Dia das Crianças adiantado

POR CECILIA GIANNETTI

Hoje, nada de números e análises de órgãos estrangeiros sobre a economia e mazelas brasileiras, previsões e prevaricações contra governantes. Não tenho tempo pra essas lambanças enquanto tiver que tomar conta de Daniel.

Tom Waits voltou cambaleando ao meu player arrastado por esse um, Daniel, auto-proclamado último judeu da Ilha do Governador (um inferno, não tem metrô), subúrbio que, a se levar em conta o depoimento desse primo de segundo grau, fica agora sem judeu algum: a partir de hoje, assim que Eliezer, seu pai, vier buscá-lo, Daniel volta a morar no Méier (um inferno, não tem metrô). Quando saiu nos jornais que a Ilha constava entre o segundo e o quinto lugar na lista de zonas mais perigosas do Rio de Janeiro, a família a que ele pertenceu nos últimos 365 dias apenas perifericamente – Daniel viveu sozinho num barraco no bairro insulano do Zumbi desde os 12 anos.

Ele agora tem 13 – convenceu-o a voltar para casa, na condição de que jamais tornassem a mencionar a questão que o levou a partir em primeiro lugar (a descoberta de que sua mãe um dia consentira em fazer sexo – de que resultou Daniel -, e não satisfeita com aquela vez, tornou a fazê-lo meses antes de a irmã de Daniel, Natasha, nascer).

Está esperando aqui em casa para fazer a transição, como um pit-stop de upgrade de subúrbios. Afinal, esses dias o Méier é considerado um pouco superior à Ilha. E o Catete é o subúrbio da zona sul. Daniel ama Tom Waits. Durante o ano em que passou longe da família, bebeu Coca Zero com Bourbon traficado por uma tia que, recém-filiada aos Alcóolicos Anônimos, não sabia o que fazer com seu estoque particular; o objetivo de Daniel era ganhar a voz de Tom Waits. Os cigarros de palha Cowboy (aqueles com um cowboy na embalagem) vendidos pelo jornaleiro cego ajudaram.

Daniel canta igualzinho ao Tom Waits, mas não sabe nenhuma letra inteira de cor. A bebida deve interferir na memória.

Tem inglês de lorde mas esquece os versos.

Daniel até fez uma tatuagem igual a de Tom Waits. Com a ajuda de um amigo imaginário, um canivete e anestesia de uma garrafa da tia, desenhou o coração envolto em uma faixa na qual não está inscrito nome algum. É o seu jeito de se aproximar das garotas no colégio (Daniel não abandonou os estudos, apesar de não acreditar que a educação formal possa ajudá-lo a se tornar o sucessor oficial de Tom Waits). Ele fala com a voz rascante e arrastada de um interno da Febem: “Ei, seu nome aqui. Que tal?”.

Ainda não beijou ninguém e seus dentes já estão apodrecendo.

A música preferida do filho mais novo do meu primo mais velho é justamente “You can´t unring a bell”. Ele me explica o significado da parte da letra de que se lembra – não por acaso o título da canção: “Quer dizer que m***** cag**** não voltam ao c*,” diz, pausadamente, movendo um palito do canto esquerdo para o canto direito da boca. Tom Waits pode ser um gênio, mas Daniel sabe colocar as coisas de uma maneira menos empolada.

“Tia, a sua geladeira só tem cerveja. Onde estão os destilados?” “Eu não sou sua tia, menino. Tecnicamente sou sua prima. E você foi adotado, ou seja, não faz sentido ter fugido pra Ilha do Governador pois sua mãe não fez sexo para ter você, ela só assinou uns papéis. Os destilados ficam embaixo da pia.”

Tenho jeito com criança. Vou enrolando. “Baixa o ‘Closing time’ e queima um CD pra mim.” Feito.