Frio demais para ser quem é

Faz frio demais para eu ser eu mesmo – pede via mensagem, um lirismo de gargarejo – Me dá um pouco de quem eu sou, de como lhe pareço, enquanto eu bato queixo eu acho que eu não penso, eu não ajo como Eu – você continua – então Você, a melhor pessoa pra saber dizer o que eu diria, como eu diria: me diz qualquer coisa de mim –

Eu, eu, eu, eu. Como pode ter problema para se reconhecer, com tantos Eus? (Ah. Agora entendo: precisamente este o problema).

Não lembro muito bem de quem me escreve. Existiu tempos atrás, pra trás fica tudo que não nos serve: geladeira velha, máquina de lavar velha, motor de carro velho, ferro de passar velho, traíra velho, filho da puta velho.

Mas lembro do dilema dele, que interessava toda a turma do delírio coletivo das séances em torno da mesa na calçada, quando evocavam entre si laços que só existiam encharcados de bar e nunca mais se reataram. Calcada nisso, e por desejo de exibir minha educação classuda, é que respondo:

Nem um nem outro: otimismo não, pessimismo tampouco. A diferença é que, tendo contraído o primeiro, você conta com o chão debaixo dos pés. Mas ele pode sumir, de qualquer jeito, por mais que você acreditasse (só lhe serve o pretérito e precisa ser imperfeito). Contando com o segundo, de início sabe que a queda é livre e a qualquer momento, se sente dono do estabaco, caso o buraco tenha fundo.