MULHER A TAPA

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Eu não sou uma mulher fraca. Mas eu já fui uma mulher acovardada e eu já fui uma quase mulher-marionete, muitas vezes animada por tapinhas nas costas (boa garota!) ou derrubada por tapa na cara — cortesias da opinião alheia e de uma antiga e persistente sensação de menos-valia. Eu aceitava os dois tipos de tapa. Eu caía até com peteleco e pitaco, dependendo (ou não) de quem o desse.

Exemplo: quando eu deixei de terminar e lançar um livro porque o original (obra em andamento) não tinha agradado a um editor. Um. Uno. One. Ein. 1.

A rejeição àquele trabalho inacabado, vinda de mim, foi muito mais carrasca simplesmente porque não existe nada mais devastador do que dar tamanho poder a outra pessoa. Não interessa se você é escritor(a), bancário(a) ou astronauta —é devastador.

Então eu enfiei o rabo entre as pernas, calei a boca e apertei o pause || Engraçadosqn: o meu primeiro romance, o que eu me permiti lançar e divulgar (diferentemente do segundo) porque havia sido paternalmente acolhido e elogiado, começa com a sinistra profecia:

´Um dia as coisas pararam de acontecer´.

Um dia as coisas pararam de acontecer. Eu passei de mulher que cumpriu o desafio de escrever uma coluna diária (tendo assinado antes colunas semanais em outros outros jornais) a — honestamente, eu não sei o que eu tinha virado. Mas era um bicho preso, teso e mudo.

Eu não tinha parado de escrever totalmente: pelas beiradas, publiquei uma dúzia de contos. Mas era como se não tivesse escrito nada. Eu minimizava, pra mim e pra quem investigasse, qualquer relevância que se pudesse atribuir aos textos, ainda que como ‘realização pessoal’ ou ‘hobby’.

Escrever nunca foi hobby pra mim. Por isso eu voltei a fazer isso todos os dias. Ainda que na miúda.

Como roteirista, eu escrevi escondida, a minha voz saindo pela boca de personagens que irrompem na sala das pessoas entre intervalos comerciais de absorventes higiênicos, bancos e cervejas, quando elas estão comendo na frente da televisão. Personagens que, vez ou outra, dizem a coisa exata que um dia eu já quis muito muito muito ter dito a alguém mas zipei os lábios, engoli palavras.

Na TV eu falo sem que saibam que eu estou falando, eu escrevo sem que me leiam. O meu nome sobe rápido com os créditos na tela, embolado a outros e em letras miúdas. Escondida em plena vista.

Eu e o meu rabo buscam abrigo na cabaninha do parque de festa infantil. Me esconder: um hábito persistente.

Coisa recente, eu passei por uma cirurgia que me obrigou a ficar três semanas parada em casa. Pior: sem poder nadar e com a minha mão direita (sou destra) temporariamente fora de ação. Com uma trilha de pontos coçando por baixo da camada de faixas e gaze, eu assinei o cheque do anestesista com a mão esquerda. (Ainda espero o banco ou alguém minimamente atento me ligar perguntando se tive meu talão roubado por um falsário com a pior imitação de caligrafia do universo.)

Eu senti dores nas pernas e nos braços e em toda a parte mais por estar enfurnada em casa do que pelo procedimento cirúrgico em si.

Assim que fui liberada, eu me joguei na água, alonguei, boiei por horas (minha forma própria de meditação envolve cloro e coro de crianças brincando de tubarão silencioso ao redor; eu não sei por que o tubarão é silencioso; não são silenciosos todos os tubarões? Nota: perguntar às crianças na próxima vez em que for nadar).

A cicatriz na mão direita já parece um corte bobo, desses que qualquer pessoa que não cozinha e um dia se mete a picar cebola consegue fácil. E fácil desaparece.

Então ontem eu nadei e hoje eu escrevi pra fora pela primeira vez em muito tempo sem proteger o texto com um cadeado, sem me esconder. Me estico inteira outra vez. Assino o meu nome, uso a minha voz. Porque dói ficar encolhida debaixo da mesa, quando a gente devia usá-la para apoiar o notebook, escrever, publicar e dar a cara à tapa sem esperar tapinhas nas costas, vindos de muitos ou ninguém.