Um inferno para Feliciano

Do Instagram do pastor Marcos Feliciano, postado na segunda-feira, 18: de cabelos molhados em um salão de beleza, “Momento descontração… Raridade!!!”, dizia legenda da imagem.

POR CECILIA GIANNETTI

Mais de 300 empresas enviaram seu manifesto à Suprema Corte dos Estados Unidos exigindo o fim do DOMA – Defense of Marriage Act, que, assinado em 1996, transformou discriminação em lei, ao assegurar a definição do Governo Federal norte-americano que considera casamento somente a união entre um homem e uma mulher.

Muitas dessas empresas são conhecidas nossas do dia-a-dia: Apple, Nike, Microsoft, Starbucks, Google, Facebook, Twitter, Amazon, Adobe, Levi Strauss, eBay, Disney, Intel, Johnson & Johnson, Pfizer e Xerox.

Na próxima semana a Suprema Corte ouvirá as argumentações a favor e contra direitos humanamente básicos para casais do mesmo sexo. Pode se tornar um marco na história da comunidade LGBT, não só a norte-americana. Para melhor ou pior, dependendo dos resultados.

Enquanto no Brasil quem tem cabeça tenta desfazer nela o nó que é ver o pastor Marco Feliciano (PSC-SP), alvo de dois processos no Supremo Tribunal Federal – um inqúerito em que é acusado de homofobia e uma ação penal por estelionato; e que ainda afirmou publicamente que africanos e seus descendentes são “amaldiçoados” – nomeado presidente da Comissão de Direitos Humanos e Minorias da Câmara dos Deputados, outra parte do mundo vai em direção diversa. 

Melhor será, claro, que os Estados Unidos passem a garantir que companheiros (as) do mesmo sexo de militares possam a partir de então obter financiamentos para comprar sua casa; que a companheira de uma mulher morta em combate ou vítima de doença terminal possa receber benefícios; que as leis de imigração não possam mais separar famílias encabeçadas por casais do mesmo sexo.

Os prognósticos são favoráveis:

Mais aí veio o Obama, querendo se re-eleger, e ele conhece bem seu eleitorado: decidiu não apoiar o DOMA. Quando o caso foi aceito pela Suprema Corte, sua administração encaminhou um documento instando-a a derrubar o DOMA. Mas os Republicanos jogaram mais de 3 milhões de dólares em apoio a tal lei discriminatória.

Nem todo republicano é bicho-papão quando se mexe no vespeiro LGBT nos EUA.

O Senador (re-pu-bli-ca-no) Rob Portman anunciou na quinta-feira passada uma mudança em sua posição em relação ao casamento gay. Portman, representante de Ohio, tornou-se o primeiro republicano no Senado a apoiar a causa. Tem uma história pessoal por trás disso: descobriu que Will, seu filho de 21 anos, é homossexual. Restou-lhe passar para o outro lado, afirmando que deseja que o filhote venha a ter os mesmos direitos de que goza o restante de sua prole, hetero. Will tuitou na sexta-feira passada: “Estou especialmente orgulhoso do meu pai hoje.”

Além de Portman, mais 21 senadores que haviam votado a favor do DOMA viraram casaca pro lado do bem e agora se opõem à lei. Que também não é popular entre cerca de 300 empresas e prefeituras, que também enviaram à Suprema Corte suas manifestações exigindo a extinção do DOMA. Sociólogos (a American Sociological Association inteira, para ficar mais claro) e organizações médicas (America Psychological Association, American Medial Association, American Academy of Pediatrics, American Psychiatric Association e a National Association of Social Workers) não se esquivaram do problema, enviando também seu documento à Corte contra o Doma.

Imaginem um apoio desse peso no Brasil. Faria Feliciano e associados se sentirem como que lambidos por fogo, nas profundezas lá de vocês-sabem-onde. Não é novidade que as empresas brasileiras, como a seguradora Vida Freedom (a primeira no Brasil a apostar em seguro de vida para casais gays), há muito já descobriram o potencial consumidor do público gay. E a Petrobras reconhece, desde 2007, o direito a benefícios previdenciários de casais de mesmo sexo, além de patrocinar a Parada do Orgulho LGBT desde 2007.

Voltando à vaca quente gringa, o ex-presidente Clinton, o próprio que transformou o DOMA em lei nos anos 1990, baixou a cabeça e escreveu o artigo “É hora de derrubar o DOMA“, publicado no início deste mês pelo “Washignton Post“, em que afirma: “Passei a crer que o DOMA contraria os princípios, e é de fato incompatível com a nossa Constituição.”

Na próxima semana o povo norte-americano e os demais atentos às questões de direitos de igualdade para a comunidade LGBT mundial estarão de olho para ver como essa história acaba nos Estados Unidos.

No Brasil, o buraco é mais embaixo. E gente como o pastor Marco Feliciano, que diz acreditar na ideia de inferno, deve saber que esse buraco carrega ladrões, racistas e homofóbicos direto para lá.