Na noite quente

POR CECILIA GIANNETTI

Tivemos uma semana daquelas cá nas crônicas. Tive que falar até em Feliciano e no inferno dele, e nas operadoras de telefonia/banda larga e nosso inferno causado por elas, ignorado pela Anatel. Por isso que, chegando a sexta, achei melhor falar de uma coisa gostosa. Vai também uma música relacionada ao tema. Relaxem, é sexta.

Duas meninas magricelas tomando banho de mar no escuro. Uma deitada sobre um banco de areia, a outra de pé com água até os quadris. Olhando pra frente, luzes pequenas se acendem e apagam ao longe.

Uma vez minha melhor amiga me tirou do meio do mar numa madrugada do Arpoador. Da areia, onde estava, demorou um pouco a entender que eu não conseguia mais lutar com as ondas. Mas assim que se deu conta do perigo, correu pra dentro d’água. Mais alta que eu, me ergueu e me arrastou até a areia, onde botei pra fora boa parte de toda a água que tinha engolido. Essa foi por pouco. Devo tanta coisa a tanta gente. Sou a pessoa com a vida mais endividada que conheço.

Amanhã no colégio as duas meninas que tomam banho de mar agora vão usar só a parte do cérebro dedicada à imaginação, enquanto matam aula de corpo presente. A lembrança do brilho do mar noturno será a melodia predominante em suas cabeças até que de fato retornem à praia como rainhas das noites quentes.

Nadei muito mesmo foi em lagoa poluída, quando tinha a idade dessas duas meninas. Nas férias acordava antes de todo mundo e ia caminhar sozinha na beira da água. Era Saquarema. Quando eu voltava, quase toda a casa tomava café na mesa que o avô do meu coleguinha, que era quem me convidava pra ir passear por lá, tinha feito, ele mesmo, orgulho. A maioria ia dormindo até meio-dia e não aproveitava a hora mais perfeita, a lagoa vazia.

Dava muita felicidade andar na areia pensando e vendo a água toda igual aqui e toda diferente ali. Assim eram as lagoas de férias da adolescência, poluídas e pacíficas. Naquela hora nem os quiosques estavam abertos. Os quiosques eram precários, barracas de pau mal enfiadas na areia, uma tábua pra servir de balcão onde se comia peixe frito e pedia uma cerveja. Meu coleguinha, dono da casa de Saquarema, pediu uma vez uma cerveja. Deu revertério.

Não chegava a ser uma lagoa de pneus boiando, mas a água era nitidamente suja. O que ignorávamos conscientes.

A casa ficava cheia todo verão, e todo verão os nossos corpos chegavam à casa mudados. E a gente se olhava e sabia que aquilo era crescer junto.

Eu tinha a minha pessoa preferida na casa, que gostava de acordar tarde. Quando ela descia, eu voltava pra lagoa com ela, pra dar risada. Eu não tinha coragem de entrar no caiaque e ficava sentada na areia olhando pra ela de binóculo. Ela remava até o meio da lagoa fazendo gracinhas pros garotos que sempre prestavam atenção nela e abanava as mãos pra mim quando achava que a gracinha era muito boa. Só pra ter certeza de que eu estava vendo também. Eu abanava as mãos no alto de volta. Não ouvíamos o que gritávamos uma pra outra, só um gralhar distante.

Uma vez ela ficou remando até o fim da tarde, quase noite. Eu não aguentava mais ficar sentada ali mas não podia sair e deixar o caiaque na mão de uma pessoa só. Da minha pessoa preferida. Pra duas, já era complicado arrastar de volta pela areia. Fiquei num impasse, imaginando que ela estava querendo me sacanear, ou por outro lado, que apenas exagerava no exercício. Não ia deixar a garota ali, o caiaque pesado. E depois podia dar confusão na casa. Também não ia nadar até ela, porque podia ser mesmo que estivesse de saco cheio de mim. O que seria triste.

Aprisionada em minhas paranoias, esqueci de tudo e deitei olhando o céu. E dormi.

Lá pro quase noite, a garota tentou se aproximar remando o trambolho e me acordou, gritando, ainda longe da beirada. A cara toda vermelha do sol de uma tarde inteira, e desanimada e com enjôo e cansaço. Tinha ficado entalada no caiaque. Tinha um rabo enorme, que era um sucesso, mas naquele dia foi problema. Travou o traseiro ali e, logo nas primeiras tentativas de se libertar, percebeu que acabaria virando na água e se afogando, se continuasse. Ficou com vergonha de pedir ajuda aos garotos pra quem se exibia. Não podia perder seu público, passar de musa à palhaça. Quando desencanou um pouco dos olhares masculinos e fez sinal pra que eu nadasse até lá, eu já estava dormindo de papo pro ar. Não teve outra idéia senão esperar todo mundo ir embora da Lagoa pra se aproximar e pedir que eu lhe desatochasse o traseiro do caiaque.

As meninas sem bunda que vejo nadando à noite não teriam esse problema. Que sem graça.