XAMÃ DO 15o. ANDAR

Trecho de “XAMÃ DO 15o. ANDAR”, conto original meu, em português, traduzido por Michael Kegler para a antologia alemã de autores brasileiros da Lettrétage:

“(…) Na rua pra buscar o bicho noturno, alta madrugada, a caminho do Jardim de Allah, onde certamente irei encontrar rattus norvegicus e rattus rattus próximo ao canal, na altura do Bar Vinte parei pra prestar atenção na zona que uma garota tocava de pé em cima de uma das mesas do botequim, na calçada, aos berros. Brandia um copo de chope enquanto derramava a bebida sobre o trio de marmanjos jovens como ela, presumivelmente seus amigos, hipnotizados e grogues, colados à mesa. Anunciou o propósito imediato de tirar a roupa. Gritou duas, três vezes como quem ameaça um massacre. Os amigos Nem por um cacete Não vai porra nenhuma. Gente tomando noutras mesas a saideira travou a língua e se virou pra encarar. Bêbados ensimesmados despertaram e chegaram perto com a promessa de um striptease e de uma ereção. A garota era nova. Chutou as sandálias de dedo universitárias do alto da mesa de madeira bamba, bicou o chope, propôs:

– Quem dá R$ 10 pra eu tirar a blusa? Quem dá quem dá?

Os trio de amigos protestou com mais veemência. Um deles, justo o mais franzino, tentou agarrá-la pelas pernas e dominá-la, levou um coice. Ela brincava com as alças da blusinha e repetia a oferta. Uma mulher que estava acompanhada de um sujeito mais velho, numa mesa bem de frente pro palanque, levantou-se com uma nota de dez e a entregou à garota. O bar relinchou. Os amigos entregaram a Deus (um deles até trouxe outro chope pra maluca). Ela arrancou a blusa, desabotoou o sutian nas costas e tomou outro gole. Seios médios, firmes com marca de biquíni recente. Houve um pouquésimo de segundo de silêncio na calçada. Então ela fez o que – agora sim – tirou do sério sua plateia.

– Eu escrevo poesia no Brasil! No Brasil! Tirar roupa não é nada! – Ganiu, levantando os braços e balançando um pouco os peitos, com o que se viu que eram bastante naturais. – É loucura escrever num país que não lê! Ver bunda todo mundo quer… Quem quer ver a minha bunda? … É cinco pila!

Metade do preço dos peitos. Ela levantou a saia pra revelar um pedaço de coxa dos mais íntimos e virou-se para exibir a carne correspondente da parte posterior

– E aí, Ipanema? Quem é que patrocina o traseiro?

Silêncio no Bar Vinte. Desta vez nenhum pagante. É verdade que ninguém quer saber dos poetas – na noite do Rio o freguês costuma ter raiva daqueles tipos que vendem seus livretos xerocados com versos, de mesa em mesa, pelos bares e restaurantes dos baixos; e tem raiva também, ao que parece, dos que mostram a bunda por dinheiro.

A garota terminou sua bebida e só então vestiu a blusa pra dar seu punchline, quase um resmungo, ao descer da mesa:

– Um corpo também é uma roupa. (…)”