Invasão de realidade

POR CECILIA GIANNETTI O futuro da propaganda é a realidade, e essa realidade inclui muita mulher no controle. É Cindy Gallop quem diz. Se eu trabalhasse com isso, lhe daria ouvidos. Aos 52 anos Gallop é uma empresária e consultora bem-sucedida que levantou fortuna fazendo tudo o que gosta. Sua apresentação de cerca de quatro minutos no TED de 2009 foi a mais falada do evento, em que apresentou seu plano de ataque contra a “pornografização da cultura: uma atitude doentia generalizada a respeito d sexo e da sexualidade, movida pela indústria pornográfica.” Por falar em realidade, Gallop é fundadora justamente de um website que define como feminista, mas não pornográfico (no sentido da pornografia predominante) o MakeLoveNotPorn, cuja crescente coleção de vídeos é a antítese da estética do cinema e vídeos pornôs de internet. Do site:

“MakeLoveNotPorn não julga, nem aponta o que é bom e o que é mau. Sexo é a área da experiência humana que abrange um enorme número de gostos possíveis. Todos devem ser livres para saber o que gostam de fazer e o que não gostam. MakeLoveNotPorn não é anti-pornografia. Eu gosto de pornografia e vejo pornografia regularmente.  MakeLoveNotPorn destina-se simplesmente a ajudar a inspirar e estimular diálogos abertos, saudáveis sobre sexo e pornografia, a fim de ajudar a inspirar e estimular relações sexuais mais abertas, saudáveis e completamente agradáveis.”

Em entrevista à comediante Katie Goodman, dispara: “Sentir-se degradada e fazer o que faz só pelo dinheiro não é exclusividade do universo da pornografia ou de strippers. Sentir-se degradada e fazer o que faz só pelo dinheiro é uma realidade em qualquer setor de qualquer indústria que se possa enumerar.” Se você já trabalhou em um lugar que detestava e talvez um ou vários funcionários que gostavam de fazer “brincadeiras impróprias” constantemente, você entendeu a que se refere a frase acima e talvez neste instante tenha sentido necessidade de reprimir algumas memórias desagradáveis que estavam guardadas, com a ajuda de um benzodiazepínicos que além de mundialmente adorado custa bem barato nas nossas farmácias. Mas o que interessa é que a mensagem chegou até você, não é? Toma uma abraço. Quem ainda não sabe que isso acontece nos mais variados ambientes de trabalho, ou se nega a acreditar, por vocês não podemos fazer nada. Volte para o pornhub. Senão, tem mais: “E em termos do tratamento que as mulheres recebem em alguns ambientes de trabalho, ele pode ser tão pavoroso e basicamente degradante e deprimente quanto qualquer experiência de uma stripper.” Discutir a estética da indústra pornográfica não é objetivo da coluna, deixamos isso para pesquisadores com mais tempo livre e tesão por tomos de centenas de páginas, que certamente deve ser o que resultaria de um estudo sobre o tema. Mas um exemplo da indústria de filmes pornográficos “amadores” resume a questão levantada por Gallop com o seu MakeLoveNotPorn. Ele é bem diferente do que se encontra em sites de “amadores”, como o Home Grown Video. Este afirma que trabalha com vídeos feitos por “gente comum” em circunstâncias totalmente livres. Porém, o Home Grown Video, entre outras coisas, dita onde cada casal deve posicionar sua câmera – o que não é uma política inocente: os ângulos captados de acordo com essa exigência acabam sendo os mesmos ângulos usados em filmes pornô com gente fazendo sexo aeróbico em vaginas que passaram por cirurgias plásticas. No final, os casais “amadores” tendem a tentar reproduzir o que já é feito pela indústria pornográfica. O Home Grown Video oferece inclusive instruções sobre como cada garota “amadora” deve se comportar e gemer diante da câmera. E, ora, sabemos que quase toda a pornografia na web rotulada de “amadora” é feita por produtoras profissionais se passando por “amadores”. A história contada por Gallop sobre sua passagem pelo encontro internacional de publicidade Cannes Lions Awards Festival dá conta de como a pornografia pode influenciar a publicidade e velhos hábitos de gente comum. “Assim que cheguei em Cannes corri para a praia pública e arranquei a parte de cima do meu biquíni. Aí olhei em volta e ninguém mais estava de topless.” Estranhou. Fazia cinco anos que não ia a Cannes, mas nas vezes anteriores em que frequentou a praia lá, tinha mulher de topless pra chuchu. “Então voltei pro meu quarto e tuitei sobre isso. Eu disse, “França, qualé? Por que eu era a única mulher na praia em Cannes com meus peitos de fora?” E aí uma das minhas seguidoras me mandou um link para um artigo que afirmava que, de acodo com uma pesquisa feita na França anquele ano, mulheres mais velhas, da minha geração, sentiam-se felizes, confortáveis na praia de topless. (Antiga prática nas zoropa). Mas a esmagadora maioria das mulheres mais jovens não tiram mais a parte de cima dos biquínis ou acham que é um problema fazê-lo, porque têm vergonha do próprio corpo. Então eu disse à minha plateia em Cannes: eu sei exatamente de onde é que vem isso. Quantos de vocês trabalham com planejamento estratégico em publicidade? Mãos se levantaram. Aí eu falei: quantos de vocês, do planejamento estratégico, falam com o departamento criativo, ou seu cliente, ou toda a equipe que detém uma conta sobre que o seu público-alvo para tal campanha é um jovem de 18-24 anos de idade e ele tende a ter um determinado de trabalho e ele vê entre duas e quatro horas de pornografia de dia ou de noite e é isto que lhe causa impacto sobre a maneira como ele percebe as mulheres e se relaciona com a namorada. Silêncio mortal.” Na mesma fala em Cannes, Gallop afirmou que o futuro da publicidade está entregue ao olhar feminino “uma vez que as mulheres são a maioria das compradoras na maioria dos setores de mercado, a maioria dos usuários de mídias sociais são mulheres, e elas também se expressam mais via meios digitais do que os homens.” No entanto, hoje, a maioria da propaganda que tem como target a mulher é criada por homens, e a maioria das pessoas que avaliam a criatividade investida nessa propaganda é masculina, diz. No próprio Cannes Lions de que participou, quando ocorreu o episódio da praia, cada um dos jurados era homem. “Esta palestra não é sobre responsabilidade social nem estou aqui dizendo que as marcas devem enxergar isso como um problema; sou eu dizendo que o futuro da publicidade e da propaganda não tem nada a ver com estereótipos, o futuro da publicidade e da propaganda tem a ver com o real. O olhar feminino e a criatividade feminina empregados na publicidade, segundo informou a plateia do festival, vai trazer um novo approach ao meio que deve apetecer tanto ao público masculino quanto ao feminino.” É ver para crer. *** Cindy Gallop também fundou o If We Ran The World, que reúne plataformas de ação e usuários (chamados de empresários) dedicados a espalhar sua ideia e cooptar mais gente para transforma-la em realidade. Pode ser algo bastante simples e concreto, como, digamos, obter a instalação de bicicletários em seu bairro, ou mais subjetivo, como “Conseguir levar as pessoas a pensar realmente a respeito de como querem viver.”