ILHADOS

Montagem que é sucesso no Facebook brinca com a realidade dos alagamentos no Rio de Janeiro

POR CECILIA GIANNETTI

Estou presa em casa. Tenho uma consulta médica às 17h no Leblon mas, ainda que até lá a chuva que cai intermitente há dias dê outra estiada e a água que alaga a minha rua e as de vários bairros pelo caminho milagrosamente escoe por bueiros entupidos, não há garantia de que eu possa retornar para o meu apartamento vindo da consulta se cair outro pé d’água.

As estiadas são traiçoeiras. Porque fazem com que a gente acredite que pode sair à rua. Os cidadãos não podem sair a rua, não com a certeza de que poderão voltar para casa sem um colete salva-vidas e risco de leptospirose.

Ricos fôssemos, recorreríamos aos abrigos emergenciais fáceis de montar criados pela Carter Williamson, olhem só que beleza:

Na quinta-feira, 17, quis muito ver um show da banda carioca Letuce na Lagoa à noite. E, ousada, fui. Mas meu destino depois do show teve de ser um quarto suspeito numa transversal do Flamengo, ruazinha onde a água suja batia apenas pouco acima dos tornozelos. Se eu tentasse avançar até a rua Silveira Martins para dormir na minha própria cama, a água passaria a bater nos quadris, com ondas elevando o nível toda vez que um caminhão – sem outra alternativa de trajeto àquela altura – tentasse passar pelo rio que se formava desde o Largo do Machado. Carros e ônibus não passavam mais. Houve outras barreiras a enfrentar até que eu pudesse encontrar onde dormir, ainda que fora de casa: os hotéis das ruas onde se podia patinhar, em vez de nadar, não tinham mais vagas. Cheios de turistas de fora e de turistas como eu, turistas do próprio bairro, obrigados a pagar pernoite tão perto de casa. Foi quando encontrei uma portinha estreita com lâmpadas (nem bem) natalinas vermelhas penduradas sobre o batente. Tinha vaga no motel com aromas indescritíveis entranhados nas paredes e móveis. Usei o plástico que envolvia as duas toalhas e uma colcha para forrar o trecho de cama onde gastei a insônia até a manhã seguinte, quando o caminho nas calçadas lá fora dava mais lama grossa do que riacho. Chegando em casa, sandálias arruinadas, o ritual: água, sabão e muito álcool gel.

Na capital fluminense basta meia hora, às vezes apenas vinte minutos de uma pancada de água para paralisar completamente diversos trechos importantes da Zona Sul, da Zona Norte e do Centro. Catete oferece bons picos de surfe bem em frente ao Museu da República; Glória também se torna impraticável para quem não tem prancha ou bote – este, bairro que depois do Centro do Rio possui o segundo maior acervo de monumentos tombados pelo Patrimônio Histórico (apesar de alguns deles terem sido de lá retirados ou misteriosamente desaparecido, como o busto do escritor João do Rio, de autoria de Modestino Kanto, de que não se sabe o paradeiro há anos).

Nesses dias em que moradores de diversas localidades do Rio pensam duas vezes antes de sair de casa, sem saber se vão poder voltar por conta de alagamentos, houve maremoto também em partes de Botafogo, Laranjeiras e Copacabana – neste bairro, na Bulhões de Carvalho a água encobriu os pneus dos carros e a Nossa Senhora de Copacabana ganhou bolsão de água próximo à Santa Clara. Na Lapa, a água chegou a um metro de altura e invadiu os bares para dar prejuízo. Nas comunidades do Vidigal e Chácara do Céu, no Leblon, as sirenes foram acionadas e os moradores, orientados pela Defesa Civil a se dirigirem aos pontos de apoio das duas comunidades.

Na manhã desta terça, 22, o Flamengo foi fortemente atingido com direito à bolsão d’água à altura da rua do Russel, interditando o Aterro. Longe dali, o alagamento da linha férrea entre Triagem e Manguinhos, na Zona Norte, interrompeu a circulação de trens no ramal Saracuruna, em Duque de Caxias, na Baixada Fluminense. Tijuca e Maracanã também foram afetados, e 13 rios da Baixada ficaram em estágio de atenção.

Será que a natureza e a geografia do Rio de Janeiro são mesmo as únicas causas de tantos alagamentos, constantes, que nos dizem inevitáveis? São mesmo inevitáveis?

Já cansei de citar o Lima Barreto em crônica de 1915 reclamando desses mesmos problemas. Como é que de lá pra cá não houve um sujeito eleito capaz de resolver uma coisinha ou outra relacionada a eles?

Não temos chegando por aí uma dupla de eventos esportivos importantes que certamente sofrerão com esse tipo de desleixo?

Vamos nos habituar a ficar presos em casa como se lá fora houvesse um Katrina? Será que não votamos nos últimos meses – em quem terá sido? – em alguém sobre quem alguma responsabilidade referente a esses alagamentos constantes possa recair?

Presa em casa por causa das chuvas, matuto essas perguntas. Não há quem as responda.