Cachaça não é rum, não

POR CECILIA GIANNETTI

Levou tempo para que a cachacinha recebesse esse reconhecimento internacional de que, de fato, nos é nacional, é nossa e não é rum, não. A partir de 11 de abril entra em vigor a regulamentação definitiva publicada em fevereiro passado pelo Alcohol and Tobacco Tax and Trade Bureau (TTB) – o órgão responsável por Impostos sobre o Álcool, Tabaco e Comércio lá dos gringos – e que reconhece a birita brasileira como uma espécie de… rum!

A diferença é que agora as nossas cachaças não precisarão mais passear pelo mundo com o rótulo onde se lia “rum”. Pois rum ela não é, e piratas nós não somos, acertada fica a situação.

Mas o que isso significa em termos de tutu, bufunfa, grana?

Significa estímulo ao aumento da produção da bebida no país, e consequentemente um crescimento das suas exportações, que andam meia-bomba. E vai gerar mais empregos; atualmente sua produção conta com o trabalho de cerca de 600 mil pessoas em todo o país.

Bebida muito antigamente associada aos misérables, desdentados e, claro, cachaceiros, nos revela agora, em sua alforria concedida pelo TTB, que cachaceiros são eles lá, nos Estados Unidos: enquanto no Brasil a cachaça deve apresentar teor alcóolico entre 38-48%, os norte-americanos exigem um MÍNIMO de quarentinha porcento. Mínimo, my brother Charles.

Foi em um texto do português Sá de Miranda, de 1558, que a palavra cachaça apareceu escrita pela primeira vez. Era consumida pela galera baixa-renda e escravos. De lá pra cá, virou bebida chique, com direito à Academia da Cachaça localizada precisamente no bairro-de-novela de Manoel Carlos, o Leblon. Ora, existe até a marca Cachaça Leblon, que vem em uma garrafa parte transparente, parte verde-limão – a imagem lembra um pouco garrafa de vodca com sabor. Aliás, a marca Leblon fez muito lobby no TTB para que a legislação nova fosse aprovada e reconhecida nos Estados Unidos. E, em troca, o Brasil vai reconhecer formalmente o bourbon e o uísque do Tennessee como produtos característicos dos EUA.

Agora bebe uma branquinha (ou amarelinha) para comemorar.