Se não der pau vai comer

POR CECILIA GIANNETTI

Eles acordaram por volta das 6h da manhã com cerca de 40 homens da tropa de Choque da Polícia Militar tinindo em torno da Aldeia Maracanã, colada a um dos estádios de futebol mais famosos do mundo. Porém, sem um documento que valesse por mandado ou autorização judicial para invadir sua taba urbana. São cerca de 70 índios, de 17 etnias, que se viram obrigados a improvisar imediatamente uma barreira com pedaços de troncos de árvores e arame farpado.

Chocalho e canto contra Batalhão de Choque da Polícia Militar

Dentro da Aldeia, conversa e resistência pacífica. Ao contrário do que noticiaram redes de TV, nada de drogas, nem traficantes. Mas crianças, professores, índios, e outros colaboradores do movimento.

A ameaça permaneceu todo o dia lá fora, armada; mas os índios, que vivem no antigo prédio do Museu do Índio, o primeiro museu indígena da América Latina, desde a sua ocupação em 2006, não haviam recebido aviso qualquer de que haveria uma “guerra”. Pediam atenção das câmeras por cima do muro e exigiam “consciência” ao governador Sérgio Cabral e a empresários como Eike Batista, além da ajuda das Nações Unidas. À Dilma, que respeitasse “a Constituição e as declarações das Nações Unidas”.

[Vereador Renato Cinco explica a situação]

[Liderança indígena pede consciência ao governo]

Havia nove carros grandes e pretos, e homens parrudos metidos na armadura da PM, carregados de coisas com jeito de que poderiam causar um bom estrago qualquer lugar. Mas nenhum mandato judicial, como verificou o deputado do PSOL Marcelo Freixo, que aportou na área assim que soube da baderna, por volta de 8h da manhã. Junto com sociólogo e vereador Renato Cinco. “Eu não sei se eles vieram para cá em uma incompetência atroz, achando que poderiam entrar – e não podem (…)” – comentou o deputado, completando.: “Nada justifica esta parafernália. Eles não possuem nenhum documento que determine isto (…) O Maracanã sempre foi o que é com o museu… Seria uma burrice atroz do governador derruba-lo. Qual estrangeiro não gostaria de vir aqui e ver o museu?”, afirmou Freixo.

Ainda segundo Freixo, não existe emissão de posse – poderia ser lançada a qualquer momento, mas não ocorreu. E agora, “tem que ter diálogo, tem que ter calma, para que ninguém saia machucado.”

Dentro da Aldeia

“O Museu deveria ser restaurado,” afirma Freixo. “É melhor do que ter aqui um Bob’s, um McDonalds.” Dentro da Aldeia, ao contrário do que informaram Band News e Globo News, não havia tráfico nem consumo de drogas. A única fumaça que se sentia no ar provinha da fogueira, que os índios costumam fazer para se reunir em torno e contar histórias. Contação de histórias, segundo uma liderança indígena, ainda era o plano daquela tarde. Mesmo com toda a truculência vista lá fora.

O acesso ao interior do prédio – a quem viesse em missão de paz – se dava por uma escada de madeira colocada do lado de fora sobre um muro de pouco mais de dois metros; no alto do muro, recebia-se a ajuda de dois índios, que puxavam cada pessoa para o lado de dentro. Aí era um pulo até o chão ou tentar pisar sobre uma pequena estrutura de ferro, no chão, de cerca de meio metro, colada ao muro. Equipes de redes de TV que não cruzaram o muro – apesar de afirmarem que por trás dele havia tráfico de drogas, sem que tivessem conferido in loco – preferiam postar-se na calçada e apontar as câmeras para quem subia e descia de saias. Eu, é claro, estava de vestido. Pagar calcinha em rede nacional, afinal, não é coisa só de BBB. Valeu, Brasil.

Em 20 de dezembro de 2012 a Câmara Municipal do Rio colocou em votação um projeto de lei do vereador Reimont (do PT), propondo o tombamento do prédio, onde funcionou o antigo Serviço de Proteção ao Índio, anterior à atual Fundação Nacional do Índio (Funai). No entanto, não houve quorum para a votação, que acabou adiada. Sem conseguir um mandado favorável à invasão para desocupar a Aldeia indígena Maracanã e vencido o prazo (até as 18hs) para obtê-lo, os militares se retiraram do local em torno de 19h.