Um morto muito vivo

Lima Barreto: foto do livro de registro de entrada de pacientes do Hospício Nacional

POR CECILIA GIANNETTI  Não é apenas uma lição de humildade apanhar um texto do cronista Lima Barreto para ler. Aliás, “apanhar” é um verbo bem adequado, em dois sentidos, quando se tratam dos dois volumes de crônicas completas do mulato. São graúdos (mais de 500 páginas cada um) e bem fornidos. Pode-se apanhar muito de alguém munido de uma antologia de crônicas do Lima. Mas não serve para modelos treinarem seu caminhar pela catwalk com um desses livraços equilibrado na cabeça. Aliás, bem lembrado. Suas ideias só não eram lá muito firmes em relação à questão da mulher trabalhar: “Sua Excelência – eu lhe rogo – antes de tratar de fazer “amanuensas”, procure arranjar para as meninas bons maridos, honestos, trabalhadores.” Escreve isto revoltado com a notícia da contratação de uma mulher para o cargo de secretária do ministro do Exterior em 1918, chamando tal de “ideia de botequim”. Aí é pau no Lima. Pau em toda a mentalidade de uma era (que não se distancia assim tanto da nossa, em tantos aspectos relacionados à mulher e sua carreira). Em 1919, Lima Barreto foi internado no Hospício Pedro 2º, onde décadas depois cursei Comunicação Social, nas mesmíssimas dependências do manicômio herdadas pela Escola de Comunicação da UFRJ. (Faz sentido). Fora isso, Lima Barreto nada via de errado (ah, o pré-politicamente correto) em que nossos jogadores de futebol e todo o povo brasileiro fosse chamado de “macaquito” pelos jornais argentinos. Lima, como maior parte dos nossos cronistas desde sempre, também reclamava sistematicamente dos estragos causados pelas chuvas no Rio de Janeiro. Em 1915. Lima reclamou dos preços extorsivos dos aluguéis no Rio de Janeiro, acarretados por obras superfaturadas na cidade. Em 1921. Lima zoou gurias hispters cariocas em 1922. Lima detonou a polícia inútil que dormia em vez de patrulhar os subúrbios. Em 1914. Lima atentou para a vagabundagem na câmara. Em 1919. Lima afirmou que o Rio de Janeiro era a cidade das explosões… em 1915, antes de os bueiros de Copacabana começarem a voar pelos ares. Lima contrastou obras nababescas-bobagentas e a falta de hospitais e abrigos para a população de rua carioca. Em 1920. Lima deu pitacos sobre como atrair o povo ao teatro. Foi pioneiro do: “Vá Ao teatro” (sem o infame rabicho “mas não me chame”). E foram pitacos muito pra lá de modernos. Em 1919. Lima criticou o preço dos materiais escolares e relacionou sua carestia à ausência crescente dos alunos nas escolas. Em 1920. Etc. Há um quê de Nostradamus carioca em Lima Barreto. E há um quê de Déjà-vu em seus escritos sobre o Rio de Janeiro e nossas mazelas. Mazelas brasileiras. Atentem para as datas de publicação das crônicas abaixo. Atentem para o Rio hoje. Abaixo: visões, para nós, do passado vislumbrando nosso tempo. *** As enchentes [Correio da Noite, 19.1.1915]  As chuvaradas de verão, quase todos os anos, causam no nosso Rio de Janeiro inundações desastrosas. Além da suspensão total do tráfego, com uma prejudicial interrupção das comunicações entre os vários pontos da cidade, essas inundações causam desastres pessoais lamentáveis, muitas perdas de haveres e destruição de imóveis. [precisa mais? pois tem. e é na mosca:] Infelizmente, nos preocupamos muito com os aspectos externos, com as fachadas, e não com o que há de essencial nos problemas da nossa vida urbana, econômica, financeira e social. *** Cuidado!! [Careta, 4.10.1919] (…) aprecio o Senhor Andrade Bezerra [deputado], quando deita suas homilias socialmente cristãs pelas colunas do Correio da Manhã. Há dias, porém, ele ficou furiosamente profeta e imprecou. Disse dos seus colegas o que Mafoma não disse do toucinho; que não trabalhavam; que não faziam nada, etc., etc. Veio o Senhor Cambuim [também deputado] e disse que o Senhor Bezerra também não fazia nada. O que se pode concluir de tudo isso é que a câmara não trabalha, à vista de que os deputados se acusam mutuamente de vadiagem. Não tenho muita admiração pelo trabalho, sobretudo quando se trata de trabalho de deputados, mas acho inconveniente esse debate entre deputados. Que pensará o povo do seu custosíssimo aparelho de representação? Que ele é inútil – não acham? *** A túnica de Néssus das leis [ A.B.C., 6.8.1921] (…) Realizando tal obra, os amigos do peito que dela forem encarregados ganharão fortunas. Que faz o edil? Aumenta o imposto predial. Consequência: logo o senhorio, que pode ser o Sr. Frontin ou o Sr. visconde de Morais, aumenta o aluguel da casa de tantos por cento. *** A polícia suburbana [Correio da Noite, 28.12.1914] Moro nos subúrbios há muitos anos e tenho o hábito de ir para casa alta noite. Uma vez ou outra encontro um vigilante noturno, um policial (…) A impressão que tenho é de que a vida e a propriedade dos outros e que os pequenos furtos de galinhas e coradouros não exigem um aparelho custoso de patrulhas e apitos. (…) Os policiais suburbanos têm toda a razão. Devem continuar a dormir. Eles, aos poucos, graças ao calejamento do ofício, se convenceram de que a polícia é inútil *** Macaquitos [Careta, 23.10.1920] Um jornal ou semanário de Buenos Aires, quando uma équipe brasileira de football, de volta do Chile, onde fora disputar um campeonato internacional, passou por lá, pintou-a como macacos. (…) Precisamos nos convencer de que não há nenhum insulto em chamar-nos de macacos. O macaco, segundo os zoologistas, é um dos mais adiantados exemplos da série animal; e há mesmo competências que o fazem, senão pai, pelo menos primo do homem. Tão digno “totem” não nos pode causar vergonha. A França, isto é, os franceses, são tratados de galos e eles não se zangam com isto; ao contrário: o galo gaulês, o chantecler, é motivo de orgulho para eles. Entretanto, quão longe está o galo, na escala zoológica, do macaco! (…) Não vejo motivos para zanga nessa história dos argentinos chamar-nos de macacos, tanto mais que, nas nossas histórias populares, nós demonstramos muita simpatia por esse endiabrado animal. *** Pólvora e cocaína [Correio da Noite, 5.1.1915] Já houve quem dissesse por aí que o Rio de Janeiro é a cidade das explosões. (…) A ideia que se faz do Rio é de que ele é um vasto paiol, e vivemos sempre ameaçados de ir pelos ares, como se estivésssemos a bordo de um navio de guerra, ou habitando uma fortaleza cheia de explosivos terríveis. *** A frequência escolar [Careta, 30.10.1920] Digo eu: tudo está caro. Botas, chitas, chapéus, tamancos custam os cabelos da cabeça. A municipalidade não dá mais livros, nem lápis, nem cadernos – não dá nada! Como é que s pobres pais pobres, ganhando o que mal dá para comer e morar, poderão arcar com as pequenas despesas da mantenança de seus filhos e filha no colégio (…)? Não podem. *** Eu também! [Comédia, 5.7.1919] Tenho dito muitas vezes que o único meio de atrair o público para o nosso teatro era abandonar os moldes estabelecidos para os vários gêneros de obras teatrais, quebrar, enfim, os quadros e fazer alguma cousa bem bárbara, participando, caso fosse possível, de todos os gêneros, drama, comédia, vaudeville, mágica, etc., e não sendo nenhum deles. Imagino uma sátira bem larga, bem fora do comum, m que se enquadrassem cenas de costumes, de crítica a fatos atuais e, até, pintassem elas coisas sentimentais. *** Vestidos modernos [Careta, 22.7.1922] Nunca foi da minha vocação ser cronista elegante; entretanto, às vezes, me dá na telha olhar os vestidos e atavios das senhoras e moças, quando venho à Avenida. Isto acontece principalmente nos dias em que estou sujo e barbado. (…) Há dias, saindo de meu subúrbio, vim à Avenida e à Rua do Ouvidor e pus-me a olhar os trajes das damas. Olhei, notei e concluí: estamos em pleno carnaval. Uma dama passava com um casaco preto, muito preto, e mangas vermelhas; outra tinha uma espécie de capote que parecia asas de morcego; ainda outra vestia uma saia patriótica verde e amarelo; enfim, era um dia verdadeiramente dedicado a Momo. *** Megalomania [Careta, 28.8.1920] Não se abre um jornal, uma revista, um magazine, atualmente, que não topemos logo com propostas de deslumbrantes e custosos melhoramentos e obras. São reformas suntuárias na cidade, coisas fantásticas e babilônicas, jardins de Semíramis, palácios de Mil e uma noites, e outras cousas semelhantes que eles propõem sejam feitas, no mais breve espaço de tempo possível. (…) É claro que o autor da ideia acha coisa de suma utilidade um prado de corrida e as razões que apresenta são de tal ordem que, se o artigo fosse assinado, o seu autor merecia ser lapidado pelos miseráveis e pobres que não têm um hospital para se tratar, pelos mendigos e estropiados que não possuem asilo para se abrigar. (…) Remodelar o Rio! Mas como? Arrasando os morros… Mas não será mais o Rio de Janeiro; será toda outra qualquer cidade que não ele. *** [De”Toda Crônica” (editora Agir)]