Meu soldado Alemão

POR CECILIA GIANNETTI

No final dos anos 1970 a Ilha do Governador ainda um paraíso cheio de ruas seguras pras crianças brincarem de queimado, vôlei e atirar bolas e outros objetos sobre carros que passavam. Para quem não sabe onde fica a Ilha, basta dizer que é onde enfiaram o Aeroporto Internacional Antonio Carlos Jobim e que ninguém gosta de ir ter que até lá pegar um vôo doméstico quando sua companhia aérea só tem passagens em promoção para aviões saindo daquele aeroporto. É longe mesmo.

Depois que você ultrapassa o aeroporto, tem praticamente uma cidade lá, cercada por morros onde o tráfico de drogas é quem manda – mesmo em tempos de UPP pra lá, UPP pra cá. Mas eu falava de tempos pré-UPP. Atirar objetos pela janela para atingir o quintal da casa de vizinhos também era uma brincadeira muito comum na minha época de moleque. Moleque porque não fui bem menina, mas orgulhosamente um garoto junto com os garotos. Ficava desanimada quando só tinha meninas pra brincar comigo, porque elas não viam graça em atirar objetos aleatoriamente por cima veículos em movimento ou em quintais nem nos telhados dos outros. Atirar uma Barbie, então, nem pensar. Nem uma Barbie muito velha. “E uma boneca da coleção Moranguinho, vocês topam?” Não, elas nunca topavam.

Com os meninos, brincava mais era de quartel. Eu os fazia rastejar em um quintal de terra e no meio do mato, em um terreno de casas que estavam com sua construção parada havia algum tempo. Eles carregavam metralhadoras imaginárias ou pedaços de pau, e eu os obrigava a escalar uma corda que havia pendurada no galho mais alto de uma das mangueiras mais altas que já vi na minha vida, a título de treinamento para uma guerra que vivíamos esperando chegar. E ainda tinham que bater continência para mim.

Antes mesmo de eu tomar conhecimento das guerras do tráfico na Ilha do Governador, entendi que na minha própria casa havia dois oponentes em constante pé-de-guerra, meus pais. E quando esses dois inimigos entravam em batalha, eu tinha uma espécie de salvador que me tirava da trincheira e carregava pra rua. Eu tinha uns 8 anos quando começamos a fugir juntos dos bombardeios. Alemão, como era conhecido esse irmão da minha mãe, era o mais alto, o mais branquelo e o único loiro de olhos azuis do lado dela da família. Nunca entraram a fundo nessa questão, ele e os outros irmãos, todos bem diferentes dele, de cabelos e olhos castanhos ou pretos. Não que eu saiba. O limite era a piada de ele ser filho do leiteiro e olhe lá. Eu também loira de olhos azuis, era comum que achassem, aonde meu tio me levasse, que ele era meu pai, uma coisa que nem eu nem ele tivemos vontade de desmentir em qualquer das ocasiões quando ele me resgatou e levou pra rua.

Nunca vi um leiteiro loiro de olhos azuis. Não no subúrbio, nem fora dele. Leiteiro é coisa do tempo do meu tio, que hoje está chegando aos 80 anos.

O que os adultos que eu conhecia faziam quando não sabiam o que fazer com uma criança era entupir de comida, de preferência coisas muito calóricas e doces, que lhe apaziguassem as sirenes da garganta. Mas a sorveteria não era nosso único pit stop nas andanças com Alemão, era só o primeiro e o mais rápido. Assim que eu escolhia o sabor e começava a destruir a primeira bola de sorvete com a língua, o Alemão já me puxava pela mão para o destino final da jornada de fuga: o bar que ficava perto da sorveteria. Quando meu sorvete acabava, já estávamos sentados e meu tio tinha a sua frente um copo e uma garrafa de cerveja. “Quer um refrigerante?” Não tinha mais muita coisa que ele pudesse conversar comigo num boteco.

Meu tio era um santo.

Podia estar lá, tomando sossegado a cerveja dele com os amigos, ou lendo um jornal sozinho, mas não, me levava junto. Eu imaginava, àquela altura, que era uma coisa importante pra um homem fazer, ir ao bar sozinho e conversar com outros homens como ele, jogar purrinha. Porque era o que eu via os homens fazerem.

Meu tio era um abnegado.

Eu achava que devia ser uma melhor companheira pra ele do que alguém que só se senta ali feito uma tonta e toma sorvete. Um dia decidi acompanhá-lo mesmo: peguei o copo dele e experimentei a espuma branca que transbordava da tulipa do meu tio. Gelado. Era como o sorvete dele. Claramente coisa pra homem, porque se por acaso eu sorvia um pouco mais além da espuma, a parte realmente gelada e amarela que preenchia o copo era amarga.

Meu tio observou, sem ralhar, eu sorver a espuma da cerveja dele. Depois disso todas as vezes em que fugíamos de casa durante um episódio de guerra conjugal entre meus pais, ele passou a me conceder alguma “puminha”. Éramos os felizardos, longe do campo de batalha, tomando a nossa e relaxando um pouco na base antes de voltarmos para ver o estrago dos bombardeios. Eu não chegava a beber um copo inteiro, meu tio não permitiria, mas de espuminha em espuminha ficava alegre. Ele mantinha rígido controle sobre o quanto eu bebia da espuma porque eu já tinha um histórico. Contam que aos 4 anos eu bebi, apesar do cheiro e do sabor (ora, tem criança que come até cocô…) uma dose de algum destilado que deixaram num copo sobre a mesa de centro da sala durante uma festa. Primeiro fiquei alegre e pulei muito e fiz várias gracinhas pros amigos dos meus pais. Quando comecei a falar enrolado, devem ter cheirado minha boca e diagnosticado bebice. É o que me relataram sobre o episódio, que terminou com meu pai e minha mãe dirigindo o Corcel verde escuro por toda a Ilha do Governador e falando comigo sem parar, pra me impedir de dormir e, sei lá, entrar em coma alcóolica. Não sei o que passou pela cabeça deles, acho que deve ter sido pavor.

Quando voltávamos do bar pra rua Etna, rua com nome de vulcão, eu acabava apagando no sofá e o Alemão começava seu árduo trabalho de reconstruir a moral dos soldados cansados dos dois lados da guerra. Ele fazia o melhor que podia, enquanto eu ia atrás dos meninos no quartel imaginário, no terreno da construção, e aí os garotos batiam continência pra mim.