DO MANUAL P/——

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Portanto, para resumir o último capítulo revisitado do nosso Compêndio de Histologia da Alma, o ente começa a dissolver-se. Desaparece, enfim. Como antes explicado, contudo, não é um processo rápido. Não é tão logo um corpo se vai, que ele some.
Não somem logo os sapatos do dia-a-dia ou o jeito como se vestia para o trabalho pela manhã. Os trejeitos, trajes da ex-pessoa permanecem sólidos como esta maçã que alguém deixou sobre as provas corrigidas, na minha mesa. (Ela está suja, precisa ser bem lavada antes de comer ou que seja aceita em metáfora).
Mas. Vão-se os calos que um dia carregou nos pés (lembra, nos dedinhos trepados e na base dos calcanhares?), causados pelos sapatos de bater pela cidade.
Malditas pedras portuguesas, sempre dizia. Elas não somem.
O ente e o jeito alegre ou às vezes apenas cansado como você o percebia no mundo – e como o recebia em casa para o almoço num feriado – isto, sim, irá desaparecer. Desaparece o que representava tudo isso para você, e dá lugar a um estirar eterno dos seus braços, alcançando nada.
O que não quer dizer que deixará de sentir o cheiro conhecido dos cabelos, o perfume do corpo que só exala na curva do pescoço, e mais acima, ainda, atrás dos lóbulos das orelhas. Não.
Uma vez me disseram que há ainda algo de muito positivo neste capítulo, coisa que basta buscar sob a lupa, em notas de rodapé e sonhos vívidos – nos sonhos mais estranhos. Que basta caminhar adiante, ainda que mancando e com as calças a deslizar pelos joelhos. Que basta, que devemos nos bastar.
O que eu sei, não de segunda mão, é que se sente um medo bruto, estarrecedor, de que aconteça isto mesmo – o obliterar total da ex-pessoa. Que toda ela suma e nunca mais. Retém então as rugas, as ranhuras das folhas e plantas que ela emprenhou na terra. Guarda, enquanto pode: a memória dos poros dela.
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