Vermelho na escadaria

POR CECILIA GIANNETTI

Hoje perdemos um bom carioca adotivo. Na manhã desta quinta-feira, 10, o Rio acordou sem Jorge Selarón, 65 anos, e com um mistério envolvendo sua morte. O corpo do artista plástico e pintor autodidata chileno, radicado no Brasil desde 1983, foi encontrado na escadaria da Lapa que, transformada em arte e ponto turístico por ele mesmo, era conhecida pelo seu nome. Popular e querido entre frequentadores e moradores da área, é trágico pensar no artista amanhecendo inanimado sobre a sua obra, na qual o vermelho – preferência que era marca registrada de Selarón – tem destaque maior do que as demais cores.

Não há policiamento em torno da escadaria, quem vive no Rio e já andou pela Lapa sabe disso. Mesmo nas noitadas com movimento de turistas, deixam-se se encostar por ali vários traficantes e filhotes da espécie, vapores. A badalada obra de arte recebe a visita de turistas todos os dias, mas é abandonada pela lei.

Não houve quem zelasse por Selarón. Mas não se pode contar apenas com a hipótese de homicídio: Selarón estava deprimido desde que começara a sofrer ameaças de um ex-colaborador, em novembro de 2012. O suspeito seria irmão de um detento, que cumpre pena por roubo e tráfico de drogas. Amigos pensam na possibilidade de ele ter tirado a própria vida.

Mas valem uns alertas aqui. Um jornal paulista publicou que “Nos últimos meses, o local também se tornou ponto de tráfico de drogas como maconha e cocaína (…)”. Errado. Não só nos últimos meses, e não acabou de se tornar ponto de venda de drogas: há anos é assim.

Selarón costumava contar que havia passado por mais de 50 países até se encantar pelo Rio e aqui se estabelecer. Em 1994, por ocasião da Copa do Mundo, começou a colorir a escadaria que liga a Lapa ao bairro de Santa Teresa, utilizando pedaços de mais de dois mil tipos de azulejos provenientes de várias partes do globo, que recebia como presente de turistas estrangeiros e brasileiros, além dos que buscava em demolições, por conta própria.

Não foi um trabalho fácil, tampouco barato: para transformar os 215 degraus e 125 metros da escada em obra de arte, precisou vender cerca de 25 mil telas.

Era uma obra em progresso, arte viva: Selarón estava sempre adicionando e trocando peças do conjunto, que se transformou em cenário para comerciais, videoclipes e programas de televisão, como um especial do canal National Geographic. Tudo movido à paixão de Selarón, sem quaisquer incentivo$ do governo.

Houve reconhecimento. A escadaria foi tombada em 2005 e Selarón recebeu o título de Cidadão Honorário do Rio de Janeiro.

Mas não. Não houve quem protegesse Selarón.