O COMEÇO DO FIM DE COPA

Retrocesso em praia privada de Copacabana: todo mundo vestido

POR CECILIA GIANNETTI

Quando Copacabana converteu-se, em apenas meio século, de areal em local de piqueniques à beira-mar, deixando de ser Sacopenapã (“caminho dos socós” em Tupi) – nome ligado ao contrabando de prata -, foi para se tornar legendária atração carioca. Tinha mais ou menos 600 edificações já em 1901. A inauguração do Copacabana Palace ocorreu em 1923 e logo teve até Sarah Bernhardt tomando banho de mar em frente ao hotel. E tudo era aberto.

Copacabana começou pra rico e evoluiu pra todos: em 1960 já contava com mais de 240 mil moradores. Como lembra Carlos Lessa em seu “O Rio de todos os Brasis [Uma reflexão em busca de auto-estima]”, “O glamour de Copacabana dá origem a uma lenda carioca e brasileira. É o lugar mágico que permite combinar o banho de mar desinibido, o estar ao sol ou praticar jogos na areia, com a sofisticação das roupas a rigor dos night-clubs ou com o jantar à luz de velas em restaurante – obviamente para quem tem altas rendas.”

“Para o homem comum significa praia aberta e sem discriminação social (…) A colônia de pesca convive com o Clube Marimbás.”

Segundo Lessa, tratava-se de um avanço e de uma vitória: a cidade deixara de ser “A cópia tropicalizada de Paris.”

Corta para 2013 – damos um passo pra trás e afrancesamos de novo o que era carioca e bom. E não adianta espernear. Até porque podem dizer que é inveja de pobre. Podem tudo. Podem até construir praia fechada com camarotes de luxo que chegam a custar até R$ 10 mil em Área de Proteção Ambiental.

E construíram mesmo. Ali na área do Forte de Copacabana.

Espumantes e… muita roupa

Agora, no fim da praia e do bairro de Copa, funciona neste verão um clube VIP, com DJs importados, brunch, sushibar, hidromassagem e outros luxos que as areias da praia comum não oferecem. Mas as areias da praia comum também não cobram os olhos da cara para se estar nelas, feito toda gente sempre fez, bebendo cerveja de latinha, caipirinha ou água de coco da barraca que também aluga a preço módico as cadeiras de praia e serve seus fregueses onde estiverem refestelados – sem qualquer custo adicional. Isto já é atendimento cinco estrelas.

Não é por dor-de-cotovelo que comentamos, não. Vejam: a própria Associação de Moradores de Copacabana (Amacopa) esperneou. Desde o anúncio da criação do beach club, em fins do ano passado, mostrou-se contra e correu atrás de uma audiência com o comando do Forte para apresentar as queixas dos moradores. A Amacopa quis saber: se os moradores, que já sacam do bolso todo aquele giga-IPTU pelo privilégio de viver no bairro, nunca puderam usufruir da Área, quem seria mais Very Important People do que eles a ponto de poder? Pois há quem possa, agora podem, os mais VIPs dos VIPs. De nada adiantou a Amacopa espernear.

Em novembro de 2012 a Secretaria Especial de Ordem Pública (Seop) ainda não havia concedido o alvará que autorizaria o clube. Mas, ao que parece, deu-se um jeitinho, porque lá está o Aqueloo (é o nome da praia privativa), anunciando-se Saint Tropez dos trópicos: o empresário Daniel Barcinski, um dos responsáveis pelo clube, deixará de presente algumas melhorias em obras no local, paga ao Exército uns R$ 300 mil pelo aluguel e ponto final.

Vocês estão ou não estão na praia? Tirem. A. Roupa.

Sempre houve diferença entre as contas bancárias de quem frequenta Copacabana, mas também sempre a praia foi aberta e livre. Claro que boa música, excelentes chefs de cozinha, massagistas sob tendas e espumante no gelo ao lado de uma espreguiçadeira são excelentes refinamentos que poucos recusariam, dada a oportunidade de aproveita-los sob o sol.

Mas aqueles que espernearam e esperneiam ainda contra a instalação de um beach club fechado em Copacabana não querem exatamente entrar no clube – demonstram a vontade mais forte de manter o caráter democrático fundamental do bairro e de sua orla. Veem no clube o começo do fim de Copa.