Carta decomposta

Devia ter imaginado, quando chegou em revolucionário envelope. Não pelos cabos tradicionais.

Dobrei-a cuidadosamente e guardei numa gaveta de onde só tirei quando quis comparar você às pessoas comuns e à escrita e à fala dessas pessoas, e dos apresentadores de telejornais e dos atores nos filmes. Você não soa como eles.

“Não é minha culpa que todo mundo viva de porre,” você diz, “Porre de serotonina, benzodiazepínicos, adrenalina, gonadotropinas, esteroides, de esperança, de pura e inocente e infantil esperança,” você diz, “Poderia escrever um livro sobre a esperança como alucinógeno. O entusiasmo. A felicidade é uma alucinação. É você quem ativa os mecanismos que te fazem ver coisas que não existem. O copo meio cheio ou meio vazio que sorri pra você,” você diz, “Ri de você”. Você diz que felicidade é insanidade, ativada pelo entusiasmo, pela crença, pela fé, pela esperança.

“Como você pode não enxergar?,” você diz, “Ninguém proíbe a fé. A fé é incentivada. A esperança é cultivada. Ninguém para essa gente. Embalada nesse espírito, se qualquer idiota te abre um sorriso, pra você é a salvação, é a vida que vai mudar – e não é,” você diz. “Pode ser, por algum tempo, mas não é, definitivamente, não é. E o seu corpo e a sua cabeça, pode ter certeza, têm limites em sua tão badalada capacidade de adaptação,” você diz.

“Quer pagar pra ver?,” você finalmente pergunta.

“Quantas pancadas você agüenta? Quantas vezes numa vida você suporta ser sacaneado, enganado, discriminado, mal pago? Cada vez que o seu olho brilha pro sorriso de um idiota, você se droga. A adrenalina sobe, a serotonina aparece, várias outras substâncias que vão te fazer maluca. Pareço uma professora velha tentando ensinar o óbvio, deste lado do sinal uma incógnita, as iniciais de um nome próprio, do outro um zero. Faça as contas. Me escreva de volta, com a lição pronta,” você pede.

Assisto à sua carta se descompor.

A única resposta possível a ela seria:

Se você tiver a oportunidade de retornar ao otimismo, deve aproveitá-la como quem adota uma outra nacionalidade e recomeça a vida em um país próspero.

Mas não sei mais enviar cartas.

Na noite quente

POR CECILIA GIANNETTI

Tivemos uma semana daquelas cá nas crônicas. Tive que falar até em Feliciano e no inferno dele, e nas operadoras de telefonia/banda larga e nosso inferno causado por elas, ignorado pela Anatel. Por isso que, chegando a sexta, achei melhor falar de uma coisa gostosa. Vai também uma música relacionada ao tema. Relaxem, é sexta.

Duas meninas magricelas tomando banho de mar no escuro. Uma deitada sobre um banco de areia, a outra de pé com água até os quadris. Olhando pra frente, luzes pequenas se acendem e apagam ao longe.

Uma vez minha melhor amiga me tirou do meio do mar numa madrugada do Arpoador. Da areia, onde estava, demorou um pouco a entender que eu não conseguia mais lutar com as ondas. Mas assim que se deu conta do perigo, correu pra dentro d’água. Mais alta que eu, me ergueu e me arrastou até a areia, onde botei pra fora boa parte de toda a água que tinha engolido. Essa foi por pouco. Devo tanta coisa a tanta gente. Sou a pessoa com a vida mais endividada que conheço.

Amanhã no colégio as duas meninas que tomam banho de mar agora vão usar só a parte do cérebro dedicada à imaginação, enquanto matam aula de corpo presente. A lembrança do brilho do mar noturno será a melodia predominante em suas cabeças até que de fato retornem à praia como rainhas das noites quentes.

Nadei muito mesmo foi em lagoa poluída, quando tinha a idade dessas duas meninas. Nas férias acordava antes de todo mundo e ia caminhar sozinha na beira da água. Era Saquarema. Quando eu voltava, quase toda a casa tomava café na mesa que o avô do meu coleguinha, que era quem me convidava pra ir passear por lá, tinha feito, ele mesmo, orgulho. A maioria ia dormindo até meio-dia e não aproveitava a hora mais perfeita, a lagoa vazia.

Dava muita felicidade andar na areia pensando e vendo a água toda igual aqui e toda diferente ali. Assim eram as lagoas de férias da adolescência, poluídas e pacíficas. Naquela hora nem os quiosques estavam abertos. Os quiosques eram precários, barracas de pau mal enfiadas na areia, uma tábua pra servir de balcão onde se comia peixe frito e pedia uma cerveja. Meu coleguinha, dono da casa de Saquarema, pediu uma vez uma cerveja. Deu revertério.

Não chegava a ser uma lagoa de pneus boiando, mas a água era nitidamente suja. O que ignorávamos conscientes.

A casa ficava cheia todo verão, e todo verão os nossos corpos chegavam à casa mudados. E a gente se olhava e sabia que aquilo era crescer junto.

Eu tinha a minha pessoa preferida na casa, que gostava de acordar tarde. Quando ela descia, eu voltava pra lagoa com ela, pra dar risada. Eu não tinha coragem de entrar no caiaque e ficava sentada na areia olhando pra ela de binóculo. Ela remava até o meio da lagoa fazendo gracinhas pros garotos que sempre prestavam atenção nela e abanava as mãos pra mim quando achava que a gracinha era muito boa. Só pra ter certeza de que eu estava vendo também. Eu abanava as mãos no alto de volta. Não ouvíamos o que gritávamos uma pra outra, só um gralhar distante.

Uma vez ela ficou remando até o fim da tarde, quase noite. Eu não aguentava mais ficar sentada ali mas não podia sair e deixar o caiaque na mão de uma pessoa só. Da minha pessoa preferida. Pra duas, já era complicado arrastar de volta pela areia. Fiquei num impasse, imaginando que ela estava querendo me sacanear, ou por outro lado, que apenas exagerava no exercício. Não ia deixar a garota ali, o caiaque pesado. E depois podia dar confusão na casa. Também não ia nadar até ela, porque podia ser mesmo que estivesse de saco cheio de mim. O que seria triste.

Aprisionada em minhas paranoias, esqueci de tudo e deitei olhando o céu. E dormi.

Lá pro quase noite, a garota tentou se aproximar remando o trambolho e me acordou, gritando, ainda longe da beirada. A cara toda vermelha do sol de uma tarde inteira, e desanimada e com enjôo e cansaço. Tinha ficado entalada no caiaque. Tinha um rabo enorme, que era um sucesso, mas naquele dia foi problema. Travou o traseiro ali e, logo nas primeiras tentativas de se libertar, percebeu que acabaria virando na água e se afogando, se continuasse. Ficou com vergonha de pedir ajuda aos garotos pra quem se exibia. Não podia perder seu público, passar de musa à palhaça. Quando desencanou um pouco dos olhares masculinos e fez sinal pra que eu nadasse até lá, eu já estava dormindo de papo pro ar. Não teve outra idéia senão esperar todo mundo ir embora da Lagoa pra se aproximar e pedir que eu lhe desatochasse o traseiro do caiaque.

As meninas sem bunda que vejo nadando à noite não teriam esse problema. Que sem graça.

Cabidão

POR CECILIA GIANNETTI

Sua conexão com a internet tem dado problemas? E o celular? A TV a cabo? Há muito tempo e sempre, continuamente?

Você já falou com todos os funcionários e relatou suas agruras à ouvidoria de sua operadora, sem qualquer resultado, sequer resposta?

Já socou a parede e alguns travesseiros enquanto esperava na linha por 40 minutos, só para o call center desligar na sua cara sem resolver o seu problema?

Aí você levou o problema à Agência Nacional de Telecomunicações.

A Anatel tudo resolveria. “É claro!”

Exceto que a Agência não…

***

Basta uma olhada nas queixas de clientes retirados de sites em redes sociais de operadoras de banda larga mostram como essas empresas andam tratando os usuários, livremente, sem soluções por parte da Anatel. São uma pequena amostra dentre centenas de queixas não atendidas – nem pela operadora nem pela Anatel.

Eneida Moura: “Já fiz reclamação na Anatel e nada! Descaso total! Ouvidoria não funciona. Anatel tb não resolve.”

Nayara Maia: “Já registrei reclamações na ANATEL e mesmo assim o meu problema não é resolvido.”

Juju Arcuri: “Como consumidora peço a todos que compartilhem a falta de respeito que a GVT / GVT tem com a gente! Já foi solicitado um serviço desde do dia 25/02 e até hoje preciso brigar para conseguir uma simples tranferencia de endereço! Já foi feito protocolos na Anatel e de nada adiantou a empresa se quer nos comunicou nada!”

Hendol Hilarino: fiz uma denúncia na ANATEL pq fiquei sem sinal da TV e internet desde o dia 13/03/2013 e até hoje NADA FOI FEITO, O TÉCNICO NEM APARECEU AQUI EM CASA. COM 17 PROTOCOLOS, INÚMERAS RECLAMAÇÕES, DENUNCIAS NA ANATEL, A GVT SIMPLESMENTE NÃO FEZ NADA, NÃO COMPRIU O PRAZO DE ASSISTÊNCIA TÉCNICA!”

Sah Santos: “E aí, há mais de 30 dias esperando pelo tecnico e nada!! 4 dias de trabalho perdido, um protocolo do Procon e na Anatel e nem assim?”

Talita Albuquerque: Anatel 1331 c/ protocolo. Mas o melhor mesmo é o Procon.”

Claudio Mileski: “Estou esperando DESDE NOVEMBRO um retorno O QUE ACONTECE ?????????????????????????????????????????????????????”

Ilídio Marcelo: “(…) pelos outros comentários aqui, a ANATEL e a Corregedoria não funcionam, claro“.

Estas são apenas as reclamações públicas feitas na página de somente uma operadora de banda larga em uma rede social. Até o fechamento da coluna, somavam-se mais de duas mil reclamações de usuários do serviço, iniciadas em fevereiro de 2013.

Para não dizerem que é “falta de sorte” de quem está com essa operadora e para ter seus direitos garantidos recorreu à Anatel, vamos às reclamações encontradas no site de outra operadora de banda larga, ver se por lá também nos deparamos com esse tipo de problema, que chamo carinhosamente de “romeu e julieta”, feito o doce – só que é amargo: uma imensa fatia da incompetência da operadora + um matacão de descaso da Anatel:

Francisco Alfredo: “A velocidade de 10 Mega é uma mentira, já reclamei, já vieram técnicos e nada, não passa de 2 mega a 3 mega, oscilando continuamente.”

Henrique Beranger: “Possuo contra eles seis denuncias na Anatel pelo inumeros desrespeitos e transtornos. Estou tentando cancelar (o serviço) agora e não consigo, mais uma reclamação para a Anatel.”

Da Página “Todos contra a NET “DIA DO TESTE DE PACIÊNCIA DA ANATEL: SERÁ UM DIA PARA FAZER RECLAMAÇÕES SOBRE A NET… VAMOS VER SE ELES NÃO VÃO SE INCOMODAR…”

Ainda em dúvida?

Afinal, por que tamanha desconfiança nossa em relação à fiscalização às operadoras?

São atribuições da Anatel:

– “Promover o desenvolvimento das telecomunicações do País de modo a dotá-lo de uma moderna e eficiente infraestrutura de telecomunicações [veja aqui], capaz de oferecer à sociedade serviços adequados, diversificados e a preços justos, em todo o território nacional”.

– “Reprimir infrações dos direitos dos usuários; e exercer, relativamente às telecomunicações, as competências legais em matéria de controle, prevenção e repressão das infrações da ordem econômica (…)”.

Se tais deveres fossem levados a cabo, não existiriam avalanches de comentários públicos revoltados, deixados nos murais das páginas das operadoras em uma rede social, cuja criação tinha por objetivo que fossem “Curtidas” pelos consumidores, em vez de – com toda a razão – cobradas sem esperança de retorno e apedrejadas.

***

Em 2011 o Inmetro avaliou os contratos oferecidos pelas operadoras de banda larga brasileiras o carro-chefe das irregularidades entre nossos provedores. Segundo o órgão, todas as operadoras têm rabo preso no quesito: não fornecem um contrato ao consumidor, contrato que é um direito de quem compra o serviço e uma obrigação da operadora. Em vez disso o usuário precisa entrar no jogo de esconde-esconde dos sites das operadoras – são em regra verdadeiros labirintos onde se fica escravo de formulários de registro que não concluem o registro do usuário por problemas técnicos ou, ironicamente, por má conexão com a internet – para finalmente visualizar o contrato.

E aí, outra surpresinha constatada pelo Inmetro: não há contrato de qualquer provedora de banda larga que dê garantias sobre a totalidade do serviço oferecido, o que contraria o código de defesa do consumidor.

Nada disso deveria acontecer se a Agência Nacional de Telecomunicações…

Em relação à telefonia, outro abacaxi das telecomunicações brasileiras: na semana passada, após o lançamento do Plano Nacional de Consumo e Cidadania, no Palácio do Planalto, o presidente da Anatel, João Rezende, afirmou que as novas regras a serem implementadas para a melhoria dos serviços ao consumidor devem fazer as tarifas de telefonia diminuirem. E que a maior transparência na publicação de tarifas e dos pacotes destinados aos clientes deve gerar um mercado mais competitivo, o que pode resultar na redução das tarifas.

De acordo com Rezende, a Anatel está sobrecarregado com queixas dos consumidores contras as operadoras. Ele conclui com uma obviedade que parece comprovar o que se diz da agência reguladora: que é um “cabide de empregos”.

O que há na conclusão de Rezende que nos induz a considerarmos a definição “cabide de empregos” para sua Agência?

Isto: que é importante que os call centers das empresas atuem de forma mais efetiva, pois as queixas dos clientes não são solucionadas nos call centers das empresas.

Por quê?

Porque se as empresas 1) oferecem péssimos serviços com preços elevadíssimos e 2) atendem mal, quando chegam a atender, seus usuários via call center; e falham miseravelmente em oferecer reparos essenciais a seu bom funcionamento, tudo isso acorre porque quem deveria dar uma dura nessas empresas não o faz. E a Anatel, de acordo com suas atribuições acima descritas, deveria conferir a eficácia dos serviços todos de tais empresas.

O mesmo pode ser dito sobre as operadoras de internet banda larga no país.

Em fevereiro foi criado o REPNBL-Redes – Regime Especial de Tributação do Programa Nacional de Banda Larga para Implantação de Redes de Telecomunicações, um regime que beneficia as operadoras de banda larga com reduções de impostos. A medida prevê um investimento adicional de até R$ 16 bilhões pelo, e o governo deixará de receber aproximadamente R$ 6 bilhões até 2016. 

DECRETO Nº 7.921, DE 15 DE FEVEREIRO DE 2013

CAPÍTULO V

DA FISCALIZAÇÃO

Art. 20.  A ANATEL, quando demandada pelo Ministério das Comunicações, fiscalizará a execução dos projetos, inclusive em relação ao estabelecido no inciso III do caput do art. 19. 

Art. 23.  Para subsidiar a análise dos projetos de que trata este Decreto e a formulação e a avaliação da política nacional de telecomunicações, a ANATEL disponibilizará anualmente ao Ministério das Comunicações as informações georreferenciadas e as características técnicas da infraestrutura atualizada das redes necessárias para fruição dos serviços de telecomunicações de interesse coletivo.

Se hoje as operadores vivem de truque, vendendo gato por lebre, oferecendo 10 megas e entregando nem metade disso, será que a ajudinha do governo, sem a devida fiscalização do órgão responsável por ficar de olho neles, a medida vai adiantar?

O otimista Rezende sorrria mais uma vez: “É claro!”. 

Invasão de realidade

POR CECILIA GIANNETTI O futuro da propaganda é a realidade, e essa realidade inclui muita mulher no controle. É Cindy Gallop quem diz. Se eu trabalhasse com isso, lhe daria ouvidos. Aos 52 anos Gallop é uma empresária e consultora bem-sucedida que levantou fortuna fazendo tudo o que gosta. Sua apresentação de cerca de quatro minutos no TED de 2009 foi a mais falada do evento, em que apresentou seu plano de ataque contra a “pornografização da cultura: uma atitude doentia generalizada a respeito d sexo e da sexualidade, movida pela indústria pornográfica.” Por falar em realidade, Gallop é fundadora justamente de um website que define como feminista, mas não pornográfico (no sentido da pornografia predominante) o MakeLoveNotPorn, cuja crescente coleção de vídeos é a antítese da estética do cinema e vídeos pornôs de internet. Do site:

“MakeLoveNotPorn não julga, nem aponta o que é bom e o que é mau. Sexo é a área da experiência humana que abrange um enorme número de gostos possíveis. Todos devem ser livres para saber o que gostam de fazer e o que não gostam. MakeLoveNotPorn não é anti-pornografia. Eu gosto de pornografia e vejo pornografia regularmente.  MakeLoveNotPorn destina-se simplesmente a ajudar a inspirar e estimular diálogos abertos, saudáveis sobre sexo e pornografia, a fim de ajudar a inspirar e estimular relações sexuais mais abertas, saudáveis e completamente agradáveis.”

Em entrevista à comediante Katie Goodman, dispara: “Sentir-se degradada e fazer o que faz só pelo dinheiro não é exclusividade do universo da pornografia ou de strippers. Sentir-se degradada e fazer o que faz só pelo dinheiro é uma realidade em qualquer setor de qualquer indústria que se possa enumerar.” Se você já trabalhou em um lugar que detestava e talvez um ou vários funcionários que gostavam de fazer “brincadeiras impróprias” constantemente, você entendeu a que se refere a frase acima e talvez neste instante tenha sentido necessidade de reprimir algumas memórias desagradáveis que estavam guardadas, com a ajuda de um benzodiazepínicos que além de mundialmente adorado custa bem barato nas nossas farmácias. Mas o que interessa é que a mensagem chegou até você, não é? Toma uma abraço. Quem ainda não sabe que isso acontece nos mais variados ambientes de trabalho, ou se nega a acreditar, por vocês não podemos fazer nada. Volte para o pornhub. Senão, tem mais: “E em termos do tratamento que as mulheres recebem em alguns ambientes de trabalho, ele pode ser tão pavoroso e basicamente degradante e deprimente quanto qualquer experiência de uma stripper.” Discutir a estética da indústra pornográfica não é objetivo da coluna, deixamos isso para pesquisadores com mais tempo livre e tesão por tomos de centenas de páginas, que certamente deve ser o que resultaria de um estudo sobre o tema. Mas um exemplo da indústria de filmes pornográficos “amadores” resume a questão levantada por Gallop com o seu MakeLoveNotPorn. Ele é bem diferente do que se encontra em sites de “amadores”, como o Home Grown Video. Este afirma que trabalha com vídeos feitos por “gente comum” em circunstâncias totalmente livres. Porém, o Home Grown Video, entre outras coisas, dita onde cada casal deve posicionar sua câmera – o que não é uma política inocente: os ângulos captados de acordo com essa exigência acabam sendo os mesmos ângulos usados em filmes pornô com gente fazendo sexo aeróbico em vaginas que passaram por cirurgias plásticas. No final, os casais “amadores” tendem a tentar reproduzir o que já é feito pela indústria pornográfica. O Home Grown Video oferece inclusive instruções sobre como cada garota “amadora” deve se comportar e gemer diante da câmera. E, ora, sabemos que quase toda a pornografia na web rotulada de “amadora” é feita por produtoras profissionais se passando por “amadores”. A história contada por Gallop sobre sua passagem pelo encontro internacional de publicidade Cannes Lions Awards Festival dá conta de como a pornografia pode influenciar a publicidade e velhos hábitos de gente comum. “Assim que cheguei em Cannes corri para a praia pública e arranquei a parte de cima do meu biquíni. Aí olhei em volta e ninguém mais estava de topless.” Estranhou. Fazia cinco anos que não ia a Cannes, mas nas vezes anteriores em que frequentou a praia lá, tinha mulher de topless pra chuchu. “Então voltei pro meu quarto e tuitei sobre isso. Eu disse, “França, qualé? Por que eu era a única mulher na praia em Cannes com meus peitos de fora?” E aí uma das minhas seguidoras me mandou um link para um artigo que afirmava que, de acodo com uma pesquisa feita na França anquele ano, mulheres mais velhas, da minha geração, sentiam-se felizes, confortáveis na praia de topless. (Antiga prática nas zoropa). Mas a esmagadora maioria das mulheres mais jovens não tiram mais a parte de cima dos biquínis ou acham que é um problema fazê-lo, porque têm vergonha do próprio corpo. Então eu disse à minha plateia em Cannes: eu sei exatamente de onde é que vem isso. Quantos de vocês trabalham com planejamento estratégico em publicidade? Mãos se levantaram. Aí eu falei: quantos de vocês, do planejamento estratégico, falam com o departamento criativo, ou seu cliente, ou toda a equipe que detém uma conta sobre que o seu público-alvo para tal campanha é um jovem de 18-24 anos de idade e ele tende a ter um determinado de trabalho e ele vê entre duas e quatro horas de pornografia de dia ou de noite e é isto que lhe causa impacto sobre a maneira como ele percebe as mulheres e se relaciona com a namorada. Silêncio mortal.” Na mesma fala em Cannes, Gallop afirmou que o futuro da publicidade está entregue ao olhar feminino “uma vez que as mulheres são a maioria das compradoras na maioria dos setores de mercado, a maioria dos usuários de mídias sociais são mulheres, e elas também se expressam mais via meios digitais do que os homens.” No entanto, hoje, a maioria da propaganda que tem como target a mulher é criada por homens, e a maioria das pessoas que avaliam a criatividade investida nessa propaganda é masculina, diz. No próprio Cannes Lions de que participou, quando ocorreu o episódio da praia, cada um dos jurados era homem. “Esta palestra não é sobre responsabilidade social nem estou aqui dizendo que as marcas devem enxergar isso como um problema; sou eu dizendo que o futuro da publicidade e da propaganda não tem nada a ver com estereótipos, o futuro da publicidade e da propaganda tem a ver com o real. O olhar feminino e a criatividade feminina empregados na publicidade, segundo informou a plateia do festival, vai trazer um novo approach ao meio que deve apetecer tanto ao público masculino quanto ao feminino.” É ver para crer. *** Cindy Gallop também fundou o If We Ran The World, que reúne plataformas de ação e usuários (chamados de empresários) dedicados a espalhar sua ideia e cooptar mais gente para transforma-la em realidade. Pode ser algo bastante simples e concreto, como, digamos, obter a instalação de bicicletários em seu bairro, ou mais subjetivo, como “Conseguir levar as pessoas a pensar realmente a respeito de como querem viver.”

Um inferno para Feliciano

Do Instagram do pastor Marcos Feliciano, postado na segunda-feira, 18: de cabelos molhados em um salão de beleza, “Momento descontração… Raridade!!!”, dizia legenda da imagem.

POR CECILIA GIANNETTI

Mais de 300 empresas enviaram seu manifesto à Suprema Corte dos Estados Unidos exigindo o fim do DOMA – Defense of Marriage Act, que, assinado em 1996, transformou discriminação em lei, ao assegurar a definição do Governo Federal norte-americano que considera casamento somente a união entre um homem e uma mulher.

Muitas dessas empresas são conhecidas nossas do dia-a-dia: Apple, Nike, Microsoft, Starbucks, Google, Facebook, Twitter, Amazon, Adobe, Levi Strauss, eBay, Disney, Intel, Johnson & Johnson, Pfizer e Xerox.

Na próxima semana a Suprema Corte ouvirá as argumentações a favor e contra direitos humanamente básicos para casais do mesmo sexo. Pode se tornar um marco na história da comunidade LGBT, não só a norte-americana. Para melhor ou pior, dependendo dos resultados.

Enquanto no Brasil quem tem cabeça tenta desfazer nela o nó que é ver o pastor Marco Feliciano (PSC-SP), alvo de dois processos no Supremo Tribunal Federal – um inqúerito em que é acusado de homofobia e uma ação penal por estelionato; e que ainda afirmou publicamente que africanos e seus descendentes são “amaldiçoados” – nomeado presidente da Comissão de Direitos Humanos e Minorias da Câmara dos Deputados, outra parte do mundo vai em direção diversa. 

Melhor será, claro, que os Estados Unidos passem a garantir que companheiros (as) do mesmo sexo de militares possam a partir de então obter financiamentos para comprar sua casa; que a companheira de uma mulher morta em combate ou vítima de doença terminal possa receber benefícios; que as leis de imigração não possam mais separar famílias encabeçadas por casais do mesmo sexo.

Os prognósticos são favoráveis:

Mais aí veio o Obama, querendo se re-eleger, e ele conhece bem seu eleitorado: decidiu não apoiar o DOMA. Quando o caso foi aceito pela Suprema Corte, sua administração encaminhou um documento instando-a a derrubar o DOMA. Mas os Republicanos jogaram mais de 3 milhões de dólares em apoio a tal lei discriminatória.

Nem todo republicano é bicho-papão quando se mexe no vespeiro LGBT nos EUA.

O Senador (re-pu-bli-ca-no) Rob Portman anunciou na quinta-feira passada uma mudança em sua posição em relação ao casamento gay. Portman, representante de Ohio, tornou-se o primeiro republicano no Senado a apoiar a causa. Tem uma história pessoal por trás disso: descobriu que Will, seu filho de 21 anos, é homossexual. Restou-lhe passar para o outro lado, afirmando que deseja que o filhote venha a ter os mesmos direitos de que goza o restante de sua prole, hetero. Will tuitou na sexta-feira passada: “Estou especialmente orgulhoso do meu pai hoje.”

Além de Portman, mais 21 senadores que haviam votado a favor do DOMA viraram casaca pro lado do bem e agora se opõem à lei. Que também não é popular entre cerca de 300 empresas e prefeituras, que também enviaram à Suprema Corte suas manifestações exigindo a extinção do DOMA. Sociólogos (a American Sociological Association inteira, para ficar mais claro) e organizações médicas (America Psychological Association, American Medial Association, American Academy of Pediatrics, American Psychiatric Association e a National Association of Social Workers) não se esquivaram do problema, enviando também seu documento à Corte contra o Doma.

Imaginem um apoio desse peso no Brasil. Faria Feliciano e associados se sentirem como que lambidos por fogo, nas profundezas lá de vocês-sabem-onde. Não é novidade que as empresas brasileiras, como a seguradora Vida Freedom (a primeira no Brasil a apostar em seguro de vida para casais gays), há muito já descobriram o potencial consumidor do público gay. E a Petrobras reconhece, desde 2007, o direito a benefícios previdenciários de casais de mesmo sexo, além de patrocinar a Parada do Orgulho LGBT desde 2007.

Voltando à vaca quente gringa, o ex-presidente Clinton, o próprio que transformou o DOMA em lei nos anos 1990, baixou a cabeça e escreveu o artigo “É hora de derrubar o DOMA“, publicado no início deste mês pelo “Washignton Post“, em que afirma: “Passei a crer que o DOMA contraria os princípios, e é de fato incompatível com a nossa Constituição.”

Na próxima semana o povo norte-americano e os demais atentos às questões de direitos de igualdade para a comunidade LGBT mundial estarão de olho para ver como essa história acaba nos Estados Unidos.

No Brasil, o buraco é mais embaixo. E gente como o pastor Marco Feliciano, que diz acreditar na ideia de inferno, deve saber que esse buraco carrega ladrões, racistas e homofóbicos direto para lá.

A 16 quadros por segundo

POR CECILIA GIANNETTI

“Ficar sozinho pode ser muito solitário. Mas ao menos com gente em volta podemos ficar solitários com barulho”. – Herbert H. Herbert, personagem de Jerry Lewis em “O Terror das Mulheres” (“The Ladies Man“, 1961).

Para Henry Miller, o comediante era um meio de a humanidade chegar a Deus, era uma criatura capaz de esvaziar os manicômios, sem propor uma cura mas tornando todos loucos. E a música, um tônico para a glândula pineal, o abridor de latas da alma. 

A ideia de fugir do meu escritório no meio do dia, como quem mata aula, me ocorre como piada. Só pode ser. Ir ao sebo agora é de uma irresponsabilidade atroz da minha parte, uma aventura. Recorro ao amigo livreiro antes de enfrentar o Word brancão e suas demandas.

Tapo os ouvidos com os fones e a playlist (cue sheet), que batizei de “\o/” no iPod, faz o acompanhamento sonoro. A rua fica engraçada quando saio de casa pela primeira vez em cinco dias bem contados. Enxergo como se captasse tudo em uma cadência de 16 fotogramas por segundo e projetasse em fast motion automaticamente por trás das minhas pálpebras a 24 fps, aumentando de tal forma a velocidade da ação que o registro parece contaminado por uma energia extraordinária. Os cachorros que se encontram e se cheiram e nesse balé se embaralham coleiras, bichos e donos. A Guarda Municipal, homens e mulheres uniformizados com suas cabeças girando comicamente ao redor, olhares perdidos e mãos inúteis na cintura, sobre a calçada vazia de onde os camelôs acabaram de desaparecer feito mágica assim que o primeiro apitou o sinal avisando a chegada dos cacetetes. Um ônibus tão lotado que os passageiros viajam com seus corpos encaixados feito peças de Lego.

Somos todos peças intercambiáveis da Máquina, destino que pode se apresentar trágico ou cômico, dependendo da velocidade de projeção em que você escolhe enxerga-lo, bem como do acompanhamento sonoro, que nos tempos do cinema mudo era feito por pianistas ou orquestras, de acordo com cue sheets.

O Word brancão, ao longo deste dia e dos próximos meses, vai me olhar diversas vezes provocador ou debochado –, seja me cobrando um capítulo novo de um novo livro meu, seja exigindo mais dez páginas de tradução do livro de um outro, que passa a ser um pouco meu enquanto o traduzo.

Os horários dedicados a cada tarefa se emendam sem brecha entre si: pela manhã faço a coluna, que é diária, assim que termino pego a tradução até às 22h e, se tiver uma ideia que me move muito tarde de noite, é a vez do meu livro. Às vezes acontecem esses períodos, provisoriamente, quando mais nada cabe na equação. Ir ao sebo é uma piada interna rápida.

Por isso, aproveito bem. Por mais breve que vá ser a visita, entro na loja como quem vai receber um Oscar. A conversa do livreiro me dá combustível pra jornada na máquina. Esse combustível não me chega mais pelos cabos, updates remotos das vidas dos amigos via chat. Muitos deles mais amigos meus do que o meu amigo livreiro, é verdade. Mas tempo demais “conectada” desde 1997 me trouxe recentemente a um ponto de saturação, eu me tornei uma infiel – na fachada, seguidora; por dentro, relutante. Para mim entre o online e o ao vivo não existe mais disputa.

Encontrar o homem no sebo é o meu item de consumo orgânico essencial da semana.

Senão a coisa não anda, aprendi a duras tecladas.

Sem uma ração regular de presencial, eu travo. A máquina continua e eu travo. A máquina não é apenas o ente eletrônico que ligamos à tomada. A máquina é tudo que dela dePPPPendePrazos, Produção, Propaganda, Passar a mercadoria adiante – e de que dependo eu mesma para continuar.

– Leva este.

O livreiro brota como um gigante do meio da desordem de títulos empilhados que toma o canto da loja onde foram depositados, aguardando limpeza, centenas de aquisições recém-chegadas.

– Vêm de casa de viúva, de órfão, de jornalista que recebe 500 lançamentos toda semana pra resenhar (tem quem resenhe sem ler…), de quem precisa liberar espaço pra alimentar o vício comprando outros.

Compro “este” por R$ 12, novo mas cheira a velho, não espero outra coisa. Faz parte do gosto por comprar em sebos.

O autor “deste” morreu há seis anos, aos 84, tendo sobrevivido a um bombardeio em Dresden e sido capturado pelos alemães na II Guerra Mundial. O epitáfio que pediu, ainda em vida, um exemplo de como a enxergava: “Everything was beautiful and nothing hurt”. Soube abordar catástrofes e injustiças sem inflamar o discurso. Sua prosa às vezes lembra uma cantiga de roda sobre o fim do mundo, com repetições de palavras e frases características como um carrossel, repetições como refrões cujo propósito sutil é embalar o leitor na história.

O que me lembra uma frase do Carlos Heitor Cony, que ele soltou em palestra na Academia Brasileira de Letras há exatos dez anos, e guardei num desses cadernos que insisto em ter na bolsa:

“O jornalista é um peixe de aquário. Tem que ser bonitinho e ficar ali naquele mundozinho, tem que fazer pirueta, tem que fazer gracinha. Se ele não for bonitinho, ele perde o emprego. O escritor é um peixe de fundo, habita o território do mar onde não chega a luz, o sol. Em geral ele é feio. Mas ele tem o oceano todo pra ele.”

Consigo espaço o bastante para segurar o livro à minha frente no rush do metrô carioca e ao mesmo tempo me agarrar a um dance pole do vagão. “Pastelão ou solitário nunca mais” (“Slapstick or lonesome no more“) é de 1976. Tem a idade do amigo livreiro. O romance esquisito de Kurt Vonnegut nada em cultura pop mas vem do fundo do mar. Coincidência, abre falando sobre como os fps podem tornar um destino leve ou pesado.

“A base do humor do Gordo e o Magro, creio eu, era que eles se esforçavam ao máximo em cada prova que tinham pela frente. Nunca deixavam de enfrentar de boa fé o seu destino, e eram fantasticamente adoráveis e engraçados na tentativa. (…) O que realmente parece importante? Lutar de boa fé com o destino.”

Como Vonnegut, J.D. Salinger também falou sobre Laurel & Hardy, definindo-os como “seres e artistas enviados do Paraíso”. Como Miller, Salinger também ama e dá valor ao riso. Fez Seymour Glass escrever ao seu irmão, Buddy, em “Seymour: Uma apresentação”: “Faça as pazes com seu senso de humor.”

Indiscutível.

poem #5

I had a black and white satin dress
On, It made my maiden years seem mere playful
Song.

In it I sat and played with my supermodern cellphone on my lap
It has lights which sparkle and such
When Voices reach out to me through its wireless throat

Me and you – worlds apart
Like me and the cellphone

I too sparkle (the black and white satin dress, and a little jewelry hanging from my neck)

But I sit still – wait

Like I was made up by a 19th century girl who
Thought she could create characters out of her loneliness and very limited society.

When I let out a sigh
I notice I am wearing a cleavege that could easily be Victorian
And that my heart is as old as my fashions

That this cellphone of mine is as useless tonight than it would be on any 19th century night or day

And that gentlemen of your likeness, you have travelled trough time.PQAAAPfWi9FstPUBu-mrKMFvvcJB1i0_t6OFuesvBPvrsnJ0xl97V1rE18pV66XB3Jp_PUhFs_edDHxnK01EcCucyGMAm1T1UMTR2CDLlHaLH6ir8FD6U1JfXZ1B

O Passado e O Futuro do Presente

POR CECILIA GIANNETTI

[Esta coluna é prima da de ontem, “Todo mundo junto agora“]

Eu me lembro muito bem da estreia da MTV no Brasil, a terceira versão do canal fora dos Estados Unidos. Em outubro de 1990, poucos dias depois de ela entrar no ar, eu estava sentada, em um dia de semana, horário de aula, assistindo à programação predominante de videoclipes que se repetiam a cada hora quando uma vizinha colocou sua cabeça loira oxigenada pela janela da minha sala para opinar sobre o meu Futuro.

Seu vaticínio era tenebroso: se eu não voltasse imediatamente ao colégio para terminar aquele ano letivo, eu acabaria morando debaixo de uma marquise com um cachorro.

– Não pode ser um gato? Não cresce tanto e eu imagino que a marquise será curtinha e os jornais também não são muito largos. Pra cobrir um pastor alemão, por exemplo, eu precisaria de muito mais espaço e jornais maiores (mal sabia, naquela época, que muitos jornais brasileiros adotariam no Futuro o formato tabloide, ainda mais curtos pra se usar como cobertor).

Ela resmungou alguma coisa sobre mendigos e vira-latas e retirou a cabeça da janela, seguindo caminho até a segunda casa à esquerda da minha, onde mantinha encarcerados dois filhos, alunos da mesma escola, para quem tinha um Futuro bem planejado e a quem fazia cumprir todas as ordens que eu havia driblado naquele outubro de 1990 – tais como: terminar o ano letivo obediente e uniformizada acompanhando todas as aulas, inclusive as extras, nos finais de semana.

Não vou comentar o que aconteceu no Futuro real, o não-calculado milimetricamente pela vizinha, com os seus filhos, porque a web é um campo minado onde todos os fantasmas do passado ressurgem para nos assombrar, especialmente se você pisa num calo deles. Digo apenas que não saiu exatamente conforme o planejado. Não saiu nada conforme o planejado. Embora eles tenham terminado direitinho aquele ano, naquela escola.

Enquanto que eu.

Em setembro eu fiz um dos únicos cálculos em que obtive resultado correto em toda a minha vida. Eu não lido bem com números. Deixo o espaço que ocupariam no meu cérebro para aprender a lidar melhor com as letras (a menos que estas venham acompanhadas de números e sinais como em

et al) e espero que um dia esse esforço alfabético me valha.

Como eu ia dizendo: em setembro daquele ano eu havia calculado as notas que eu precisaria atingir para passar direto em Físico-Química, Física (aulas teóricas complementadas por aulas práticas no Laboratório de Física, ou seja, uma matéria em que, além de não saber calcular as fórmulas corretamente, eu podia explodir a gente), Química, Matemática e Geometria.

Eu era extremamente realista e conhecedora das minhas limitações no que dizia respeito a equações e quetais. E, por mais que eu fosse ruim em cálculo, reconheci que as notas de que eu precisava pra passar eram números inatingíveis. Ainda que eu ficasse o Natal e as férias de janeiro em recuperação, não havia qualquer garantia de que aqueles parcos meses seriam suficientes para implantar na minha cabeça modelos de raciocínio que eu rechaçava inconscientemente por falharem em apresentar um terço do charme das crônicas do Paulo Mendes Campos, que eu tinha acabado de descobrir.

Sem contar que era uma escola com currículo e disciplinamento voltados, desde o Jardim de Infância, inteiramente pra Passar no Vestibular. Eu nem sabia ainda com o que eu iria querer trabalhar mais tarde, bem mais tarde. Não fazia sentido.

E não só isso. Tratava-se da escola mais cara de toda a Ilha do Governador. E quem pagava essa conta, sozinha, era a minha mãe, militante ferrenha da máxima – vocês vão se lembrar da primeira vez em que ouvi isso clicando aqui – “Dinheiro Não Dá em Árvore”, que é uma frase que gente que tem grana de verdade raramente profere sem dar uma risadinha interna.

Se Dinheiro Não Dava em Árvore, que diabos eu estava fazendo naquele estabelecimento dos infernos? A escola era cara mas não era perfeita, com colegas de classe grávidas na adolescência, alunos matando aula para beber e professores que atiravam walkmans e outros pertences de alunos no telhado das Casas da Banha, o supermercado vizinho, pra assustar a gente.

Tudo culpa da vizinha que metia a cabeça pela janela da minha sala pra opinar sobre as nossas vidas:

Talvez porque pensássemos que ela estacionava a Delorean do “De Volta Para o Futuro” na garagem de sua casa e que voltava dos anos 2000 ao presente de 1990 para nos ajudar a corrigir um terrível erro de escolha didática, concordamos com ela quando decretou que o meu Futuro Perfeito estaria garantido se eu estudasse na mesma escola que os seus filhos.

Mas com os resultados do meu cálculo em mãos e a MTV chegando ao Brasil, era o meu momento de argumentar contra a teoria do capacitor de fluxo da vizinha, a sós, com a provedora da casa.

– Eu não vou passar. Você vai torrar uma grana à toa. Em cinco meses começa outro ano letivo. Eu vou pra outra escola, repito de ano. Fim do problema. (Além do mais eu peguei a Delorean da vizinha e vi que em 2010 o químico, historiador e jornalista Andrew Robinson vai lançar um livro afirmando que a escola atrapalha a genialidade. E de qualquer maneira ele diz no mesmo livro que no Futuro nós teremos cada vez menos gênios.)

Durante o meu período sabático aprendi a tocar violão e li livros que me interessavam, além de não ter ficado grávida nem vomitado cerveja quente depois da aula na porta das Casas da Banha. Mas, ei, não estamos aqui para julgar ninguém.

Quando comecei na escola nova, sem a pressão pró-vestibular, aprendi coisas que achava que nunca conseguiria realizar, como a mira perfeita com zarabatana de Bic e bolinha de papel com cuspe e

Ou coisa parecida.

Na hora de enfrentar a prova de fogo para entrar na universidade, passei. E a provedora do lar acabou economizando uma nota preta, do tipo que Não Dá em Árvore.

Meu discurso pra minha mãe foi um pouco diferente daquilo que escrevi ali em cima, mas a essência dele foi preservada. “Quando uma coisa não tem remédio, remediada está.” E a MTV foi um excelente calmante para todos lá em casa entre outubro de 1990 e março de 1991, meu sabático.

Que a VEVO TV, de que falei aqui ontem, possa fazer o mesmo pelas novas gerações, substituindo o Rivotril e a Ritalina desde sua mais tenra idade.

Todo mundo junto agora

POR CECILIA GIANNETTI

A VEVO, a “Plataforma #1 de Música da Web” acaba de se afastar do Youtube, onde até então maior parte de seu conteúdo é visto, aproximando-se mais do velho modelo de MTV que a galera acima de 30 conheceu e amava. A VEVO TV surge agora mais próxima do broadcasting do que do modelo Youtube, transformada em canal difusor de tudo relacionado à música, 24h/7.

O pulo do gato: “Just like TV!” = “Exatamente como a televisão!”

Mas o que eles querem dizer com isto?

É uma coisa meio “De Volta para o Futuro”. A VEVO detectou que é legal ser como a televisão, esse meio “ultrapassado”. De acordo com o seu comunicado à imprensa, “(…) este canal é algo que você pode sintonizar facilmente dia e noite e ver o que está passando, ao mesmo tempo que qualquer outra pessoa. Exatamente como a televisão! Porque a televisão nos dá a experiência de assistir junto a milhares de outras pessoas o mesmo programa.”

O slogan e a mentalidade “Just like TV!” são, portanto, a tradução de uma aposta (ou descoberta) da VEVO:

Com as infinitas possibilidades de assistirmos a qualquer tipo de programação a qualquer momento que escolhermos, a VEVO notou um nicho de mercado – um público carente da sensação de experiência comunitária que tínhamos, por exemplo, ao pegar de repente um clipe do My Bloody Valentine passando na MTV tarde da noite, sabendo que nossos amigos e outros fãs da banda também estavam vendo o mesmo programa, provavelmente também pulando no sofá.

Noutra nota, vale lembrar que a VEVO desconhece o recente fenômeno brasileiro de comunhão televisiva da novela “Avenida Brasil”.

Mas tal carência não deixa de existir, sabemos bem, nem na terra dos maiores noveleiros do planeta, pros fãs de música e videoclipes dos primórdios da MTV – aí persiste a ideia do nicho identificado pela VEVO. E sua programação inclui sucessos (tanto indies quanto estouradaços) do momento, em plataformas super modernas, o que atrairá também os mais jovens.

O novo canal terá clipes, shows ao vivo e entrevistas com artistas, combinando música nova com antigos clássicos. A VEVO garante ainda: sua programação não será determinada por algoritmos que representam o que “o público quer ver”, tudo vai ser selecionado por “gente de verdade”, que gosta de música como seus espectadores.

E não ficará restrita à sala da sua casa. Você poderá, é claro, assistir confortavelmente em sua TV via Xbox 360 ao catálogo completo da programação da VEVO, com mais de 45.000 vídeos de mais de 11.000 artistas. E tem a opção de levar com você aonde for a VEVO TV em seu iPhone, Android ou Roku.

A nova experiência VEVO TV está disponível por enquanto apenas nos Estados Unidos e Canadá. Amanhã falo aqui porque os fãs de música brasileiros devem ficar alegrinhos com a chegada, “em breve”, como diz a empresa, da VEVO TV no país.

Posso adiantar que tem algo a ver com isto aqui:

E isto aqui:

‘Ex nihilo’

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POR CECILIA GIANNETTI

– …Sentindo, assim, uma vontade de comer joelho. O salgado. Queijo prato, presunto, massudo e gorduroso.



– Fumou antes de vir?



– Nada, já há uns 15 dias. O fornecedor pegou férias forçadas.



– Esse desejo por joelho… por que acha que persiste sem o fumo?



– É preciso um tema qualquer que justifique os 45 minutos semanais que passamos juntos neste consultório do nono andar, durante o meu horário de almoço. Não tenho mais nada.



– Entendo. Vejo você na próxima semana.

Quando ele já terá feito anos, aetatis suae 35, um marco formidável e ninguém por perto para testemunha-lo.

Olha ele lá. Olha ele lá acompanhando três seriados – está na terceira temporada de “Ervas”, no segundo episódio de “Espelho Negro”, na temporada final de “Criando Esperança”. Olha ele lá lendo a revista que chega a sua porta no final de semana falando sobre o ministro que chamou um repórter de palhaço e mandou o mesmo repórter agir como um porco e então o repórter o fez e agora, portanto, o repórter agora é o foco da notícia e o principal entrevistado da semana que ele lê. Olha ele lá confeccionando o seu próprio presente de aniversário.

Um boneco de pano. Engenhoso. Primeiro, pensou em comprar um manequim de loja, mas não foi capaz de convencer a gerente do estabelecimento a lhe vender um dos manequins que compunham a reunião de homens idênticos parados despidos durante uma reformulação da decoração da vitrine por ser destituído de charme e porque explicar que pretendia dar o manequim de presente a si mesmo só iria dificultar ainda mais as coisas: a gerente, fazendo cara de pena, estragaria todo o potencial de beleza de seu gesto. Em vez de lhe vender um de seus manequins (da loja para a qual trabalhava, não eram seus per se), a gerente lhe deu o endereço de uma fábrica de manequins. Mas ele considerou o Mercadão de Madureira distante e quente demais e jamais deixaria a zona sul para ir até lá buscar um manequim ou qualquer outra coisa ainda que essa coisa fosse a sua chance de felicidade. E mais: que diabo de ideia era essa? Comprar um manequim, um manequim de presente para ele mesmo – isso era loucura. O doutor, se soubesse, certamente tomaria alguma atitude médica dramática. Pensar aquilo… nunca mais, que ninguém soubesse que passara pela sua cabeça. Tinha uma ideia melhor, é claro que tinha.

Confeccionando o seu próprio boneco, creatio ex materia, conseguiria se distrair e ocupar todo um final de semana. Todo um final de semana sem pensar em ir encontrar um grupo de gente ou telefonar para alguém, como a mãe do fornecedor, por exemplo, buscando notícias sobre se alguém lhe pagara a fiança ou o quê.

Raramente tinha vontade de ouvir o que diziam os grupos de gente que se juntavam para beber e fumar. Fumava e bebia com eles, quando ia até eles, ou eles iam até o seu apartamento, até achar que era uma outra pessoa e apagava sem dizer boa noite, desacelerado, na sua própria sala ou na sala de quem fosse um casal mais liberal ou uma garota 100%-solteira. Boa noite é para amantes que não fodem mais. Ele e elementos daqueles grupos de gente às vezes tocavam uns aos outros, daquela forma, mas às vésperas daquele aniversário, ele estava cansado do processo que levava a esses eventos e do que costumava acontecer depois deles. Dava para ver tão claro quanto poeira voando levemente, solta no ar, sob os primeiros raios de luz da manhã, et lux in tenebris lucet, o esforço que faziam para parecerem despreocupados e desconectados do impacto de um evento de toque os elementos dos diferentes grupos de gente com quem às vezes cruzava. Enquanto com ele a consciência da coisa crescia feito barba a cada dia após um evento de toque. Ele era um tipo fora de seu tempo, sua língua era uma língua morta, ad rem. Ele se barbeava. E os fios cresciam.

O boneco de pano saiu à sua altura e desajeitado como ele, e não paravam por aí as semelhanças. O boneco tinha a sua expressão, o seu jeito parado de olhar, mas quem copiou quem? Não era o seu primeiro boneco, ele mesmo sempre se barbeava diante do espelho, talhando o rosto como a coisa que queria ser, imaginativamente, delirando, lavando a poeira que sentia ter se acumulado à noite em seus poros, sua própria pele retornando à sua própria pele. Sujeira. Mesmo limpo sentia-se sujo; mesmo no escritório, trabalhando, procurava outras ocupações; mesmo quando estava com as pessoas de seu círculo, estava fora dele, buscando.

No domingo – fazia aniversário na segunda-feira – foi ao prédio de escritórios e abriu com sua própria chave a sua própria sala, onde deixou sentado em frente ao computador o boneco feito de pano. Arranjado o seu substituto, não foi trabalhar naquela semana. Exeat. Não recebeu em casa nem em seu celular telefonema algum a respeito. Passou aqueles cinco dias úteis em casa ouvindo rádio. Ninguém deu por falta, havia o boneco.

Considerou se deveria sair para encontrar o doutor no consultório no qual tinha 45 minutos semanais “seus”. Eram “dele”, afinal, aqueles 45 minutos, como gostava de frisar o homem que o recebia. Compareceu.

– A vontade de comer joelho passou. Mas agora não quero, não consigo mais desligar o rádio. De jeito nenhum. Vivo de fones nos ouvidos. Isso acaba a com a bateria do celular muito rápido mas eu nunca deixo de carregar comigo o carregador do celular.

– Não tem nada de errado com gostar de rádio.

– Você não ajuda muito.

– Está bem, então, agora eu vou ser duro: é absolutamente doentia a sua conduta. Tome duas aspirinas toda vez que sentir vontade de ouvir rádio.

– Aspirinas não vão corrigir a minha conduta doentia, doutor.

– Então prescrevo-lhe um joelho: queijo, presunto, massa, bastante gorduroso.

Pleno de satisfação com a certeza de ter ultrapassado um grande obstáculo pessoal na consulta daquela semana, retornou revigorado ao trabalho, onde resolveu satisfatoriamente em uma tela retina várias situações relacionadas ao seu cargo – sem retirar seus fones do ouvido. Às 17h deixou o boneco de pano em sua cadeira e desceu para comprar um joelho no boteco que ficava no térreo do prédio onde trabalhava. Às 17h19 tomou o elevador de volta à sua sala já sem os fones de ouvido. Não sentia então a necessidade de ouvir rádio. A psicoterapia tinha um papel essencial no seu desenvolvimento. Mal retirou o boneco de pano da cadeira, saiu para tomar um café na sala de tomar café. O chefe foi atrás.

– E aí sumiu do mapa tava comendo alguém tava? comeu alguém hein?

– O chefe achava que era muito seu amigo.

– Você tá pensando em voz alta.

– O chefe podia ouvir o que ele pensava.

– Comeu ou não comeu?

– Soy loco por ti américa, soy loco por ti de amores, sou loco por ti américa, soy loco por ti de amores. Quem sabe canções do mar. Ai hasta te comover. Ai hasta te comover contra spem spero

Continuou a cantarolar enquanto caminhava da sala de tomar café até sua própria sala, com os fones nos ouvidos. O chefe permaneceu no papel de amigo íntimo, telefonando para o doutor no consultório do nono andar, o mesmo encarregado de atender a todos na firma.

– Doutor, ele anda se fazendo de Caetano. Veloso.

– Precisamos aumentar sua dose de salgados gordurosos.

– Que tipo de salgado?

– Joelho. Queijo amarelo, presunto, massa bem massuda.

– Devo ministrar uma dose ao boneco também?