Bolhas

POR CECILIA GIANNETTI

Sou uma prisioneira da Bolha Imobiliária que jamais vai explodir.

Quero mudar de apartamento e de bairro. O prédio e a rua aqui são barulhentos e sou uma carioca caprichosa (“mal-acostumada”, vão dizer alguns): não gosto de ficar longe de praia limpa, mesmo quando preciso optar pelo trabalho trancafiada no meu escritório a tomar banho de mar. A praia mais próxima apresenta água de cor marrom. Não confio nesta praia. O monstro da Lagoa Rodrigo de Freitas, nosso equivalente do Monstro do Lago Ness, há muito mudou-se para ela (por causa da Bolha Imobiliária, está caro viver na Lagoa).

Não mudei daqui ainda porque o preços de aluguel no Rio de Janeiro permanecem proibitivos há alguns anos e encontrar um bom imóvel por quantia que de fato o valha é tema de ficção científica. Mesmo a Tijuca, que até pouco tempo mantinha-se como último reduto dos valores sensatos, rendeu-se a cobrar pela tabela da Zona Sul.

A Bolha Imobiliária jamais vai explodir porque não reconhecem sua existência.

Em setembro de 2012 a agência classificadora de risco Fitch nos mandou informar, toda pimpona, de que não existe Bolha Imobiliária no Brasil. E mais: principalmente no Rio de Janeiro e em São Paulo, os preços de imóveis residenciais já atingiram estabilidade, seu teto finito. Mas há um problema com esse teto: é tão alto que não se enxerga cá da Terra. O ponto onde reside tal estabilidade é lá nos píncaros da estratosfera. Isso não interessa à Fitch. Interessa a quem quer sair do lugar mantendo seus gastos dentro dos limites aceitáveis aos entusiastas da Razão.

Já sumiu o sol convidativo que havia aparecido hoje cedo lá fora, e que deveria ter servido para enxugar a lama criada pela chuva de ontem. O sol não teve tempo para isso. Nem para me tirar de casa. Menos uma provação. Provação para quem vive de escrever, e precisa resistir às tentações de correr ao banho no Posto 9 para, em vez disso, manter em dia o escrevescreve na tela Retina: crônica, romance, conto, traduções, e-mails e SMS para ele via WhatsApp terminando tudo, tudo só para recomeçar tudo, tudo na semana que vem ou na outra. Se mudar de apartamento está difícil, mudar de relacionamento está muito mais. Parece, também, uma Bolha Sentimental assola a cidade. Caro demais desengatar afetos, tudo, tudo caro demais.

Mas eis que surge outra provação mais poderosa do que o sol que foi embora, uma que talvez consiga me tirar desta sala hoje: sujeita que acaba de se mudar para o apartamento abaixo do meu decidiu que esta segunda-feira era um bom dia para furar o teto e colocar persianas novas ou um ventilador, o que for. A furadeira, sem dúvida alguma, trabalha agora bem abaixo da mesa onde estaciono meu laptop. A sala inteira treme. O barulho chega a encobrir as vozes que sobem do bar da esquina, o que considero um feito e tanto, assim tão próximo do carnaval, com todos já devidamente fantasiados e bêbados às 10h da manhã de um dia útil. Quero acreditar que esses foliões são sobras da noite passada, que talvez tenham amanhecido no bar como vestígios de um bloco domingueiro que arrastou gente até aqui, patinhando na lama que toma as calçadas.

O incômodo da vizinha perfuradora é agora mais persistente do que foi a tentação do sol. Furar o teto dela (ou seja, o meu chão) é tarefa demorada. Já lá se vai uma meia-hora nisso. E a mulher – ou quem quer que seja que tenha contratado para fazê-lo – entrega-se ao serviço com sadismo. Um dentista escavando um canal. Um canal abaixo dos meus pés. Não olho para baixo: o chão sob a mesa onde estaciono meu laptop deve apresentar agora uma daquelas linhas de recorte arredondado, arredondado feito uma bolha, que aparecem em desenhos animados, e a qualquer momento o chão cederá sob este exato recorte, como em um desenho animado. Escoarei pelo buraco com computador e tudo, como em um desenho animado, direto ao apartamento abaixo do meu. Espero aterrissar sobre a cabeça da nova moradora do prédio, que chegou aqui fugindo da Bolha Imobiliária que especialistas da magnífica Fitch alegam não existir no Brasil.