3rd COM A LEXINGTON

Ele surgiu de uma pira na Lexington, eu ando de casa até o trabalho porque acho a caminhada de meia hora mais simples do que me perder no metrô e ir parar em Coney Island (já aconteceu, sejamos realistas). Ele estava com roupas boas, pelo menos eu sairia com um cara que usasse aquele estilo, e o fogo não tinha consumido nem um fiapo do que ele vestia. A primeira coisa que o desconhecido disse foi “Isto não é fogo, é água”, apontando a pira.

Continuei andando, a quantidade e variedade de incidentes desse tipo na cidade é tamanha que nada é capaz de parar alguém que tenha um local e um horário pra estar. Quem está na cidade apenas pra perambular, ironicamente, é quem costuma parar. São estas as pessoas que se interessam por esse tipo de coisa, eu acho.

Enfim.

Por algum motivo ele passou a caminhar ao meu lado, e eu não entendi isso como algo pessoal. A definição de pessoal, “personal”, que eu aceito e aplico sempre diz respeito ao outro; é coisa dele, não minha. São sempre os outros, não nós, não você. Neste caso, certamente não era eu.

Primeiro achei que a fumaça vinha das saídas de aquecimento da rua, então notei que os vapores o acompanhavam conforme ele me acompanhava. Continuei o meu trajeto porque o trajeto é meu, não importa quem ande ao meu lado.

Meu celular vibrou no bolso da frente do casaco e eu atendi no terceiro ou quarto toque, percebendo a voz impaciente de Ellie através do aparelho, misturada a um irônico “Isso, vá em frente, atenda, finja que não estou nem aqui. Mande lembranças a Ellie”, que, naturalmente, vinha do homem fumegante. Ellie reclamou das cortinas outra vez, disse que não pagaria sua metade do aluguel se eu não tomasse uma providência, porque, pelo nosso acordo, toda a limpeza de mobiliário ficava por minha conta e as cortinas claramente são mobiliário, e estavam cheias de poeira havia meses, e ela sabia disso porque suas alergias a estavam atacando na voltagem máxima havia meses. Eu prometi tirar as cortinas à noite, quando chegasse do trabalho, embora meu plano para depois do trabalho fosse outro. Ellie espirrou teatralmente algumas vezes e desligou o telefone.

“Ellie não estava espirrando de verdade, você sabe disso”, ele falou. Eu respondi que tinha certeza absoluta disso, mas que ia tirar as cortinas e lava-las de qualquer maneira no fim de semana porque, é aquele negócio… não vale a aporrinhação.

“Por favor, a gente pode parar aqui por alguns minutos?”, ele pediu de repente. Agora havia uma trilha, como um córrego, por onde ele passava, uma pequena cascata límpida caindo pelo meio-fio. Algumas pessoas xingavam alto e faziam gestos obscenos, porque – seus sapatos etc.

“Eu não posso.”

“Você não quer. Tem dez minutos sobrando e você não quer.”

“Ok, eu não quero.”

Ele foi ficando para trás enquanto eu avançava pela calçada. Entrei no prédio da 3rd com os meus (agora, quase) dez minutos de sobra, que usei para pegar café fresco noutro andar e confirmar os planos da noite com a estagiária, antes de me fechar na minha sala e esquecer de t-