O Leme quer ser salvo

POR CECILIA GIANNETTI

“Salvem o Leme”, clamam seus moradores, através de uma página no Facebook, que é o correspondente atual das antigas marchas nas quais as pessoas vestiam branco pedindo paz quando algum ato de violência ainda era capaz de choca-las, ou verde pedindo a preservação de áreas, bom, verdes, etc.

O protesto dos moradores do Leme (Zona Sul carioca) e de uma longa lista de entidades ligadas aos interesses da área é contra a ideia da Companhia Caminho Aéreo Pão de Açúcar – a mesma do bondinho do Pão de Açúcar – de construir uma estação de acesso à visitação na praia do Forte do Leme, além de outras duas estações no Morro do Leme, no Forte Duque de Caxias (sítio histórico tombado polo Conselho Municipal de Cultura, pelo Decreto Municipal n.° 6.933, de 1987), de onde seguiriam por um conjunto de cabos até o Morro da Urca e ao Pão de Açúcar.

Não vejo a possibilidade de os moradores e as entidades contrárias a esse projeto vencerem a briga. Posso estar errada; o mundo é um lugar bem louco, que todos os dias alegremente nos oferece provas de sua insanidade. Quase tudo, portanto, é possível. Mas isso parece mesmo difícil diante de tantas outras lutas perdidas entre a vontade do contribuinte e a de uma empresa desse porte.

Afinal, já está em andamento a marcação das árvores na Área de Proteção Ambiental do Morro do Leme, onde fica o Forte Duque de Caxias. A medida foi decretada no Memorando de Entedimento firmado entre o Exército Brasileiro e a Companhia Caminho Áereo Pão de Açúcar. Algumas das árvores encontram-se na direção da Praça Júlio de Noronha. Quem vive no local há mais de 30 anos conhece a história dos constantes incêndios que atingiram sua vegetação e de como voluntários trabalharam no reflorestamento da área.

Os Morros do Leme e da Babilônia possuem cobertura vegetal que integra o Bioma Mata Atlântica, protegida por Lei Federal (11.428/2006). E, de acordo com o vereador Paulo Messina, a respeito da proteção legal da área: “Na APA do Morro do Leme encontram-se espécies da flora endêmicas e ameaçadas de extinção, que têm seu habitat nos extratos da mata e nas escarpas rochosas, e que, pelo Decreto Federal n° 750/93 art. 7°, é considerada de preservação permanente, ficando proibida qualquer alteração, corte, exploração, ou supressão desta vegetação; o que é também reforçado pela Constituição Estadual, no art. 265 inciso IV, e pela Lei Orgânica, no art. 463 inciso 9° alínea d.”

O Forte Duque de Caxias já oferece acesso ao morador ou turista, através de passeio ecológico a pé ou por viatura (aos portadores de necessidades especiais/idosos) por uma estrada calçada, pelo preço popular de R$ 4.

A primeira preocupação dos moradores é que possam perder “a pouca tranquilidade” que resta no bairro. “Sofreremos os transtornos que a Urca e o Cosme Velho já sofrem com a presença dos bondinhos do Pão de Açúcar e do Corcovado, que atraem milhares de visitantes por dia àqueles bairros,” afirmam. “Sabemos muito bem que o Leme não comporta isso.” E citam então a falta de vagas para estacionarem seus carros, trânsito caótico nos fimdes, férias e feriados, aterrorizados com a possbilidade da invasão dos ônibus repletos de turistas.

Outro problema seria a esculachada no visual do bairro; alegam os moradores que as duas estações lá em cima do Morro, mais duas redes de cabos aéreos, destruiriam o impacto de sua beleza natural. “Também perderíamos parte da praça do Forte e sua tranquilidade, tão importantes para o lazer dos moradores e turistas, pois seria construída ali a estação Leme com sua fila de pessoas aguardando para subir até o Morro do Leme.”

Reclamações de quem lá vive não faltam. Outros problemas mais graves podem surgir com o projeto, de acordo com as observações elencadas pelo Conselho Gestor da APA:

– O impacto ambiental causado pelo vazamento recorrente de esgoto da estação do Morro da Urca, pela encosta rochosa e sua vegetação, atingindo a pista Claudio Coutinho e poluindo a Praia Vermelha (caso a que não se dá solução);

– O impacto ambiental causado pela queda de graxa dos cabos do bondinho sobre as encostas do Pão de Açúcar;

– O lixo jogado pelos usuários do Morro da Urca (outro caso sem solução apropriada).

Se a Companhia Caminho Aéreo de fato construir uma estação de acesso a visitantes na Praça Júlio de Noronha, impedirá o uso do local pela Escola Municipal Santo Tomás de Aquino, por feiras livres, lazer e pela academia da 3ª idade, entre outras atividades da comunidade.

O Pão de Açúcar tem visitação anual em torno de 1 milhão e 300 mil cabeças, culminando em 4.500 por dia em alta temporada. Até 2016 planeja receber mais de 2 milhões ao ano. Com uma estação no Leme, esta, por estar junto à Praia da Copacabana, absorveria a maior parte dos 7.300 visitantes por dia em alta temporada. Viva-se com um barulho e movimento desses. Alguém então dirá que o Leme não é mais aquele.

Para não ficarem só no chamado “ativismo-de-sofá” (que, aliás, várias vezes se provou eficaz, com a assinatura de petições via web como as que são propostas pela organização All Out), os moradores farão uma manifestação no próximo domingo, 17.02, a partir das 10h, na praça Júlio de Noronha.

A esperança, sabem como é…

A importância de ser muito importante

POR CECILIA GIANNETTI

Tenho plena consciência de que recentemente critiquei aqui o exclusivíssimo beach club Aqueloo (meu protesto, considerado uma violação por alguns, devidamente registrado na caderneta pela Patrulha e pelo qual um dia hão de me cobrar), mas não quer dizer que esteja em uma cruzada contra os VIPs desta cidade, ou do país. Às vezes acho que eles é que estão em uma cruzada contra os não-VIPs. Não tenho nada contra dinheiro (honesto), nem gente que o multiplica e gasta como se não houvesse amanhã. Só vale lembrar que foi necessária uma intervenção por parte da prefeitura do Rio para proibir a venda de abadás e o uso de cordas para cercar áreas para “pessoas muito importantes” em blocos de rua neste carnaval.

Penso em um experimento científico em que se colocassem VIPs profissionais no miolo do Bola Preta sem quaisquer de seus aparatos costumeiros (cordão de isolamento, seguranças, fotógrafos para fazerem pose de vítimas ou uma bolha de ar-refrigerado) e, melhor, se de alguma maneira só pudessem chegar até o local da muvuca de trem.

Digressiono.

Mais uma vez: não se trata de preconceito contra essa minoria tão mal falada, os VIPs. É só que esta época do ano desperta no Rio de Janeiro suas ganas de tornar-se capital mundial da Very Important People, mais do que noutras épocas e eventos, epicentro do fenômeno em um país de Very Important People mediante fama passageira ou conta bancária parruda. Alguns camarotes no sambódromo chegam a cobrar mais de R$ 5 mil por pessoa a cada noite, cartões de entrada para se curtir a melhor vista dos desfiles de nossas escolas de samba, pajeados por serviçais que servem comes e bebes “diferenciados” e até cabeleireiros e maquiadores de plantão em salões de beleza montados para manter as beldades ainda belas com o virar da noite e dos copos. Quem não for VIP nem grande amigo de um (que lhe faça o favor de descolar sua entrada provisória no mundo VIP), compre um ingresso como o povo das arquibancadas ou contente-se em chutar o balde nos blocos. O que é sempre excelente.

O desfile das escolas fica praticamente em segundo plano diante do desfile de mulheres economicamente vestidas e turbinadas graças à medicina e à malhação.

Baile do Copa: tema deste ano foi Sherazade

O glamour de bailes tradicionais, como o do Copacabana Palace, parece cheirar a mofo e há muito foi substituído pelos abadás de cervejarias na escala VIP. Embora a presença da ex-BBB Ariadna nos salões do hotel este ano possa ainda ter surpreendido alguns frequentadores – e há quem frequente o baile todos os anos há décadas, literalmente décadas, conforme me informaram algumas sessentinhas e setentinhas perigosamente erguidas sobre sandálias plataforma, algo inapropriadas para quem ainda deseja mais alguns anos de vida pela frente.

Apesar da presença de algumas subcelebridades, o hotel ainda faz o que pode para manter sua aparência de exclusividade em tempos de camarotes lotados e disputas por copos de chope entre os muito importantes – o número de convidados neste ano para a gala intitulada “Sherazade Magic Ball” foi de “apenas” quase mil convidados. Um esforço para sustentar a ideia de uma classe de foliões superior e mais tradicional, não obstante a subceleb citada. Mil convidados contra mais do que o dobro 2 mil em alguns camarotes de marcas de cerveja no sambódromo. E há no Copa menos espaço para Ariadnas; o hotel aposta mesmo é em famosos de mais quilate, como Monica Belluci e Vincent Cassel, que recentemente mudaram-se para o Rio, velhos habitués da festa.

Os ingressos, para quem não é convidado do Copa apenas por ser famoso, custam mais baratinho do que os de camarotes de cervas: por pessoa: R$ 1.750 (individual, sem direito à mesa) e R$ 4.200 (camarote, mínimo de dez pessoas).

Quando uma revista me mandou convite para ir até o Copa fazer uma crônica sobre o baile, a questão da roupa surgiu como a versão de apartheid local. É altamente recomendável (exigido, mas eles tentam fazer isso soar como algo menos tenso nas especificações do convite – apenas até você chegar à porta do baile e ameaçarem te barrar), se você não tiver o calibre da Belluci nem for uma das dezenas de modelos contratadas ou persuadidas a embelezar o mar de cabeças VIPs que percorrem aqueles salões, que seu vestido seja um longo deslumbrante. E deve se parecer de alguma maneira com uma fantasia.

Eu não tinha um longa e não planejava de forma alguma adquirir um para passar a noite observando e anotando os hábitos de foliões abastados. Certamente tentei, antes de desistir totalmente da ideia: mas logo na primeira loja especializada em aluguel de roupas desse gênero que visitei, em Copacabana (é claro), fui apresentada a trajes que exalavam um estranho odor de algum tipo de produto de “conservação”, estilos que não faziam nenhum favor a qualquer pessoa com menos de 1,80m de altura e à base de preços proibitivos cobrados para sair por aí se exibindo naquilo por apenas e tão somente uma noite. Não, a revista não cobre o aluguel do traje.

Comprei um vestido preto que considerei longo o suficiente para assim ser qualificado, por um valor razoável, e toquei pro bailão. Ricos são eles, eu sou uma turista fotografando e anotando seu comportamento quando se tornam mais selvagens, não coincidentemente no carnaval – como quando se reúnem em torno do piano de cauda de um dos salões e depositam sobre ele seus pratos de comida, como se estivessem em um bufê barato.

Antes ainda que eu pudesse testemunhar isso, lá na fila de entrada, tentaram me barrar. Eu não estava usando um esplendor na cabeça e meu vestido não foi considerado exótico o suficiente para o “Magic Ball”. Um sujeito de smoking que aguardava atrás de mim na fila se aproximou da assessora que guardava o portão sagrado do Copa e resolveu a situação. Não sei por que, nem com qual intento, mas o resultado direto de seu cochicho no ouvido da mulher com cara de poucos amigos foi que eu pude entrar e fazer meu trabalho.

Lá dentro havia a dar com pau senhores pra lá de Marrakesh que gostavam de puxar para uma dança os rabos de saia que cruzavam seu caminho. Mesmo que essa saia não tivesse custado uma fortuna, como a minha. Uma espécie de versão da terceira idade dos rapazes que puxam o cabelo de mulheres em certos tipos de boates, quando querem estabelecer contato com elas e – estranhamente – ganhar sua simpatia. Repito: nada contra dinheiro  (honesto). É só que nos blocos de rua, com seus banheiros químicos e alegre desorganização equilibrada, muita vez vi mais elegância.

Destruindo a Internet 101

O quê? O Facebook vai controlar nossas vidas?!

POR CECILIA GIANNETTI

Este é um futuro que Marty McFly e Doc Brown não viram quando viajaram na Delorean. Gostaria que tivessem nos avisado caso qualquer coisa parecida com uma rede social com as proporções e raio de ação do Facebook tivesse chamado sua atenção durante sua viagem.

Hoje definitivamente não encaramos o Facebook como o fazíamos até certo ponto do dia ontem.

Uma coisa muito esquisita aconteceu nesta quinta-feira, 7 de fevereiro. Toda vez que clicava em um link de sites de peso como CNN, Washington Post, BuzzFeed, Huffington Post e Gawker, o internauta era misteriosamente redirecionado a uma página de erro no próprio Facebook.

A URL apresentava um código gerado aleatoriamente, mas era, sem dúvidas, uma página do Facebook. Tanto que era possível checar nela as suas notificações (os avisos de atividades do Facebook surgiam num canto da tela).

Era preciso dar “Log Off” do Facebook para fazer com que as páginas que você de fato queria visitar se tornassem novamente disponíveis.

O erro foi logo consertado pelo Facebook, mas aí a história já havia se espalhado e todo mundo dava o seu pitaco.

Os mais entendidos suspeitavam de que se tratava de um bug no todo-poderoso Facebook Connect, aquele botãozinho sorrateiro que Zuckerberg nos ofereceu em troca de nossa alma e, de acordo com a rede social, “facilita que você leve sua identidade online por toda a web, compartilhe o que você faz online com seus amigos e fique atualizado sobre o que eles estão fazendo. Você não terá que criar contas separadas para cada site, basta usar o seu login do Facebook em qualquer site onde o Facebook Connect estiver disponível.”

Outros sabichões conhecedores dos meandros da rede preferiram acusar o botão “Curtir” (Like), algo muito mais simples e mais amplamente utilizado do que o Facebook Connect. Todos os sites que continham um botão de “Curtir” redirecionavam o usuário ao Facebook.

De um jeito ou de outro, ficou claro que a cada vez que nós fomos redirecionados feito marionetes pelo bug, íamos parar em uma página controlada pelo Facebook.

Quantos sites você conhece e utiliza que possuem o Facebook Connect ou o botão de “Curtir”?

No final de janeiro um estudo divulgado pela Global Web Index mostrou a liderança do Facebook na web, com 903 milhões de contas. O Google+, com 343 milhões de usuários, tornou-se a segunda maior rede social em número de usuários ativos do mundo. O Youtube, em terceiro, com 300 milhões de usuários. O Twitter, em quarto, com 288 milhões.

Foi um bug consertado relativamente rápido. Mas serviu para nos deixar em estado de alerta. Não sem motivos.

“O Facebook controla a internet para os idiotas que utilizam o Facebook”, afirmou um comentarista em um fórum sobre o assunto, em um dos sites que saíram do ar ontem por conta do bug. Mas e todos aqueles que utilizam o Facebook para divulgar e manter o buzz e o diálogo aberto sobre sua empresa e/ou produto, desde grandes marcas a às menores e estreantes nos negócios? Aqueles que usam o Facebook para estabelecer e/ou manter boas conexões de trabalho, que podem lhes ser rentávei$, em vez de postar um relato sobre a salada que almoçou no Bibi Sucos ou que acabou de fazer as unhas no estilo francesinha (foto inclusa). Imagino que esse tipo de gente se beneficie financeiramente do Facebook. Eles não vão se importar se a rede de Zuckerberg os impedir de vez em quando de ver este ou aquele site, sequer chegam a imaginar que a rede de Zuckerberg pode derrubar uma parte considerável da web (o que não lhes traria lucro algum).

Think, McFly, think: os números da Global Web Index + como a pisada de bola do Facebook ontem nos permitiu enxergar por trás da coxia quem é o dono da web e o que esse mestre pode fazer quando e como quiser (ou “sem querer”, como parece ter sido o caso ontem) com a nossa liberdade de navegar pelos sites que escolhermos, conforme desejarmos. Este é o futuro, McFly. Marionetes, McFly.

Meu soldado Alemão

POR CECILIA GIANNETTI

No final dos anos 1970 a Ilha do Governador ainda um paraíso cheio de ruas seguras pras crianças brincarem de queimado, vôlei e atirar bolas e outros objetos sobre carros que passavam. Para quem não sabe onde fica a Ilha, basta dizer que é onde enfiaram o Aeroporto Internacional Antonio Carlos Jobim e que ninguém gosta de ir ter que até lá pegar um vôo doméstico quando sua companhia aérea só tem passagens em promoção para aviões saindo daquele aeroporto. É longe mesmo.

Depois que você ultrapassa o aeroporto, tem praticamente uma cidade lá, cercada por morros onde o tráfico de drogas é quem manda – mesmo em tempos de UPP pra lá, UPP pra cá. Mas eu falava de tempos pré-UPP. Atirar objetos pela janela para atingir o quintal da casa de vizinhos também era uma brincadeira muito comum na minha época de moleque. Moleque porque não fui bem menina, mas orgulhosamente um garoto junto com os garotos. Ficava desanimada quando só tinha meninas pra brincar comigo, porque elas não viam graça em atirar objetos aleatoriamente por cima veículos em movimento ou em quintais nem nos telhados dos outros. Atirar uma Barbie, então, nem pensar. Nem uma Barbie muito velha. “E uma boneca da coleção Moranguinho, vocês topam?” Não, elas nunca topavam.

Com os meninos, brincava mais era de quartel. Eu os fazia rastejar em um quintal de terra e no meio do mato, em um terreno de casas que estavam com sua construção parada havia algum tempo. Eles carregavam metralhadoras imaginárias ou pedaços de pau, e eu os obrigava a escalar uma corda que havia pendurada no galho mais alto de uma das mangueiras mais altas que já vi na minha vida, a título de treinamento para uma guerra que vivíamos esperando chegar. E ainda tinham que bater continência para mim.

Antes mesmo de eu tomar conhecimento das guerras do tráfico na Ilha do Governador, entendi que na minha própria casa havia dois oponentes em constante pé-de-guerra, meus pais. E quando esses dois inimigos entravam em batalha, eu tinha uma espécie de salvador que me tirava da trincheira e carregava pra rua. Eu tinha uns 8 anos quando começamos a fugir juntos dos bombardeios. Alemão, como era conhecido esse irmão da minha mãe, era o mais alto, o mais branquelo e o único loiro de olhos azuis do lado dela da família. Nunca entraram a fundo nessa questão, ele e os outros irmãos, todos bem diferentes dele, de cabelos e olhos castanhos ou pretos. Não que eu saiba. O limite era a piada de ele ser filho do leiteiro e olhe lá. Eu também loira de olhos azuis, era comum que achassem, aonde meu tio me levasse, que ele era meu pai, uma coisa que nem eu nem ele tivemos vontade de desmentir em qualquer das ocasiões quando ele me resgatou e levou pra rua.

Nunca vi um leiteiro loiro de olhos azuis. Não no subúrbio, nem fora dele. Leiteiro é coisa do tempo do meu tio, que hoje está chegando aos 80 anos.

O que os adultos que eu conhecia faziam quando não sabiam o que fazer com uma criança era entupir de comida, de preferência coisas muito calóricas e doces, que lhe apaziguassem as sirenes da garganta. Mas a sorveteria não era nosso único pit stop nas andanças com Alemão, era só o primeiro e o mais rápido. Assim que eu escolhia o sabor e começava a destruir a primeira bola de sorvete com a língua, o Alemão já me puxava pela mão para o destino final da jornada de fuga: o bar que ficava perto da sorveteria. Quando meu sorvete acabava, já estávamos sentados e meu tio tinha a sua frente um copo e uma garrafa de cerveja. “Quer um refrigerante?” Não tinha mais muita coisa que ele pudesse conversar comigo num boteco.

Meu tio era um santo.

Podia estar lá, tomando sossegado a cerveja dele com os amigos, ou lendo um jornal sozinho, mas não, me levava junto. Eu imaginava, àquela altura, que era uma coisa importante pra um homem fazer, ir ao bar sozinho e conversar com outros homens como ele, jogar purrinha. Porque era o que eu via os homens fazerem.

Meu tio era um abnegado.

Eu achava que devia ser uma melhor companheira pra ele do que alguém que só se senta ali feito uma tonta e toma sorvete. Um dia decidi acompanhá-lo mesmo: peguei o copo dele e experimentei a espuma branca que transbordava da tulipa do meu tio. Gelado. Era como o sorvete dele. Claramente coisa pra homem, porque se por acaso eu sorvia um pouco mais além da espuma, a parte realmente gelada e amarela que preenchia o copo era amarga.

Meu tio observou, sem ralhar, eu sorver a espuma da cerveja dele. Depois disso todas as vezes em que fugíamos de casa durante um episódio de guerra conjugal entre meus pais, ele passou a me conceder alguma “puminha”. Éramos os felizardos, longe do campo de batalha, tomando a nossa e relaxando um pouco na base antes de voltarmos para ver o estrago dos bombardeios. Eu não chegava a beber um copo inteiro, meu tio não permitiria, mas de espuminha em espuminha ficava alegre. Ele mantinha rígido controle sobre o quanto eu bebia da espuma porque eu já tinha um histórico. Contam que aos 4 anos eu bebi, apesar do cheiro e do sabor (ora, tem criança que come até cocô…) uma dose de algum destilado que deixaram num copo sobre a mesa de centro da sala durante uma festa. Primeiro fiquei alegre e pulei muito e fiz várias gracinhas pros amigos dos meus pais. Quando comecei a falar enrolado, devem ter cheirado minha boca e diagnosticado bebice. É o que me relataram sobre o episódio, que terminou com meu pai e minha mãe dirigindo o Corcel verde escuro por toda a Ilha do Governador e falando comigo sem parar, pra me impedir de dormir e, sei lá, entrar em coma alcóolica. Não sei o que passou pela cabeça deles, acho que deve ter sido pavor.

Quando voltávamos do bar pra rua Etna, rua com nome de vulcão, eu acabava apagando no sofá e o Alemão começava seu árduo trabalho de reconstruir a moral dos soldados cansados dos dois lados da guerra. Ele fazia o melhor que podia, enquanto eu ia atrás dos meninos no quartel imaginário, no terreno da construção, e aí os garotos batiam continência pra mim.

Para sair da caverna

POR CECILIA GIANNETTI

“Investi na amizade, no capital erótico, e não me arrependo. A salvação está em você se dar, se aplicar aos outros. A única coisa não perdoável é não fazer. É preciso vencer esse encaramujamento narcísico, essa tendência à uteração, ao suicídio.” – Hélio Pellegrino, em carta a Fernando Sabino.

Sou uma falsa extrovertida, uma tímida disfarçada como animadora de festas. Coro com facilidade, o que escondo ainda mais facilmente deixando uma madeixa grossa cair de cada lado do meu rosto. Os cabelos são essa cortina segura, me dão a sensação de que não se pode me ver por inteiro. Não só as bochechas corando, mas também outras emoções que posso exprimir sem querer. É o esconderijo perfeito: à vista de todos, insuspeito.

Desde criança, para disfarçar a timidez, desenvolvi uma complexa estratégia de esforço de socialização que, com paciência e treino, me levou até a aprontar algumas das melhores e mais barulhentas discotecadas de quintal da turma na adolescência e por algum tempo depois da adolescência também. Me levou inclusive a conseguir entrar para uma turma. Para mais de uma. Para quantas eu quisesse. Uma imensa evolução para quem se escondia em todo recreio da escola. (Três alternativas para você acertar: 1) debaixo da mesa da professora; 2) na sala do Serviço de Orientação Educacional, com suas psicólogas de diploma comprado 3) na biblioteca).

O que eu fiz, a princípio, foi observar comediantes (Peter Sellers, Jerry Lewis, Os Trapalhões na Sessão da Tarde). Percebi que, por mais que se atrapalhassem, sempre acabavam agradando. Virei a palhaça do grupo, que é alguém de quem todos costumam gostar na escola. E na faculdade. E na firma. Na vida, quando querem alguém que “anime o ambiente” ou os entretenha com histórias malucas quando se sentem sozinhos.

Dizem que se você finge bem uma coisa por tempo o bastante, a coisa deixa de ser um fingimento e se torna real.

Às vezes, por mais esforço que o outro faça para disfarçar sua natureza (para se autopreservar, ou parecer algo que não é), essa mesma natureza acaba transparecendo cristalina, acidentalmente, graças a algum comentário ou gesto aparentemente corriqueiro que faz sem perceber. Com experiência em disfarçar a timidez desde criança, e há três décadas espiã viciada em observar as pessoas quando elas pensam que não estão sob qualquer escrutínio, de guarda baixada, acredito ter uma boa noção de quando estou diante de uma performance teatral fora de um palco. Nem todo mundo faz isso por mal. Mas por melhores que sejam as nossas intenções ao resguardar uma faceta nossa e apresentar outra inventada, que não nos pertence senão por empréstimo, o Encontro só se concretiza no que é real e honesto. E isso é bem difícil de se achar.

A forma que eu encontrei para disfarçar a timidez que me impedia de fazer várias coisas se tornou uma parte real de mim conforme o hábito a engolfou e moldou-a à minha personalidade. Não é mais uma performance.

Ainda fico vermelha por qualquer coisa, a tímida ainda mora aqui. A diferença é que arranjei ferramentas para amenizar seu sofrimento. Uma delas é escrever (de preferência sendo publicada).

Ler, escrever – é tudo conversa, também é Busca e Encontro. Até mesmo o Schopenhauer, que não é exatamente o cara mais animado da biblioteca, consegue mandar um bom papo às vezes se você ignorar todo o pessimismo e a cisma dele com a miséria humana. Tirando ele, que provavelmente lhe aconselharia a jamais deixar a sua caverna, muitos escritores são guias especializados em mostrar o caminho das pedras para sair dela. E o trabalho duro mesmo está lá do lado de fora.

Aquele pensamento do Pellegrino que abre o texto fica numa página eternamente marcada em um livro que não tiro do meu quarto, apesar de conhecer a citação de cor. É utilíssima todo dia em que desperto e encaro as cortinas fechadas com o olhar ainda borrado de sono. Preciso não esquecer esse raciocínio, para sair de mim, para sair de casa, para o simples ato de ir ver gente na rua.

Sai da toca, malandragem

Quando falo em Busca e Encontro, refiro-me a acontecimentos ordinários: nada de perseguições de carros, nem guarda-costas bonitões que se apaixonam pela cantora que devem proteger, muito menos alienígenas ou cenas de sexo quente no laboratório do Grande Acelerador de Partículas, embora eu conheça gente que se considera tão genial quanto um vencedor do Nobel de física porque uma vez conseguiu abrir um vidro de palmitos tentando me impressionar.

Ordinário e simples são palavras que dão conta da aparência dos fatos melhor do que dos fatos em si. Eis uma noção que parece bastante simples: não existe impedimento ao Encontro quando buscamos por ele – exceto os giros que dá a vida e os milhares de atritos e possibilidades infinitas de ruído na comunicação com o outro. Em suma: o caldo grosso do mundo, a gente boia nele e de vez em quando se esbarra. Como aqui.

Bolhas

POR CECILIA GIANNETTI

Sou uma prisioneira da Bolha Imobiliária que jamais vai explodir.

Quero mudar de apartamento e de bairro. O prédio e a rua aqui são barulhentos e sou uma carioca caprichosa (“mal-acostumada”, vão dizer alguns): não gosto de ficar longe de praia limpa, mesmo quando preciso optar pelo trabalho trancafiada no meu escritório a tomar banho de mar. A praia mais próxima apresenta água de cor marrom. Não confio nesta praia. O monstro da Lagoa Rodrigo de Freitas, nosso equivalente do Monstro do Lago Ness, há muito mudou-se para ela (por causa da Bolha Imobiliária, está caro viver na Lagoa).

Não mudei daqui ainda porque o preços de aluguel no Rio de Janeiro permanecem proibitivos há alguns anos e encontrar um bom imóvel por quantia que de fato o valha é tema de ficção científica. Mesmo a Tijuca, que até pouco tempo mantinha-se como último reduto dos valores sensatos, rendeu-se a cobrar pela tabela da Zona Sul.

A Bolha Imobiliária jamais vai explodir porque não reconhecem sua existência.

Em setembro de 2012 a agência classificadora de risco Fitch nos mandou informar, toda pimpona, de que não existe Bolha Imobiliária no Brasil. E mais: principalmente no Rio de Janeiro e em São Paulo, os preços de imóveis residenciais já atingiram estabilidade, seu teto finito. Mas há um problema com esse teto: é tão alto que não se enxerga cá da Terra. O ponto onde reside tal estabilidade é lá nos píncaros da estratosfera. Isso não interessa à Fitch. Interessa a quem quer sair do lugar mantendo seus gastos dentro dos limites aceitáveis aos entusiastas da Razão.

Já sumiu o sol convidativo que havia aparecido hoje cedo lá fora, e que deveria ter servido para enxugar a lama criada pela chuva de ontem. O sol não teve tempo para isso. Nem para me tirar de casa. Menos uma provação. Provação para quem vive de escrever, e precisa resistir às tentações de correr ao banho no Posto 9 para, em vez disso, manter em dia o escrevescreve na tela Retina: crônica, romance, conto, traduções, e-mails e SMS para ele via WhatsApp terminando tudo, tudo só para recomeçar tudo, tudo na semana que vem ou na outra. Se mudar de apartamento está difícil, mudar de relacionamento está muito mais. Parece, também, uma Bolha Sentimental assola a cidade. Caro demais desengatar afetos, tudo, tudo caro demais.

Mas eis que surge outra provação mais poderosa do que o sol que foi embora, uma que talvez consiga me tirar desta sala hoje: sujeita que acaba de se mudar para o apartamento abaixo do meu decidiu que esta segunda-feira era um bom dia para furar o teto e colocar persianas novas ou um ventilador, o que for. A furadeira, sem dúvida alguma, trabalha agora bem abaixo da mesa onde estaciono meu laptop. A sala inteira treme. O barulho chega a encobrir as vozes que sobem do bar da esquina, o que considero um feito e tanto, assim tão próximo do carnaval, com todos já devidamente fantasiados e bêbados às 10h da manhã de um dia útil. Quero acreditar que esses foliões são sobras da noite passada, que talvez tenham amanhecido no bar como vestígios de um bloco domingueiro que arrastou gente até aqui, patinhando na lama que toma as calçadas.

O incômodo da vizinha perfuradora é agora mais persistente do que foi a tentação do sol. Furar o teto dela (ou seja, o meu chão) é tarefa demorada. Já lá se vai uma meia-hora nisso. E a mulher – ou quem quer que seja que tenha contratado para fazê-lo – entrega-se ao serviço com sadismo. Um dentista escavando um canal. Um canal abaixo dos meus pés. Não olho para baixo: o chão sob a mesa onde estaciono meu laptop deve apresentar agora uma daquelas linhas de recorte arredondado, arredondado feito uma bolha, que aparecem em desenhos animados, e a qualquer momento o chão cederá sob este exato recorte, como em um desenho animado. Escoarei pelo buraco com computador e tudo, como em um desenho animado, direto ao apartamento abaixo do meu. Espero aterrissar sobre a cabeça da nova moradora do prédio, que chegou aqui fugindo da Bolha Imobiliária que especialistas da magnífica Fitch alegam não existir no Brasil.