Lá no Andaraí

POR CECILIA GIANNETTI

Quando tiraram do cardápio da noite carioca a Maldita, tradicionalíssima festa indie – por falta de definição melhor – que rolava às segundas-feiras em local também bastante conhecido do Rio, a Casa da Matriz, no bairro de Botafogo (Zona Sul), houve choro de viúvas. Justíssimo: a graça da Maldita era imensa e estava justamente em seu lema: “Comece a semana se acabando”. Quem nunca foi a uma e conhece algum antigo frequentador sempre vai ouvir as lendas mais estranhas que lá se passavam.

Tocava-se de tudo na Maldita. Desde o indie-pop coreano e o reggae-country norte-americano à psicodelia gaúcha, baladas islandesas e o – como nao? – shoegaze espanhol – Ah, e não podia faltar Teenage Fanclub. Durante 13 anos a zoeira inconsequente da Maldita ditou a regra de muitas vidas: sim, começar a semana se acabando para uma terça-feira de ressacas inenarráveis.

Deixando de lado a nostalgia roqueira, mudando totalmente de ritmo e cenário, as segundas-feiras ainda podem perder seu ar inofensivo ao requebro do boêmio. Basta chegar-se ao subúrbio, ao clube no Andaraí chamado Renascença.

Sabe quando alguém diz que um lugar é “muito família”? Esse lugar é lá. Bem frequentado por pais, mães, avós e tiozões, junto com suas filhas gatinhas e malandros bonitos cheios de intenções para com estas.

Ludmilla Almeida, frequentadora do Samba do Trabalhador, à frente do painel de São Jorge pintado nas paredes do clube Renascença, no Andaraí

Justo às segundas-feiras, há oito anos tal clube anarquiza o início da semana com uma animação que começa às 16h. Isso mesmo, às quatro da tarde, quando você ainda se encontra no trabalho, secando o relógio com olhares macambúzios. E, de gaiatice, em homenagem ao horário e dia útil, a bagunça se chama Samba do Trabalhador. Que também é música de Martinho da Vila: “Na segunda-feira eu não vou trabalhar / É, é, é a / Na terça-feira não vou pra poder descansar / É, é, é a / Na quarta preciso me recuperar / É, é, é a / Na quinta eu acordo meio-dia, não dá / É, é, é a / Na sexta viajo pra veranear.”

Coisa com mais cara de verão do que isso, só praia. Mas praia na Zona Sul não tem o que o clube do Andaraí oferece.

Carioca e turista que não passarem por esse canto de subúrbio perdem muito. Pra começo de conversa, a roda de bambas é comandada por Moacyr Luz.

Moacyr Luz brindando a primeira edição de 2013 do Samba do Trabalhador

Um animado grupo de senhoras de idades entre 60 e 70 e poucos anos, sentadas próximas de mim, contou-me que chamam o Samba do Trabalhador de sua “terapia”. Vão toda segunda-feira e claro que estavam lá ontem, fãs de carteirinha de Moacyr, que costuma ir cumprimentá-las à sua mesa, no primeiro Samba do Trabalhador de 2013.

E lá é assim: sentou perto, logo se está puxando conversa com o vizinho, dançando junto. Pede-se o balde de cerveja e ele vem gigante, recheado e gelado, por R$ 40. Pastel? De carne e de queijo, meia dúzia por R$ 10. E ainda tem acarajé.

Os sambistas das antigas desfilam por lá figurino distinto

Trabalhar? Na segunda? Os amigos Vanessa Marinho, Daniel Carvalho, Gabriela Bioni e Mariana Ramalho preferiram o samba do Moa

Sambou, bebeu, comeu, paquerou? Agora passa na barraquinha de bijuterias e CDs.

Olha, tenho pra mim que é o caso de você, segunda-feira sim, segunda-feira não – a princípio, pra não dar muito na vista-, jogar pra chefia aquela cara de doença inventada, reclamar de uma indisposição súbita lá pelo meio da tarde e correr pro Renascença para pegar sua mesinha de plástico azul, ouvir o Moa e bebericar. Sua saúde – a verdadeira, não a fictícia, que aconselho aventar no emprego – só terá a ganhar com essa alegria.