Segredos de família

POR CECILIA GIANNETTI

Dificilmente a ignorância do sujeito que aparece na fotografia acima é a questão mais importante a ser debatida. Mas é impossível fechar os olhos para o fato de que, mesmo sabendo estar na presença de uma fotojornalista que desde o início deixou claro que visitava sua casa para registrar imagens dele e de sua namorada, a serem publicadas como parte de uma obra, o sujeito ainda assim desceu o braço na mulher. Isso não é bem burrice: esse homem se sente no direito de bater nela e ponto final, com ou sem a presença de uma câmera, com ou sem imprensa, com ou sem lei.

Agora, à história completa: Sara Naomi Lewkowicz teve seu ensaio “O fotógrafo como testemunha: Um Retrato da Violência Doméstica” destacado na revista “Time” na quarta-feira, 27. Sua presença na residência do casal ou a natureza de seu trabalho não foram empecilho para que o homem exercesse sua brutalidade. O objetivo inicial do ensaio era acompanhar a vida de Shane, 31 anos, um ex-presidiário, fora da cadeia. Lewkowicz pretendia revelar a “prisão metafórica” em que permanece o ex-condenado mesmo após ter cumprido pena e ser libertado. Isso incluiria clicar a sua rotina em família com a namorada Maggie, de 19, e seus dois filhos.

O clima de carinho registrado no começo se transforma de repente; Shane se aborrece e joga Maggie contra o fogão com violência, enquanto a sufoca. Memphis, filha de Maggie, de dois anos de idade, assiste a tudo.

E vocês acham que o que “pega” aí é a violência de Shane, certo?

Não. Está pegando é para a fotojornalista que registrou tudo. E para Maggie. Basicamente, para todos os envolvidos que não possuem um pênis. Primeiro a opinião pública – com repercussão na própria “Time” e em outros veículos como “Huffington Post“, “Salon“, “Slate“, “Jezebel” e “Bust“, entre outros – jogou Lewkowicz na fogueira por ter clicado o incidente em vez de “tentar impedi-lo” (o que só poderia ter dado em desastre maior). Na verdade foi a fotógrafa quem ligou para a polícia, mas isso não parece suficiente para os comentaristas de plantão. Aí sobra até para Maggie: “Ela não é uma vítima. Ela é a agressora,” escreveu um leitor, perpetrando o velho truque de culpar quem apanha. É a lógica do “Quem é agredido ‘sabe por que está apanhando‘”. Lembrem-se de que esse “ditado” costuma valer – entre os covardes – para meninos e homens que apanham também, sejam homossexuais ou vítimas de violência gratuita.

A câmera de Lewkowicz cumpriu uma função importante: expôs um problema que costuma permanecer como segredo de família, em que ninguém ousa meter a colher. “Por que é importante expor tais coisas? Por que não deixar isso guardado em cada casa, pois, afinal, cada qual que cuide de sua vida?” Porque fere, porque pode matar, porque é crime.

These women ask for it,” (essas mulheres pedem por isso), começa a leitora Carmen Sepulveda. “Ela devia ter um instinto de proteção para com os seus filhos. Ela é responsável por suas próprias ações,” Beth Chase esculacha. Sim, ela namorava um ex-presidiário. Ainda assim, não, ela não pediu para apanhar. Aos 19 anos, se apaixonou pelo cara errado. Mas não, não pediu para apanhar e certamente não assinou um papel concordando em que uma ou várias surras fizessem parte do pacote-relacionamento quando o conheceu.

Como afirma um dos poucos comentários saudáveis no infinito scroll de opiniões insanas da página do artigo na “Times“, dizer que alguém fez uma escolha de vida estúpida quando deveria ter pensado melhor e que esse alguém é responsável pelas escolhas que faz não é culpar a vítima. Dizer que alguém fez uma escolha de vida estúpida quando deveria ter pensado melhor e por isso merece apanhar ou coisa pior é culpar a vítima. Saber a diferença entre uma coisa e outra pode fazer com que não seja você o estúpido da história.

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No artigo que acompanha seu trabalho fotográfico na “Time“, Lewkowicz escreve:

“A violência doméstica muitas vezes permanece protegida da opinião pública. Geralmente, só conseguimos ouvi-la abafada, através de paredes, ou ver suas manifestações na forma de machucados desbotados, amarelos e roxos, em uma mulher que ‘bateu em uma parede’ ou ‘caiu da escada.’ Apesar do movimento para aumentar a conscientização sobre a violência doméstica, ela ainda é tratada como um crime privado, como se não fosse da nossa conta.”

Depois do registro na casa de Shane e Maggie, a fotógrafa mudou a proposta inicial do trabalho: decidiu pintar outro quadro, uma análise desse tipo de violência sobre quem realiza o abuso, quem sofre o abuso e às crianças que testemunham as cenas de abuso doméstico. É o que explica no site onde expõe os registros: http://www.fotovisura.com/user/Saranaomiphoto/view/shane-and-maggie-3. Vale conferir.

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Em 1994 o Congresso norte-americano aprovou a Lei de Violência Contra a Mulher (Violence Against Women Act – VAWA), reconhecendo o flagelo da violência doméstica. Isso representou uma mudança radical na maneira como a polícia tratava a violência doméstica; antes, lidava com os casos como questões familiares particulares, em vez de trata-los como crimes. Foram adotadas políticas de prisão obrigatórias que viabilizaram a investigação de casos de violência doméstica mesmo sem a cooperação das vítimas (muitas mulheres não chamam a polícia por medo de ameaças de atos de violência mais graves por seus parceiros, por exemplo). Hoje, pesquisadores e advogados questionam se o propósito original da VAWA – o uso da lei como ferramenta para impedir a violência doméstica – é a melhor abordagem para o problema. Questionam se o uso da lei não reduz o problema da violência contra as mulheres a um caso de polícia, quando seria algo mais complexo e mais grave.

A VAWA realmente fez subir o número de julgamentos de casos de violência doméstica e a taxa de violência por parceiro íntimo caiu 64% entre 1994 e 2010, uma queda atribuída pelos defensores da VAWA à instauração da lei. Mas a queda dessa taxa coincidiu com a queda da taxa de todos os crimes violentos no país; então quem é contrário à VAWA diz que a redução na violência doméstica poderia ter ocorrido mesmo sem as políticas adotadas pela VAWA. Agora, o congresso precisará decidir se renova a autorização à VAWA, que em sua forma atual, de fato, está longe de ser eficaz nos EUA para minorias como negros e pobres e mulheres indígenas.