O Leme quer ser salvo

POR CECILIA GIANNETTI

“Salvem o Leme”, clamam seus moradores, através de uma página no Facebook, que é o correspondente atual das antigas marchas nas quais as pessoas vestiam branco pedindo paz quando algum ato de violência ainda era capaz de choca-las, ou verde pedindo a preservação de áreas, bom, verdes, etc.

O protesto dos moradores do Leme (Zona Sul carioca) e de uma longa lista de entidades ligadas aos interesses da área é contra a ideia da Companhia Caminho Aéreo Pão de Açúcar – a mesma do bondinho do Pão de Açúcar – de construir uma estação de acesso à visitação na praia do Forte do Leme, além de outras duas estações no Morro do Leme, no Forte Duque de Caxias (sítio histórico tombado polo Conselho Municipal de Cultura, pelo Decreto Municipal n.° 6.933, de 1987), de onde seguiriam por um conjunto de cabos até o Morro da Urca e ao Pão de Açúcar.

Não vejo a possibilidade de os moradores e as entidades contrárias a esse projeto vencerem a briga. Posso estar errada; o mundo é um lugar bem louco, que todos os dias alegremente nos oferece provas de sua insanidade. Quase tudo, portanto, é possível. Mas isso parece mesmo difícil diante de tantas outras lutas perdidas entre a vontade do contribuinte e a de uma empresa desse porte.

Afinal, já está em andamento a marcação das árvores na Área de Proteção Ambiental do Morro do Leme, onde fica o Forte Duque de Caxias. A medida foi decretada no Memorando de Entedimento firmado entre o Exército Brasileiro e a Companhia Caminho Áereo Pão de Açúcar. Algumas das árvores encontram-se na direção da Praça Júlio de Noronha. Quem vive no local há mais de 30 anos conhece a história dos constantes incêndios que atingiram sua vegetação e de como voluntários trabalharam no reflorestamento da área.

Os Morros do Leme e da Babilônia possuem cobertura vegetal que integra o Bioma Mata Atlântica, protegida por Lei Federal (11.428/2006). E, de acordo com o vereador Paulo Messina, a respeito da proteção legal da área: “Na APA do Morro do Leme encontram-se espécies da flora endêmicas e ameaçadas de extinção, que têm seu habitat nos extratos da mata e nas escarpas rochosas, e que, pelo Decreto Federal n° 750/93 art. 7°, é considerada de preservação permanente, ficando proibida qualquer alteração, corte, exploração, ou supressão desta vegetação; o que é também reforçado pela Constituição Estadual, no art. 265 inciso IV, e pela Lei Orgânica, no art. 463 inciso 9° alínea d.”

O Forte Duque de Caxias já oferece acesso ao morador ou turista, através de passeio ecológico a pé ou por viatura (aos portadores de necessidades especiais/idosos) por uma estrada calçada, pelo preço popular de R$ 4.

A primeira preocupação dos moradores é que possam perder “a pouca tranquilidade” que resta no bairro. “Sofreremos os transtornos que a Urca e o Cosme Velho já sofrem com a presença dos bondinhos do Pão de Açúcar e do Corcovado, que atraem milhares de visitantes por dia àqueles bairros,” afirmam. “Sabemos muito bem que o Leme não comporta isso.” E citam então a falta de vagas para estacionarem seus carros, trânsito caótico nos fimdes, férias e feriados, aterrorizados com a possbilidade da invasão dos ônibus repletos de turistas.

Outro problema seria a esculachada no visual do bairro; alegam os moradores que as duas estações lá em cima do Morro, mais duas redes de cabos aéreos, destruiriam o impacto de sua beleza natural. “Também perderíamos parte da praça do Forte e sua tranquilidade, tão importantes para o lazer dos moradores e turistas, pois seria construída ali a estação Leme com sua fila de pessoas aguardando para subir até o Morro do Leme.”

Reclamações de quem lá vive não faltam. Outros problemas mais graves podem surgir com o projeto, de acordo com as observações elencadas pelo Conselho Gestor da APA:

– O impacto ambiental causado pelo vazamento recorrente de esgoto da estação do Morro da Urca, pela encosta rochosa e sua vegetação, atingindo a pista Claudio Coutinho e poluindo a Praia Vermelha (caso a que não se dá solução);

– O impacto ambiental causado pela queda de graxa dos cabos do bondinho sobre as encostas do Pão de Açúcar;

– O lixo jogado pelos usuários do Morro da Urca (outro caso sem solução apropriada).

Se a Companhia Caminho Aéreo de fato construir uma estação de acesso a visitantes na Praça Júlio de Noronha, impedirá o uso do local pela Escola Municipal Santo Tomás de Aquino, por feiras livres, lazer e pela academia da 3ª idade, entre outras atividades da comunidade.

O Pão de Açúcar tem visitação anual em torno de 1 milhão e 300 mil cabeças, culminando em 4.500 por dia em alta temporada. Até 2016 planeja receber mais de 2 milhões ao ano. Com uma estação no Leme, esta, por estar junto à Praia da Copacabana, absorveria a maior parte dos 7.300 visitantes por dia em alta temporada. Viva-se com um barulho e movimento desses. Alguém então dirá que o Leme não é mais aquele.

Para não ficarem só no chamado “ativismo-de-sofá” (que, aliás, várias vezes se provou eficaz, com a assinatura de petições via web como as que são propostas pela organização All Out), os moradores farão uma manifestação no próximo domingo, 17.02, a partir das 10h, na praça Júlio de Noronha.

A esperança, sabem como é…