Para sair da caverna

POR CECILIA GIANNETTI

“Investi na amizade, no capital erótico, e não me arrependo. A salvação está em você se dar, se aplicar aos outros. A única coisa não perdoável é não fazer. É preciso vencer esse encaramujamento narcísico, essa tendência à uteração, ao suicídio.” – Hélio Pellegrino, em carta a Fernando Sabino.

Sou uma falsa extrovertida, uma tímida disfarçada como animadora de festas. Coro com facilidade, o que escondo ainda mais facilmente deixando uma madeixa grossa cair de cada lado do meu rosto. Os cabelos são essa cortina segura, me dão a sensação de que não se pode me ver por inteiro. Não só as bochechas corando, mas também outras emoções que posso exprimir sem querer. É o esconderijo perfeito: à vista de todos, insuspeito.

Desde criança, para disfarçar a timidez, desenvolvi uma complexa estratégia de esforço de socialização que, com paciência e treino, me levou até a aprontar algumas das melhores e mais barulhentas discotecadas de quintal da turma na adolescência e por algum tempo depois da adolescência também. Me levou inclusive a conseguir entrar para uma turma. Para mais de uma. Para quantas eu quisesse. Uma imensa evolução para quem se escondia em todo recreio da escola. (Três alternativas para você acertar: 1) debaixo da mesa da professora; 2) na sala do Serviço de Orientação Educacional, com suas psicólogas de diploma comprado 3) na biblioteca).

O que eu fiz, a princípio, foi observar comediantes (Peter Sellers, Jerry Lewis, Os Trapalhões na Sessão da Tarde). Percebi que, por mais que se atrapalhassem, sempre acabavam agradando. Virei a palhaça do grupo, que é alguém de quem todos costumam gostar na escola. E na faculdade. E na firma. Na vida, quando querem alguém que “anime o ambiente” ou os entretenha com histórias malucas quando se sentem sozinhos.

Dizem que se você finge bem uma coisa por tempo o bastante, a coisa deixa de ser um fingimento e se torna real.

Às vezes, por mais esforço que o outro faça para disfarçar sua natureza (para se autopreservar, ou parecer algo que não é), essa mesma natureza acaba transparecendo cristalina, acidentalmente, graças a algum comentário ou gesto aparentemente corriqueiro que faz sem perceber. Com experiência em disfarçar a timidez desde criança, e há três décadas espiã viciada em observar as pessoas quando elas pensam que não estão sob qualquer escrutínio, de guarda baixada, acredito ter uma boa noção de quando estou diante de uma performance teatral fora de um palco. Nem todo mundo faz isso por mal. Mas por melhores que sejam as nossas intenções ao resguardar uma faceta nossa e apresentar outra inventada, que não nos pertence senão por empréstimo, o Encontro só se concretiza no que é real e honesto. E isso é bem difícil de se achar.

A forma que eu encontrei para disfarçar a timidez que me impedia de fazer várias coisas se tornou uma parte real de mim conforme o hábito a engolfou e moldou-a à minha personalidade. Não é mais uma performance.

Ainda fico vermelha por qualquer coisa, a tímida ainda mora aqui. A diferença é que arranjei ferramentas para amenizar seu sofrimento. Uma delas é escrever (de preferência sendo publicada).

Ler, escrever – é tudo conversa, também é Busca e Encontro. Até mesmo o Schopenhauer, que não é exatamente o cara mais animado da biblioteca, consegue mandar um bom papo às vezes se você ignorar todo o pessimismo e a cisma dele com a miséria humana. Tirando ele, que provavelmente lhe aconselharia a jamais deixar a sua caverna, muitos escritores são guias especializados em mostrar o caminho das pedras para sair dela. E o trabalho duro mesmo está lá do lado de fora.

Aquele pensamento do Pellegrino que abre o texto fica numa página eternamente marcada em um livro que não tiro do meu quarto, apesar de conhecer a citação de cor. É utilíssima todo dia em que desperto e encaro as cortinas fechadas com o olhar ainda borrado de sono. Preciso não esquecer esse raciocínio, para sair de mim, para sair de casa, para o simples ato de ir ver gente na rua.

Sai da toca, malandragem

Quando falo em Busca e Encontro, refiro-me a acontecimentos ordinários: nada de perseguições de carros, nem guarda-costas bonitões que se apaixonam pela cantora que devem proteger, muito menos alienígenas ou cenas de sexo quente no laboratório do Grande Acelerador de Partículas, embora eu conheça gente que se considera tão genial quanto um vencedor do Nobel de física porque uma vez conseguiu abrir um vidro de palmitos tentando me impressionar.

Ordinário e simples são palavras que dão conta da aparência dos fatos melhor do que dos fatos em si. Eis uma noção que parece bastante simples: não existe impedimento ao Encontro quando buscamos por ele – exceto os giros que dá a vida e os milhares de atritos e possibilidades infinitas de ruído na comunicação com o outro. Em suma: o caldo grosso do mundo, a gente boia nele e de vez em quando se esbarra. Como aqui.