As não-notícias da hora


POR CECILIA GIANNETTI

Hoje trago algumas não-notícias aqui elencadas apenas para registrar o quanto são ordinárias e corriqueiras no nosso dia-a-dia. Uma não-notícia é o tipo de fato que, independentemente de ser destacado por jornais, revistas e portais da internet, não provoca mais reação nos leitores, por representar obviedades ululantes a respeito de nossas deficiências e maus costumes ou a mera repetição de desgraças.

Problemas, todo canto do mundo tem os seus. O que não é motivo nem argumento para que ignoremos os nossos. Oh, but indeed we do.

Não-notícia #1: Homem que se autodenomina humorista perde a linha em comentários estapafúrdios, confundindo-os com comédia. Olha, não sou pró-PC, nunca fui. Mas sei, por exemplo, que “Saturday Night Live” não é a versão norte-americana do “Zorra Total”. Dito isto, para demonstrar a reincidência do problema específico tratado neste parágrafo, não precisamos recorrer a mais do que esta frase, lembrando o caso em que a MTV foi condenada a pagar R$ 40 mil para pais ofendidos com a veiculação de um esquete chamado “Casa dos Autistas” em 2011. Bom, o humor deve ter limites? Há limites para o humor que se estabelecem por si próprios, não por terceiros, e é muito fácil verificar tais limites. “Não é humor quando simplesmente não é engraçado” poderia ser um bom termômetro, mas não abrange a agressividade de frases que absolutamente não fazem rir. A treta entre Danilo Gentili e o deputado Jean Wyllys ontem na web não foi a primeira nem a segunda em que um humorista deixou de parecer engraçado para imprimir apenas boçalidade. Desta vez, sem argumentos e esgotado de piadas, partiu para a agressão pessoal. O que também não é lá muito incomum na web em geral. Um amigo costuma dizer destas situações: “Internet”. Apenas isto, a palavra “Internet”. Talvez ele tenha razão.

Não-notícia #2: Homem é empurrado com truculência para dentro de composição do Metrô Rio por agentes do próprio metrô. Não há nada de inédito nisso. Se hoje eles empurram com violência para dentro do carro, um dia também já puxaram porta afora com a mesma atitude, conforme se comprovou em 2011, quando um idoso de 79 anos entrou por engano na composição do metrô destinada exclusivamente a mulheres. Por causa do seu engano, ele e seus 79 anos foram arrastados feito um boneco para fora do carro pelos agentes do Metrô Rio. Também em 2011 – que ano brilhante para a Agetransp – um agente da estação Botafogo agrediu fisicamente um passageiro porque o mesmo teria tentado pular a roleta. Errado pular a roleta, se é que foi mesmo o caso; mais errado descer o braço no usuário do metrô. Podemos lembrar ainda o caso ocorrido em 2009 com um repórter de jornal paulista: no último vagão do metrô da Glória em direção à estação Cantagalo (Copacabana, Zona Sul), seguranças à paisana isolaram a comitiva do Comitê Olímpico Internacional (COI) orientando – com a delicadeza que lhes é peculiar – os passageiros comuns a “dispersar”. Barrado como todo o povo, o repórter obedeceu e seguiu em outro vagão – porém, muito mal acompanhado por seguranças à paisana com cara e gestos de poucos amigos. Na hora de descer, os homens se identificaram como policiais mas não mostraram documentos. Mais: o empurraram até um banheiro da estação, onde lhe aplicaram golpes, torcendo seu braço e ameaçando fazer pior. “O procedimento é este”, um deles teria dito. Poderíamos continuar com mais anedotas de violência no metrô carioca, não faltam episódios similares, mas seria em vão: é característica da não-notícia não chocar. Na verdade, ela deixa de existir como fumaça no ar depois de se repetir tantas vezes.

Não-notícia #3: Madrugadas de mortes violentas em São Paulo. Há uma semana, houve a chacina com seis mortos em Campo Limpo, Zona Sul de São Paulo. Ontem, Na terceira noite consecutiva de assassinatos na Grande São Paulo, mais 11 foram mortos e seis baleados, somando-se a 18 homicídios ocorridos em apenas 24h na região. Cadê a novidade? Não há. Em novembro de 2012 31 pessoas foram mortas na região metropolitana de São Paulo durante apenas um fim de semana. A gravidade dos fatos não rompe mais a membrana da repetição.

Não-notícia #4: Esta foi manchete ontem: de acordo com cálculos do governo do estado, 20% das obras do Maracanã ainda precisam ser finalizadas – a cinco meses da Copa das Confederações. Mas eles garantem que dá pé: através de nota do Comitê Organizador da Copa do Mundo à imprensa, ficamos sabendo que a mudança da data para a conclusão das obras de dezembro para abril configura um prazo totalmente viável. A mudança não nos ajuda em nada a perder o estigma de “mambembes”. Há cerca de um ano e dois meses, a Fifa já reclamava do atraso nas obras das cidades sedes: naquele começo de 2012 o secretário geral da Fifa, Jérôme Valcke, já alfinetava, dizendo que “As coisas não estão funcionando no Brasil. Muitas coisas estão atrasadas. Acho que a prioridade do Brasil é ganhar o Mundial. Não creio que seja organizar o Mundial”. E, segundo noticiário de 2 de janeiro de 2013, várias obras de mobilidade urbana ficarão prontas em dezembro – seis meses após a Copa das Confederações, que ocorrerá de 15 a 30 de junho deste ano.

Não-notícia #5: Pregador da internação compulsória, o deputado federal Rodrigo Bethlem (PMDB) culpou abertamente o coletivo DAR – Desentorpecendo a Razão pela morte do menino de 10 anos atropelado ontem durante uma operação contra o crack na Avenida Brasil, Zona Norte do Rio. Ele tuitou: “lugar de criança não eh na rua, muito menos em cracolandia. Por isso defendo cada dia mais a internação compulsória”. Criticado em sua posição pelo DAR e outros, acusou: “Ponho a morte na conta do @coletivodar, que defende tratar pessoas que infelizmente viraram zumbis na rua”. Desta vez não olhamos para trás para buscar um padrão, mas para a frente, temendo que se abra um precedente cruel a partir da acusação de Bethlem, contrário ao tratamento: se não é para tratar o usuário, então é para matá-lo?

Lendo os fatos desta forma, não evito pensar em nós como os próprios loucos da famosa citação de Albert Einstein, a que diz que loucura é fazer repetidamente as mesmas coisas, esperando resultados diferentes a cada vez.