Fiquem à vontade, ex-párias rabiscados

POR CECILIA GIANNETTI

Eu me lembro bem que, ainda no início dos anos 2000, caminhar na rua com uma amiga minha que vinha de São Paulo visitar era  um suplício. Quando nos avistavam, era comum que passageiros de ônibus colocassem para fora a cabeça pelas janelas e gritassem insultos. Minha amiga, como eu, é escritora e, como eu, à época tinha uma banda (a dela, de rock e blues; a minha, de música brasileira). Ela tinha os dois braços cobertos de tatuagens, pretas e também coloridas, e também parte do peito. Eu tinha apenas três tatuagens, número a que me atenho até hoje. Era o suficiente para ser hostilizada também em restaurantes, onde costumavam me esconder na mesa mais próxima ao banheiro. Realmente adoraria que há 10 anos o meu celular tivesse uma câmera de filmar: eu poderia agora mostrar para vocês algumas sequências de situações ridículas pelas quais tive que passar somente por exibir tinta no corpo.

Naquela época nem eu nem a minha amiga podíamos imaginar que um dia o Rio de Janeiro se tornaria uma das cidades em que há mais mulheres tatuadas no país. O Rio, afinal, adora botar banca de moderninho. Mas, por algum motivo que meu time de cientistas ainda não conseguiu decifrar, é um belo celeiro de conservadores de toda espécie – atesto e confiem. É uma cidadezinha do interior, uma freirinha quando quer ser. E naqueles tempos, era mais ainda.

A prática da ornamentação da pele é um hábito tão antigo quanto a civilização, como podemos ler no trabalho bacana “Tatuagem: perfil e discurso de pessoas com inscrição de marcas no corpo”: até múmias do período entre 2000 e 4000 a.C. tinham lá suas tattoos.

Segundo o paper, “Não se sabe ao certo sua origem. Alguns autores acreditam que ela possa ter surgido em várias partes do globo, de forma independente; outros creem que ela tenha sido difundida pelo mundo com as grandes navegações dos países europeus.” Os autores do texto também afirmam que:

“Sua utilização por grupos específicos como prisioneiros e pacientes psiquiátricos sempre a manteve associada a um caráter de estigma”.

Você pode ler a pesquisa aqui.

Em relação à aceitação de corpos tatuados, especialmente os de mulheres, a atitude em minha cidade mudou notadamente. Talvez ainda permaneça – apenas calado, contido, reprimido – um certo nojinho preconceituoso e machista especialmente contra as moças que optam pela “pele decorada”. Mas agora é meio ponto pacífico que não tem volta, como aquilo que você deixa a agulha riscar no seu corpo (esqueça o laser: é caro e não funciona): é POPULAR. Po-pu-lar. Não é só uma pessoa considerada exótica (deixa eu contar pra vocês: escritores, com ou sem tatuagens, são considerados exóticos; vide Kafka e mais centenas de exemplos biográficos perfeitamente comprováveis, além dos filmes: “A Janela Secreta”, com Johnny Depp, e, principalmente, “Ruby Sparks – A namorada perfeita”) escritora/cantora de São Paulo em visita à cidade que vai exibi-las: da patricinha à gata da laje, você encontrará tattoos em todas as classes e em pessoas que exercem as mais diferentes atividades.

Não tenho dados de pesquisa em mãos sobre o número de cariocas, ou brasileiros, em mãos para “provar” isto, mas o convívio me mostra que finalmente ultrapassamos o número de pessoas que gritavam absurdos na rua para quem tinha um “visual diferente” (o termo é tão ridículo que me dá aquelas bolinhas de arrepio nos braços só de escreve-lo). E acredito que músicos e a internet tiveram muito a ver com essa mudança.

Pe Lanza, da “banda” Restart

(Uma curiosidade: nos Estados Unidos o número de mulheres tatuadas já é maior do que o de homens tatuados.)

É claro que aqui ainda é preciso esconde-las às vezes. Em geral, em situações relacionadas à trabalho, como entrevistas de emprego. Mas desde que não gritem mais impropérios pelas janelas dos ônibus…