termo para defini-los, meros dentes duros e algo amarelados, porque não arrisca a dizer em voz alta – o medo do ridículo faz parte disso em que você está se metendo.

Pode ser que você não consiga enganar-se com facilidade, logo nas primeiras tentativas, com os primeiros objetos escolhidos. Mas não quer dizer que você não conseguirá um dia.

E, quando conseguir, foi você quem se meteu nisso. Sua culpa. O outro, um  outro Qualquer, talvez não tenha percebido nada ainda, mas você irá trair-se de qualquer maneira e dizer ou fazer com que Qualquer perceba – porque você precisa, agora, de uma reação, uma resposta, um sinal, desesperadamente

Uma outra palavra que circulará em secreto pela sua mente feito vento desgovernado: “desesperadamente”.

Por que medo? É só uma outra pessoa! Por que ansiedade? É só uma outra pessoa! Não um cacto, o molho de chaves ou a escrivaninha que não combina com o restante da mobília.

Ansiedade, apenas: você já não busca um pensamento sobre os detalhes selecionados no início de sua fixação proposital no Qualquer que escolheu observar, e que agora deseja ter. Esse tipo de pensamento vem a você espontaneamente, traz consigo uma cobrança:

O que vem a seguir?

Você vai rir. Se der certo, vai rir também da vergonha. De adultos em uma situação ridícula. Mas seja, sejamos ridículos. É um favor que nos fazemos, um favor para gente que conheço, como eu – há muitos anos, perdidos, e considero presos ao que deixou de existir, ao que está fora deste mundo.

Admito hoje, a você, como prêmio, como consolo, como o que quiser: até eu tenho alguém a quem permiti observar e querer, após período dedicados à prática de exercícios como estes, exercícios que procuro ensinar. Alguém que, por sorte, hoje, também precisa me ver me ouvir me tocar. Enquanto isso durar para nós dois, seremos felizes, a definição ordinária da felicidade, caótica. Mais felizes do que eu apenas e o laptop cinza espacial que custa caro, sobre a escrivaninha antiga.

Enganei alguém a quem julgo ter, enganaram-me e enganaram-se também.

Mas como foi mesmo que você me disse daquela vez, menina? Assim:

Somos todos grandes artistas quando nos sentimos sós, Treinador. Criamos deuses a partir de lodo ou de menos. Não são heróis nem santos de gesso ou de barro. (Por que então é difícil quebrá-los?). Velhas peças sacras veneradas nos porões da gente: onde está o seu milagre? Como o fabricam e como conseguem nos convencer a adora-los. A resposta, Treinador, o milagre está em sua própria criação por nós, que os amamos e que os perdemos. Belíssimo. Mas atração sexual é necessidade de companhia. Todo o resto é cultural, o resto é patológico. Emoções sinceras são impossíveis numa farsa.

Ponha para correr a doença mental patética da busca da verdade de um fundamento do amor, ponha isso pra correr de sua cabeça até o fim das linhas que escrever sobre esse cancro: a cura pela escrita, poeta de beco.

— Treinador, o senhor se contradiz.

O tempo todo, por que não? Agora venha.

Venha, agora.

O AMARROTADO E O PASSADO

Não importa do quê ou como nos arrependemos, mas o arrependimento, apenas. Depois do arrependimento, não tem volta, ninguém nunca mais é novo de novo. Tem gente que consegue recuperar o rosto iluminado o jeito de andar sem medo o rebolado – até as pernas livres de meias de alta compressão. Só que pra isso é preciso enlouquecer um bocado.

 

 

SIM

“Precisamos de uma literatura? Precisamos. Mas de uma arte literária, como de um teatro, de um cinema, de um jornalismo que firam, penetrem, compreendam, exponham, descarnem as nossas áreas de vida (…) O caminho é claro e, também por isso, difícil – sem grandes mistérios e escolas. Um corpo-a-corpo com a vida brasileira. Uma literatura que se rale nos fatos e não que rele neles. Nisso, a sua principal missão – ser a estratificação da vida de um povo e participar da melhoria e da modificação desse povo. Corpo-a-corpo. A briga é essa. Ou nenhuma.” – João Antônio, Corpo-a-corpo com a vida.