“AQUELA POR QUEM A GENTE VIRA HOMEM”

Dizem que antes era cafetão, o sapateiro. Mas quem acredita nessas vozes do passado?

Meu reflexo no acúmulo d’água em um buraco no quintal da casa da infância dos meus avós, num mal-parado carioca. Lá, onde antigamente faltava luz sempre que chovia. Lá, onde também faltava água. Nos dois casos, sem explicações. A mesma coisa, ainda hoje.

O reflexo na água não sou eu, é o cinema na poça que a chuva da noite passada deixou. Lá (aqui), no quintal que exibe cenas passadas há tempos, contadas a mim em versões que diferem umas das outras, dependendo do parente que as relata.

Esta é a minha versão para uma das histórias, cenas passadas:

Lá, a minha avó, muito nova, vestida com o seu perigoso uniforme da Telephone Company of Brazil, nas primeiras décadas do século passado.

Lá, o meu avô, prestes a conhecê-la e ter a vida mudada como não esperava – nem sequer desejava.

Ela trabalha na Telefônica e é o tesouro da família, única filha a ter se interessado por estudar. Também costura direitinho.

Ele (“lendas, lendas… A única verdade é que o uniforme de trabalho de sua avó na Telefônica era, de fato, perigoso. Riso perigoso. O que é mulher perigosa? Toda aquela por quem a gente vira homem…”) trabalha com mulher na noite. Mulher, mulheres, que ganham a rua e trazem de volta para uma casa de paredes sujas a pequena parte delas que resta, a parte graúda que cabe a ele.

O irmão de minha avó, Alípio, é colega de futebol desse homem malvisto, que anda por aí de terno branco e chapéu (isto ele manteria).

Certa noite, enquanto todo o Centro comemorava a chegada da iluminação elétrica às ruas, Alípio encontra o meu avô sozinho e muito trôpego, próximo ao Mangue, o Mangue onde viviam as mulheres, da casa de paredes sujas, coincidentemente clientes do tanque de minha avó, com sua roupas sujas.

Alípio o toma pelo braço e levanta até apoiá-lo num ombro. Como o homem não consegue balbuciar onde mora (um ano antes, o lança-perfume estreara no carnaval do Rio, tendo causado tamanha boa impressão que alguns não viam problema em estender seu uso a outras celebrações, como a da chegada das luzes, confusas, perigosas, as luzes), Alípio o arrasta para a casa na Praça Onze, onde vive com as irmãs, a mãe e também com tias infladas, importadas, autênticas portuguesas.

Alípio desova o bêbado no sofá e toma um gole de cachaça, como forma de se preparar para fazer a defesa da presença do amigo contra eventuais protestos das tias.

Pela manhã, a moça que um dia será minha avó acorda e dá com o sujeito na sala. Corre para Alípio: – Que traste você me põe dentro da própria casa, quem?

A moça e as tias aceitam a explicação de bom samaritano de Alípio. Sempre ajudando, o Alípio.

O traste é convidado a se sentar para tomar café com os irmãos, minha avó, Alípio, minha bisavó Carola, lavadeira portuguesa, as tias contrariadas, os buços trêmulos. Ele come o pão, sorve o café-com-leite, como se sempre fizesse assim naquela casa pequena de família numerosa, como se a sua presença ali não fosse um espanto. Depois, enquanto ajuda a tirar a mesa, agradece pela guarida e pela refeição. Mas completa com o insulto: comenta timidamente com Alípio que gostou muito de minha futura avó.

Sua voz chega aos ouvidos de Carola.

Insulto, sim, não tem argumento, não tem cabimento, um homem desses. A portuguesa o coloca porta afora, sabe bem o que ele faz da vida, lava as roupas do Mangue que ele, por indireto, é quem manda sujar.

Desde então, apesar do desfecho abrupto da visita, ele volta ao portão, à espera, todos os dias, às 17h, quando Carola sai para entregar roupa lavada às casas perto dos trilhos do trem.

A costureira-telefonista simpatiza com essa insistência; o rosto do homem não lhe parece mais o de um traste. Ela não o deixa entrar na casa, conversam pela janela. Ele diz que sente nela o perigo sobre o qual leu em folhetim. Ela não saberia que coisa é essa, não teria lido o mesmo folhetim? Ou livro que repetisse o assunto?

Alípio faz jogo duro: só permite o casamento se o colega de futebol largar o serviço, aquele. Toma para o futuro o caminho da retidão, deixamos pra lá o seu passado. Não se fala mais nisso.

A esta altura a costureira-telefonista já sente o mesmo pelo sujeito, o perigo: nunca mais ser a mesma, exceto pelo riso de desviar desviado. Ele aceita um emprego de sapateiro: nunca mais torna a pegar dinheiro com aquelas do Mangue. Nem de outra praça. Tudo isso vejo numa poça d’água, protoplasmas antigos.