Woke up this morning blues around my head
No need to ask the reason why
Went to the kitchen and lit a cigarette
Blew my worries to the sky

I’m stepping out
I’m stepping out
I’m stepping out
I’m stepping out

If it don’t feel right you don’t have to do it
Just leave a message on the phone and tell them to screw it
After all is said and done you can’t go pleasin’ everyone
So screw it…

I’m stepping out
I’m stepping out
I’m stepping out baby
I’m stepping out

Baby’s sleeping the cats have all been blessed
Ain’t nothing doing on TV (summer repeats)
Put on my space suit I got to look my best
I’m going out to do the city

I’m stepping out
I’m stepping out
I’m stepping out babe
I’m stepping out (boogie)

I’m stepping out (hold it down)
I’m stepping out
I’m stepping out
Gotta gotta gotta gotta get out
I’m stepping out babe
Just awhile
Ain’t been out for days…

A SÍNDROME DO MUDAR-DE-TELA

Cerca de um mês atrás um grupo de conhecidos debatia certo receio de se ficar cético ou frio demais em relação a conhecer novas pessoas e dar uma chance a relacionamentos que tenham a possibilidade de se tornar estáveis. É preciso dizer que essa conversa se desenrolou via web, conforme se dão tantos diálogos que mantemos hoje em dia. E que algumas dessas pessoas nunca se encontraram fora do espaço virtual onde tratam de temas variados, desde cultura, política e economia a dúvidas existenciais e sentimentais. Não é preciso dizer quem são essas pessoas, nem “onde” rolava o papo. Só é indispensável lembrar que esta é a natureza da internet, um caminho que ela estabeleceu para a comunicação livre e desinibida na dinâmica dos microcosmos dos chats, fóruns, redes sociais e listas de discussão online. Muitos de vocês frequentam algum desses espaços e compreendem perfeitamente seu funcionamento: não preciso explica-lo, sabem bem do que se trata.

Pode-se dizer que a maior parte das conversas de uma imensa fatia da humanidade se dá hoje através de mensagens na internet ou SMS. Arrisco sem medo de errar que hoje mais palavras são trocadas dessa forma do que cara a cara (não vale gritar “Skype!”). Frases são trocadas online e via celular entre milhares de pessoas o tempo todo – fazem isso enquanto estão no trabalho e continuam depois, ao chegar em casa, também quando saem à rua e sequer percebem que não lhes ocorre refrear o impulso de seguir acompanhando e participando do andamento de alguma conversa na web ou aplicativos como o WhatsApp.

Isso não é novidade para ninguém com uma conexão (por cabo ou mesmo através da velha imprensa de papel) com o mundo atual. Comento porque, neste caso, o “u” tem tudo a ver com as “alças”.

Um artigo de janeiro do “New York Times” ressuscitou com vigor na minha timeline do Facebook neste domingo. Partes dele foram traduzidos por um jornal brasileiro e ganharam a atenção dos nossos leitores – apesar de explorarem em vários parágrafos o tema do “date“. Não existe na cultura brasileira a noção de “date” (encontro) conforme é (ou era) utilizada em diversos outros países, na América do Norte e Europa. O artigo relaciona a popularização da paquera em sites como o OkCupid, também no Facebook e diversas outras vias de trocas de mensagens na web, com o fim do que os gringos conheciam como o seu ritual de corte que levava a relacionamentos bem sucedidos. Elenca depoimentos de jovens que simplesmente não sabem ou não conseguem marcar um cinema ou uma conversa a dois em um bar ou restaurante, e daqueles que ainda esperam que do outro lado do celular que envia uma mensagem pelo WhatsApp esteja uma pessoa que possa se tornar especial em sua vida (dado o devido tempo para que se conheçam de fato).

No primeiro grupo estão os que enviam mensagens de último momento a alguém por quem tenham interesse, mas o convite acaba demonstrando o contrário: “tô aqui no pub com uns amigos, se quiser chegar…” Por aí. O que essa mensagem quer dizer, no mundo real, é: “vamos encher a cara (o álcool é ingrediente indispensável nesse cenário social de retração, ele é o desinibidor) e se a gente for com a cara um do outro, no final da noite a gente se pega.”

Esse comportamento também não é novo. Faz parte da tal cultura do ficar. Mas sofreu uma adição que o tornou ainda mais volátil.

A aproximação e a oportunidade de se criar um vínculo que leve à intimidade é sobrepujada por uma selva de ruídos: a oferta no mercado de gente disponível online parece infinita.

A internet te entrega um mundo de pessoas de bandeja – é realmente fácil pensar que se pode “pegar” todas elas, ou ao menos uma quantidade considerável delas, ou que a sua grande chance de se apaixonar está sempre adiante, uma tela à frente, noutro avatar – nunca no que se encara no presente.

Imagino que foi esse o aspecto do artigo do “NYT” que fez soar o alarme em alguns leitores de uma cultura sem “date“, entre leitores no nosso país: para que estacionar em uma só pessoa, e gastar alguns dias tentando conhece-la (um cinema em um final de semana; um barzinho no próximo; no terceiro final de semana vocês se beijam… quase um mês!) se durante esse período você pode estar perdendo algo/alguém melhor?

Não vou citar comentários daquele grupo de conhecidos virtuais, da conversa que mencionei lá no comecinho. Seria uma traição a um contrato jamais assinado e constantemente respeitado por todos os participantes. Cito apenas o meu comentário, porque sou dona dele e não me avexa em nada. O comentário que postei sobre o assunto tratava dessa angústia assim: “Vejo hoje as pessoas trocando de tela muito rápido, sem ver direito o que tem em cada uma, passando logo para a próxima, feito o Tom Cruise em ‘Minority Report’.”

Trocar de tela é uma analogia sobre passar ao parceiro ou parceira seguinte de pronto – como John Anderton e outros personagens se portavam no longa diante de uma tecnologia que, mais de uma década após a estreia do filme dirigido por Spielberg, temos em nossos celulares e tablets (exceto que não há ainda um aplicativo para prever o futuro que se compare aos videntes pre-Cogs da ficção). Com um rápido movimento das mãos sobre a superfície do gadget, avança-se até a próxima cena ou foto, descartando o que já se viu. Avançam sempre e céleres: “The best is yet to come“, clássico de Cy Coleman e Carolyn Leigh, famoso na voz de Sinatra, ganha um novo significado. Significa ansiedade, com uma pitada de desespero. O “melhor” está sempre por vir, você não o está experimentando agora, neste beijo, neste toque. Avançando, sempre e célere.

Algumas pessoas concordaram com a minha analogia naquele debate. Pensei então que se tratava de uma coisa de geração, e local – ou menos do que isso: um pessimismo passageiro, desabafado online. Agora, lendo o texto do “NYT“, encontrei um eco para aquele pensamento.

O artigo menciona ainda o livro da escritora e pesquisadora norte-americana Donna Freitas, “The End of Sex: How Hookup Culture is Leaving a Generation Unhappy, Sexually Unfulfilled, and Confused About Intimacy” (O fim do sexo: como a cultura do “ficar” está deixando uma geração infeliz, sexualmente frustrada e confusa em relação à intimidade), que deverá ser lançado em abril. Nas entrevistas que conduziu com estudantes, muitos deles já formandos, a autora descobriu imaturidade, insegurança e fragilidade diante da possibilidade de um relacionamento que não seja rápido e vazio. Descobriu que pouco sabiam sobre como marcar um encontro de verdade (o “date“) ou mesmo “chegar em alguém” – de forma não-virtual. Donna afirma: “Eles se perguntam: ‘Se você gosta de alguém, como é que você se aproxima dele? O que diz? Que palavras usar?'”.

Eu discordo um pouco do foco escolhido pela dona Freitas. O problema não é bem a cultura do ficar. A cultura do ficar está aí há muito tempo e velhos praticantes/ficantes, hoje casados ou em relacionamentos duradouros, podem comprovar que ela não os transformou em solteirões insensíveis sem a menor noção de como proceder para atingir a intimidade com outra pessoa de uma forma saudável. “A questão casca-grossa é o que chamo de “Síndrome do Mudar-de-Tela”. Que lá eles chamam de “FOMO” – fear of missing out, medo de estar perdendo algo “melhor”; uma forma de ansiedade ampliada pela web.

Antes, era “virar a página”. Se um relacionamento ou prospecto não dava certo, virava-se a página. Faz sentido então que hoje mudemos de tela. E muito mais rápido do que se virava uma página na vida.

Este algo melhor pode estar entre as 4 mil pessoas que você tem adicionadas em seu Facebook, e na rede estendida de seus amigos de Facebook, pode estar entre os milhares de perfis disponíveis nos sites de namoro em que você está cadastrado e naqueles onde você ainda não se cadastrou, pode estar no novíssimo e sem-rodeios Bang With Friends, ou de bobeira no Twitter, onde vai postar alguma frase curta que você vai achar engraçada e genial e aí você vai checar a foto do perfil de quem a postou, e vai gostar do que vê, e então bastará você retuitar a frase para, quem sabe, comecem a se falar? Somente para que você troque esse avatar que antes o atraiu por um outro que o atrairá assim que retornar a insuportável sensação de estar parado em um lugar onde não vale a pena estar.

É um chilique compulsivo que se tornou modo de vida. Uma nova escala em déficit de atenção. Assim, é mais fácil deixar passar apressadamente algo muito mais interessante do que um compulsivo desse tipo pode supor, enquanto ele(a) corre a mão pela tela atrás de coisa melhor. Sempre e célere, next.