Ainda não acabou

El tiempo está viviéndome./ Más silencioso que mi sombra, cruzo el tropel de su levantada codicia. O tempo está vivendo-me. Mais silencioso que minha sombra, cruzo o tropel de sua exaltada cobiça. [Jorge Luis Borges – “Primeira poesia”]

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Então digamos que o universo tenha dado pra gente alguns minutos ou um punhado de horas a mais. Que seja (fosse, é, vai ser) verdade que é Hoje. E você ainda tem esse pouco de tempo pra pensar e fazer uma ou outra coisa que realmente já deveria ter feito há muito tempo.

Mas você não se planejou pra nada isso. Nem um pouco. Você nunca memorizou os seus desejos mais nobres e dignos da Última Hora, você não fez uma lista que talvez pudesse puxar de uma gaveta ou arquivo em seu computador no dia em que anunciassem: “Olha, agora é pra valer, não é como da última vez: ferramos mesmo o planeta e __________ (inserir catástrofes galore como no filme “2012”) começarão a acontecer de fato dentro de dois meses.” Bom, com dois meses e a lista escrita, você teria dois meses pra tentar satisfazer alguns de seus melhores desejos.

Agora se passaram uma hora e trinta e dois minutos desde que eu escrevi o parágrafo acima neste bunker de leitura e você não está dirigindo um carro semi-destruído a toda velocidade sobre uma rodovia que racha ao meio conforme você passa, perseguido por bolas de fogo, pedaços de prédios, do Cristo Redentor e de automóveis devastados.

Não está.

Você está dentro da sua vida, aquela que você, até certo ponto, deve ser capaz de comandar – ao menos conforme o universo lhe atira bolas de fogo diariamente e você, ser pensante e quiçá sortudo, consegue desviar delas. É assim a vida, e você está na sua vida.

Mais: ferramos de fato o planeta e algumas catástrofes, fato, têm acontecido. Na realidade, elas acontecem todos os dias, em diversos pontos do planeta. E, pra completar, também em um nível que diz respeito a cada vida, individualmente, independentemente de catástrofes noticiáveis ou não: todos dias um bocado de gente bate as botas, não é?

E aí, mané? Vai fazer o quê?

A pergunta acima, mais polidamente colocada, é:

Se por uma fração infinitesimal da sua existência você realmente chegou a se preocupar com O Fim (do mundo e/ou da sua vida), se por alguns instantes mesmo você chegou a imaginar que não haveria mais nada, nem mesmo você – aliás, e principalmente – sim, você, essência e corpo e tudo o mais, quais são suas maiores vontades e pendências?

[Não vamos falar de arrependimentos. O Fim não suporta arrependimentos. Eles existem para quem dispõe de tempo, e não sabe fazer uso do mesmo. Não queira ser este tipo de pessoa.]

(…) Pero de nuevo el mundo se ha salvado. La luz discorre inventando sucios cores y con algum remordimiento del día de mi cumplicidad en el surgimiento del día solicito mi casa (…) (…) Mas o mundo salvou-se novamente. A luz se esconde e inventa cores sujas e com um certo remorso de minha cumplicidade no ressurgir do dia solicito minha casa (…)

Quais são suas maiores vontades e pendências? Sim, nesta vida: estamos falando em segundas chances, mas não estamos falando em reencarnação. Comer a Christina Hendricks? Sussurrar suas últimas palavras a um parente moribundo? Simplesmente fumar um cigarro enquanto observa o céu despencar sobre os pássaros e antes de silencia-los, amplificar um último canto de desespero?

Por mais que nada de extraordinário e terrível aconteça hoje, hoje é um dia mais íntimo entre nós. Eu, você e o resto da espécie.

Esta intimidade nos foi forçada por uma teoria sem qualquer fundamento que levou milhares de seres humanos a construírem bunkers de verdade pelo mundo (o que gerou até programas de TV, como “Doomsday Preppers“, no canal da National Geographic, e o “Doomsday Bunkers“, no Discovery) e estocarem comida e outros víveres e comprarem máscaras de gás e se prepararem para o pior fim que já se imaginou para o mundo. O pior porque seria um fim cravejado de imagens cinematográficas vultuosas de grandes filmes inspirados por teorias similares. E a nossa mente é suscetível demais a esse tipo de coisa.

Fora dos bunkers dos loucos, entre as baias do escritório onde você trabalha e links de piadas do Reddit, por mais que cada gracinha feita sobre o assunto dissolva o medo em riso, hoje é o dia em que o medo – tratado a sério ou não – nos uniu em uma espécie de intimidade terrena.

Íntima, então, de tanta gente, de vocês, achei que devia compartilhar a minha lista de vontades e pendências. E convocar vocês a escreverem a sua. Ou ao menos pensarem bastante nela, e considerar a execução das vontades possíveis, essencialmente das que não fizerem mal ao outro, que só tragam a você o bem-estar de se sentir livre. Façam. Porque nunca se sabe o dia de amanhã.

Aqui está a minha lista.

1. Chegar em Minas Gerais a tempo de me despedir do meu tio antes que ele desapareça em uma enfermaria de hospital público lotada.

2. Comer o Ryan Goslin.

3. Contar a verdade sobre o dia em que cruzei com – de que posso chama-lo, se não somos mais nada um para o outro? – na calçada: eu te vi, mas não rolou pra mim. Em compensação, depois de mais de um ano sem fumar, entrei em uma banca de jornais e comprei um isqueiro branco e um maço de cigarros, e fumei o maço inteiro. Mas não houve compensação. Apenas tosse e fumaça.

4. Comer a Christina Hendricks.

5. Comer sem receio de engordar (e vocês deviam fazer o mesmo) porque nada do que promete a maciça propaganda de barriga negativa que assola o mundo vale o melhor vinho e o melhor chocolate excitando papilas gustativas.

6. Finalmente abrir a pasta “Ajuda” que reside há meses na minha barra de bookmarks e doar livros, roupas e o que mais eu puder pras instituições que eu escolhi.

7. Do it my way.

8. Tentar juntar a minha família, que vive espalhada pelos quatro cantos do Brasil e do mundo, pelo menos uma vez, um jantar, um café, um lanche, eles escolhem. Uma vez só. Depois eles estão livres para serem ciganos de novo.

9. Ir à praia pelo menos três vezes por semana.

10. Agradecer.

Sintam-se livres pra colar a lista de cada um de vocês no espaço reservado aos comentários abaixo do texto. Melhor uso do tempo do que tomar um porre achando que o mundo vai acabar mesmo e acordar com a cara no vaso, e todo mundo vivão pra te zoar.

Tenho quase certeza de que, depois do apocalipse frustrado, a sua (a nossa) noção de proximidade, de intimidade, de capacidade de se sentir parte de um todo que já enfrentou vários fins do mundo em guerras, bombardeios e chacinas vai desaparecer novamente e fará com que vocês apaguem seus posts de lista dos comentários.

Mas guardem uma cópia da lista, se ela for sincera, pra vocês. Essas coisas são as coisas que importam e vocês não deviam se esquecer delas enquanto vivem. Porque depois de morto, já era.