FEIO NA FOTO

POR CECILIA GIANNETTI

Temos dito, em companhia dos fatos, que não estamos ficando bem na foto. “Quem se importa?” Já passamos dessa fase: é preciso se importar. Rápida revisão: anteontem, o novo afrancesamento de um trecho de Copacabana, um retrocesso na democracia das praias cariocas; ontem, nosso racismo mal disfarçado deixando de ser segredo nacional na ‘Forbes’. “Grandes coisas”? Grandes coisas, sim. Pra ficar nesses últimos dias apenas, porque por aí vai e quem acompanha o andar da carruagem sabe que trotamos emburrados.

Uma das perguntas cutucadas aqui na quinta-feira foi justamente como reagiríamos se nossos costumes – e segredos – começassem a ser observados com lentes de aumento por repórteres enviados a cobrir os grandes eventos esportivos que receberemos nos próximos anos. Esses dois eventos, uma Copa do Mundo e uma Olimpíada, não são brincadeira; portanto, eles também não vão brincar na hora de bater o retrato. Vão bater com força. Não são crias do nosso quintal. Que espelho nos emprestarão as matérias de comportamento estrangeiras?, perguntamos ontem. E olha o que chegou de volada: o Reporters Without Borders (Repórteres sem Fronteiras) acaba de lançar um relatório intitulado “Brasil, o país de 30 Berlusconis“, no qual “examina as deficiências da paisagem midiática deste gigante da América do Sul”, com base em averiguações no Rio de Janeiro, São Paulo e Brasília, em novembro 2012.

“A independência editorial dos meios de comunicação, impressos e televisivos, está acima de tudo minada por sua forte dependência financeira da publicidade dos governos estaduais e agências. (…) Este relatório analisa também um outro obstáculo à liberdade de informação – o aumento dos processos judiciais acompanhados por ordens de censura dirigidas a veículos individuais. O caso mais conhecido é do ‘Estado de São Paulo’, alvo de uma ordem de censura por ameaçar os interesses da família do ex-presidente José Sarney.”

Já começou. E foram em cima do tipo de coisa que não dá pra jogar debaixo do tapete, como o governo faz noutras áreas.

“Crimes violentos, corrupção e desigualdade não ficaram no passado do país. A fragilidade da mídia estimula a violência. O recorde de 11 jornalistas assassinados em 2012, cinco deles mortos por efeito direto de seu trabalho, faz do Brasil o quinto país mais mortal do mundo para quem trabalha na mídia.”

O documento examina ainda:

– O “Jornalismo sob o jugo dos coronéis” brasileiros, apontando o monopólio de apenas dez grupos sobre toda a mídia nacional, que “afeta o livre fluxo de informação e notícias e impõe um obstáculo ao pluralismo”;

– A “censura na internet”, citando o caso do Blog do Pannunzio, de Fábio Pannunzio, fechado em setembro passado por conta de quatro processos contra o autor em São Paulo e no Paraná (o repórter cobriu os mesmos casos que mencionou na web na TV Bandeirantes, mas só foi processado como blogueiro, o que ele explica no estudo do Reporters Without Borders tratar-se da forma como atuam os censores, buscando flancos de vulnerabilidade – no caso, a internet; o que nos leva ao próximo ponto);

– O jogo de empurrar-com-a-barriga o projeto de lei do Marco Civil da Internet; segundo o documento, a lei incomoda “empresas e operadoras que têm boas conexões políticas”;

– “A lei de imprensa (de 1967) curiosamente sobreviveu ao retorno da democracia em 1985 e à aprovação, em 1988, da constituição democrática, que torna a maioria das suas disposições obsoletas. Essa ressaca da ditadura continuou a servir como um meio de achacar jornalistas, especialmente alguns “indisciplinados” locais, em nome de ‘proteger a privacidade, honra e imagem de pessoas,’ acima de todos e de políticos que desejavam manter sua influência sobre a mídia.”

– “Dois pesos, duas medidas” no noticiário sobre os processos de Pacificação: “‘Obrigado FIFA!’ É a mensagem irônica de um mural no metrô próximo a uma favela do Rio de Janeiro, a poucos quarteirões do lendário estádio do Maracanã. O mural mostra um jovem carioca (habitante do Rio) com a famosa camisa amarela vestida pela ‘Seleção’, a equipe nacional que conquistou a Copa do Mundo cinco vezes e os brasileiros esperam que vença novamente em casa, em menos de dois anos. As palavras ‘Obrigado FIFA!’ estão pintadas ao lado da imagem de lágrimas descendo dos olhos do menino, porque a favela perdeu quase metade de seus 600 habitantes como parte da ‘limpeza’ preparatória da cidade” para a Copa. “André Fernandes, co-diretor da Agência de Notícias das Favelas (ANF), diz que é mais uma ‘Ocupação’ do que uma ‘Pacificação’. ‘Pacificação pode significar o crime em retirada em certos lugares e favelas, finalmente acessíveis a uma população de fora que nunca tinha posto os pés nesses locais antes’, afirma Fernandes. ‘Mas, para os moradores das favelas, também significa medo de uma polícia cujos métodos mudaram muito pouco, pequenos comércios colocados abaixo às pressas, aluguéis que têm triplicado e, acima de tudo, a contínua falta de projetos de longo prazo na saúde pública e na educação. E o que vai acontecer depois de 2016?'”

– Rádios comunitárias ainda são perseguidas. E mais: “A TV Record, rede com o segundo índice de audiência mais alto do Brasil (depois da TV Globo), é de propriedade de Edir Macedo, bispo da poderosa Igreja Universal do Reino de Deus. ‘Isso viola o princípio de que nenhum serviço público ou fornecedor de uma rede de serviço público pode ser subserviente a um sistema de crenças, e viola a natureza secular do Estado’, afirma o especialista em mídia Eugênio Bucci.”

– O documento fecha com uma lista graúda de recomendações. Leia a íntegra aqui: http://en.rsf.org/IMG/pdf/brazil_report.pdf

Saiu o retrato. Não tem filtro de Instagram que resolva.