A 16 quadros por segundo

POR CECILIA GIANNETTI

“Ficar sozinho pode ser muito solitário. Mas ao menos com gente em volta podemos ficar solitários com barulho”. – Herbert H. Herbert, personagem de Jerry Lewis em “O Terror das Mulheres” (“The Ladies Man“, 1961).

Para Henry Miller, o comediante era um meio de a humanidade chegar a Deus, era uma criatura capaz de esvaziar os manicômios, sem propor uma cura mas tornando todos loucos. E a música, um tônico para a glândula pineal, o abridor de latas da alma. 

A ideia de fugir do meu escritório no meio do dia, como quem mata aula, me ocorre como piada. Só pode ser. Ir ao sebo agora é de uma irresponsabilidade atroz da minha parte, uma aventura. Recorro ao amigo livreiro antes de enfrentar o Word brancão e suas demandas.

Tapo os ouvidos com os fones e a playlist (cue sheet), que batizei de “\o/” no iPod, faz o acompanhamento sonoro. A rua fica engraçada quando saio de casa pela primeira vez em cinco dias bem contados. Enxergo como se captasse tudo em uma cadência de 16 fotogramas por segundo e projetasse em fast motion automaticamente por trás das minhas pálpebras a 24 fps, aumentando de tal forma a velocidade da ação que o registro parece contaminado por uma energia extraordinária. Os cachorros que se encontram e se cheiram e nesse balé se embaralham coleiras, bichos e donos. A Guarda Municipal, homens e mulheres uniformizados com suas cabeças girando comicamente ao redor, olhares perdidos e mãos inúteis na cintura, sobre a calçada vazia de onde os camelôs acabaram de desaparecer feito mágica assim que o primeiro apitou o sinal avisando a chegada dos cacetetes. Um ônibus tão lotado que os passageiros viajam com seus corpos encaixados feito peças de Lego.

Somos todos peças intercambiáveis da Máquina, destino que pode se apresentar trágico ou cômico, dependendo da velocidade de projeção em que você escolhe enxerga-lo, bem como do acompanhamento sonoro, que nos tempos do cinema mudo era feito por pianistas ou orquestras, de acordo com cue sheets.

O Word brancão, ao longo deste dia e dos próximos meses, vai me olhar diversas vezes provocador ou debochado –, seja me cobrando um capítulo novo de um novo livro meu, seja exigindo mais dez páginas de tradução do livro de um outro, que passa a ser um pouco meu enquanto o traduzo.

Os horários dedicados a cada tarefa se emendam sem brecha entre si: pela manhã faço a coluna, que é diária, assim que termino pego a tradução até às 22h e, se tiver uma ideia que me move muito tarde de noite, é a vez do meu livro. Às vezes acontecem esses períodos, provisoriamente, quando mais nada cabe na equação. Ir ao sebo é uma piada interna rápida.

Por isso, aproveito bem. Por mais breve que vá ser a visita, entro na loja como quem vai receber um Oscar. A conversa do livreiro me dá combustível pra jornada na máquina. Esse combustível não me chega mais pelos cabos, updates remotos das vidas dos amigos via chat. Muitos deles mais amigos meus do que o meu amigo livreiro, é verdade. Mas tempo demais “conectada” desde 1997 me trouxe recentemente a um ponto de saturação, eu me tornei uma infiel – na fachada, seguidora; por dentro, relutante. Para mim entre o online e o ao vivo não existe mais disputa.

Encontrar o homem no sebo é o meu item de consumo orgânico essencial da semana.

Senão a coisa não anda, aprendi a duras tecladas.

Sem uma ração regular de presencial, eu travo. A máquina continua e eu travo. A máquina não é apenas o ente eletrônico que ligamos à tomada. A máquina é tudo que dela dePPPPendePrazos, Produção, Propaganda, Passar a mercadoria adiante – e de que dependo eu mesma para continuar.

– Leva este.

O livreiro brota como um gigante do meio da desordem de títulos empilhados que toma o canto da loja onde foram depositados, aguardando limpeza, centenas de aquisições recém-chegadas.

– Vêm de casa de viúva, de órfão, de jornalista que recebe 500 lançamentos toda semana pra resenhar (tem quem resenhe sem ler…), de quem precisa liberar espaço pra alimentar o vício comprando outros.

Compro “este” por R$ 12, novo mas cheira a velho, não espero outra coisa. Faz parte do gosto por comprar em sebos.

O autor “deste” morreu há seis anos, aos 84, tendo sobrevivido a um bombardeio em Dresden e sido capturado pelos alemães na II Guerra Mundial. O epitáfio que pediu, ainda em vida, um exemplo de como a enxergava: “Everything was beautiful and nothing hurt”. Soube abordar catástrofes e injustiças sem inflamar o discurso. Sua prosa às vezes lembra uma cantiga de roda sobre o fim do mundo, com repetições de palavras e frases características como um carrossel, repetições como refrões cujo propósito sutil é embalar o leitor na história.

O que me lembra uma frase do Carlos Heitor Cony, que ele soltou em palestra na Academia Brasileira de Letras há exatos dez anos, e guardei num desses cadernos que insisto em ter na bolsa:

“O jornalista é um peixe de aquário. Tem que ser bonitinho e ficar ali naquele mundozinho, tem que fazer pirueta, tem que fazer gracinha. Se ele não for bonitinho, ele perde o emprego. O escritor é um peixe de fundo, habita o território do mar onde não chega a luz, o sol. Em geral ele é feio. Mas ele tem o oceano todo pra ele.”

Consigo espaço o bastante para segurar o livro à minha frente no rush do metrô carioca e ao mesmo tempo me agarrar a um dance pole do vagão. “Pastelão ou solitário nunca mais” (“Slapstick or lonesome no more“) é de 1976. Tem a idade do amigo livreiro. O romance esquisito de Kurt Vonnegut nada em cultura pop mas vem do fundo do mar. Coincidência, abre falando sobre como os fps podem tornar um destino leve ou pesado.

“A base do humor do Gordo e o Magro, creio eu, era que eles se esforçavam ao máximo em cada prova que tinham pela frente. Nunca deixavam de enfrentar de boa fé o seu destino, e eram fantasticamente adoráveis e engraçados na tentativa. (…) O que realmente parece importante? Lutar de boa fé com o destino.”

Como Vonnegut, J.D. Salinger também falou sobre Laurel & Hardy, definindo-os como “seres e artistas enviados do Paraíso”. Como Miller, Salinger também ama e dá valor ao riso. Fez Seymour Glass escrever ao seu irmão, Buddy, em “Seymour: Uma apresentação”: “Faça as pazes com seu senso de humor.”

Indiscutível.