Carta decomposta

Devia ter imaginado, quando chegou em revolucionário envelope. Não pelos cabos tradicionais.

Dobrei-a cuidadosamente e guardei numa gaveta de onde só tirei quando quis comparar você às pessoas comuns e à escrita e à fala dessas pessoas, e dos apresentadores de telejornais e dos atores nos filmes. Você não soa como eles.

“Não é minha culpa que todo mundo viva de porre,” você diz, “Porre de serotonina, benzodiazepínicos, adrenalina, gonadotropinas, esteroides, de esperança, de pura e inocente e infantil esperança,” você diz, “Poderia escrever um livro sobre a esperança como alucinógeno. O entusiasmo. A felicidade é uma alucinação. É você quem ativa os mecanismos que te fazem ver coisas que não existem. O copo meio cheio ou meio vazio que sorri pra você,” você diz, “Ri de você”. Você diz que felicidade é insanidade, ativada pelo entusiasmo, pela crença, pela fé, pela esperança.

“Como você pode não enxergar?,” você diz, “Ninguém proíbe a fé. A fé é incentivada. A esperança é cultivada. Ninguém para essa gente. Embalada nesse espírito, se qualquer idiota te abre um sorriso, pra você é a salvação, é a vida que vai mudar – e não é,” você diz. “Pode ser, por algum tempo, mas não é, definitivamente, não é. E o seu corpo e a sua cabeça, pode ter certeza, têm limites em sua tão badalada capacidade de adaptação,” você diz.

“Quer pagar pra ver?,” você finalmente pergunta.

“Quantas pancadas você agüenta? Quantas vezes numa vida você suporta ser sacaneado, enganado, discriminado, mal pago? Cada vez que o seu olho brilha pro sorriso de um idiota, você se droga. A adrenalina sobe, a serotonina aparece, várias outras substâncias que vão te fazer maluca. Pareço uma professora velha tentando ensinar o óbvio, deste lado do sinal uma incógnita, as iniciais de um nome próprio, do outro um zero. Faça as contas. Me escreva de volta, com a lição pronta,” você pede.

Assisto à sua carta se descompor.

A única resposta possível a ela seria:

Se você tiver a oportunidade de retornar ao otimismo, deve aproveitá-la como quem adota uma outra nacionalidade e recomeça a vida em um país próspero.

Mas não sei mais enviar cartas.