Ninguém que eu conheça

POR CECILIA GIANNETTI

A coisa incrível e rara aconteceu com o celular, o toque de ligação. Uma chamada. Duas, três vezes, mais – deixei tocar, olhando para o visor aceso sem um nome ligado ao número que mostrava. Só um número e a insistência. Não atendo porque em 2013 somente um tipo de pessoa faria uma ligação, todo o trabalho de apertar uma sequência de números em um aparelho de telefone para atingir um outro aparelho de telefone: uma pessoa que não gosta de trabalhar no departamento de telemarketing de alguma empresa e está cansada de ter propostas que sequer são as suas próprias propostas rejeitadas grosseiramente por estranhos do outro lado da linha. Cortada no meio de suas frases: “.. e estamos oferecendo um novo pacote de…” A resposta: “Não posso falar agora desculpe obrigada!” (Ou o telefone desligado na cara.)

Não disponho agora da paciência para ser o oposto do que a pessoa que não gosta de trabalhar no telemarketing está habituada a conhecer pelo telefone. E eu tenho toda a certeza do mundo de que é uma dessas pessoas que está ligando, porque todos os números de todas as pessoas que eu conheço (ou que acham que me conhecem, e são ninguém que eu conheça) estão registrados sob seus nomes no meu celular – graças ao Facebook, que subrepticiamente integrou meus contatos com os contatos registrados na minha conta no site de Zuckerberg. Se uma dessas pessoas um dia decidir realmente telefonar para mim em vez de enviar uma mensagem pelo chat do Face, do Gtalk ou um sms, eu vou ser capaz até de ver o seu rosto na tela do meu celular, vocês todos sabem disso porque provavelmente o seu celular faz a mesma coisa com “contatos registrados” ou demonstra alguma competência similar.

Fico decepcionada ao fuçar o aparelho e constatar que ele armazena cerca mais de 300 contatos. Dentre eles, talvez menos que uma dezena sejam pessoas que vejo com regularidade e com quem de fato eu converso. Não pelo celular, na maioria das vezes. Falar ao celular não existe. A última vez em que mantive uma conversa no celular e ela durou cerca de uma hora foi com alguém que tinha acabado de retornar ao Brasil depois de mais de ano fora e aquilo, falar tanto e ouvir tanto – com todo o tempo que cabe em mais de 365 dias e a distância e tudo o mais – francamente me surpreendeu. Era uma conexão. Mas o significado de conexão cedeu na queda de braço ao lado mais forte da palavra em 2013: que é meramente a ligação entre dois aparelhos ou o serviço de internet ou de TV a cabo ou de várias porcarias que podem ser ligadas a uma tomada.

Uns 10 anos atrás li a sessão de fragmentos perdidos-achados-e-publicados de Lester Bangs num livro chamado “Psychotic Reactions and Carburator Dung”, que, é claro, não foi traduzido no Brasil. Lester Bangs era um crítico de música norte-americano; mais justamente: um comentarista cultural, porque suas resenhas frequentemente extrapolavam a função de falar sobre discos. Na época chamavam-se discos e eram de vinil e ele os escutava em uma vitrola. Penso que numa manhã de uma noite virada no apartamento de Lester entre a Rua 14 e a Sexta Avenida em Manhattan, ele mira a agulha nos sulcos de uma faixa chamada “Psychotic Reactions”, de uma banda de rock (outra coisa mais comum, como os discos – apesar do fetichizado revival dos vinis -, no tempo da vitrola do que hoje) chamada Count Five. Sete e vinte da manhã, esta hora da manhã, de uma manhã de noite passada em claro, só não é pior do que as 23h27 da noite em claro quando esta está para começar. Ele vai da vitrola para outra excrescência fora do tempo, a máquina de escrever.

“Você é jovem. Sim, você. Você está morto. Mas a escolha foi sua.”

Ele prossegue.

Fala sobre o livro “The Ice Age”, de Margaret Drabble, sobre “pessoas que celebram a depressão como um alívio para a ansiedade.”

Fala sobre a dolorosa viagem que precisa empreender desde seu apartamento de três quartos (Manhattan era um pedaço de terra viável para um crítico freelancer de música entre o final dos anos 1970 e o início dos 1980; o Rio de Janeiro e São Paulo e imagino que a maioria das grandes cidades também) até uma deli para comprar iogurte.

Ter que deixar o apartamento e seus discos e seus livros e seus brinquedos (remartelando, seus gadgets eram a vitrola e a máquina de escrever), o horror.

“O frio que vem de dentro.”

A pequena mercearia, menor do que sua sala de estar, ele escreve, “está cheia de corpos”. Ele conta cinco e encolhe o seu para se proteger de qualquer contato físico. Um obstáculo antes da fila para pagar: duas pessoas que ele não sabe se estão de fato na fila. Ele tenta: “Com licença? “. As pessoas não estão na fila, estão só de bobeira na deli, mas não respondem a sua tentativa. É como se não o tivessem escutado. Na calçada, ele pensa “Qual o problema com essa gente?”

A partir daí – o que me interessa – ele dedica um parágrafo a cada amigo de seu círculo, descrevendo seu comportamento antissocial. “Todos os meus amigos são ermitães” era o nome do romance que começou a escrever (na máquina de escrever) pouco antes de morrer, em 30 de abril de 1982, aos 34 anos, devido a complicações respiratórias supostamente causadas por uma virose e ingestão de Darvon, um medicamento opióide banido pelo FDA apenas em novembro de 2010.

R.Q. sempre atendia o telefone com a frase pronta que hoje cuspimos a qualquer ligação de telemarketing: “Não posso falar agora desculpe obrigada!” (quando somos educados). Precisamente esta frase. E batia o telefone com uma risada nervosa ao fundo.

P.N. tinha uma secretária eletrônica ligada 24h por dia. Às vezes Lester ouvia o bip, dizia quem era e P.N. atendia imediatamente. Frequentemente, não atendia. Por semanas.

V.B., uma garota, mantinha o telefone fora do gancho. Embora Lester soubesse que ela estava em casa o dia todo, todos os dias.

N.T. também deixava seu telefone fora do gancho a maior parte do tempo. Assim como R.Q., do primeiro parágrafo sobre seus amigos, constava da lista telefônica – mas com um nome “fantasia”, que não era o seu.

J.R. incumbia a namorada de atender o telefone. E quase nunca, jamais saía de casa. O que piorara desde que tinha comprado um videogame.

J.M. sempre atendia as ligações. Mas sua resposta invariável para qualquer convite para sair era: “Por que você não vem aqui?”

W.G. tinha um destino certo quando finalmente decidia sair de casa: ficava bêbado e ia olhar o movimento na esquina da St. Mark’s Place. Álcool era o que permitia que ele suportasse a companhia das pessoas. “Como com o resto de nós,” escreveu Bangs. “Agora ele está tentando não beber, então ele não sai muito.”

R.W. estava sofrendo de “agorafobia”. Que hoje sabemos estar associada às crises de pânico em voga em nosso tempo.

Esses parágrafos saídos da máquina de escrever de Lester Bangs parecem familiares. Gosto que ele tenha tido tempo de registrar essas linhas antes de morrer. Não se façam de salame. Querendo ou relutando, ele estabeleceu a conexão.