O poder do troll

POR CECILIA GIANNETTI

Tem mania de deixar comentários rudes dirigidos a indivíduos ou a tópicos em fóruns dedicados a artigos ou temas variados na internet? Você está incitando sentimentos negativos (mesmo de ódio), além de atitudes negativas em relação aos temas debatidos online e sua repercussão, além da diminuição da credibilidade desses temas entre os demais leitores. Se você se enquadra nesse tipo de comentarista-online, já deve ter algum conhecimento de seu poder.

Caixas de comentários online hoje são encaradas pelas pessoas responsáveis a modera-las como caixas de areia de gatos: você vai lá, limpa a sujeira, mas elas não ficam livres de porcaria por muito tempo.

Agora o comportamento online de trolls (que antigamnete chamávamos de “flames” e/ou  “flame wars“) e de gente simplesmente malcriada foi analisado por um time de cientistas e o resultado é o estudo “Crude Comments and Concern: Online Incivility’s Effect on Risk Perceptions of Emerging Technologies” (Comentários rudes e inquietações: o efeito da incivilidade online sobre percepções de risco em tecnologias emergentes). A pesquisa demonstra que, além de todo o mal-estar causado por observações indelicadas (entram na conta xingamentos e ofensas em geral) nas caixas de comentários de sites, versões online de jornais e revistas e fóruns, elas ainda são capazes de embaralhar os fios na cabeça dos leitores dessas mensagens, a ponto de “aumentar o potencial de recordação cognitiva de opiniões negativas/contrárias” às que são expostas no artigo/tema discutido na página da web, influenciando “a formação de atitudes negativas sobre o assunto em questão (Hwang et al., 2008),” citando diretamente da pesquisa.

Ou seja: você lê um artigo como aquele publicado aqui ontem [Segredos de família], sobre o homem que espancou a namorada na frente de uma fotojornalista, que registrou tudo com sua câmera e chamou a polícia. Se a princípio está claro que a atitude violenta e abusiva do homem contra a mulher é errada e considerada crime nos Estados Unidos, onde ocorreu, depois de ler a tonelada de comentários raivosos e ultrajantes que se insurgiram contra a fotojornalista e a própria vítima do abuso, a mulher que apanhou do namorado, um fiozinho na sua cabeça fica um pouco mais solto e propenso a faze-lo duvidar da credibilidade do trabalho da fotojornalista. Quem sabe até mais leniente para com o homem violento.

O estudo determina que “o julgamento dos indivíduos acerca de comentários online são influenciados pelo tom do autor (Hwang, Borah, Namkoong, & Veenstra, 2008; Preço, Nir, e Cappella, 2006), e a forma indelicada de se exprimir online diminui a percepção de credibilidade sobre a fonte e a mensagem do texto em discussão (Ng & Detenber, 2005).”

Mas, ora, este é só mais um estudo sem consequências na vida prática, certo? Bom, na análise da escritora Mary Elizabeth Williams (@embeedub no Twitter), a descoberta traz algo novo e temerário: “a validação do que para muitos de nós tem sido um medo atroz: a de que os trolls realmente detêm um enorme poder de persuasão. Afinal, então, para que tentar criar um argumento bem fundamentado, usando fatos e boa gramática, quando a verdadeira maneira de influenciar o modo como uma pessoa se sente (em relação a um assunto) é o clássico ‘Você é um palhaço'” (ou “Vai à m****”) e ponto final?

Diz o segundo parágrafo da reportagem que anuncia os resultados da pesquisa no “New York Times”: “E então alguém inventou os “comentários dos leitores” e o paraíso estava perdido.”

Levando em consideração a brincadeira (?) do “NYT“, se os achados desse estudo chegarem a impressionar quem coordena a cartilha de ações dos moderadores das caixas de comentários de inúmeros veículos online – não, ninguém está sugerindo censura sumária a todos aqueles que sejam contrários ao argumento ou tema oficial publicado pelos veículos; mas uma atenção mais sensível a detectar e banir simples idiotas -, talvez o que esses veículos publicam prioritariamente, seus artigos, reportagens, entrevistas e perfis, possam se tornar mais claros para quem lê estes, bem como as mensagens nos comentários.