ESPANTANDO MOSCAS

POR CECILIA GIANNETTI

Por mais que denúncias aconteçam, estudos e livros sejam publicados a respeito, nosso racismo mal disfarçado dá sempre um jeitinho de permanecer como um segredo de Estado, cochichado em nichos. Até que um caso de preconceito racial vira notícia em dezenas de veículos brasileiros e bate no ventilador internacional via site da “Forbes“, quebrando um pouco o silêncio.

Quem gosta de futebol deve saber por que o Fluminense é também conhecido como “pó-de-arroz”. Maquiagem – neste caso, aplicada em jogador mulato, o tricolor Carlos Alberto, em 1914, para “clarea-lo”. No começo daquele século o preconceito racial no Brasil era mais óbvio do que agora.

[Antes de prosseguir, vale o alerta: problemas, todo país deve ter os seus. Mas hoje, aqui, estamos falando dos nossos.]

Há maquiagem rolando solta no Brasil, e demasiado no Rio de Janeiro, designada como “preparativos para 2014 e 2016”. O que só destaca o medo que o governo tem do espelho que o enxame de estrangeiros – e atenção da mídia internacional – trará para nós na Copa do Mundo e nas Olimpíadas.

Não há pó-de-arroz que chegue para cobrir as centenas de histórias de preconceito racial pipocando na página do Facebook “Preconceito Racial Não é Mal-Entendido“. No ar há apenas quatro dias, já conta com cerca de 44 mil assinantes/”Likes” e comentários de internautas que sofrem com racismo. Foi criada como protesto por Ronald Munk e Priscilla Celeste, pais do menino de 7 anos que um funcionário tentou expulsar da concessionária BMW Autokraft (Barra da Tijuca, Zona Oeste do Rio de Janeiro) no sábado, 12. O casal é branco; o menino, seu caçula adotado, é negro. Esta é a história que virou manchete nacional e ainda foi pintar na “Forbes”.

A resposta da loja pela má conduta de seu funcionário foi um chocho pedido de desculpas enviado por e-mail, em que a agressão é citada como mero “mal-entendido”.

“Você não pode ficar aqui dentro, aqui não é lugar pra você. Sai da loja! (…) Eles pedem dinheiro e incomodam clientes”. De acordo com Ronald e Priscilla, estas foram as palavras ditas pelo funcionário enquanto tentava enxotar seu filho da concessionária. O que esse funcionário fez é comportamento padrão e automático de outros empregados de diversos estabelecimentos da cidade, desde restaurantes a shopping centers, em áreas de grande concentração de pedintes e ambulantes. O que o funcionário fez é o que se faz diariamente com meninos e meninas que tentam vender chiclete, bananada ou coisa assim aos fregueses desses locais, pedir um trocado ou arriscar ainda o “paga um salgado?”

Já vi garçom manejar a bandeja vazia, golpeando o ar, para afastar crianças “de rua” da mesma maneira que faria com moscas, em bares e restaurantes com varanda aberta nas calçadas de Copacabana. Quem não viu coisa parecida? Mandar circular, vazar, sumir? Diante disso, há os fregueses que se constrangem aquele pouco, olham para o outro lado e vida que segue, mais uma rodada de chope. Há os que querem dar moedas ou pagar o lanche. Entre os turistas, há os que se dividem entre o medo de estar sendo abordados por pequenos ladrões e também os que dão esmola e comida.

No momento a repercussão do “mal-entendido” do funcionário da BMW na Forbes não assusta. É uma citação em um site estrangeiro, grandes coisas. Mas olhando para a frente, tento imaginar como reagiremos se nossos costumes – e segredos – começarem a ser observados com lentes de aumento por repórteres enviados a cobrir os grandes eventos esportivos que receberemos nos próximos anos. Que espelho nos emprestarão as matérias de comportamento estrangeiras sobre hábitos locais, como espantar crianças “de rua” a bandejadas? Isso se não fizerem desaparecer com alguma solução mágica essas crianças, antes que virem comentário internacional. Maquiagem brutal.

O que ocorreu na loja de carros na Barra da Tijuca (Zona Oeste), de onde Ronald e Priscilla já eram clientes, conjuga preconceito racial somado à atitude autômata de tratar feito bicho o que se considera uma ameaça à clientela, tão comumente adotada na cidade. E o que causa grita no erro do funcionário da concessionária – e com toda a razão, que fique óbvio – é o preconceito racial. É a cegueira do funcionário, também tão autômata, revelada por não ter conseguido enxergar no menino que olhava desenhos animados na TV da loja um possível filho do casal que ele atendia. Sequer passou pela sua cabeça, antes de espanta-lo feito mosca, que poderia ser filho de seus clientes.

A quem interessa a maquiagem brutal dos nossos segredinhos?

A maioria dá de ombros à citação na Forbes. Mas noutras ocasiões em que o espelho estrangeiro nos foi apontado mais cruelmente, detestamos o resultado. Como em 2002, quando foi ao ar na TV o episódio “O feitiço de Lisa”, de “Os Simpsons”, ambientado no Brasil. Nele, Homer sofre um sequestro-relâmpago, para mencionar apenas uma das cenas do desenho que irritaram o governo brasileiro e a secretaria de turismo do Rio à época.

Apesar de toda a revolta provocada pelas múltiplas distorções sobre o Brasil e o Rio de Janeiro apresentadas no desenho, sim, é mentira que macacos invadem as casas dos cariocas para atacar crianças (isso também aparece no episódio), mas é fato que temos sequestros-relâmpago a dar com pau.

Jornais e revistas estrangeiros podem ser ainda mais “incisivos” do que desenhos animados. Como William Larry Rother, correspondente do “New York Times”, e sua reportagem publicada em 2004 sobre o “Hábito de bebericar do presidente”, segundo ele uma “preocupação nacional”.

No texto, acusava Lula de consumir álcool excessivamente, usando o testemunho de Leonel Brizola para firmar seu argumento:

“‘Quando eu fui candidato à vice-presidente de Lula, ele bebia muito’, disse Brizola, agora um crítico do governo, em um discurso recente. ‘Eu o avisei que bebidas destiladas são perigosas. Mas ele não me escutou e, de acordo com que estão dizendo, continua a beber'”.

O presidente ameaçou suspender o visto do repórter e expulsa-lo do país.

Usando o espelho retrovisor para revisitar reflexos de um passado mais remoto:

Em 1963 o jornalista e escritor norte-americano Hunter Thompson passou pelo Brasil, onde escreveu a reportagem “Brazilshooting” (Tiroteio brasileiro) para a “National Observer”.

Ele começa o texto questionando a postura da polícia e do exército brasileiros, baseado em um incidente que apresenta ao leitor através da transcrição do telefonema que o atraiu à ação (um tiroteio na boate Domino, em Copacabana):

“A polícia brasileira tem a reputação de ser extremamente leniente, e diz-se que o exército brasileiro é um dos mais estáveis e inclinados à democracia em toda a América Latina, mas nas últimas semanas, a administração da ‘justiça’ no Brasil adquiriu um novo perfil, e muitos começam a se perguntar para que existem a polícia e o exército. (…)”

Entra o telefonema e, junto com ele, a voz opinativa de Thompson:

“Em uma noite dessas, com a usual temperatura de 38o C e o barulho de ar-condicionados por toda a cidade, um jornalista americano [o próprio Thompson] foi acordado por um telefonema às 4h30 da manhã. Era um amigo, telefonando de uma boate em Copacabana. ‘Vem pra cá e traz a sua câmera! O exército está em toda a parte pelas ruas com armas! Eles destruíram a Domino, está tudo aos pedaços, e eles estão matando gente bem do lado de fora do bar onde eu estou sentado – nós trancamos a porta, mas eles podem invadir.'”

A conclusão da reportagem é irônica:

“Depois do ataque ao Domino, o ‘Jornal do Brasil’ deu uma suíte entitulada: ‘Exército não vê crime em sua ação’. Ou, como observou George Orwell, ‘Em terra de cego, quem tem um olho é rei.'”

O caso “Preconceito Racial Não é Mal-Entendido” é uma oportunidade de reflexão pro futuro próximo.

Não haverá pó-de-arroz que chegue para cobrir as outras histórias que acontecerão exatamente quando estivermos sob temido (se não fosse temido, não se colocaria tanta coisa debaixo do tapete) escrutínio de estrangeiros. Para disfarçar o hábito de não permitir que babás circulem sem uniforme em shopping centers e clubes de elite também não.

Vamos nos indignar com os exageros dos espelhos que virão por aí? Ou com a possibilidade de acertarem na mosca?