‘Ex nihilo’

slender_man_doll_by_averylilith_deviantart

POR CECILIA GIANNETTI

– …Sentindo, assim, uma vontade de comer joelho. O salgado. Queijo prato, presunto, massudo e gorduroso.



– Fumou antes de vir?



– Nada, já há uns 15 dias. O fornecedor pegou férias forçadas.



– Esse desejo por joelho… por que acha que persiste sem o fumo?



– É preciso um tema qualquer que justifique os 45 minutos semanais que passamos juntos neste consultório do nono andar, durante o meu horário de almoço. Não tenho mais nada.



– Entendo. Vejo você na próxima semana.

Quando ele já terá feito anos, aetatis suae 35, um marco formidável e ninguém por perto para testemunha-lo.

Olha ele lá. Olha ele lá acompanhando três seriados – está na terceira temporada de “Ervas”, no segundo episódio de “Espelho Negro”, na temporada final de “Criando Esperança”. Olha ele lá lendo a revista que chega a sua porta no final de semana falando sobre o ministro que chamou um repórter de palhaço e mandou o mesmo repórter agir como um porco e então o repórter o fez e agora, portanto, o repórter agora é o foco da notícia e o principal entrevistado da semana que ele lê. Olha ele lá confeccionando o seu próprio presente de aniversário.

Um boneco de pano. Engenhoso. Primeiro, pensou em comprar um manequim de loja, mas não foi capaz de convencer a gerente do estabelecimento a lhe vender um dos manequins que compunham a reunião de homens idênticos parados despidos durante uma reformulação da decoração da vitrine por ser destituído de charme e porque explicar que pretendia dar o manequim de presente a si mesmo só iria dificultar ainda mais as coisas: a gerente, fazendo cara de pena, estragaria todo o potencial de beleza de seu gesto. Em vez de lhe vender um de seus manequins (da loja para a qual trabalhava, não eram seus per se), a gerente lhe deu o endereço de uma fábrica de manequins. Mas ele considerou o Mercadão de Madureira distante e quente demais e jamais deixaria a zona sul para ir até lá buscar um manequim ou qualquer outra coisa ainda que essa coisa fosse a sua chance de felicidade. E mais: que diabo de ideia era essa? Comprar um manequim, um manequim de presente para ele mesmo – isso era loucura. O doutor, se soubesse, certamente tomaria alguma atitude médica dramática. Pensar aquilo… nunca mais, que ninguém soubesse que passara pela sua cabeça. Tinha uma ideia melhor, é claro que tinha.

Confeccionando o seu próprio boneco, creatio ex materia, conseguiria se distrair e ocupar todo um final de semana. Todo um final de semana sem pensar em ir encontrar um grupo de gente ou telefonar para alguém, como a mãe do fornecedor, por exemplo, buscando notícias sobre se alguém lhe pagara a fiança ou o quê.

Raramente tinha vontade de ouvir o que diziam os grupos de gente que se juntavam para beber e fumar. Fumava e bebia com eles, quando ia até eles, ou eles iam até o seu apartamento, até achar que era uma outra pessoa e apagava sem dizer boa noite, desacelerado, na sua própria sala ou na sala de quem fosse um casal mais liberal ou uma garota 100%-solteira. Boa noite é para amantes que não fodem mais. Ele e elementos daqueles grupos de gente às vezes tocavam uns aos outros, daquela forma, mas às vésperas daquele aniversário, ele estava cansado do processo que levava a esses eventos e do que costumava acontecer depois deles. Dava para ver tão claro quanto poeira voando levemente, solta no ar, sob os primeiros raios de luz da manhã, et lux in tenebris lucet, o esforço que faziam para parecerem despreocupados e desconectados do impacto de um evento de toque os elementos dos diferentes grupos de gente com quem às vezes cruzava. Enquanto com ele a consciência da coisa crescia feito barba a cada dia após um evento de toque. Ele era um tipo fora de seu tempo, sua língua era uma língua morta, ad rem. Ele se barbeava. E os fios cresciam.

O boneco de pano saiu à sua altura e desajeitado como ele, e não paravam por aí as semelhanças. O boneco tinha a sua expressão, o seu jeito parado de olhar, mas quem copiou quem? Não era o seu primeiro boneco, ele mesmo sempre se barbeava diante do espelho, talhando o rosto como a coisa que queria ser, imaginativamente, delirando, lavando a poeira que sentia ter se acumulado à noite em seus poros, sua própria pele retornando à sua própria pele. Sujeira. Mesmo limpo sentia-se sujo; mesmo no escritório, trabalhando, procurava outras ocupações; mesmo quando estava com as pessoas de seu círculo, estava fora dele, buscando.

No domingo – fazia aniversário na segunda-feira – foi ao prédio de escritórios e abriu com sua própria chave a sua própria sala, onde deixou sentado em frente ao computador o boneco feito de pano. Arranjado o seu substituto, não foi trabalhar naquela semana. Exeat. Não recebeu em casa nem em seu celular telefonema algum a respeito. Passou aqueles cinco dias úteis em casa ouvindo rádio. Ninguém deu por falta, havia o boneco.

Considerou se deveria sair para encontrar o doutor no consultório no qual tinha 45 minutos semanais “seus”. Eram “dele”, afinal, aqueles 45 minutos, como gostava de frisar o homem que o recebia. Compareceu.

– A vontade de comer joelho passou. Mas agora não quero, não consigo mais desligar o rádio. De jeito nenhum. Vivo de fones nos ouvidos. Isso acaba a com a bateria do celular muito rápido mas eu nunca deixo de carregar comigo o carregador do celular.

– Não tem nada de errado com gostar de rádio.

– Você não ajuda muito.

– Está bem, então, agora eu vou ser duro: é absolutamente doentia a sua conduta. Tome duas aspirinas toda vez que sentir vontade de ouvir rádio.

– Aspirinas não vão corrigir a minha conduta doentia, doutor.

– Então prescrevo-lhe um joelho: queijo, presunto, massa, bastante gorduroso.

Pleno de satisfação com a certeza de ter ultrapassado um grande obstáculo pessoal na consulta daquela semana, retornou revigorado ao trabalho, onde resolveu satisfatoriamente em uma tela retina várias situações relacionadas ao seu cargo – sem retirar seus fones do ouvido. Às 17h deixou o boneco de pano em sua cadeira e desceu para comprar um joelho no boteco que ficava no térreo do prédio onde trabalhava. Às 17h19 tomou o elevador de volta à sua sala já sem os fones de ouvido. Não sentia então a necessidade de ouvir rádio. A psicoterapia tinha um papel essencial no seu desenvolvimento. Mal retirou o boneco de pano da cadeira, saiu para tomar um café na sala de tomar café. O chefe foi atrás.

– E aí sumiu do mapa tava comendo alguém tava? comeu alguém hein?

– O chefe achava que era muito seu amigo.

– Você tá pensando em voz alta.

– O chefe podia ouvir o que ele pensava.

– Comeu ou não comeu?

– Soy loco por ti américa, soy loco por ti de amores, sou loco por ti américa, soy loco por ti de amores. Quem sabe canções do mar. Ai hasta te comover. Ai hasta te comover contra spem spero

Continuou a cantarolar enquanto caminhava da sala de tomar café até sua própria sala, com os fones nos ouvidos. O chefe permaneceu no papel de amigo íntimo, telefonando para o doutor no consultório do nono andar, o mesmo encarregado de atender a todos na firma.

– Doutor, ele anda se fazendo de Caetano. Veloso.

– Precisamos aumentar sua dose de salgados gordurosos.

– Que tipo de salgado?

– Joelho. Queijo amarelo, presunto, massa bem massuda.

– Devo ministrar uma dose ao boneco também?