A HISTÓRIA DE DUMMY BOY


POR CECILIA GIANNETTI

O assunto mais comentado entre ontem e hoje na internet e nas ruas é Santa Maria. O clima moroso, costumeiro dos domingos, tornou-se pesado pelo noticiário na TV e as contínuas atualizações via internet sobre o incêndio na boate Kiss. Acuada e precisando muito ter, ainda que por curto período, outra coisa revolvendo na minha cabeça que não fosse a tragédia, fui ao cinema pegar “O Mestre”, de Paul Thomas Anderson. Sentada em uma das mesinhas do café do Cine São Luiz enquanto esperava a hora de me esconder no escuro da sala de exibição, não escapei de ouvir o casal da mesa ao lado listando e dissecando, com notável irritação no tom de voz, cada detalhe dos erros humanos que resultaram nas mortes na casa noturna.

Em uma coluna diária sobre atualidades, o autor costuma atentar à regra do “Timoneiro”, descrita em perfeição na letra de Paulinho da Viola: “Não sou eu quem me navega/ Quem me navega é o mar.” Ou seja: são os assuntos “quentes” do dia que ditam o que vira texto da coluna, raramente a coluna deve se meter a ditar o que é assunto “quente”. É um requerimento que vem de cima. Porém, já sabemos todos que a negligência, a ignorância e a ganância tiveram papel irrefutável nos acontecimentos que levaram à morte de cerca de 236 pessoas em uma boate do sul do Brasil. Não quero ser mais uma a elencar, nesta segunda-feira, as causas do incêndio e as circunstâncias intoleráveis dos óbitos. Por isso, hoje, aqui, peço licença ao mar e levo o barco noutra direção. Pra não chover no molhado.

Então vou falar sobre pra que servem seriados. E de personagens idiotas. Eles podem te ajudar a solucionar mistérios da humanidade que até então não tínhamos esperança de ver resolvidos.

Eu poderia contar a história de Dummy Boy usando como referência “Notas do Subterrâneo”, de Dostoiévski. Mas mesmo o “Homem do Subterrâneo” possui mais consciência de seu estado e deficiências do que os personagens de certo seriado, e que o próprio Dummy Boy. Talvez apenas a contemporaneidade – televisiva, rasa, cheia de promessas de riso frouxo – possa dar conta de tipos como Dummy Boy.

Dummy Boy foi assim re-batizado recentemente em homenagem ao vocabulário de Joy, personagem do seriado norte-americano “My Name Is Earl” (vencedor do Emmy, exibido pela NBC entre 2005 e 2009), que foca na vida de um grupo de pessoas que vivem em trailers caindo aos pedaços, em um terreno de chão de terra e lixo em Camden County.

Antes que alguém reclame da busca em um universo fictício por uma comparação com gente de verdade, vale contar logo para vocês que a personagem da prostituta Patty, de Camden, é baseada na mãe de um dos roteiristas, que de fato trabalhou como prostituta. Eventualmente constituiu família e largou as esquinas.

Então, voltando à Joy. É ela quem chama de “dummy” (boçal, idiota, abobalhado) vários outros com quem interage, mas dedica mais vezes o adjetivo a Randy, irmão do protagonista Earl.

Em “My Name Is Earl” até a personagem mais inteligente poderia ser chamada de dummy. Porque não consegue aplicar suas qualidades intelectuais na vida. “Street-smart“, espertezas adquiridas na escola da rua, sim; cultura (como em “cultivated“), inteligência, boas maneiras e sensibilidade raramente aparecem no cardápio de qualquer membro da comunidade de Camden, conforme ela é retratada pelo seriado. Suas personagens são o tipo de marginais que aparecem perseguidos por policiais noutro programa de TV, o famigerado “Cops” (há dois episódios de “My Name Is Earl” em que a gente de Camden aparece fazendo loucuras em “Cops“, uma espécie de reality show com casos de foras-da-lei).

Agora, foco em Earl: ele entrega seu dia-a-dia a uma algo distorcida definição de Karma quando é atropelado e seriamente ferido logo após ter ganhado na loteria – e perdido, durante o acidente, o bilhete premiado. Assistindo ao show do apresentador Carson Daly na TV em seu leito no hospital enquanto se recupera do acidente, Earl encara um comentário feito por Daly como um sinal do todo-poderoso Karma dirigido a ele. Questionado por um convidado do programa a respeito de seu sucesso – é sempre visto com mulheres bonitas, tem um programa na TV e uma gravadora -, Daly responde que “What goes around comes around“, algo como “aqui se faz, aqui se paga”. “É assim que eu tento viver a minha vida: você faz coisas boas e coisas boas acontecem para você. Você faz coisas ruins, e elas voltam para assombrar você. Karma.” Em sua simplicidade, Earl compreende que sofreu o acidente e ainda perdeu o bilhete da loto por ter feito muitas coisas ruins em sua vida, desde a adolescência. De deliquente juvenil que não consegue se formar na escola, passara a assaltante alcoólatra, sem respeitar nem mesmo a casa onde cresceu e seus pais. Para ter uma vida melhor, então, Earl decide criar uma lista de todas as coisas ruins que fez e oferecer reparação a cada pessoa a quem prejudicou no processo – assim, crê, deverá zerar sua dívida com o Karma. De acordo com o modus operandi da personagem, é a coisa mais inteligente em que Earl poderia pensar, dadas as suas limitações. E sua vida de fato começa a melhorar quando ele para de assaltar, furtar, sequestrar e roubar.

Mas muito de sua antiga filosofia permanece arraigada.

Coisas como: “Algumas pessoas podem pensar que ficar bêbado a ponto de casar com uma mulher que está grávida de seis meses (de outro homem) é uma boa razão para parar de beber. Pessoalmente, eu acho que é uma boa razão para continuar bebendo.”

O irmão de Earl, Randy, como todos em Camden, também é ótimo em frases toscas. Que muitas vezes sequer são recebidas como ofensa pois a sensibilidade de quem as recebe já está corroída pelo hábito da baixeza. Quando Earl tenta fazer com que Randy e Joy se tornem mais amigáveis e pede que cada um cite uma característica boa que vê no outro, Randy diz que Joy tem “a great rack” (em livre tradução, “uma bela peitaria”). Em tendo sua sensibilidade erodida pelos costumes de Camden, a fictícia Joy recebe o comentário como mero elogio. Uma mulher real, educada, receberia o comentário com menos entusiasmo – no mínimo. Pois faltam a ele: delicadeza, sensibilidade, boas maneiras, enfim, o que popularmente chamam de ter “NOÇÃO”. Você, leitor macho e “cultivado”, por acaso se dirigiria a uma conhecida – ou desconhecida a quem gostaria de conhecer melhor – usando esses termos? Quem realmente deseja ser bem-sucedido no contato com outros, certamente não chega assim, chutando a porta com a sola da bota cheia de esterco.

Mas os tipos da Camden caricatural do seriado “My Name Is Earl” pensam e agem como Randy. Dummies.

Outro exemplo; um dos itens a ser cruzado da lista de Earl tem a ver com uma garota que ele zoava no colégio por ter um bigode, um bigodão farto mesmo. Ele procura a garota, agora uma adulta – e completamente barbada, é atração de circo -, e descobre que ela mora em uma vila escondida com outras pessoas consideradas “aberrações”, como um anão e um rapaz com um defeito congênito nas mãos que faz com que pareçam patas de lagosta. Em suas tentativas de fazer o bem, a falta de sensibilidade e noção do que é certo e errado no tratar com gente em geral fazem com que Earl se atrapalhe o tempo todo. Neste caso específico, é difícil para ele manter o mínimo de civilidade diante desses que inicialmente chama de “aberrações”, abertamente.

E assim ocorre com vários outros itens de sua lista do Karma: Earl sempre precisa passar por cima de seus preconceitos, seu jeito bronco e sua ignorância para que consiga ser desculpado por aqueles a quem fez mal, e obter alívio de consciência. A própria ideia de consciência é algo novo para Earl, que costumava agir e falar sem pensar, como praticamente todos os seus amigos em Camden – sem esquecer de sua ex-esposa Joy, a do “great rack“, aquela que distribui a torto e a direito o adjetivo “dummy” a todos que encontra.

É aqui que chegamos à história de Dummy Boy.

Apesar de todas as indelicadezas que, graças ao maravilhoso mundo da internet, Dummy Boy sempre garantiu que chegassem a mim em suas tentativas de conversação e sua dificuldade em fazer elogios sem afinal acabar ofendendo, eu ainda o chamava respeitosamente pelo seu nome de batismo, nas ocasiões em que me dirigi a ele. Até que no meu aniversário, na semana passada, as felicitações que recebi de Dummy Boy incluíram um comentário a la Randy sobre o meu “rack“, entre outras grosserias. Dummy Boy inconscientemente fez por merecer o apelido.

Antes de conhecer o seriado e seu elenco de gente absolutamente sem-noção, eu não tinha ainda um nome apropriado para Dummy Boy. Eu sequer conseguia compreender como um sujeito com o alto nível de educação formal e os diplomas que ele tem, e o tanto de livros que leu e de boa música que conhece, podia ser tão tosco.

Não se trata de um diamante bruto, como o fictício Earl. Dummy Boy é apenas bronco, o que constantemente o leva a ofender pessoas sem que ele se dê conta disso.

Mas como? Como a educação e a cultura podem se separar de tal maneira do trato para com os outros em um ser humano?

Essa dúvida existiu até eu começar a conversar sobre o assunto com um amigo, a quem apresentei “My Name Is Earl“. Meu amigo, que consegue conjugar diploma e sociabilidade em sua personalidade, lançou o apelido. Não sem um pouco de remorso: “Afinal, ele não sabe o que faz…”, disse.

Dummy Boy, até então, era para mim um mistério, em sendo bronco mesmo com todos os seus diplomas, sua infinita e variada biblioteca e conhecimentos de boa música.

Matamos a charada quando prestamos atenção nas aparições de Patty. Ela tem a melhor educação formal em toda Camden: tirou 1500 em seu SAT’s (Scholastic Aptitude Test, exame educacional aplicado nos Estados Unidos a alunos do 2º grau, que serve como critério para admissão em suas universidades), tem o hábito da leitura e possui até um mestrado. O que Patty faz com esses predicados? Ela trabalha de dia como prostituta e já chegou a trocar favores sexuais por hambúrgueres e batatas fritas. Age e fala como uma autêntica habitante de Camden, atos indignos (incluindo roubos) e boca suja.

Ter assistido a alguns episódios de “My Name Is Earl” serviu para alguma coisa. Finalmente pudemos dar significado ao mistério, ainda que recorrendo à “idiot box“, caixa para idiotas: Dummy Boy é como Patty. Tem todas as qualificações acadêmicas que se pode obter, vasta experiência em seu campo de trabalho, conhecimento de literatura invejável. Mas de alguma forma sempre acaba soando e agindo como uma prostituta que troca sexo por fast-food.

Para não me aborrecer com os votos de Felicidades embrulhados em ofensas que recebi de Dummy Boy na data em que gostamos de ler apenas mensagens agradáveis, decidi que agora pensarei nele e em seus atos e palavras como o resultado do trabalho de uma equipe de roteiristas norte-americanos que se dedica a criar riso frouxo. A gaveta da lembrança a que Dummy Boy pertence é a da comédia televisiva, à “idiot box“. Não à de Dostoiévski.