Senhoras e senhores, estamos flutuando no espaço

Limbo. O nome é limbo. Deste período entre o dia 26 e o dia 31 de dezembro de todos os anos que tenho tido a oportunidade de observar desde que primeiro percebi as primeiras anomalias em torno das Festas, ainda que eu mesma fique do lado de cá de uma espécie de vidro fumê que escurece e distorce as formas e acontecimentos do lado de lá, as formas e acontecimentos que carregam o peso maior da realidade ao final de cada ano.

Mesmo para aqueles liberados do trabalho, que fogem para outro país, ou para uma serra ou uma praia, outro país, uma serra ou a praia apenas os distraem do fato de que estão num limbo do ano. Eles viajam envoltos em vidro fumê à prova de realidade e a realidade fora não pode atingi-los. Pequenas férias ou feriados não são a realidade, são uma oportunidade que excita a tal ponto a alma e o corpo que os intoxica e causa o efeito vidro fumê à prova do mundo.

É um período de anestesia geral que começa na tarde (manhã, em muitos casos) do dia 24 de dezembro, quando os amigos se reunem para beber a cerveja natalina pré-ceia familiar. Esta cerveja é apenas um condutor inofensivo para o início de tudo, como o Dormonid que o fazem colocar sob a língua antes de você receber a injeção que vai lhe tirar do ar completamente para passar por uma cirurgia. Ali seus membros e sua mente se entregam a um estado de consciência de aparelho de tv com chuviscos que definirá o ritmo dos próximos dias. Todos eles se parecerão demais com a onda do Dormonid ou da cerveja com os amigos ou os dois misturados.

Nesta época somos astronautas flutuando no asfalto, esquecidos de nossa missão.

Ou é como se o Hotel Nautilus já estivesse pronto e oferecesse uma promoção a cem pilas o pernoite para toda a espécie, em vez de limitar a experiência a engenheiros e astronautas e cientistas e técnicos (do futuro): venham passar uns dias com a gente a 515 km da Terra, girando no espaço a uma velocidade de 28 mil quilômetros por hora, sem sequer notar o movimento e o afastamento e todas as coisas que você conhece – da janela do seu quarto no Hotel Nautilus você verá apenas a Terra ao longe.

Agora você está tomando uma pílula de Piña Colada no Hotel Nautilus enquanto recebe uma massagem de outro mundo feita por uma andróide do filme “2046”, de Wong Kar Wai, você está em órbita até o ano que vem.

Eu vejo o Hotel Nautilus, esta empreitada bem real, como uma ficção vermelha e sem dúvida sentimental – sentimental de minha parte, não do incrível chinês que escreveu o longa-metragem -, como o trem de “2046”.

O Hotel Nautilus, se você já se esqueceu dele ou nunca leu a respeito, é uma promessa que acelera corações presos ao peito por um cabo de conexão bastante resistente e que flutuam no céu. Em 2005 uma empresa chamada Bigelow Aerospace, de propriedade do bilionário Robert T Bigelow, um entusiasta de vôos comerciais ao espaço, anunciou o conceito de um resort espacial – o Hotel Nautilus. A missão da Bigelow Aerospace é “oferecer opções acessíveis para vôos espaciais até agências espaciais e clientes corporativos” – e pretende fazê-lo não com foguetes multibilionários, mas com grandes estações espaciais infláveis.

INFLÁVEIS. Como os corações que flutuam, estes a gás.

É um plano sólido, o da Bigelow, testes estão em andamento e com bons resultados há anos, mas – inflável é algo que costumamos associar às bóias que enchemos com esforço dos pulmões e da boca e colocamos para a segurança dos nossos filhos em seus bracinhos antes de eles entrarem na água. Não algo em que podemos imaginar centenas de seres humanos relaxando no espaço.

Mas não façamos pouco dos infláveis. São capazes de proteger seus habitantes da radiação (por utilizar materiais não-metálicos), o que não é coisa pouca quando se está passando férias fora da Terra. E os infláveis espaciais também possuem um material chamado Vectran que é do balacobaco: os micrometeoritos que cutucam e chegam a perfurar a Estação Espacial Internacional não fazem nem cócegas no Vectran (ou melhor, só penetram superficialmente, sem danos).

A tecnologia inflável espacial não é novidade, está aí desde os anos 1950, quando os EUA lançaram o Echo 1 e o Echo 2, satélites de comunicações passivas (os primeiros), que eram balões de 30,5 metros de diâmetro fabricados com mylar (o mesmo material usado na fabricação de filtros solares caseiros) de cerca de 0,013 milímetros de espessura, balõezões capazes de refletir sinais ao redor do mundo.

Foi preciso um intervalo de cerca de 40 anos para que se avançasse na pesquisa dos materiais necessários para que se começasse a pensar em uma TransHab – Transit Habitat, que a Nasa alardeou mas não cumpriu porque gastou demais nas comprinhas de Natal ou coisa parecida (ultrapassara o seu orçamento em 4.8 bilhões de dólares – mais ou menos como quando entramos no coma coletivo de fim de ano e gastamos mais do que podemos no cartão de crédito).

Foi quando a Bigelow Aerospace entrou no jogo, prometendo sambar na cara das agências espaciais financiadas pelo governo, como a NASA e a da Rússia. Em 2007 a Bigelow lançou a sonda Genesis II (inflável), cujo núcleo só se expandia até formar uma estrutura maior quando já estava em órbita, diminuindo drasticamente os custos de seu lançamento. Um avanço.

A Bigelow Aerospace possui imensos terrenos no deserto do Mojave, na Califórnia, com edifícios não muito diferentes daqueles de empreiteiros da vizinhança, mas com um toque de humor – pelo menos quero crer que esse bilionário ri desse detalhe e o instituiu como brincadeirinha: os homens de sua equipe de alta segurança têm grudados em seus uniformes o desenho de um alien verde, daqueles com olhos gigantescos e arredondados e tudo.

Algumas fontes dizem que o hotel da Bigelow ficará pronto em 2015. Outras mencionam 2017. Eu chuto 2046.

Até lá flutuamos no espaço aqui mesmo, descuidados e avançando talvez mais rápido do que a empresa de Robert T Bigelow. Apenas sem perceber esta velocidade que há em tudo em torno.