A importância de ser muito importante

POR CECILIA GIANNETTI

Tenho plena consciência de que recentemente critiquei aqui o exclusivíssimo beach club Aqueloo (meu protesto, considerado uma violação por alguns, devidamente registrado na caderneta pela Patrulha e pelo qual um dia hão de me cobrar), mas não quer dizer que esteja em uma cruzada contra os VIPs desta cidade, ou do país. Às vezes acho que eles é que estão em uma cruzada contra os não-VIPs. Não tenho nada contra dinheiro (honesto), nem gente que o multiplica e gasta como se não houvesse amanhã. Só vale lembrar que foi necessária uma intervenção por parte da prefeitura do Rio para proibir a venda de abadás e o uso de cordas para cercar áreas para “pessoas muito importantes” em blocos de rua neste carnaval.

Penso em um experimento científico em que se colocassem VIPs profissionais no miolo do Bola Preta sem quaisquer de seus aparatos costumeiros (cordão de isolamento, seguranças, fotógrafos para fazerem pose de vítimas ou uma bolha de ar-refrigerado) e, melhor, se de alguma maneira só pudessem chegar até o local da muvuca de trem.

Digressiono.

Mais uma vez: não se trata de preconceito contra essa minoria tão mal falada, os VIPs. É só que esta época do ano desperta no Rio de Janeiro suas ganas de tornar-se capital mundial da Very Important People, mais do que noutras épocas e eventos, epicentro do fenômeno em um país de Very Important People mediante fama passageira ou conta bancária parruda. Alguns camarotes no sambódromo chegam a cobrar mais de R$ 5 mil por pessoa a cada noite, cartões de entrada para se curtir a melhor vista dos desfiles de nossas escolas de samba, pajeados por serviçais que servem comes e bebes “diferenciados” e até cabeleireiros e maquiadores de plantão em salões de beleza montados para manter as beldades ainda belas com o virar da noite e dos copos. Quem não for VIP nem grande amigo de um (que lhe faça o favor de descolar sua entrada provisória no mundo VIP), compre um ingresso como o povo das arquibancadas ou contente-se em chutar o balde nos blocos. O que é sempre excelente.

O desfile das escolas fica praticamente em segundo plano diante do desfile de mulheres economicamente vestidas e turbinadas graças à medicina e à malhação.

Baile do Copa: tema deste ano foi Sherazade

O glamour de bailes tradicionais, como o do Copacabana Palace, parece cheirar a mofo e há muito foi substituído pelos abadás de cervejarias na escala VIP. Embora a presença da ex-BBB Ariadna nos salões do hotel este ano possa ainda ter surpreendido alguns frequentadores – e há quem frequente o baile todos os anos há décadas, literalmente décadas, conforme me informaram algumas sessentinhas e setentinhas perigosamente erguidas sobre sandálias plataforma, algo inapropriadas para quem ainda deseja mais alguns anos de vida pela frente.

Apesar da presença de algumas subcelebridades, o hotel ainda faz o que pode para manter sua aparência de exclusividade em tempos de camarotes lotados e disputas por copos de chope entre os muito importantes – o número de convidados neste ano para a gala intitulada “Sherazade Magic Ball” foi de “apenas” quase mil convidados. Um esforço para sustentar a ideia de uma classe de foliões superior e mais tradicional, não obstante a subceleb citada. Mil convidados contra mais do que o dobro 2 mil em alguns camarotes de marcas de cerveja no sambódromo. E há no Copa menos espaço para Ariadnas; o hotel aposta mesmo é em famosos de mais quilate, como Monica Belluci e Vincent Cassel, que recentemente mudaram-se para o Rio, velhos habitués da festa.

Os ingressos, para quem não é convidado do Copa apenas por ser famoso, custam mais baratinho do que os de camarotes de cervas: por pessoa: R$ 1.750 (individual, sem direito à mesa) e R$ 4.200 (camarote, mínimo de dez pessoas).

Quando uma revista me mandou convite para ir até o Copa fazer uma crônica sobre o baile, a questão da roupa surgiu como a versão de apartheid local. É altamente recomendável (exigido, mas eles tentam fazer isso soar como algo menos tenso nas especificações do convite – apenas até você chegar à porta do baile e ameaçarem te barrar), se você não tiver o calibre da Belluci nem for uma das dezenas de modelos contratadas ou persuadidas a embelezar o mar de cabeças VIPs que percorrem aqueles salões, que seu vestido seja um longo deslumbrante. E deve se parecer de alguma maneira com uma fantasia.

Eu não tinha um longa e não planejava de forma alguma adquirir um para passar a noite observando e anotando os hábitos de foliões abastados. Certamente tentei, antes de desistir totalmente da ideia: mas logo na primeira loja especializada em aluguel de roupas desse gênero que visitei, em Copacabana (é claro), fui apresentada a trajes que exalavam um estranho odor de algum tipo de produto de “conservação”, estilos que não faziam nenhum favor a qualquer pessoa com menos de 1,80m de altura e à base de preços proibitivos cobrados para sair por aí se exibindo naquilo por apenas e tão somente uma noite. Não, a revista não cobre o aluguel do traje.

Comprei um vestido preto que considerei longo o suficiente para assim ser qualificado, por um valor razoável, e toquei pro bailão. Ricos são eles, eu sou uma turista fotografando e anotando seu comportamento quando se tornam mais selvagens, não coincidentemente no carnaval – como quando se reúnem em torno do piano de cauda de um dos salões e depositam sobre ele seus pratos de comida, como se estivessem em um bufê barato.

Antes ainda que eu pudesse testemunhar isso, lá na fila de entrada, tentaram me barrar. Eu não estava usando um esplendor na cabeça e meu vestido não foi considerado exótico o suficiente para o “Magic Ball”. Um sujeito de smoking que aguardava atrás de mim na fila se aproximou da assessora que guardava o portão sagrado do Copa e resolveu a situação. Não sei por que, nem com qual intento, mas o resultado direto de seu cochicho no ouvido da mulher com cara de poucos amigos foi que eu pude entrar e fazer meu trabalho.

Lá dentro havia a dar com pau senhores pra lá de Marrakesh que gostavam de puxar para uma dança os rabos de saia que cruzavam seu caminho. Mesmo que essa saia não tivesse custado uma fortuna, como a minha. Uma espécie de versão da terceira idade dos rapazes que puxam o cabelo de mulheres em certos tipos de boates, quando querem estabelecer contato com elas e – estranhamente – ganhar sua simpatia. Repito: nada contra dinheiro  (honesto). É só que nos blocos de rua, com seus banheiros químicos e alegre desorganização equilibrada, muita vez vi mais elegância.