A HISTÓRIA DE DUMMY BOY


POR CECILIA GIANNETTI

O assunto mais comentado entre ontem e hoje na internet e nas ruas é Santa Maria. O clima moroso, costumeiro dos domingos, tornou-se pesado pelo noticiário na TV e as contínuas atualizações via internet sobre o incêndio na boate Kiss. Acuada e precisando muito ter, ainda que por curto período, outra coisa revolvendo na minha cabeça que não fosse a tragédia, fui ao cinema pegar “O Mestre”, de Paul Thomas Anderson. Sentada em uma das mesinhas do café do Cine São Luiz enquanto esperava a hora de me esconder no escuro da sala de exibição, não escapei de ouvir o casal da mesa ao lado listando e dissecando, com notável irritação no tom de voz, cada detalhe dos erros humanos que resultaram nas mortes na casa noturna.

Em uma coluna diária sobre atualidades, o autor costuma atentar à regra do “Timoneiro”, descrita em perfeição na letra de Paulinho da Viola: “Não sou eu quem me navega/ Quem me navega é o mar.” Ou seja: são os assuntos “quentes” do dia que ditam o que vira texto da coluna, raramente a coluna deve se meter a ditar o que é assunto “quente”. É um requerimento que vem de cima. Porém, já sabemos todos que a negligência, a ignorância e a ganância tiveram papel irrefutável nos acontecimentos que levaram à morte de cerca de 236 pessoas em uma boate do sul do Brasil. Não quero ser mais uma a elencar, nesta segunda-feira, as causas do incêndio e as circunstâncias intoleráveis dos óbitos. Por isso, hoje, aqui, peço licença ao mar e levo o barco noutra direção. Pra não chover no molhado.

Então vou falar sobre pra que servem seriados. E de personagens idiotas. Eles podem te ajudar a solucionar mistérios da humanidade que até então não tínhamos esperança de ver resolvidos.

Eu poderia contar a história de Dummy Boy usando como referência “Notas do Subterrâneo”, de Dostoiévski. Mas mesmo o “Homem do Subterrâneo” possui mais consciência de seu estado e deficiências do que os personagens de certo seriado, e que o próprio Dummy Boy. Talvez apenas a contemporaneidade – televisiva, rasa, cheia de promessas de riso frouxo – possa dar conta de tipos como Dummy Boy.

Dummy Boy foi assim re-batizado recentemente em homenagem ao vocabulário de Joy, personagem do seriado norte-americano “My Name Is Earl” (vencedor do Emmy, exibido pela NBC entre 2005 e 2009), que foca na vida de um grupo de pessoas que vivem em trailers caindo aos pedaços, em um terreno de chão de terra e lixo em Camden County.

Antes que alguém reclame da busca em um universo fictício por uma comparação com gente de verdade, vale contar logo para vocês que a personagem da prostituta Patty, de Camden, é baseada na mãe de um dos roteiristas, que de fato trabalhou como prostituta. Eventualmente constituiu família e largou as esquinas.

Então, voltando à Joy. É ela quem chama de “dummy” (boçal, idiota, abobalhado) vários outros com quem interage, mas dedica mais vezes o adjetivo a Randy, irmão do protagonista Earl.

Em “My Name Is Earl” até a personagem mais inteligente poderia ser chamada de dummy. Porque não consegue aplicar suas qualidades intelectuais na vida. “Street-smart“, espertezas adquiridas na escola da rua, sim; cultura (como em “cultivated“), inteligência, boas maneiras e sensibilidade raramente aparecem no cardápio de qualquer membro da comunidade de Camden, conforme ela é retratada pelo seriado. Suas personagens são o tipo de marginais que aparecem perseguidos por policiais noutro programa de TV, o famigerado “Cops” (há dois episódios de “My Name Is Earl” em que a gente de Camden aparece fazendo loucuras em “Cops“, uma espécie de reality show com casos de foras-da-lei).

Agora, foco em Earl: ele entrega seu dia-a-dia a uma algo distorcida definição de Karma quando é atropelado e seriamente ferido logo após ter ganhado na loteria – e perdido, durante o acidente, o bilhete premiado. Assistindo ao show do apresentador Carson Daly na TV em seu leito no hospital enquanto se recupera do acidente, Earl encara um comentário feito por Daly como um sinal do todo-poderoso Karma dirigido a ele. Questionado por um convidado do programa a respeito de seu sucesso – é sempre visto com mulheres bonitas, tem um programa na TV e uma gravadora -, Daly responde que “What goes around comes around“, algo como “aqui se faz, aqui se paga”. “É assim que eu tento viver a minha vida: você faz coisas boas e coisas boas acontecem para você. Você faz coisas ruins, e elas voltam para assombrar você. Karma.” Em sua simplicidade, Earl compreende que sofreu o acidente e ainda perdeu o bilhete da loto por ter feito muitas coisas ruins em sua vida, desde a adolescência. De deliquente juvenil que não consegue se formar na escola, passara a assaltante alcoólatra, sem respeitar nem mesmo a casa onde cresceu e seus pais. Para ter uma vida melhor, então, Earl decide criar uma lista de todas as coisas ruins que fez e oferecer reparação a cada pessoa a quem prejudicou no processo – assim, crê, deverá zerar sua dívida com o Karma. De acordo com o modus operandi da personagem, é a coisa mais inteligente em que Earl poderia pensar, dadas as suas limitações. E sua vida de fato começa a melhorar quando ele para de assaltar, furtar, sequestrar e roubar.

Mas muito de sua antiga filosofia permanece arraigada.

Coisas como: “Algumas pessoas podem pensar que ficar bêbado a ponto de casar com uma mulher que está grávida de seis meses (de outro homem) é uma boa razão para parar de beber. Pessoalmente, eu acho que é uma boa razão para continuar bebendo.”

O irmão de Earl, Randy, como todos em Camden, também é ótimo em frases toscas. Que muitas vezes sequer são recebidas como ofensa pois a sensibilidade de quem as recebe já está corroída pelo hábito da baixeza. Quando Earl tenta fazer com que Randy e Joy se tornem mais amigáveis e pede que cada um cite uma característica boa que vê no outro, Randy diz que Joy tem “a great rack” (em livre tradução, “uma bela peitaria”). Em tendo sua sensibilidade erodida pelos costumes de Camden, a fictícia Joy recebe o comentário como mero elogio. Uma mulher real, educada, receberia o comentário com menos entusiasmo – no mínimo. Pois faltam a ele: delicadeza, sensibilidade, boas maneiras, enfim, o que popularmente chamam de ter “NOÇÃO”. Você, leitor macho e “cultivado”, por acaso se dirigiria a uma conhecida – ou desconhecida a quem gostaria de conhecer melhor – usando esses termos? Quem realmente deseja ser bem-sucedido no contato com outros, certamente não chega assim, chutando a porta com a sola da bota cheia de esterco.

Mas os tipos da Camden caricatural do seriado “My Name Is Earl” pensam e agem como Randy. Dummies.

Outro exemplo; um dos itens a ser cruzado da lista de Earl tem a ver com uma garota que ele zoava no colégio por ter um bigode, um bigodão farto mesmo. Ele procura a garota, agora uma adulta – e completamente barbada, é atração de circo -, e descobre que ela mora em uma vila escondida com outras pessoas consideradas “aberrações”, como um anão e um rapaz com um defeito congênito nas mãos que faz com que pareçam patas de lagosta. Em suas tentativas de fazer o bem, a falta de sensibilidade e noção do que é certo e errado no tratar com gente em geral fazem com que Earl se atrapalhe o tempo todo. Neste caso específico, é difícil para ele manter o mínimo de civilidade diante desses que inicialmente chama de “aberrações”, abertamente.

E assim ocorre com vários outros itens de sua lista do Karma: Earl sempre precisa passar por cima de seus preconceitos, seu jeito bronco e sua ignorância para que consiga ser desculpado por aqueles a quem fez mal, e obter alívio de consciência. A própria ideia de consciência é algo novo para Earl, que costumava agir e falar sem pensar, como praticamente todos os seus amigos em Camden – sem esquecer de sua ex-esposa Joy, a do “great rack“, aquela que distribui a torto e a direito o adjetivo “dummy” a todos que encontra.

É aqui que chegamos à história de Dummy Boy.

Apesar de todas as indelicadezas que, graças ao maravilhoso mundo da internet, Dummy Boy sempre garantiu que chegassem a mim em suas tentativas de conversação e sua dificuldade em fazer elogios sem afinal acabar ofendendo, eu ainda o chamava respeitosamente pelo seu nome de batismo, nas ocasiões em que me dirigi a ele. Até que no meu aniversário, na semana passada, as felicitações que recebi de Dummy Boy incluíram um comentário a la Randy sobre o meu “rack“, entre outras grosserias. Dummy Boy inconscientemente fez por merecer o apelido.

Antes de conhecer o seriado e seu elenco de gente absolutamente sem-noção, eu não tinha ainda um nome apropriado para Dummy Boy. Eu sequer conseguia compreender como um sujeito com o alto nível de educação formal e os diplomas que ele tem, e o tanto de livros que leu e de boa música que conhece, podia ser tão tosco.

Não se trata de um diamante bruto, como o fictício Earl. Dummy Boy é apenas bronco, o que constantemente o leva a ofender pessoas sem que ele se dê conta disso.

Mas como? Como a educação e a cultura podem se separar de tal maneira do trato para com os outros em um ser humano?

Essa dúvida existiu até eu começar a conversar sobre o assunto com um amigo, a quem apresentei “My Name Is Earl“. Meu amigo, que consegue conjugar diploma e sociabilidade em sua personalidade, lançou o apelido. Não sem um pouco de remorso: “Afinal, ele não sabe o que faz…”, disse.

Dummy Boy, até então, era para mim um mistério, em sendo bronco mesmo com todos os seus diplomas, sua infinita e variada biblioteca e conhecimentos de boa música.

Matamos a charada quando prestamos atenção nas aparições de Patty. Ela tem a melhor educação formal em toda Camden: tirou 1500 em seu SAT’s (Scholastic Aptitude Test, exame educacional aplicado nos Estados Unidos a alunos do 2º grau, que serve como critério para admissão em suas universidades), tem o hábito da leitura e possui até um mestrado. O que Patty faz com esses predicados? Ela trabalha de dia como prostituta e já chegou a trocar favores sexuais por hambúrgueres e batatas fritas. Age e fala como uma autêntica habitante de Camden, atos indignos (incluindo roubos) e boca suja.

Ter assistido a alguns episódios de “My Name Is Earl” serviu para alguma coisa. Finalmente pudemos dar significado ao mistério, ainda que recorrendo à “idiot box“, caixa para idiotas: Dummy Boy é como Patty. Tem todas as qualificações acadêmicas que se pode obter, vasta experiência em seu campo de trabalho, conhecimento de literatura invejável. Mas de alguma forma sempre acaba soando e agindo como uma prostituta que troca sexo por fast-food.

Para não me aborrecer com os votos de Felicidades embrulhados em ofensas que recebi de Dummy Boy na data em que gostamos de ler apenas mensagens agradáveis, decidi que agora pensarei nele e em seus atos e palavras como o resultado do trabalho de uma equipe de roteiristas norte-americanos que se dedica a criar riso frouxo. A gaveta da lembrança a que Dummy Boy pertence é a da comédia televisiva, à “idiot box“. Não à de Dostoiévski.

FEIO NA FOTO

POR CECILIA GIANNETTI

Temos dito, em companhia dos fatos, que não estamos ficando bem na foto. “Quem se importa?” Já passamos dessa fase: é preciso se importar. Rápida revisão: anteontem, o novo afrancesamento de um trecho de Copacabana, um retrocesso na democracia das praias cariocas; ontem, nosso racismo mal disfarçado deixando de ser segredo nacional na ‘Forbes’. “Grandes coisas”? Grandes coisas, sim. Pra ficar nesses últimos dias apenas, porque por aí vai e quem acompanha o andar da carruagem sabe que trotamos emburrados.

Uma das perguntas cutucadas aqui na quinta-feira foi justamente como reagiríamos se nossos costumes – e segredos – começassem a ser observados com lentes de aumento por repórteres enviados a cobrir os grandes eventos esportivos que receberemos nos próximos anos. Esses dois eventos, uma Copa do Mundo e uma Olimpíada, não são brincadeira; portanto, eles também não vão brincar na hora de bater o retrato. Vão bater com força. Não são crias do nosso quintal. Que espelho nos emprestarão as matérias de comportamento estrangeiras?, perguntamos ontem. E olha o que chegou de volada: o Reporters Without Borders (Repórteres sem Fronteiras) acaba de lançar um relatório intitulado “Brasil, o país de 30 Berlusconis“, no qual “examina as deficiências da paisagem midiática deste gigante da América do Sul”, com base em averiguações no Rio de Janeiro, São Paulo e Brasília, em novembro 2012.

“A independência editorial dos meios de comunicação, impressos e televisivos, está acima de tudo minada por sua forte dependência financeira da publicidade dos governos estaduais e agências. (…) Este relatório analisa também um outro obstáculo à liberdade de informação – o aumento dos processos judiciais acompanhados por ordens de censura dirigidas a veículos individuais. O caso mais conhecido é do ‘Estado de São Paulo’, alvo de uma ordem de censura por ameaçar os interesses da família do ex-presidente José Sarney.”

Já começou. E foram em cima do tipo de coisa que não dá pra jogar debaixo do tapete, como o governo faz noutras áreas.

“Crimes violentos, corrupção e desigualdade não ficaram no passado do país. A fragilidade da mídia estimula a violência. O recorde de 11 jornalistas assassinados em 2012, cinco deles mortos por efeito direto de seu trabalho, faz do Brasil o quinto país mais mortal do mundo para quem trabalha na mídia.”

O documento examina ainda:

– O “Jornalismo sob o jugo dos coronéis” brasileiros, apontando o monopólio de apenas dez grupos sobre toda a mídia nacional, que “afeta o livre fluxo de informação e notícias e impõe um obstáculo ao pluralismo”;

– A “censura na internet”, citando o caso do Blog do Pannunzio, de Fábio Pannunzio, fechado em setembro passado por conta de quatro processos contra o autor em São Paulo e no Paraná (o repórter cobriu os mesmos casos que mencionou na web na TV Bandeirantes, mas só foi processado como blogueiro, o que ele explica no estudo do Reporters Without Borders tratar-se da forma como atuam os censores, buscando flancos de vulnerabilidade – no caso, a internet; o que nos leva ao próximo ponto);

– O jogo de empurrar-com-a-barriga o projeto de lei do Marco Civil da Internet; segundo o documento, a lei incomoda “empresas e operadoras que têm boas conexões políticas”;

– “A lei de imprensa (de 1967) curiosamente sobreviveu ao retorno da democracia em 1985 e à aprovação, em 1988, da constituição democrática, que torna a maioria das suas disposições obsoletas. Essa ressaca da ditadura continuou a servir como um meio de achacar jornalistas, especialmente alguns “indisciplinados” locais, em nome de ‘proteger a privacidade, honra e imagem de pessoas,’ acima de todos e de políticos que desejavam manter sua influência sobre a mídia.”

– “Dois pesos, duas medidas” no noticiário sobre os processos de Pacificação: “‘Obrigado FIFA!’ É a mensagem irônica de um mural no metrô próximo a uma favela do Rio de Janeiro, a poucos quarteirões do lendário estádio do Maracanã. O mural mostra um jovem carioca (habitante do Rio) com a famosa camisa amarela vestida pela ‘Seleção’, a equipe nacional que conquistou a Copa do Mundo cinco vezes e os brasileiros esperam que vença novamente em casa, em menos de dois anos. As palavras ‘Obrigado FIFA!’ estão pintadas ao lado da imagem de lágrimas descendo dos olhos do menino, porque a favela perdeu quase metade de seus 600 habitantes como parte da ‘limpeza’ preparatória da cidade” para a Copa. “André Fernandes, co-diretor da Agência de Notícias das Favelas (ANF), diz que é mais uma ‘Ocupação’ do que uma ‘Pacificação’. ‘Pacificação pode significar o crime em retirada em certos lugares e favelas, finalmente acessíveis a uma população de fora que nunca tinha posto os pés nesses locais antes’, afirma Fernandes. ‘Mas, para os moradores das favelas, também significa medo de uma polícia cujos métodos mudaram muito pouco, pequenos comércios colocados abaixo às pressas, aluguéis que têm triplicado e, acima de tudo, a contínua falta de projetos de longo prazo na saúde pública e na educação. E o que vai acontecer depois de 2016?'”

– Rádios comunitárias ainda são perseguidas. E mais: “A TV Record, rede com o segundo índice de audiência mais alto do Brasil (depois da TV Globo), é de propriedade de Edir Macedo, bispo da poderosa Igreja Universal do Reino de Deus. ‘Isso viola o princípio de que nenhum serviço público ou fornecedor de uma rede de serviço público pode ser subserviente a um sistema de crenças, e viola a natureza secular do Estado’, afirma o especialista em mídia Eugênio Bucci.”

– O documento fecha com uma lista graúda de recomendações. Leia a íntegra aqui: http://en.rsf.org/IMG/pdf/brazil_report.pdf

Saiu o retrato. Não tem filtro de Instagram que resolva.

ESPANTANDO MOSCAS

POR CECILIA GIANNETTI

Por mais que denúncias aconteçam, estudos e livros sejam publicados a respeito, nosso racismo mal disfarçado dá sempre um jeitinho de permanecer como um segredo de Estado, cochichado em nichos. Até que um caso de preconceito racial vira notícia em dezenas de veículos brasileiros e bate no ventilador internacional via site da “Forbes“, quebrando um pouco o silêncio.

Quem gosta de futebol deve saber por que o Fluminense é também conhecido como “pó-de-arroz”. Maquiagem – neste caso, aplicada em jogador mulato, o tricolor Carlos Alberto, em 1914, para “clarea-lo”. No começo daquele século o preconceito racial no Brasil era mais óbvio do que agora.

[Antes de prosseguir, vale o alerta: problemas, todo país deve ter os seus. Mas hoje, aqui, estamos falando dos nossos.]

Há maquiagem rolando solta no Brasil, e demasiado no Rio de Janeiro, designada como “preparativos para 2014 e 2016”. O que só destaca o medo que o governo tem do espelho que o enxame de estrangeiros – e atenção da mídia internacional – trará para nós na Copa do Mundo e nas Olimpíadas.

Não há pó-de-arroz que chegue para cobrir as centenas de histórias de preconceito racial pipocando na página do Facebook “Preconceito Racial Não é Mal-Entendido“. No ar há apenas quatro dias, já conta com cerca de 44 mil assinantes/”Likes” e comentários de internautas que sofrem com racismo. Foi criada como protesto por Ronald Munk e Priscilla Celeste, pais do menino de 7 anos que um funcionário tentou expulsar da concessionária BMW Autokraft (Barra da Tijuca, Zona Oeste do Rio de Janeiro) no sábado, 12. O casal é branco; o menino, seu caçula adotado, é negro. Esta é a história que virou manchete nacional e ainda foi pintar na “Forbes”.

A resposta da loja pela má conduta de seu funcionário foi um chocho pedido de desculpas enviado por e-mail, em que a agressão é citada como mero “mal-entendido”.

“Você não pode ficar aqui dentro, aqui não é lugar pra você. Sai da loja! (…) Eles pedem dinheiro e incomodam clientes”. De acordo com Ronald e Priscilla, estas foram as palavras ditas pelo funcionário enquanto tentava enxotar seu filho da concessionária. O que esse funcionário fez é comportamento padrão e automático de outros empregados de diversos estabelecimentos da cidade, desde restaurantes a shopping centers, em áreas de grande concentração de pedintes e ambulantes. O que o funcionário fez é o que se faz diariamente com meninos e meninas que tentam vender chiclete, bananada ou coisa assim aos fregueses desses locais, pedir um trocado ou arriscar ainda o “paga um salgado?”

Já vi garçom manejar a bandeja vazia, golpeando o ar, para afastar crianças “de rua” da mesma maneira que faria com moscas, em bares e restaurantes com varanda aberta nas calçadas de Copacabana. Quem não viu coisa parecida? Mandar circular, vazar, sumir? Diante disso, há os fregueses que se constrangem aquele pouco, olham para o outro lado e vida que segue, mais uma rodada de chope. Há os que querem dar moedas ou pagar o lanche. Entre os turistas, há os que se dividem entre o medo de estar sendo abordados por pequenos ladrões e também os que dão esmola e comida.

No momento a repercussão do “mal-entendido” do funcionário da BMW na Forbes não assusta. É uma citação em um site estrangeiro, grandes coisas. Mas olhando para a frente, tento imaginar como reagiremos se nossos costumes – e segredos – começarem a ser observados com lentes de aumento por repórteres enviados a cobrir os grandes eventos esportivos que receberemos nos próximos anos. Que espelho nos emprestarão as matérias de comportamento estrangeiras sobre hábitos locais, como espantar crianças “de rua” a bandejadas? Isso se não fizerem desaparecer com alguma solução mágica essas crianças, antes que virem comentário internacional. Maquiagem brutal.

O que ocorreu na loja de carros na Barra da Tijuca (Zona Oeste), de onde Ronald e Priscilla já eram clientes, conjuga preconceito racial somado à atitude autômata de tratar feito bicho o que se considera uma ameaça à clientela, tão comumente adotada na cidade. E o que causa grita no erro do funcionário da concessionária – e com toda a razão, que fique óbvio – é o preconceito racial. É a cegueira do funcionário, também tão autômata, revelada por não ter conseguido enxergar no menino que olhava desenhos animados na TV da loja um possível filho do casal que ele atendia. Sequer passou pela sua cabeça, antes de espanta-lo feito mosca, que poderia ser filho de seus clientes.

A quem interessa a maquiagem brutal dos nossos segredinhos?

A maioria dá de ombros à citação na Forbes. Mas noutras ocasiões em que o espelho estrangeiro nos foi apontado mais cruelmente, detestamos o resultado. Como em 2002, quando foi ao ar na TV o episódio “O feitiço de Lisa”, de “Os Simpsons”, ambientado no Brasil. Nele, Homer sofre um sequestro-relâmpago, para mencionar apenas uma das cenas do desenho que irritaram o governo brasileiro e a secretaria de turismo do Rio à época.

Apesar de toda a revolta provocada pelas múltiplas distorções sobre o Brasil e o Rio de Janeiro apresentadas no desenho, sim, é mentira que macacos invadem as casas dos cariocas para atacar crianças (isso também aparece no episódio), mas é fato que temos sequestros-relâmpago a dar com pau.

Jornais e revistas estrangeiros podem ser ainda mais “incisivos” do que desenhos animados. Como William Larry Rother, correspondente do “New York Times”, e sua reportagem publicada em 2004 sobre o “Hábito de bebericar do presidente”, segundo ele uma “preocupação nacional”.

No texto, acusava Lula de consumir álcool excessivamente, usando o testemunho de Leonel Brizola para firmar seu argumento:

“‘Quando eu fui candidato à vice-presidente de Lula, ele bebia muito’, disse Brizola, agora um crítico do governo, em um discurso recente. ‘Eu o avisei que bebidas destiladas são perigosas. Mas ele não me escutou e, de acordo com que estão dizendo, continua a beber'”.

O presidente ameaçou suspender o visto do repórter e expulsa-lo do país.

Usando o espelho retrovisor para revisitar reflexos de um passado mais remoto:

Em 1963 o jornalista e escritor norte-americano Hunter Thompson passou pelo Brasil, onde escreveu a reportagem “Brazilshooting” (Tiroteio brasileiro) para a “National Observer”.

Ele começa o texto questionando a postura da polícia e do exército brasileiros, baseado em um incidente que apresenta ao leitor através da transcrição do telefonema que o atraiu à ação (um tiroteio na boate Domino, em Copacabana):

“A polícia brasileira tem a reputação de ser extremamente leniente, e diz-se que o exército brasileiro é um dos mais estáveis e inclinados à democracia em toda a América Latina, mas nas últimas semanas, a administração da ‘justiça’ no Brasil adquiriu um novo perfil, e muitos começam a se perguntar para que existem a polícia e o exército. (…)”

Entra o telefonema e, junto com ele, a voz opinativa de Thompson:

“Em uma noite dessas, com a usual temperatura de 38o C e o barulho de ar-condicionados por toda a cidade, um jornalista americano [o próprio Thompson] foi acordado por um telefonema às 4h30 da manhã. Era um amigo, telefonando de uma boate em Copacabana. ‘Vem pra cá e traz a sua câmera! O exército está em toda a parte pelas ruas com armas! Eles destruíram a Domino, está tudo aos pedaços, e eles estão matando gente bem do lado de fora do bar onde eu estou sentado – nós trancamos a porta, mas eles podem invadir.'”

A conclusão da reportagem é irônica:

“Depois do ataque ao Domino, o ‘Jornal do Brasil’ deu uma suíte entitulada: ‘Exército não vê crime em sua ação’. Ou, como observou George Orwell, ‘Em terra de cego, quem tem um olho é rei.'”

O caso “Preconceito Racial Não é Mal-Entendido” é uma oportunidade de reflexão pro futuro próximo.

Não haverá pó-de-arroz que chegue para cobrir as outras histórias que acontecerão exatamente quando estivermos sob temido (se não fosse temido, não se colocaria tanta coisa debaixo do tapete) escrutínio de estrangeiros. Para disfarçar o hábito de não permitir que babás circulem sem uniforme em shopping centers e clubes de elite também não.

Vamos nos indignar com os exageros dos espelhos que virão por aí? Ou com a possibilidade de acertarem na mosca?

O COMEÇO DO FIM DE COPA

Retrocesso em praia privada de Copacabana: todo mundo vestido

POR CECILIA GIANNETTI

Quando Copacabana converteu-se, em apenas meio século, de areal em local de piqueniques à beira-mar, deixando de ser Sacopenapã (“caminho dos socós” em Tupi) – nome ligado ao contrabando de prata -, foi para se tornar legendária atração carioca. Tinha mais ou menos 600 edificações já em 1901. A inauguração do Copacabana Palace ocorreu em 1923 e logo teve até Sarah Bernhardt tomando banho de mar em frente ao hotel. E tudo era aberto.

Copacabana começou pra rico e evoluiu pra todos: em 1960 já contava com mais de 240 mil moradores. Como lembra Carlos Lessa em seu “O Rio de todos os Brasis [Uma reflexão em busca de auto-estima]”, “O glamour de Copacabana dá origem a uma lenda carioca e brasileira. É o lugar mágico que permite combinar o banho de mar desinibido, o estar ao sol ou praticar jogos na areia, com a sofisticação das roupas a rigor dos night-clubs ou com o jantar à luz de velas em restaurante – obviamente para quem tem altas rendas.”

“Para o homem comum significa praia aberta e sem discriminação social (…) A colônia de pesca convive com o Clube Marimbás.”

Segundo Lessa, tratava-se de um avanço e de uma vitória: a cidade deixara de ser “A cópia tropicalizada de Paris.”

Corta para 2013 – damos um passo pra trás e afrancesamos de novo o que era carioca e bom. E não adianta espernear. Até porque podem dizer que é inveja de pobre. Podem tudo. Podem até construir praia fechada com camarotes de luxo que chegam a custar até R$ 10 mil em Área de Proteção Ambiental.

E construíram mesmo. Ali na área do Forte de Copacabana.

Espumantes e… muita roupa

Agora, no fim da praia e do bairro de Copa, funciona neste verão um clube VIP, com DJs importados, brunch, sushibar, hidromassagem e outros luxos que as areias da praia comum não oferecem. Mas as areias da praia comum também não cobram os olhos da cara para se estar nelas, feito toda gente sempre fez, bebendo cerveja de latinha, caipirinha ou água de coco da barraca que também aluga a preço módico as cadeiras de praia e serve seus fregueses onde estiverem refestelados – sem qualquer custo adicional. Isto já é atendimento cinco estrelas.

Não é por dor-de-cotovelo que comentamos, não. Vejam: a própria Associação de Moradores de Copacabana (Amacopa) esperneou. Desde o anúncio da criação do beach club, em fins do ano passado, mostrou-se contra e correu atrás de uma audiência com o comando do Forte para apresentar as queixas dos moradores. A Amacopa quis saber: se os moradores, que já sacam do bolso todo aquele giga-IPTU pelo privilégio de viver no bairro, nunca puderam usufruir da Área, quem seria mais Very Important People do que eles a ponto de poder? Pois há quem possa, agora podem, os mais VIPs dos VIPs. De nada adiantou a Amacopa espernear.

Em novembro de 2012 a Secretaria Especial de Ordem Pública (Seop) ainda não havia concedido o alvará que autorizaria o clube. Mas, ao que parece, deu-se um jeitinho, porque lá está o Aqueloo (é o nome da praia privativa), anunciando-se Saint Tropez dos trópicos: o empresário Daniel Barcinski, um dos responsáveis pelo clube, deixará de presente algumas melhorias em obras no local, paga ao Exército uns R$ 300 mil pelo aluguel e ponto final.

Vocês estão ou não estão na praia? Tirem. A. Roupa.

Sempre houve diferença entre as contas bancárias de quem frequenta Copacabana, mas também sempre a praia foi aberta e livre. Claro que boa música, excelentes chefs de cozinha, massagistas sob tendas e espumante no gelo ao lado de uma espreguiçadeira são excelentes refinamentos que poucos recusariam, dada a oportunidade de aproveita-los sob o sol.

Mas aqueles que espernearam e esperneiam ainda contra a instalação de um beach club fechado em Copacabana não querem exatamente entrar no clube – demonstram a vontade mais forte de manter o caráter democrático fundamental do bairro e de sua orla. Veem no clube o começo do fim de Copa.

ILHADOS

Montagem que é sucesso no Facebook brinca com a realidade dos alagamentos no Rio de Janeiro

POR CECILIA GIANNETTI

Estou presa em casa. Tenho uma consulta médica às 17h no Leblon mas, ainda que até lá a chuva que cai intermitente há dias dê outra estiada e a água que alaga a minha rua e as de vários bairros pelo caminho milagrosamente escoe por bueiros entupidos, não há garantia de que eu possa retornar para o meu apartamento vindo da consulta se cair outro pé d’água.

As estiadas são traiçoeiras. Porque fazem com que a gente acredite que pode sair à rua. Os cidadãos não podem sair a rua, não com a certeza de que poderão voltar para casa sem um colete salva-vidas e risco de leptospirose.

Ricos fôssemos, recorreríamos aos abrigos emergenciais fáceis de montar criados pela Carter Williamson, olhem só que beleza:

Na quinta-feira, 17, quis muito ver um show da banda carioca Letuce na Lagoa à noite. E, ousada, fui. Mas meu destino depois do show teve de ser um quarto suspeito numa transversal do Flamengo, ruazinha onde a água suja batia apenas pouco acima dos tornozelos. Se eu tentasse avançar até a rua Silveira Martins para dormir na minha própria cama, a água passaria a bater nos quadris, com ondas elevando o nível toda vez que um caminhão – sem outra alternativa de trajeto àquela altura – tentasse passar pelo rio que se formava desde o Largo do Machado. Carros e ônibus não passavam mais. Houve outras barreiras a enfrentar até que eu pudesse encontrar onde dormir, ainda que fora de casa: os hotéis das ruas onde se podia patinhar, em vez de nadar, não tinham mais vagas. Cheios de turistas de fora e de turistas como eu, turistas do próprio bairro, obrigados a pagar pernoite tão perto de casa. Foi quando encontrei uma portinha estreita com lâmpadas (nem bem) natalinas vermelhas penduradas sobre o batente. Tinha vaga no motel com aromas indescritíveis entranhados nas paredes e móveis. Usei o plástico que envolvia as duas toalhas e uma colcha para forrar o trecho de cama onde gastei a insônia até a manhã seguinte, quando o caminho nas calçadas lá fora dava mais lama grossa do que riacho. Chegando em casa, sandálias arruinadas, o ritual: água, sabão e muito álcool gel.

Na capital fluminense basta meia hora, às vezes apenas vinte minutos de uma pancada de água para paralisar completamente diversos trechos importantes da Zona Sul, da Zona Norte e do Centro. Catete oferece bons picos de surfe bem em frente ao Museu da República; Glória também se torna impraticável para quem não tem prancha ou bote – este, bairro que depois do Centro do Rio possui o segundo maior acervo de monumentos tombados pelo Patrimônio Histórico (apesar de alguns deles terem sido de lá retirados ou misteriosamente desaparecido, como o busto do escritor João do Rio, de autoria de Modestino Kanto, de que não se sabe o paradeiro há anos).

Nesses dias em que moradores de diversas localidades do Rio pensam duas vezes antes de sair de casa, sem saber se vão poder voltar por conta de alagamentos, houve maremoto também em partes de Botafogo, Laranjeiras e Copacabana – neste bairro, na Bulhões de Carvalho a água encobriu os pneus dos carros e a Nossa Senhora de Copacabana ganhou bolsão de água próximo à Santa Clara. Na Lapa, a água chegou a um metro de altura e invadiu os bares para dar prejuízo. Nas comunidades do Vidigal e Chácara do Céu, no Leblon, as sirenes foram acionadas e os moradores, orientados pela Defesa Civil a se dirigirem aos pontos de apoio das duas comunidades.

Na manhã desta terça, 22, o Flamengo foi fortemente atingido com direito à bolsão d’água à altura da rua do Russel, interditando o Aterro. Longe dali, o alagamento da linha férrea entre Triagem e Manguinhos, na Zona Norte, interrompeu a circulação de trens no ramal Saracuruna, em Duque de Caxias, na Baixada Fluminense. Tijuca e Maracanã também foram afetados, e 13 rios da Baixada ficaram em estágio de atenção.

Será que a natureza e a geografia do Rio de Janeiro são mesmo as únicas causas de tantos alagamentos, constantes, que nos dizem inevitáveis? São mesmo inevitáveis?

Já cansei de citar o Lima Barreto em crônica de 1915 reclamando desses mesmos problemas. Como é que de lá pra cá não houve um sujeito eleito capaz de resolver uma coisinha ou outra relacionada a eles?

Não temos chegando por aí uma dupla de eventos esportivos importantes que certamente sofrerão com esse tipo de desleixo?

Vamos nos habituar a ficar presos em casa como se lá fora houvesse um Katrina? Será que não votamos nos últimos meses – em quem terá sido? – em alguém sobre quem alguma responsabilidade referente a esses alagamentos constantes possa recair?

Presa em casa por causa das chuvas, matuto essas perguntas. Não há quem as responda.

Ninguém que eu conheça

POR CECILIA GIANNETTI

A coisa incrível e rara aconteceu com o celular, o toque de ligação. Uma chamada. Duas, três vezes, mais – deixei tocar, olhando para o visor aceso sem um nome ligado ao número que mostrava. Só um número e a insistência. Não atendo porque em 2013 somente um tipo de pessoa faria uma ligação, todo o trabalho de apertar uma sequência de números em um aparelho de telefone para atingir um outro aparelho de telefone: uma pessoa que não gosta de trabalhar no departamento de telemarketing de alguma empresa e está cansada de ter propostas que sequer são as suas próprias propostas rejeitadas grosseiramente por estranhos do outro lado da linha. Cortada no meio de suas frases: “.. e estamos oferecendo um novo pacote de…” A resposta: “Não posso falar agora desculpe obrigada!” (Ou o telefone desligado na cara.)

Não disponho agora da paciência para ser o oposto do que a pessoa que não gosta de trabalhar no telemarketing está habituada a conhecer pelo telefone. E eu tenho toda a certeza do mundo de que é uma dessas pessoas que está ligando, porque todos os números de todas as pessoas que eu conheço (ou que acham que me conhecem, e são ninguém que eu conheça) estão registrados sob seus nomes no meu celular – graças ao Facebook, que subrepticiamente integrou meus contatos com os contatos registrados na minha conta no site de Zuckerberg. Se uma dessas pessoas um dia decidir realmente telefonar para mim em vez de enviar uma mensagem pelo chat do Face, do Gtalk ou um sms, eu vou ser capaz até de ver o seu rosto na tela do meu celular, vocês todos sabem disso porque provavelmente o seu celular faz a mesma coisa com “contatos registrados” ou demonstra alguma competência similar.

Fico decepcionada ao fuçar o aparelho e constatar que ele armazena cerca mais de 300 contatos. Dentre eles, talvez menos que uma dezena sejam pessoas que vejo com regularidade e com quem de fato eu converso. Não pelo celular, na maioria das vezes. Falar ao celular não existe. A última vez em que mantive uma conversa no celular e ela durou cerca de uma hora foi com alguém que tinha acabado de retornar ao Brasil depois de mais de ano fora e aquilo, falar tanto e ouvir tanto – com todo o tempo que cabe em mais de 365 dias e a distância e tudo o mais – francamente me surpreendeu. Era uma conexão. Mas o significado de conexão cedeu na queda de braço ao lado mais forte da palavra em 2013: que é meramente a ligação entre dois aparelhos ou o serviço de internet ou de TV a cabo ou de várias porcarias que podem ser ligadas a uma tomada.

Uns 10 anos atrás li a sessão de fragmentos perdidos-achados-e-publicados de Lester Bangs num livro chamado “Psychotic Reactions and Carburator Dung”, que, é claro, não foi traduzido no Brasil. Lester Bangs era um crítico de música norte-americano; mais justamente: um comentarista cultural, porque suas resenhas frequentemente extrapolavam a função de falar sobre discos. Na época chamavam-se discos e eram de vinil e ele os escutava em uma vitrola. Penso que numa manhã de uma noite virada no apartamento de Lester entre a Rua 14 e a Sexta Avenida em Manhattan, ele mira a agulha nos sulcos de uma faixa chamada “Psychotic Reactions”, de uma banda de rock (outra coisa mais comum, como os discos – apesar do fetichizado revival dos vinis -, no tempo da vitrola do que hoje) chamada Count Five. Sete e vinte da manhã, esta hora da manhã, de uma manhã de noite passada em claro, só não é pior do que as 23h27 da noite em claro quando esta está para começar. Ele vai da vitrola para outra excrescência fora do tempo, a máquina de escrever.

“Você é jovem. Sim, você. Você está morto. Mas a escolha foi sua.”

Ele prossegue.

Fala sobre o livro “The Ice Age”, de Margaret Drabble, sobre “pessoas que celebram a depressão como um alívio para a ansiedade.”

Fala sobre a dolorosa viagem que precisa empreender desde seu apartamento de três quartos (Manhattan era um pedaço de terra viável para um crítico freelancer de música entre o final dos anos 1970 e o início dos 1980; o Rio de Janeiro e São Paulo e imagino que a maioria das grandes cidades também) até uma deli para comprar iogurte.

Ter que deixar o apartamento e seus discos e seus livros e seus brinquedos (remartelando, seus gadgets eram a vitrola e a máquina de escrever), o horror.

“O frio que vem de dentro.”

A pequena mercearia, menor do que sua sala de estar, ele escreve, “está cheia de corpos”. Ele conta cinco e encolhe o seu para se proteger de qualquer contato físico. Um obstáculo antes da fila para pagar: duas pessoas que ele não sabe se estão de fato na fila. Ele tenta: “Com licença? “. As pessoas não estão na fila, estão só de bobeira na deli, mas não respondem a sua tentativa. É como se não o tivessem escutado. Na calçada, ele pensa “Qual o problema com essa gente?”

A partir daí – o que me interessa – ele dedica um parágrafo a cada amigo de seu círculo, descrevendo seu comportamento antissocial. “Todos os meus amigos são ermitães” era o nome do romance que começou a escrever (na máquina de escrever) pouco antes de morrer, em 30 de abril de 1982, aos 34 anos, devido a complicações respiratórias supostamente causadas por uma virose e ingestão de Darvon, um medicamento opióide banido pelo FDA apenas em novembro de 2010.

R.Q. sempre atendia o telefone com a frase pronta que hoje cuspimos a qualquer ligação de telemarketing: “Não posso falar agora desculpe obrigada!” (quando somos educados). Precisamente esta frase. E batia o telefone com uma risada nervosa ao fundo.

P.N. tinha uma secretária eletrônica ligada 24h por dia. Às vezes Lester ouvia o bip, dizia quem era e P.N. atendia imediatamente. Frequentemente, não atendia. Por semanas.

V.B., uma garota, mantinha o telefone fora do gancho. Embora Lester soubesse que ela estava em casa o dia todo, todos os dias.

N.T. também deixava seu telefone fora do gancho a maior parte do tempo. Assim como R.Q., do primeiro parágrafo sobre seus amigos, constava da lista telefônica – mas com um nome “fantasia”, que não era o seu.

J.R. incumbia a namorada de atender o telefone. E quase nunca, jamais saía de casa. O que piorara desde que tinha comprado um videogame.

J.M. sempre atendia as ligações. Mas sua resposta invariável para qualquer convite para sair era: “Por que você não vem aqui?”

W.G. tinha um destino certo quando finalmente decidia sair de casa: ficava bêbado e ia olhar o movimento na esquina da St. Mark’s Place. Álcool era o que permitia que ele suportasse a companhia das pessoas. “Como com o resto de nós,” escreveu Bangs. “Agora ele está tentando não beber, então ele não sai muito.”

R.W. estava sofrendo de “agorafobia”. Que hoje sabemos estar associada às crises de pânico em voga em nosso tempo.

Esses parágrafos saídos da máquina de escrever de Lester Bangs parecem familiares. Gosto que ele tenha tido tempo de registrar essas linhas antes de morrer. Não se façam de salame. Querendo ou relutando, ele estabeleceu a conexão.

Na reta para a Copa

POR CECILIA GIANNETTI

Mário Lago e mais dois amigos costumavam matar aulas no colégio Pedro II para gastar melhor seu tempo em um bordel da rua da Lapa. “Ali passávamos as tardes com o mulherio, tratados de mes petits enfants pela gerente, a velha Raymonde, francesa que tinha vivido muito e sofrido o dobro. Diplomada no cais de Marselha, com curso de aperfeiçoamento em Casablanca, Raymonde não escondia certo orgulho quando confessava que a primeira mulher de sua família já tinha ganho a vida fazendo trottoir. ‘Cada um tem la noblesse qui preut.’ (…) algumas de suas frases nunca me saíram da lembrança. ‘Betise da grrossa pensar que quem está por debaixo acaba ficando por cima. Só se forr mulherr, que alguns homens gostam das coisas diferrentes’. ‘Mulher sem cafeton não trravaia na minha casa, porrque não tem estímulo.’ [E talvez a mais genial]: ‘Quana gente está enrabichada de verrdade, um lápis Fabér tem o encanto de um obelisque‘.” Do texto de Lago chamado “A Rainha da Lapa morreu antes de El-Rei D. Sebastião”, de 1976.

Foi no fim do período imperial que chegaram ao Brasil louras e ruivas branquelas, as “Mimis”, prostitutas de sotaque carregado. Estas “‘hetairas’ europeias” – como se refere a elas Mary Del Priore em texto sobre a francofilia na capital do Brasil oitocentista – provocaram a revolução francesa no modo como se exercia a prostituição no Rio de Janeiro: foram elas que forçaram em nossos cariocas alguma “consciência sanitária”, tomando parte da “moda” de higienização que se alastrava pelas capitais. “Frequenta-las era sinal de refinamento,” afirma Priore. “(…) elas eram o símbolo da modernidade e suas pensões alegres se derramavam pelas ruas da Glória e do Catete.”

Tudo muito bonito, tudo muito boemia-romantizada. Mas a prostituição no Brasil de hoje não tem lugar para esses luxos literários. Em 10 de janeiro último, em Perus, região metropolitana de São Paulo, uma jovem de 17 anos (original de Jandaia do Sul do Paraná) pediu socorro à polícia após fugir de um prostíbulo, onde era mantida como escrava sexual. Atraída para a capital paulista pela promessa de um emprego como empregada doméstica, acabou junto a pelo menos outras 15 meninas, vindas de diversos estados do Brasil, todas reféns na casa de prostituição.

Este é o problema de não haver lei que regulamente casas de prostituição no Brasil.

Você pode não gostar de Big Brother Brasil ou de participantes e ex-participantes do BBB em geral, mas um ex-BBB específico, o deputado Jean Wyllys (PSOL/RJ), está prestando um serviço nada BBbobo ao apresentar uma ideia para evitar que situações como a dessa jovem e suas companheiras de cativeiro sejam perpetuadas.

Ele sabe que, com a Copa do Mundo em 2014 e as Olimpíadas em 2016, o país – que já é muito “bom” na coisa – viverá um boom de exploração sexual.

Todos sabemos. Só não pensamos muito nisso porque não é o nosso que está na reta. 

Para pôr fim à baderna com as moças (e moços, e travestis e garotos de programa) em julho de 2012 Wyllys protocolou o Projeto de Lei 4.211/12, ou Lei Gabriela Leite, assim batizada em homenagem à socióloga e ex-prostituta, fundadora da ONG Davida – que defende os direitos das prostitutas – e da grife Daspu.

De acordo com Wyllys, o projeto busca garantir que o exercício da atividade do profissional do sexo seja voluntário e remunerado; descriminaliza as casas de prostituição; dá o direito de recorrer à justiça por descumprimento de contrato (quando o cliente se recusa a pagar pelo serviço prestado); permite o trabalho em cooperativa; dá direito a Previdência Social; e tipifica a exploração sexual, diferindo-a do instituto da prostituição, visando a combater o crime de exploração sexual – especialmente contra crianças e adolescentes.

O deputado do PSOL afirma que o estágio normativo atual “abre brechas para a corrupção policial”, além de conexões com o tráfico de drogas e o tráfico de mulheres e crianças. O Projeto combateria isso. Seu texto se apoia na Lei alemã Gesetz zur Regelung der Rechtsverhältnisse der Prostituierten – Prostitutionsgesetz – Prost, no PL 98/2003 do ex-Deputado Federal Fernando Gabeira e no PL 4244/2004, do ex-Deputado Eduardo Valverde.

A iminência de uma Copa do Mundo no país é excelente gancho para o Projeto do deputado. Na Alemanha, por exemplo, a legislação sobre o assunto foi modificada poucos anos antes de 2006, quando o país sediou a décima oitava edição do Mundial, garantindo mais direitos às prostitutas e legalizando sua profissão. Na África do Sul o tema também levantou poeira. Sede do Campeonato Mundial em 2010, o debate sobe ficou acirrado no final da década de 2010, com foco principal no risco de disseminação da Aids no país. Lá, porém, as propostas de legalização não foram aprovadas.

O deputado sabe que contará com uma oposição “moral” à tramitação do Projeto da parte da bancada formada por religiosos. Mas não podemos deixar que essa oposição nos leve a reprisar o fracasso da África neste quesito. Não podemos perder a oportunidade de acabar com cativeiros e exploradores de carne humana no Brasil.

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Para compreender a geografia da prostituição no Rio de Janeiro, conheça o trabalho de Miguel Angelo Campos Ribeiro e Rogério Botelho de Mattos.

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Uma curiosidade: a Associação de Prostitutas de Minas Gerais – Aprosmig, organizou-se para oferecer cursos de inglês e de francês para suas associadas a partir de fevereiro.

Se as próprias prostitutas brasileiras já se mobilizam para oferecer um serviço melhorado, por que a Lei do país não fará por elas o mesmo?

Se não der pau vai comer

POR CECILIA GIANNETTI

Eles acordaram por volta das 6h da manhã com cerca de 40 homens da tropa de Choque da Polícia Militar tinindo em torno da Aldeia Maracanã, colada a um dos estádios de futebol mais famosos do mundo. Porém, sem um documento que valesse por mandado ou autorização judicial para invadir sua taba urbana. São cerca de 70 índios, de 17 etnias, que se viram obrigados a improvisar imediatamente uma barreira com pedaços de troncos de árvores e arame farpado.

Chocalho e canto contra Batalhão de Choque da Polícia Militar

Dentro da Aldeia, conversa e resistência pacífica. Ao contrário do que noticiaram redes de TV, nada de drogas, nem traficantes. Mas crianças, professores, índios, e outros colaboradores do movimento.

A ameaça permaneceu todo o dia lá fora, armada; mas os índios, que vivem no antigo prédio do Museu do Índio, o primeiro museu indígena da América Latina, desde a sua ocupação em 2006, não haviam recebido aviso qualquer de que haveria uma “guerra”. Pediam atenção das câmeras por cima do muro e exigiam “consciência” ao governador Sérgio Cabral e a empresários como Eike Batista, além da ajuda das Nações Unidas. À Dilma, que respeitasse “a Constituição e as declarações das Nações Unidas”.

[Vereador Renato Cinco explica a situação]

[Liderança indígena pede consciência ao governo]

Havia nove carros grandes e pretos, e homens parrudos metidos na armadura da PM, carregados de coisas com jeito de que poderiam causar um bom estrago qualquer lugar. Mas nenhum mandato judicial, como verificou o deputado do PSOL Marcelo Freixo, que aportou na área assim que soube da baderna, por volta de 8h da manhã. Junto com sociólogo e vereador Renato Cinco. “Eu não sei se eles vieram para cá em uma incompetência atroz, achando que poderiam entrar – e não podem (…)” – comentou o deputado, completando.: “Nada justifica esta parafernália. Eles não possuem nenhum documento que determine isto (…) O Maracanã sempre foi o que é com o museu… Seria uma burrice atroz do governador derruba-lo. Qual estrangeiro não gostaria de vir aqui e ver o museu?”, afirmou Freixo.

Ainda segundo Freixo, não existe emissão de posse – poderia ser lançada a qualquer momento, mas não ocorreu. E agora, “tem que ter diálogo, tem que ter calma, para que ninguém saia machucado.”

Dentro da Aldeia

“O Museu deveria ser restaurado,” afirma Freixo. “É melhor do que ter aqui um Bob’s, um McDonalds.” Dentro da Aldeia, ao contrário do que informaram Band News e Globo News, não havia tráfico nem consumo de drogas. A única fumaça que se sentia no ar provinha da fogueira, que os índios costumam fazer para se reunir em torno e contar histórias. Contação de histórias, segundo uma liderança indígena, ainda era o plano daquela tarde. Mesmo com toda a truculência vista lá fora.

O acesso ao interior do prédio – a quem viesse em missão de paz – se dava por uma escada de madeira colocada do lado de fora sobre um muro de pouco mais de dois metros; no alto do muro, recebia-se a ajuda de dois índios, que puxavam cada pessoa para o lado de dentro. Aí era um pulo até o chão ou tentar pisar sobre uma pequena estrutura de ferro, no chão, de cerca de meio metro, colada ao muro. Equipes de redes de TV que não cruzaram o muro – apesar de afirmarem que por trás dele havia tráfico de drogas, sem que tivessem conferido in loco – preferiam postar-se na calçada e apontar as câmeras para quem subia e descia de saias. Eu, é claro, estava de vestido. Pagar calcinha em rede nacional, afinal, não é coisa só de BBB. Valeu, Brasil.

Em 20 de dezembro de 2012 a Câmara Municipal do Rio colocou em votação um projeto de lei do vereador Reimont (do PT), propondo o tombamento do prédio, onde funcionou o antigo Serviço de Proteção ao Índio, anterior à atual Fundação Nacional do Índio (Funai). No entanto, não houve quorum para a votação, que acabou adiada. Sem conseguir um mandado favorável à invasão para desocupar a Aldeia indígena Maracanã e vencido o prazo (até as 18hs) para obtê-lo, os militares se retiraram do local em torno de 19h.

As não-notícias da hora


POR CECILIA GIANNETTI

Hoje trago algumas não-notícias aqui elencadas apenas para registrar o quanto são ordinárias e corriqueiras no nosso dia-a-dia. Uma não-notícia é o tipo de fato que, independentemente de ser destacado por jornais, revistas e portais da internet, não provoca mais reação nos leitores, por representar obviedades ululantes a respeito de nossas deficiências e maus costumes ou a mera repetição de desgraças.

Problemas, todo canto do mundo tem os seus. O que não é motivo nem argumento para que ignoremos os nossos. Oh, but indeed we do.

Não-notícia #1: Homem que se autodenomina humorista perde a linha em comentários estapafúrdios, confundindo-os com comédia. Olha, não sou pró-PC, nunca fui. Mas sei, por exemplo, que “Saturday Night Live” não é a versão norte-americana do “Zorra Total”. Dito isto, para demonstrar a reincidência do problema específico tratado neste parágrafo, não precisamos recorrer a mais do que esta frase, lembrando o caso em que a MTV foi condenada a pagar R$ 40 mil para pais ofendidos com a veiculação de um esquete chamado “Casa dos Autistas” em 2011. Bom, o humor deve ter limites? Há limites para o humor que se estabelecem por si próprios, não por terceiros, e é muito fácil verificar tais limites. “Não é humor quando simplesmente não é engraçado” poderia ser um bom termômetro, mas não abrange a agressividade de frases que absolutamente não fazem rir. A treta entre Danilo Gentili e o deputado Jean Wyllys ontem na web não foi a primeira nem a segunda em que um humorista deixou de parecer engraçado para imprimir apenas boçalidade. Desta vez, sem argumentos e esgotado de piadas, partiu para a agressão pessoal. O que também não é lá muito incomum na web em geral. Um amigo costuma dizer destas situações: “Internet”. Apenas isto, a palavra “Internet”. Talvez ele tenha razão.

Não-notícia #2: Homem é empurrado com truculência para dentro de composição do Metrô Rio por agentes do próprio metrô. Não há nada de inédito nisso. Se hoje eles empurram com violência para dentro do carro, um dia também já puxaram porta afora com a mesma atitude, conforme se comprovou em 2011, quando um idoso de 79 anos entrou por engano na composição do metrô destinada exclusivamente a mulheres. Por causa do seu engano, ele e seus 79 anos foram arrastados feito um boneco para fora do carro pelos agentes do Metrô Rio. Também em 2011 – que ano brilhante para a Agetransp – um agente da estação Botafogo agrediu fisicamente um passageiro porque o mesmo teria tentado pular a roleta. Errado pular a roleta, se é que foi mesmo o caso; mais errado descer o braço no usuário do metrô. Podemos lembrar ainda o caso ocorrido em 2009 com um repórter de jornal paulista: no último vagão do metrô da Glória em direção à estação Cantagalo (Copacabana, Zona Sul), seguranças à paisana isolaram a comitiva do Comitê Olímpico Internacional (COI) orientando – com a delicadeza que lhes é peculiar – os passageiros comuns a “dispersar”. Barrado como todo o povo, o repórter obedeceu e seguiu em outro vagão – porém, muito mal acompanhado por seguranças à paisana com cara e gestos de poucos amigos. Na hora de descer, os homens se identificaram como policiais mas não mostraram documentos. Mais: o empurraram até um banheiro da estação, onde lhe aplicaram golpes, torcendo seu braço e ameaçando fazer pior. “O procedimento é este”, um deles teria dito. Poderíamos continuar com mais anedotas de violência no metrô carioca, não faltam episódios similares, mas seria em vão: é característica da não-notícia não chocar. Na verdade, ela deixa de existir como fumaça no ar depois de se repetir tantas vezes.

Não-notícia #3: Madrugadas de mortes violentas em São Paulo. Há uma semana, houve a chacina com seis mortos em Campo Limpo, Zona Sul de São Paulo. Ontem, Na terceira noite consecutiva de assassinatos na Grande São Paulo, mais 11 foram mortos e seis baleados, somando-se a 18 homicídios ocorridos em apenas 24h na região. Cadê a novidade? Não há. Em novembro de 2012 31 pessoas foram mortas na região metropolitana de São Paulo durante apenas um fim de semana. A gravidade dos fatos não rompe mais a membrana da repetição.

Não-notícia #4: Esta foi manchete ontem: de acordo com cálculos do governo do estado, 20% das obras do Maracanã ainda precisam ser finalizadas – a cinco meses da Copa das Confederações. Mas eles garantem que dá pé: através de nota do Comitê Organizador da Copa do Mundo à imprensa, ficamos sabendo que a mudança da data para a conclusão das obras de dezembro para abril configura um prazo totalmente viável. A mudança não nos ajuda em nada a perder o estigma de “mambembes”. Há cerca de um ano e dois meses, a Fifa já reclamava do atraso nas obras das cidades sedes: naquele começo de 2012 o secretário geral da Fifa, Jérôme Valcke, já alfinetava, dizendo que “As coisas não estão funcionando no Brasil. Muitas coisas estão atrasadas. Acho que a prioridade do Brasil é ganhar o Mundial. Não creio que seja organizar o Mundial”. E, segundo noticiário de 2 de janeiro de 2013, várias obras de mobilidade urbana ficarão prontas em dezembro – seis meses após a Copa das Confederações, que ocorrerá de 15 a 30 de junho deste ano.

Não-notícia #5: Pregador da internação compulsória, o deputado federal Rodrigo Bethlem (PMDB) culpou abertamente o coletivo DAR – Desentorpecendo a Razão pela morte do menino de 10 anos atropelado ontem durante uma operação contra o crack na Avenida Brasil, Zona Norte do Rio. Ele tuitou: “lugar de criança não eh na rua, muito menos em cracolandia. Por isso defendo cada dia mais a internação compulsória”. Criticado em sua posição pelo DAR e outros, acusou: “Ponho a morte na conta do @coletivodar, que defende tratar pessoas que infelizmente viraram zumbis na rua”. Desta vez não olhamos para trás para buscar um padrão, mas para a frente, temendo que se abra um precedente cruel a partir da acusação de Bethlem, contrário ao tratamento: se não é para tratar o usuário, então é para matá-lo?

Lendo os fatos desta forma, não evito pensar em nós como os próprios loucos da famosa citação de Albert Einstein, a que diz que loucura é fazer repetidamente as mesmas coisas, esperando resultados diferentes a cada vez.

Vermelho na escadaria

POR CECILIA GIANNETTI

Hoje perdemos um bom carioca adotivo. Na manhã desta quinta-feira, 10, o Rio acordou sem Jorge Selarón, 65 anos, e com um mistério envolvendo sua morte. O corpo do artista plástico e pintor autodidata chileno, radicado no Brasil desde 1983, foi encontrado na escadaria da Lapa que, transformada em arte e ponto turístico por ele mesmo, era conhecida pelo seu nome. Popular e querido entre frequentadores e moradores da área, é trágico pensar no artista amanhecendo inanimado sobre a sua obra, na qual o vermelho – preferência que era marca registrada de Selarón – tem destaque maior do que as demais cores.

Não há policiamento em torno da escadaria, quem vive no Rio e já andou pela Lapa sabe disso. Mesmo nas noitadas com movimento de turistas, deixam-se se encostar por ali vários traficantes e filhotes da espécie, vapores. A badalada obra de arte recebe a visita de turistas todos os dias, mas é abandonada pela lei.

Não houve quem zelasse por Selarón. Mas não se pode contar apenas com a hipótese de homicídio: Selarón estava deprimido desde que começara a sofrer ameaças de um ex-colaborador, em novembro de 2012. O suspeito seria irmão de um detento, que cumpre pena por roubo e tráfico de drogas. Amigos pensam na possibilidade de ele ter tirado a própria vida.

Mas valem uns alertas aqui. Um jornal paulista publicou que “Nos últimos meses, o local também se tornou ponto de tráfico de drogas como maconha e cocaína (…)”. Errado. Não só nos últimos meses, e não acabou de se tornar ponto de venda de drogas: há anos é assim.

Selarón costumava contar que havia passado por mais de 50 países até se encantar pelo Rio e aqui se estabelecer. Em 1994, por ocasião da Copa do Mundo, começou a colorir a escadaria que liga a Lapa ao bairro de Santa Teresa, utilizando pedaços de mais de dois mil tipos de azulejos provenientes de várias partes do globo, que recebia como presente de turistas estrangeiros e brasileiros, além dos que buscava em demolições, por conta própria.

Não foi um trabalho fácil, tampouco barato: para transformar os 215 degraus e 125 metros da escada em obra de arte, precisou vender cerca de 25 mil telas.

Era uma obra em progresso, arte viva: Selarón estava sempre adicionando e trocando peças do conjunto, que se transformou em cenário para comerciais, videoclipes e programas de televisão, como um especial do canal National Geographic. Tudo movido à paixão de Selarón, sem quaisquer incentivo$ do governo.

Houve reconhecimento. A escadaria foi tombada em 2005 e Selarón recebeu o título de Cidadão Honorário do Rio de Janeiro.

Mas não. Não houve quem protegesse Selarón.